Paradoxos de matar ou viver

Em minha timeline, 2 posts sobre como ‘optar’ numa situação na qual:

1) você pode causar a alguém uma morte rápida para que ela não sofra uma violência brutal e imediata (situação: um trem está em rota e, logo adiante, presumivelmente esmagará 5 pessoas; mas para que elas não sofram, você tem a chance de acionar injeções letais para uma morte indolor)

2) você pode salvar 5 vidas, caso mate uma (provavelmete alguém que causará a morte delas).

O que me espanta não é o dilema, e sim a colocação da questão.

Pessoas fazem decisões em situações, isso é fato. Outra coisa bem diferente é criar um plano normativo de contingências para provocar decisões para possíveis situações, baseando-se em números e um ideário “neutro”.

Compreendeu o que está em jogo? A simples colocação do cálculo sobre as condições da morte alheia mostra que o matar e o morrer não são mais, por assim dizer, tabus ou limites do razoável. Nós, do século XXI, trouxemos para cá do limite do razoável a decisão pela vida e pela morte de outrem.

De minha parte, deveríamos voltar correndo para Albert Camus:

Há crimes de paixão e crimes de lógica. O código penal distingue um do outro, bastante comodamente, pela premeditação. Estamos na época da premeditação e do crime perfeito. Nossos criminosos não são mais aquelas crianças desarmadas que invocavam a desculpa do amor. São, ao contrário, adultos, e seu álibi é irrefutável: a filosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformar assassinos em juizes.

Heathcliff, em O morro dos ventos uivantes, seria capaz de matar a terra inteira para possuir Kathie, mas não teria a idéia de dizer que esse assassinato é racional ou justificado por um sistema. Ele o cometeria, aí termina toda a sua crença. Isso implica a força do amor e caráter. Sendo rara a força do amor, o crime continua excepcional, conservando desse modo o seu aspecto de transgressão. Mas a partir do momento em que, na falta do caráter, o homem corre para refugiar-se em uma doutrina, a partir do instante em que o crime é racionalizado, ele prolifera como a própria razão, assumindo todas as figuras do silogismo. Ele, que era solitário como o grito, ei-lo universal como a ciência. Ontem julgado, hoje faz a lei.

(…) Nos tempos ingênuos em que o tirano arrasava as cidades para sua maior glória; em que o escravo acorrentado à biga do vencedor era arrastado pelas ruas em festa; em que o inimigo era atirado às feras diante do povo reunido, diante de crimes tão cândidos, a consciência conseguia ser firme, e o julgamento, claro. Mas os campos de escravos sob a flámula da liberdade, os massacres justificados pelo amor ao homem pelo desejo de super-humanidade anuviam, em certo sentido, o julgamento. No momento em que o crime se enfeita com os despojos da inocência, por uma curiosa inversão peculiar ao nosso tempo, a própria inocência é intimada a justificar-se. Este ensaio pretende aceitar e examinar esse estranho desafio. Trata-se de saber se a inocência, a partir do momento em que age, não pode deixar de matar.

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Dois livros sobre budismo Theravada

É incrível como o budismo, ou mais precisamente os dizeres sobre “mindfulness“, estão cada vez mais na moda.

O que parece curioso, nisso tudo, é que o tal “mindfulness” já invadiu os meios empresariais e virou até dica para franco-atirador. Para espanto dos budistas – não só deles -, vamos dizer assim.

No meio disso tudo, nos últimos tempos o Brasil recepciona dois livros introdutórios ao budismo Theravada e, também, ao dito mindfulness segundo as tradições mais antigas. O autor é Bhante Henepola Gunaratana, e os livros são “Atenção plena em linguagem simples” e “Oito passos atentos para a felicidade” (a respeito do “Nobre Caminho Óctuplo”), ambos pela Editora Gaia.

Duas outras referências brasileiras no assunto são o site “Acesso ao Insight“, com inúmeros textos e livros do cânone Theravada, e aparentemente também a Sociedade Budista do Brasil, no RJ.

 

Marco Aurélio e os “encontros”

“Afirmamos que tais fatos “se encontram” em nossa vida, como os operários dizem que as pedras quadradas dos muros e das pirâmides “se encontram” quando se adaptam umas às outras em determinada posição. Em resumo, porque há uma combinação única.”

(Marco Aurélio, Meditações, Livro V, VIII)

Filosofia das montanhas

Foto da expedição de Mallory em 1922

Na nova edição da Revista Aurora, saiu um artigo intitulado Become Mountain (Tornar-se montanha), de Ian Buchanan.

É sobre Deleuze, e utiliza o exemplo de George Mallory e sua tentativa de escalar o Everest para ilustrar a noção de “corpo sem órgãos”.

Vou ali ler. Considerando os elementos justapostos, o texto promete algo mais do que uma leitura. 😉

A leitura e o mundo novo

O mundo mudou.

Anos 80: “não leio porque não tenho instrução, a vida não me permitiu isso”

Anos 10: “não gosto de ler, acho uma perda de tempo. A nao ser que prenda muuuito minha atenção”

São dois modelos civilizatórios, dois sistemas de exclusão, dois regimes tecnológicos, dois tipos de luta diversos. A leitura como o perigo de produzir um mundo novo; a leitura porque não importa, não produz mais nada.

A vingança de Cuvier

https://i0.wp.com/i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/474061719_c67d9adff4.jpgimagem daqui

Diz uma anedota que Georges Cuvier, o criador da anatomia comparada, certa vez recebeu uma visita do Coisa Ruim em pessoa.

Não se tratava propriamente do diabo mas de um de seus alunos (no caso, de Cuvier), vestido com chifres e sapatos em forma de pata de zebu. A medonha “aparição” avançou sobre Cuvier enquanto ele estava dormindo e disse:

– Levantai, homem de catástrofes! Eu sou o Demônio e vim para devorar você!

Em meio à escuridão, Cuvier olhou para a criatura com atenção e então respondeu:

– Duvido que você possa. Você tem chifres e cascos, só come plantas…

🙂

Filosofia da caminhada

https://i2.wp.com/i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/caminhar.jpgHá algum tempo, o professor francês Frédéric Gros (conhecido estudioso de Foucault) publicou um pequeno livro, de leitura agradável e  repetidamente chamado de “muito bonito”. Trata-se de Marcher, une Philosophie, enfim traduzido por aqui como Caminhar, uma Filosofia (resenha, informe, informe).

O livro trata de “mil e uma maneiras de caminhar”. Dentre os nomes citados estão Rimbaud, Thoureau, Kerouak e outros (sem as doidices do ecletismo). Dentre as práticas, constam desde a pequena “suspensão” representada por uma simples caminhada até a radicalidade do apelo ao selvagem (“the Wild“), sem contar outras atitudes “espirituais” relacionadas a engajamentos ainda mais notáveis.

Diante das  já conhecidas capturas do mercado (“fazer um trekking” ou o “turismo de aventura”, adotar os modismos da “saúde”, do “alto rendimento” etc.), Gros contrapõe diversas outras perspectivas, provocando: “para caminhar é preciso de pernas, o resto é vão…”. As caminhadas de Nietzsche e Kant também constam lá (“E se só fosse possível pensar direito usando os pés?”).

Na França, junto com o pequeno livro Gros organizou também uma antologia, Petite Bibliothèque du Marcheur (Pequena Biblioteca do Caminhante, trecho gratuito não traduzido).

Além do Eu, Amizade e Trem da Morte

Três lançamentos interessantes (cada qual em seu assunto):

Muito Além do Nosso Eu, de Miguel Nicolelis (livro, livrarias). 

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Histórias do Gulag

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Quatro links interessantes em torno de uma instituição mais ou menos espalhada no ocidente, cuja variante russa e depois soviética foi particularmente notável.

O primeiro é o livro de Anne Applebaum, Gulag (livro, livrarias, livro no 4shared e resenha).

O segundo é a adaptação para o cinema de So weit die Füße tragen (Até onde possamos andar [Até onde os pés me levem?]), livro  escrito por Joseph Martin Bauer que narra a fuga de um soldado alemão de um GULAG, percorrendo mais de 10000 Km.

O terceiro link é outro filme: "Caminho da Liberdade", também inspirado em relatos recolhidos em livro e inclusive resenhado por Anne Applebaum. Ela serviu de consultora para a direção do filme.

O quarto é a figura acima: "A liberdade de crítica é total na URSS", informe sobre a visita de Sartre ao país em 1954 (artigos anunciados no jornal disponíveis em francês e em PDF). Não se trata propriamente de um link sobre Gulags, mas sobre os debates da época após a morte de Stalin, por sua vez muito ligados, depois de 1956, a esse contexto.

São mais do que 4 links. Enfim… 😉

Viveiros de Castro na Cult

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Entrevista muito interessante com o sociólogo Eduardo Viveiros de Castro. Aborda a história recente do Brasil, suas relações com Levi-Strauss e a noção de perspectivismo indígena.