As ocupações são um campo de batalha

dreamers

Tenho acompanhado notícias de diversas ocupações no Brasil, de escolas médias a universidades. De minha parte, está fora de questão o apoio: se elas são movidas pela luta contra a reforma do ensino médio e a PEC 241-55, a meu ver elas têm mais do que razão.

Além disso, os estudantes estão lutando de forma pouco vista por aqui ultimamente. É incrível, por exemplo, nossa total morbidez frente à reestruturação produtiva do Banco do Brasil. Estão demitindo 18 mil funcionários e fechando centenas de agências de um banco que tem (tinha?) função social importantíssima, sem contar que a última grande reestruturação produtiva foi recente. Alegam “corte de gastos” de 750mi, numa instituição que, com os mesmos funcionários, rendeu 15bi em ano de crise. Apenas assistimos a tudo, bestializados.

Voltando aos estudantes e à ocupação: estar ali, firmar posição e se reunir com outras ocupações nacionais é a luta. Há muito se sabe que boa parte da luta é questão do que chamam de “opinião pública”, “publicidade” e outras palavras da moda. É preciso, sobretudo, excitar a sociedade, mobilizá-la em prol das causas. Não à toa os movimentos estilo MBL se apoiam em vídeos para tentar mostrar que as ocupações não valem nada.

A imagem é moeda de troca. Disso tudo, creio que as ocupações têm um papel muito importante, para além de marcarem posição. É mostrar a quê vieram.

Digo isso porque a impressão é a de que há um imenso esvaziamento intelectual no ensino superior. Em muito isso se deve à profusão de uni-esquinas privadas no Brasil. Há faculdades e faculdades, mas há muito as privadas imprimem um ensino raso, feito para clientes inertes e não alunos ativos. Filmes como “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolucci, mostravam jovens descobrindo a vida em meio à intelectualidade e rebeldia dos anos 60. Relacionar a vida com a intelectualidade? Parece não haver paisagem mais distante.

Disso tudo, a direita (que agora se mobiliza e agrupa do liberalismo mais ingenuamente honesto às piores pulsões autoritárias), se aproveita soberbamente das imagens oferecidas pelas ocupações. Eles – não sou eu quem diz – acusam tudo.

E estão dando pancada.

Ouso dizer que, no centro das acusações, está certa adesão a pautas que não precisariam de estudo para existirem enquanto pautas. Que as mulheres e negros e demais minorias precisem ter lugar, basta ter um cérebro para concordar. Alguns dos ditos “direitistas” concordam, outros não estão nem aí, acéfalos. Mas há algo aqui que eu gostaria de chamar a atenção: o argumento.

O cerne da questão é que, olhando as centenas de ocupações do Brasil, dá-se muita munição ao adversário. Apenas mantendo os exemplos temáticos de gênero e cor: não se vê, por exemplo, grupos de estudos sobre a separação de gênero, questões de sexualidade ou as proveniências e funções do racismo. Menos ainda, questões detidas nas temáticas maiores da universidade, outrora tão contestadoras.

Pelo contrário, muitas pautas são diretas, rasas, do tipo “vamos deixar as minas”, “aulão sobre Foucalt” (sic!), “meditação” e “prática de empoderamento”.

Tudo isso tem lá sua legitimidade. Precisamos lembrar que os ocupantes não estudam 24 horas por dia. Mas, para quem é contra a ocupação, não ver atividades acadêmicas é prato cheio para a crítica. Afinal, não ocupam contra a baixa do nível de ensino e os cortes que atingirão a pesquisa e a extensão?

No caso das universidades públicas, elas são o último bastião onde se pode ter uma educação superior de qualidade, não voltada ao miojo do mercado, mas à grande gastronomia do conhecimento do mundo. Perigosamente, cada vez menos se compreende – à direita e à esquerda!!! – a importância de que o ensino público carrega os últimos bastiões do pensamento no Brasil.

Até a monarquia, que negociava privilégios, achava importante ver um Brasil com ensino superior, afinado às “novidades” européias. A universidade brasileira cresceu, e nos últimos anos houve muitos intercâmbios de igual para igual com inúmeras outras academias estrangeiras (não que isso seja o essencial, mas mostra o quanto houve de abertura de diálogo).

Aquele que quer ver o fim da universidade pública, ou que pretende transformar a universidade e o ensino médio numa fábrica de salsichas mentais, não percebe isso. Aliás, isso nunca foi para nós um ítem de percepção. Um país grande tem pesquisa, e pesquisa implica pesquisadores, mentes pensantes, um burburinho do qual muito ruído é gerado, mas que é também condição de possibilidade da inovação.

Estão atacando as universidades e massacrando o ensino médio. Diante disso, os alunos ocupantes são o pouco de movimento contrário. Com isso precisamos mostrar, todos nós, a que viemos.

Uma nova fuga de cérebros no Brasil?

filo

A Piauí anuncia que Suzana Herculano-Houzel, renomada neurocientista, deixa o Brasil e lecionará nos EUA. Dentre as razões, constam:

  • os poucos recursos fornecidos pelas universidades brasileiras
  • a derrocada do financiamento científico no Brasil e no RJ
  • a carreira engessada dos pesquisadores, não definível por produtividade
  • o confinamento do pesquisador na função pública de professor em universidades
  • o “nivelamento por baixo” das carreiras, sem incentivos para a produtividade
  • a burocracia ineficiente e desmotivadora

O curioso, após isso tudo, foi a divulgação, via “Partido Novo”, de que a fuga do cérebro de SHH se deveria a motivos advogados pelo partido, como a “falta de meritocracia e o excesso de burocracia”.

Dá para ver facilmente onde o Novo quer chegar. Só não dá bem para entender no quê o Partido seria efetivamente “Novo”. Sobre a dita “meritocracia”, já discutimos largamente, ponto a ponto, o assunto por aqui. O “Novo” parece mais é velho.

Dito isso, as queixas da professora têm, sim, grande fundamento.

A começar pelo fato de que um doutor bem formado, quando é admitido numa universidade pública qualquer – dando graças aos deuses de suas (não)crenças por conseguir a única oportunidade dada no Brasil a um pesquisador, a de tornar-se professor de uma universidade pública -, muitas vezes se vê sob uma carga burocrática tão grande que não consegue ocupar seu tempo de pesquisa em meio às inúmeras tarefas: reuniões intermináveis para burocracias, tarefas administrativas kafkianas e demais encargos do ensino. A própria pesquisa está tão burocratizada que é difícil mover um dedo, especialmente quando se está começando. Projetos excelentes podem muito bem ser negados por ausência de vinculação ou demais conquistas burocráticas, e não pelo puro e simples mérito.

Somando-se a isso, consta a precarização do ensino, da pesquisa e da extensão. É fato que os governos Lula ampliaram as universidades de um modo totalmente contrário às pretensões do governo FHC. Também é fato que muitas pós-graduações – responsáveis por formar nossos pesquisadores – cresceram em número e em bolsistas, pois as agências de fomento receberam muito dinheiro e muita boa gente foi formada. Mas também é fato que os financiamentos caíram vertiginosamente (por ex.) e o prognóstico é aterrador. Quem não viu ainda a notícia de que Temer pretende escolher um pastor da universal para o ministério da Ciência e Tecnologia? Aliás, exatamente o inverso do que promulgaria uma guinada “liberal”.

Quanto à carreira engessada, o fato é que, nos últimos anos, as carreiras dos docentes são constantemente reformuladas, ficando mais burocratizadas e nivelando cada vez mais para baixo. Nem de longe se trata de um projeto de valorizar a situação inicial e recompensar os avanços. A aposentadoria se aproxima cada vez mais da iniciativa privada e quase metade do salário é de “gratificações”, que podem ser retiradas a qualquer momento, dependendo apenas de vontade política. Além disso, quando um professor doutor é agora contratado, ele tem mais etapas a cumprir para chegar ao patamar mínimo de alguns anos atrás – o de Professor Adjunto. Desengessamento, maior estímulo à produtividade? Não, é o contrário: a carreira é cada vez mais escalonada para baixo, enquanto exige titulação cada vez mais para cima. Nisso, vê-se que não há incentivo ao mérito, ao menos por dois motivos:

  • Não são criadas condições de base igualitárias para a produtividade
  • O incentivo ao mérito deveria ser “para cima”, e não para sair de um buraco cada vez mais profundo. Recompensa, e não fuga da punição…

A própria noção de “produtividade”, nisso tudo, é dúbia. De um lado, há um movimento de encarar a produtividade como número: publish or perish. Isso faz com que muitos pesquisadores “produtivistas” realizem verdadeiros atentados ambientais, papéis e mais papéis publicados que não passam de auto-paráfrases, auto-cópias ou solenes inutilidades para conseguir um índice a mais nos Qualis da vida. De outro lado, o engajamento necessário a uma boa pesquisa, custe o que custar, é desencorajado. Grandes pesquisadores brasileiros já diziam que essa importação da moda dos papers apenas traria prejuízo, uma vez que os riscos e desafios necessários às grandes descobertas não possuem a velocidade dos papers publicitários e sem ineditismo. Escrever e “produzir” não é igual a postar num blog ou no Facebook. Um bom texto não se mede por backlinks ou por elogios. Muitas das grandes pesquisas exigem o tempo, a paciência e a dedicação do anonimato. Um pesquisador precisaria ter garantida também sua dedicação e solidão. Conquistas e descobertas exigem grande mérito, mas mérito não é o que a meritocracia de um lado, e as instituições (meritocratas ou não) de outro, pretendem fornecer.

Dando fundo a isso tudo, há uma gigantesca confusão do que deve significar a pesquisa em âmbito público. Confunde-se produtividade com “utilidade ao mercado”, e nesse sentido, por exemplo, o PSDB paulista começa a repreender a FAPESP por financiar pesquisas “inúteis”, especialmente chamando de inúteis as pesquisas em humanidades. Quanto a isso, é inominável a falta de informação, ou quiçá a burrice. Todos sabem que as grandes conquistas da ciência vieram dos grandes sacrifícios do conhecimento. Muitas descobertas “inúteis” propiciaram consequências inimagináveis, para o bem e para o mal. Sem contar o seguinte: experimente conversar com um engenheiro com boa formação em humanidades, e depois compare-o com outro que só aprendeu as tabelas. A diferença é abissal, como é também a diferença entre uma sociedade “com” e “sem” humanidades (os fascismos do século XX que o digam).

Um grande país se mede pelo incentivo à pesquisa, pura e aplicada. Os países pequenos se medem pela dependência de quem faz pesquisa e inovação. Aliás, os acontecimentos políticos dos últimos tempos, o naniquismo espiritual brasileiro, tem nos empurrado cada vez mais para um vergonhoso “7 a 1” existencial. Voltamos a galope ao dependentismo intelectual.

A crise atual fornece um panorama tenebroso para o ensino superior e a pesquisa. Nos anos 90, o fenômeno da “fuga de cérebros” era bastante conhecido. Nos anos 2000, alguns “voltaram”. Foi caso notório a “vinda” das pesquisas de Nicolelis ao Brasil. Agora, pelo jeito, o risco voltou, e querem nos apresentar como novo o que no passado já não deu certo.

O horror de pensar

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Incrível de ver o horror, o pavor, o pânico, do homem ordinário (nós todos) quando oferecem a ele uma informação que não consiga compreender imediatamente. COMO ASSIM?

A informação não compreendida parece a ele um monolito vindo do espaço: ídolo a louvar ou destruir. Não há espaço para o pensamento.

Prato cheio para uma sociedade na qual a formação e a aprendizagem, com todo seu labor, dão lugar a termos como “treinamento”, “instrução” e outros retirados do comportamento animal.

Não à toa se fala de tanta crise na educação: o aluno deixa de ser aluno para se tornar cliente, e o professor se torna um “prestador” (palavra da moda: “instrutor”). Ai se o conteúdo não for imediatamente acessível! Antigamente se queimavam livros; hoje o acesso se tornou tão livre (embora caro, especialmente no Brasil), talvez porque o pensamento não ofereça mais perigo – afinal, quem é que vai ME ocupar com isso? E se alguém me ocupar com isso: que ultraje!

No que restou de bibliotecas de antigas casas estudantis brasileiras, não é difícil encontrar livros escritos em espanhol, inglês, francês e alemão, utilizados até 20 anos atrás. Florestan Fernandes comentava sobre o fato de seus professores passarem textos publicados em suas próprias línguas nativas, cabendo ao aluno correr atrás.

Correr atrás? É curioso como a falta de recursos do passado se transformou, no presente, na recusa diante da abundância de recursos.

Na Europa transformam igrejas medievais em bibliotecas, e isso deve ter lá seu significado: livros abandonados em igrejas abandonadas, cuidados depois de grandes movimentações – não muito bem quistas pelos burocratas  – para preservar o patrimônio material e imaterial.

Embora até nisso o Brasil tem lá suas diferenças. Basta ir a uma cidade histórica qualquer (ex.: Penedo-AL, de importante valor histórico) e encontrar, jogados às traças, inúmeros documentos de nossa história, que existem só porque algum senhor zeloso teve a decisão pessoal de não jogar fora. Senhores zelosos e professores estão ficando fora de moda 😉

Nós e nossos vizinhos

O brasileiro diz a si mesmo que é um povo “receptivo”. Aí um amigo que está em Lima me conta que está surpreendido por descobrir que as relações entre o Brasil e o Peru são – falo em nosso senso comum – quase nulas. Quase nada, diz ele. Continuar lendo “Nós e nossos vizinhos”

O brasileiro do futuro

As recentes análises (1, 2) de que o brasileiro está se tornando consumidor antes de cidadão (e reduzindo a noção de cidadania à de consumidor, embora ainda há muito para o brasileiro ser inclusive consumidor propriamente dito) curiosamente “coincidem” com o seguinte:

– Vivemos a greve mais prolongada da história das universidades federais.

– As bolsas de pós-graduação valem hoje menos da metade do que valiam 18 anos atrás

– O grande “gargalo” do desenvolvimento técnico brasileiro está na falta de alunos com conhecimento mínimo para cursar engenharia e exatas.

Desenhando: o movimento de acesso ao consumo do brasileiro não acompanha radicalmente nem o acesso a bens básicos das ditas democracias (educação, saúde, transporte etc. públicos de qualidade), nem a dita “qualificação” do brasileiro para que seu trabalho futuramente corresponda aos níveis de consumo desejados por ele mesmo.

Consumo exige trabalho e trabalho exige “qualificação”. “Qualificação” exige estudo, e estudo exige educação. Mas o ensino médio anda tão prejudicado que a esmagadora maioria dos alunos (mais de 90%, diz o estudo acima) tem dificuldades em fazer simples operações de câmbio (converter dólar em euro, por exemplo). Estamos criando um país de engenheiros ou apertadores de parafuso?

No outro extremo, a formação de professores está profundamente prejudicada. Se alguém pretende se dedicar à pesquisa, uma bolsa vale hoje 55% a menos do que valia 18 anos atrás. E o governo Dilma sinalizou: não há negociação com professores, apenas propostas unilaterais que não repoem as perdas inflacionárias.

Enfim, cabe juntar as peças. Não é dificil não.

Senão vejamos, olhando só algumas semanas mais para trás:

– A má qualidade do ensino médio fez o MEC pensar não numa melhoria geral de condições estruturais e educacionais, mas numa reforma curricular, eliminando as matérias específicas (biologia, história etc.) para agrupar tudo em núcleos gerais.

– “Novidades” educacionais, como o “Diário de Classe” criado por uma aluna de 13 anos, colocam a nociva questão de reduzir o foco dos problemas da educação à figura do professor.

– Ideólogos com bastante influência se pronunciam contra melhorias gerais na educação, ficando tudo a cargo… do papel individual do professor.

– Enquanto Dilma dizia que os professores públicos não têm nada a reclamar porque possuem “estabilidade”, o blog Acerto de Contas publicava: professores recebem menos hoje do que no governo FHC.

– As universidades estão sucateadas, e até a Veja (a Veja!) já disse isso, diante da surpreendente omissão do governo

As peças são diárias. Junte o quebra cabeça e…

Convergências

Abro o tuíter e encontro uma fala muito contundente do Prof. Vladimir Safatle sobre a nova ascensão do conservadorismo no Brasil. Não o mesmo conservadorismo que já conhecemos, dos coronés e seus cupinchas com o estilo “clássico” de fazer política brasileira. Mas um conservadorismo, por assim dizer, elevado em segunda potência, envolvendo um gigantesco movimento de massa que reune muito do que havia de reativo na velha política, só que sob nova roupagem.

Lá pelas tantas, o Prof. Safatle chama a atenção: se o Brasil está melhorando, nunca ouvimos nada sobre um dos marcos da melhora em países que melhoram: a educação. Não temos discursos sobre como será a educação daqui a 15 anos, e quando aparece a notícia do ‘aumento de vagas’, ela não acompanha aumento apropriado de infra-estrutura, contratações e condições dadas ao pessoal.

E o professor continua: presenciamos o brasileiro acessando o consumo antes da cidadania (escola, hospital, locomoção, espaços de lazer, discussão…), e por isso estamos confundindo consumo com cidadania e criando um futuro muito controverso com tudo isso.

Aí mudo de página e vou a um jornal, digamos, mais conservador, o Estadão. Lá está o colunista falando sobre a ascensão de Russomano em SP, reunindo diversos fatores: a revolta do povo com a antiga política, seu acesso ao consumo, a interferência direta dos evangélicos neopentecostais na política e o desprezo que existiu, só até hoje, pelos partidos nanicos e de aluguel. E então o colunista solta a frase:

Não haveria Russomanno se o Brasil não tivesse sofrido uma explosão do mercado interno e o eleitor não tivesse virado consumidor antes de virar cidadão.

Finalmente, vejo que a imprensa não mostra e o PT não mais alarde, mas vivemos a greve mais prolongada da história das universidades federais. O governo não atendeu qualquer reivindicação do sindicato majoritário e impôs sua proposta unilateralmente (sob críticas de retrocesso inclusive se não existisse qualquer reivindicação!).

Coincidências?

O fim da função de professor?

Incrível saber desse caso (1, 2), vinculado pelo Goulart (vale ler o post). Pelo jeito saiu até no “Fantástico” (embora sem a história toda, no caso, essa). Uma aluna de 13 anos, preocupada com o andamento de sua escola e aprendizado, criou uma página no Facebook (“Diário de Classe”) para contar sobre seus problemas.

A atitude da aluna é louvável, pois mostra o uso da ferramenta virtual para fiscalizar os assuntos públicos. Mas Goulart já advertiu com razão: é importante que tal fiscalização acerte os alvos corretos e não produza bodes expiatórios.

Um dos pontos mais problemáticos foi a aula de matemática, segundo ela a mais “bagunçada”. Conforme a menina, o professor não usou a “autoridade” (sic.) necessária dentro de sala para conter os alunos. Inclusive ela gravou um vídeo no qual, depois do professor pedir silêncio com veemência, todos os alunos começaram a gritar, fazendo pouco de sua atitude.

Resultado? Com todo o foco sobre a “falta de autoridade” do professor, ele foi afastado.

Conforme Goulart, não houve uma discusão mais ampla sobre responsabilidades. Tudo recaiu no papel individual do professor.

E por papel individual se deve entender uma coisa: uma supressão sistemática das relações pedagógicas, Brasil afora, em nome de outros primados.

Paulo Freire dizia algo que nenhum professor ou aluno negariam: “Não há docência sem discência”. Desenhando: só há relação pedagógica quando há relação pedagógica, quando professor e aluno ocupam seus papéis.

Quando os papéis não são assumidos, começam os inúmeros casos relatados diariamente Brasil afora. Só para citar um exemplo recém saído do forno: Durante a semana passada, a imprensa vinculou vários vídeos de celular com alunos quebrando o pau dentro de sala de aula. Num dos vídeos a violência é chocante, tudo por causa de um lápis. A professora assistiu a tudo, atônita. Cabia a ela naquela circunstância impor força física e separar os alunos? Faltou “autoridade”? O mais incrível é a imprensa ter considerado isso!

Os exemplos nos quais a violência se dirige contra o próprio professor não faltam: aqui os alunos utilizaram um isqueiro para esquentar a porta, fechada, até queimar a mão do professor que estava para abri-la;  ali o aluno dissolveu laxante na água do professor, que passa mal e precisa ir ao hospital; acolá o professor chama a mãe para falar sobre o comportamento da aluna e ouve a resposta: “Falar o que? Se eu falar ela me bate!” – e assim por diante, os exemplos abundam. Será que a pergunta correta se resume a interrogar se faltou autoridade?

Como não é raro ouvir coisas do tipo: o professor “se impõe” (em sentido implicitamente físico) para que seja “respeitado” na aula (o respeito não vem por ser professor, mas por ser grande); e para agradar a turma sem causar conflitos nem tocar em problemas prévios de aprendizagem, aquele outro professor baixa o nível das aulas até níveis inacreditáveis. Onde cada um precisou “dar um jeitinho” para conseguir lecionar porque não há docência sem discência, cadê a função prévia de professor para que ela se desempenhe?

Até 10 anos atrás os estudos pedagógicos criticavam o professor tradicional e autoritário, aquele com régua na mão batendo diante do menor desvio.  Hoje os professores são acusados de não ter “autoridade” para “impor” o andamento de uma aula!

Quando se faz licenciatura, aprende-se que existem professores autoritários, permissivos e democráticos. Professores desses três tipos sempre existiram e sempre existirão. O que parece estar mudando a galope não é a maiorização da importância do professor democrático, em detrimento do autoritarismo e da omissão: é a própria função do professor, pois hoje se exige que ele tenha necessariamente como característica pessoal – não necessariamente pedagógica, não necessariamente em um ambiente pedagógico – a capacidade de “seduzir”, “conduzir”, “levar nas rédeas” e outras figuras mais.

E por esses termos não se entende a virtude de, dentro de um ambiente previamente pedagógico, uma aula ser mais ou menos maçante, ter mais ou menos “pedagogia”. Os exemplos acima, como tantos outros, mostram que esse ambiente “previamente” pedagógico não ocorreu! Culpa do professor?

Dilma e os professores: na campanha eleitoral e fora dela

Dilma, reunindo a preocupação da formação do professor e de seu tratamento digno, durante a campanha eleitoral:

(…) Não se pode também estabelecer com o professor uma relação de atrito quando o professor pede melhores salários: recebê-los com o cacetete ou interromper o diálogo. O diálogo é fundamental no respeito a essa profissão. E o Brasil só irá sair de uma situação de país emergente para uma situação de país desenvolvido se a gente assegurar qualidade de educação para nossos filhos e crianças. Então (…) precisamos de professores bem formados, bem pagos. A sua filha vai ficar orgulhosa, o seu filho vai ficar orgulhoso, olha, eu sou professora e sou reconhecida socialmente. Por isso que eu farei da campanha para pagamento do salário dos professores uma das questões fundamentais do meu governo.

Ela disse isso no debate da Globo, isto é, diante de um dos maiores debates eleitorais, no qual os candidatos ficam mais em evidência. Ou então vale ver o vídeo:

E hoje não é que aí estão os professores, preocupados com sua formação e dignidade, recorrendo a Dilma? E qual é a posição do governo? É precisamente a falta de diálogo, aquela muito importante para sua filha e filho ficarem orgulhosos de serem professores reconhecidos!

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MEC reafirma que está encerrada a negociação com professores

Mas espere aí: você não viu no jornal que o governo negociou com um dos sindicatos dos professores? Sim! É o Proifes. Só que quase nenhum jornal disse: o Proifes não representa nem de longe a maior parte das universidades (não chegou a 10% das instituições em greve).

A imprensa, o jornal da noite também não disse que instituições ligadas ao Proifes contrariaram esse sindicato e reforçaram o movimento geral, isto é, reforçaram a greve.

A imprensa maior não deixou vermos na TV um princípio básico do jornalismo: não se dá voz igual ou maior a um setor que não representa os interesses de uma categoria, especialmente quando se trata de degradação no trabalho.

O que ocorreu é que o Andes – o sindicato da grande maioria – já negociava com o governo há tempos antes da greve, mas o governo abandonou as negociações. Após a irrupção da greve houve apenas 2 lances, mas esses lances não tiveram qualquer discussão.

O governo não discutiu com os professores! Houve apenas uma primeira oferta, para medir realmente os ânimos, e uma segunda, que foi fechada pelo… Proifes! Nenhum contra-argumento sobre o que queriam os professores foi aceito (vale ver também isso).

E os professores nem queriam prioritariamente o aumento (que vale dizer: foi divido em 3 anos e não repõe as perdas inflacionárias da imensa maioria). Tanto que fizeram uma contra-proposta para o governo focar-se no plano de carreira (esse é um dos pontos principais). E o governo? Basta ver os links acima.

E ontem, perto do apitaço de muitos professores que pediam a volta às negociações, Dilma voltou a dizer:

Antes de mais nada gostaria de cumprimentar os professores. Uma escola só se faz um ambiente de superação com a participação dos mestres. Ninguém nasce sabendo e é necessário esforço para se adquirir conhecimento”, afirmou. “Este momento é importante para mim, porque sei que este país vai dar os passos necessários se estes talentosos jovens tiverem oportunidade. Cumprimento mais uma vez os mestres e pais de alunos que os encaminharam em seus primeiros passos na direção da Ciência”

***

Ok, nem iniciarei um post sobre as coisas que escuto de professores conhecidos (universitários e não), sobre atividades como vender pão, bombons ou roupas na escola para complementar a renda, ou simplesmente mudarem de profissão… basta ver os memes diários sobre professores no facebook, por exemplo este abaixo, quentinho, sobre os professores do Paraná (são governador e vice “conversando”):

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O futuro da educação brasileira

Segundo a Folha, o baixo desempenho dos alunos do Ensino Médio obriga mudanças na educação.

E para mudar, o governo empregará a famosa (ou nem tanto) Lei da Lei Seca: uma lei, regra ou prescrição é mal aplicada ou fiscalizada no Brasil? Mudemos então a lei, e não o princípio de sua aplicação ruim! Simples assim, a nova lei poderá continuar mal fiscalizada como a anterior, pois o problema não estava na regra e sim em sua aplicação (ou fiscalização).

Se os índices mostram que os alunos vão mal, o que fazer? Mudar a contabilização dos índices, ora bolas. Sem mudar os salários dos professores ou propiciar melhor estrutura física e condições a alunos e professores, basta mexer uns pauzinhos. Segundo o quadro da Folha, fica assim:

https://i1.wp.com/i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/12228882.gif

Vale repetir: o quadro acima foi proposto porque a educação não vai bem. Ele serve para melhorar a educação, deixar os alunos mais inteligentes, conhecerem melhor assuntos que, segundo o MEC, não merecem mais o ensino.

Disso é só imaginar como o MEC reorganizará o quadro, quando “descobrir” que a educação piorou mais ainda. Mas só se até lá nossa capacidade de imaginar ainda existir, claro.

A farsa do mérito na educação do Brasil

Volta e meia retornam os artigos pregando certa noção muito curiosa de “meritocracia” na educação. As vítimas são sempre os professores, eternos judas da grande festa junina brasileira. No caso de hoje, os judas são os professores universitários federais. Seriam eles os judas de verdade? O artigo da vez é a entrevista de Simon Schwartzman ao Estadão.

Ela faz passar ao leitor uma série de hipóteses que, a julgar a insistência com que são apresentadas, parecem aquele velho dito da propaganda nazista: uma mentira repetida mil vezes se torna verdade. Vamos a elas:

  • Segundo o catedrático, as universidades brasileiras se concentram unicamente na remuneração por titulação; a titulação seria um critério importante para medir o “desempenho”, mas insuficiente;
  • para haver suficiência seriam precisos critérios externos (para não dizer quantitativos);
  • em todos os lugares onde a educação dá certo é o “desempenho” o que avalia uma boa universidade, não isso que é feito no Brasil;
  • aqui, buscar a isonomia dos professores é um tiro no pé, pois favoreceria a acomodação dos docentes e reforçaria, via o único critério da titulação, certa acomodação;
  • para cortar esse círculo seria necessário negociar os salários via mérito, e “até individualmente”, selecionando e promovendo os melhores
  • os melhores não aderem às greves, basta entrar numa universidade durante a greve para vê-los trabalhar. Eles não aceitam essas coisas de sindicato, “Aliás, acham essas assembleias muito chatas, com aquele blablablá e sem solução”
  • a pesquisa no Brasil é ruim, concentrada em algumas universidades e rarefeitas em outras (pois enfim, há coleguismo e acomodação dos professores)
  • esse sistema de diferenças na pesquisa deve ser mantido ou reforçado ou mesmo gerido, pois nem tudo se volta à pesquisa. Devem haver universidades de pesquisa, mas boa parte deve se deter no ensino
  • para o ensino que exclui a articulação necessária com a pesquisa, os professores devem trabalhar parcialmente no “mercado”, para passar sua “experiência” aos alunos.

Olhadas à primeira vista, muitas dessas teses parecem auto-evidentes e muito corretas. Quem há de negar que as universidades devem ser avaliadas pelo desempenho? Quem duvida que elas devem ter um bom desempenho? Ninguém, nem o sindicato dos grevistas (tão atacado pelo catedrático) negaria que seria muito correto recompensar os meritosos e solucionar as carências internas…

Mas infelizmente tais teses comprometem muito mais. Em primeiro lugar pelo que o sociólogo pressupõe, olhando para as universidades estrangeiras “ideais” (segundo ele): elas captam inúmeras séries de recursos, há avaliação de desempenho, não há isonomia…

Espere aí: não há isonomia? A tese da entrevista é a seguinte: nos países ricos os bons são recompensados e no Brasil deve ser assim. Ele só esquece de passar ao leitor um pequeno detalhe: nos países ricos cada professor dispõe de cadeiras, mesas, computadores, impressoras, salas de aula, eventualmente laboratórios… Resumindo: cada professor tem estrutura física e recursos materiais disponíveis para que seu “desempenho” seja propício.

E no Brasil? Não é difícil encontrar reportagens que mostram não haver por aqui aquilo que o entrevistado supõe para o “sucesso” do mérito das melhores universidades gringas. As universidades estão sucateadas, e mesmo diversos dos “novos” institutos federais padecem de sucateamento. Enfim, são apenas 3 links, há inúmeros outros no google.

Nisso tudo parece estranha a comparação do brasileiro com o gringo. No mundo do entrevistado, o gringo possui por baixo condições mínimas e iguais  para um bom desempenho acadêmico e educativo. O sistema de “desempenho” ou “mérito” se apoia nessa condição mínima da igualdade. Como isso se chama? Isonomia de condições, ora bolas.

E no Brasil? Se um campus possui estrutura apropriada e recursos materiais e pedagógicos abundantes e outro não, parece difícil empurrar goela abaixo o discurso da “meritocracia”. É só comparar dois professores, um em um campus com gabinete próprio, equipamentos mínimos (mesa, cadeira, impressora, computador, tinta, papel, estantes, até eventualmente uma janela!) e recursos de trabalho (laboratórios, salas de atendimento etc.), e o outro professor tendo que imprimir material de aula em casa, encontrar alunos na cantina porque não tem sala própria, ou emprestar apenas um instrumento velho no laboratório para fazer 30 alunos aprenderem sobre seu uso, quando em situação pedagógica mínima deveria haver um instrumento para cada aluno. Enfim, os exemplos são inúmeros e não parece difícil encontrá-los.

O entrevistado e o Estadão sabem de algo que a reportagem propositalmente não mostrou ao leitor: só há meritocracia em um sistema previamente isonômico. Tudo o mais é exploração travestida por nomes da moda.

E tanto o entrevistado sabe que não há isonomia que ele mesmo discrimina ensino e pesquisa: para ele, algumas universidades devem ser polos de pesquisa, e “às outras” restaria o ensino.

Isso é curioso, pois Schwartzman e o Estadão esquecem de dizer para o leitor que existe o artigo 207 da Constituição:

Art. 207. As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.

No Brasil as universidades obedecem aos princípios de ensino, pesquisa e extensão. O Estadão não informou isso ao leitor, mas isso grosso modo significa uma coisa: não há separação entre teoria e prática, pois a universidade deve ser completa. E outra: a palavra “prática” não se reduz a “mercado”, pois não é difícil encontrar assuntos com relevância científica ou social que não possuem qualquer interesse para o mercado.

Mais ainda: a reportagem deixou de dizer que nas grandes universidades gringas “ideais” há suficiente liberdade de pesquisa e iniciativa que não se atrelam ao mercado, por um princípio muito básico: um grande país não se faz por mera implementação de tecnologia, mas por livre criação. Um país só possui um grande “mercado” – esse ideal tão grande – porque grosso modo o mercado não interfere na liberdade de pesquisa. Não é o mercado que gere absolutamente a pesquisa, mas é a variedade de pesquisa que fornece inovações ao mercado (que pode ou não financiar pesquisa e ela pode ou não ser voltada ao mercado). É preciso dizer que entre isso e o que a entrevista de Schwartzman supõe a diferença é decisiva?

Resumindo, o famoso “mérito” e a avaliação por desempenho só são possíveis em um sistema 1) igualitário e 2) livre à iniciativa.

Quando Sschwartzman diz que algumas universidades devem apenas pesquisar e outras ensinar articuladas com o mercado, ele está pregando uma ideologia educacional com procedência bastante clara no Brasil. E é da natureza dessa ideologia – compartilhada hoje inclusive pelo PT – conter debaixo do tapete uma série de pressupostos não ditos.

Mas nisso tudo há algo muito mais grave: essa insistência em fazer o leitor engolir teses cheias de preconceitos escondidos.

Os professores são acomodados buscando uma isonomia acomodada, cega ao mercado e avessa à meritocracia? Ler isso parece o oposto do que dizem os próprios professores e os grevistas de hoje.

É incrível ler a entrevista, ver o jornal, e depois retornar aos professores e ver que não era bem aquilo, às vezes nada daquilo. Querem nos fazer pensar de certo jeito bastante perigoso, e o perigo reside nisso: a ousadia em empurrar goela abaixo o que  deveríamos pensar.