A leitura e o mundo novo

O mundo mudou.

Anos 80: “não leio porque não tenho instrução, a vida não me permitiu isso”

Anos 10: “não gosto de ler, acho uma perda de tempo. A nao ser que prenda muuuito minha atenção”

São dois modelos civilizatórios, dois sistemas de exclusão, dois regimes tecnológicos, dois tipos de luta diversos. A leitura como o perigo de produzir um mundo novo; a leitura porque não importa, não produz mais nada.

A vingança de Cuvier

https://i0.wp.com/i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/474061719_c67d9adff4.jpgimagem daqui

Diz uma anedota que Georges Cuvier, o criador da anatomia comparada, certa vez recebeu uma visita do Coisa Ruim em pessoa.

Não se tratava propriamente do diabo mas de um de seus alunos (no caso, de Cuvier), vestido com chifres e sapatos em forma de pata de zebu. A medonha “aparição” avançou sobre Cuvier enquanto ele estava dormindo e disse:

– Levantai, homem de catástrofes! Eu sou o Demônio e vim para devorar você!

Em meio à escuridão, Cuvier olhou para a criatura com atenção e então respondeu:

– Duvido que você possa. Você tem chifres e cascos, só come plantas…

🙂

Filosofia da caminhada

https://i2.wp.com/i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/caminhar.jpgHá algum tempo, o professor francês Frédéric Gros (conhecido estudioso de Foucault) publicou um pequeno livro, de leitura agradável e  repetidamente chamado de “muito bonito”. Trata-se de Marcher, une Philosophie, enfim traduzido por aqui como Caminhar, uma Filosofia (resenha, informe, informe).

O livro trata de “mil e uma maneiras de caminhar”. Dentre os nomes citados estão Rimbaud, Thoureau, Kerouak e outros (sem as doidices do ecletismo). Dentre as práticas, constam desde a pequena “suspensão” representada por uma simples caminhada até a radicalidade do apelo ao selvagem (“the Wild“), sem contar outras atitudes “espirituais” relacionadas a engajamentos ainda mais notáveis.

Diante das  já conhecidas capturas do mercado (“fazer um trekking” ou o “turismo de aventura”, adotar os modismos da “saúde”, do “alto rendimento” etc.), Gros contrapõe diversas outras perspectivas, provocando: “para caminhar é preciso de pernas, o resto é vão…”. As caminhadas de Nietzsche e Kant também constam lá (“E se só fosse possível pensar direito usando os pés?”).

Na França, junto com o pequeno livro Gros organizou também uma antologia, Petite Bibliothèque du Marcheur (Pequena Biblioteca do Caminhante, trecho gratuito não traduzido).

Além do Eu, Amizade e Trem da Morte

Três lançamentos interessantes (cada qual em seu assunto):

Muito Além do Nosso Eu, de Miguel Nicolelis (livro, livrarias). 

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Histórias do Gulag

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Quatro links interessantes em torno de uma instituição mais ou menos espalhada no ocidente, cuja variante russa e depois soviética foi particularmente notável.

O primeiro é o livro de Anne Applebaum, Gulag (livro, livrarias, livro no 4shared e resenha).

O segundo é a adaptação para o cinema de So weit die Füße tragen (Até onde possamos andar [Até onde os pés me levem?]), livro  escrito por Joseph Martin Bauer que narra a fuga de um soldado alemão de um GULAG, percorrendo mais de 10000 Km.

O terceiro link é outro filme: "Caminho da Liberdade", também inspirado em relatos recolhidos em livro e inclusive resenhado por Anne Applebaum. Ela serviu de consultora para a direção do filme.

O quarto é a figura acima: "A liberdade de crítica é total na URSS", informe sobre a visita de Sartre ao país em 1954 (artigos anunciados no jornal disponíveis em francês e em PDF). Não se trata propriamente de um link sobre Gulags, mas sobre os debates da época após a morte de Stalin, por sua vez muito ligados, depois de 1956, a esse contexto.

São mais do que 4 links. Enfim… 😉

Viveiros de Castro na Cult

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Entrevista muito interessante com o sociólogo Eduardo Viveiros de Castro. Aborda a história recente do Brasil, suas relações com Levi-Strauss e a noção de perspectivismo indígena.

Livros e autores

Sempre considero um bom livro mais inteligente que seu próprio autor. Ele pode dizer coisas que o autor ignora
(Umberto Eco, via @sergioleo, tradução livre)

De Ulisses a Macbeth

Para os despertos há um mundo único e comum; entre os adormecidos, porém, cada um se dirige ao seu próprio mundo (B 89)

A Odisséia não é a epopéia das auroras por acaso. Nas muitas auroras espelham-se homens que despertam. Ulisses e Telêmaco não despertam da mesma maneira. Impelido pelo desejo de conhecer, Ulisses acorda para um mundo imenso, variado, perigoso. Para sobreviver, requerem-se dele decisões originais. A experiência não lhe assegura êxitos futuros. Situações imprevistas solicitam opções unauditas. O grande mundo, o comum de todos, desdobra-se em muitos mundos. A variedade não rompe a unidade.

Telêmaco progride na descoberta do mundo e de si mesmo, de si através do mundo. A viagem que empreende na construção de si não é menos arriscada que as aventuras do pai que tarda em retornar. Por se encontrar em posição eminente, muitas vidas estão subordinadas a resoluções dele. Outro teria sido o retorno de Ulisses, se Telêmaco não tivesse agido como agiu. Como Ulisses, Telêmaco atua no mundo comum a todos em benefício seu e da coletividade. Jovem ainda, vemo-lo despertar. 

São esses os despertos? Os adormecidos procedem em vigília como se estivessem dormindo, isto é, vivem em mundos só deles à maneira do que se passa em sonho. Como adormecidos vivem os pretendentes de Penélope, alheios ao bem-estar de quem quer que seja. 

No teatro de Shakespeare desfilam heróis adormecidos em mundos privados. Não é sem motivo que Macbeth perpetra o mais hediondo dos crimes à noite, encerrado dentro do seu próprio palácio. Perdida a sensatez, interesses só dele repelem honra, justiça, paz. 

Ulisses e Telêmaco,  batendo-se pela família e pela pátria, ainda não representam o homem desperto de Heráclito. Estão em vias de despertar. A unidade entrevista por Ulisses, expressa na presença universal dos mesmos deuses, esta é a vigília de Heráclito. Ele a define como Discurso, único e esquivo, presente e inabarcável. Sendo maior que as visões mais abrangentes, surpreende mesmo os mais lúcidos. No sistema de Heráclito não há como despertar da ignorância sem a luz do Discurso universal que propicia a passagem do particular (to idion) ao geral (to koinon).

Ulisses começa a despertar. E quem terá despertado de todo? Os olhos abrem-se quando passamos a tratar outros como iguais, quando promovemos troca de palavras, de objetos, de pessoas, de idéias. A proximidade dos que discorrem difere da presença meramente espacial, da adição numérica. Os poços enfrasam-se em encontros fortuitos, em projetos comuns. O espaço que nos é comum não nos foi dado, a cada gesto de aproximação. Há espaço comum quando a diferença não provoca indiferença.

A bela passagem faz parte do livro Heráclito e seu (dis)curso, de Donaldo Schüler.

Otfried Hoffe: Breve História Ilustrada da Filosofia

 
Otfried Hoffe é um pesquisador respeitado e tem dois outros livros introdutórios difundidos, sobre Kant e Aristóteles. Na "Breve História", com suas mais de 300 páginas (edição pdf em espanhol, Barcelona: Peninsula, 2003), imagens e comentários sobre elas complementam as usuais considerações sobre os autores e as épocas.
La filosofía es una especie de ansia insatisfecha de saber en la que no cuenta la cantidad de lo que se sabe sino la minuciosidad con que se busca.  Presupone la capacidad para el asombro,  aunque no  tanto para un asombro estupefacto, un  respeto  reverencial hacia la armonía  existente  en  la  naturaleza  o la sociedad,  cuanto para un cuestionamiento asombrado.  La filosofía, definida por preguntas no susceptibles de respuesta en  el marco del saber actual o del presente  ordenamiento de la vida,  surge  en tiempos de conflicto, crítica y crisis. Cuando los modelos explicativos o vitales pugnan entre sí o cuando se expresan dudas respecto a la religión u otras instituciones donadoras de sentido, se necesita poseer la capacidad de cuestionar lo conocido y hacerlo metódicamente, pero,  también, con un conocimiento concienzudo  del mundo y teniendo  en cuenta los propios condicionamientos. -Un sabio atraviesa  la  imagen  medieval del mundo.  Imagem: Xilografía  de  1888  realizada al estilo de c.  1520.

O “Código Platão”

Há quem encontre linguagens simbólicas em tudo, desde o charlatão que busca algo secreto em alguma tradução descuidada da Bíblia sem notas de rodapé, até o mais experimentado iniciado.
 
Curiosamente, esse culto ao símbolo permanece bastante vivo em nossa cultura, bastando recordar o compasso ou outras cifras utilizadas ainda hoje por certos ocidentais, ou governos como o de Muammar Kadhafi, animados por certas correntes "sufi" (pelo menos é o que diz Peter Lamborn Wilson).
 
Nesse contexto, o Guardian divulgou o mais novo caso sobre códigos: Jay Kennedy, da Universidade de Manchester, entrecruzaria métodos antigos com o uso do computador para descobrir padrões musicais e herméticos em toda a obra de Platão. A hipótese diretriz consiste em remeter Platão a suas influências pitagóricas, no que diz respeito à matemática e à ordenação musical do universo.
 
Kennedy publicou seu estudo sobre o código (‘Plato’s Forms, Pythagorean Mathematics, and Stichometry’) em uma revista de filosofia antiga chamada Apeiron. Esse artigo e outros textos estão disponíveis em sua página pessoal.