O lado de cá da violência

Dias atrás publicamos um texto no qual comentávamos sobre a popularização recente de um tipo de experimento curioso: aquele no qual alguém deve “escolher” ou não pela morte de uma ou mais pessoas para salvar a vida de outras pessoas. Experimentos como o do “trem” (the trolley problem) e suas inúmeras variantes, tal como abaixo:

Na ocasião, comentávamos que o curioso nisso tudo não é a existência desse tipo de dilema, mas a facilidade, ou frequência, ou mesmo despudor, com os quais ele tem sido enunciado nos últimos tempos. Não se trata mais apenas, como ocorria após 11 de setembro, do dilema da “liberdade versus segurança”, mas sim a negociação de vidas ou de sofrimento em troca de outras vidas ou sofrimentos, tudo sob a alçada da decisão de alguém – e alguém com a capacidade de instrumentalizar a morte ou o sofrimento alheio.

Vale repetir: será que alguém compreendeu o que está em jogo? Para o homem comum, há tempos o matar não se coloca mais como tabu ou para além do limite do razoável. E não falo do velho chavão “bandido bom é bandido morto”, aquele tipo de bordão irrefletido que alguém esbraveja sem saber bem o que pensa. De algum modo, a questão saiu do simples ódio, do bordão, ou ainda, dos limites exteriores do racional, para ser colocada sob o mérito do pensavel, do calculável, do como vamos ou poderíamos fazer para…

As pessoas estão voltando a dizer (e não apenas esbravejar) que, em determinadas circunstâncias calculadas, é razoável matar.

Ou senão, basta ver a proliferação de memes dos últimos dias em torno dos acontecimentos de Charlottesville, nos EUA. De um lado, inúmeros vídeos sobre desfiles de milicianos racistas ou neonazistas com fuzis, como que preparados para a guerra, embora estivessem no que alegaram ser em tese uma passeata. E esse é exatamente o ponto: há quem julgue que uma passeata se faça com fuzis…

De outro lado, após esses acontecimentos que deveriam estar para lá da linha do aceitável, começaram a proliferar, como especies de modelos de ação, imagens de filmes como Bastardos Inglórios, no qual os personagens de Tarantino caçam nazistas sob regras não convencionais”.

O recado está claro: se abriram a porta para a violência, é com violência que a questão será resolvida.

Liberdade de expressão?

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Chegaram a circular imagens de policiais negros protegendo as passeatas dos supremacistas brancos (embora algumas se atribuam a outros eventos). Para alguns, tudo se passa como se alguns indivíduos quisessem se expressar, tendo assim seu direito garantido. Símbolo da liberdade de expressão, certo?

Nada mais errado. Inclusive é surpreendente que alguém precise explicar isso (o que também diz do estado em que estamos). Chega a ser estranho precisar dizer que termos como “liberdade” e “expressão” implicam a existência de uma sociedade civil e, nela, existe a regra incontornável de que o outro deve ser parceiro de debate.

Isso significa que um debate que pregue a inexistência de meu debatedor por meios violentos não é, simplesmente, um debate, mas a admissão de que os princípios da própria sociedade civil em que resido precisam ser negados. Passeatas como a de Charlottesville não são direitos democráticos ou civis porque, simplesmente, numa sociedade civil não se pode ferir o direito de civilidade.

Simplesmente não há qualquer idéia de democracia quando se pretende sustentar publicamente a não existência do alheio. Não é, simplesmente, um debate, mas a negação da possibilidade de que ocorra um debate.

Perigosamente, entramos nessa seara. Apesar de termos visto tanta coisa no passado. Surpreendente, esse esquecimento.

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As nuvens negras do fascismo de 2018

Estou muito impressionado com o pessoal de minha timeline, e da vida em geral, que entra na bravata geral e anuncia que vai votar no Bolsonaro. Impressionado a ponto de temer que ocorra por aqui em 2018 algo semelhante à vitória de Trump, nos EUA.

Concordo que existe ainda um bom número de gente da “esquerda ligada à restituição do PT” (que inclusive achou legal ver Gleisi Hoffmann eleita na presidência do partido, mostrando que o partido não viu nadinha da bordoada que recebeu nas últimas eleições), desempenhando um grande papel na criação dessa monstruosidade.

Bolsonaro é um político inócuo, pífio, de partido nanico e sem qualquer expressividade.

Mas ela – esquerda ligada ao PT -, pela cegueira diante da corrupção do partido, acabou reforçando e ajudando a canalizar o perigoso contra-efeito: o pretexto de anti-petismo, bastante batido pela TV, acabou se misturado com certa visão seletiva da corrupção (à direita, cegamente atacando só o PT e à esquerda, cegamente defendendo o PT). Isso consolida, primeiro a conta-gotas mas agora de forma cada vez mais sedimentada, uma grande insatisfação geral que acabou, meio acidentalmente, apontando para o “Bolsonaro 2018”.

Mas isso não explica tudo. Bolsonaro é um fascista à brasileira. E por “fascismo à brasileira”, defino

1) o governo de uma elite política (a mesma velha elite brasileira do “blocão”) ligada à elite financeira (aliás, o mesmo “blocão”), que acabará convencendo o povo no gogó – como sempre – de que cumprirá um rigorismo ligado a um Estado policialesco, com maximização da repressão policial contra os “bandidos”.
-> governo esse que seguirá com a mesmíssima corrupção já existente, inclusive ligada às empreiteiras e às propinas, distribuições de privilégios e mesadas de partidos, tendo visto que, ora bolas, o próprio Bolsonaro e seu partido estão entre os mais puros beneficiários do esquema que os bolsominions atribuem ao PT;

2) o governo que seguirá a pauta zumbi do governo Temer, ligada no discurso à “modernização” da economia,
-> mas que na prática não passa de um governo de má gestão e administração travestidos de “eficiência”, quando identifica o progresso ao velho tema de cortar na carne do povo. Será nada mais, nada menos, do que a retomada radical do velho tema do Brasil como um “moinho de gastar gente”;

3) o governo que, para apoiar o pretexto de rigorismo policialesco, acabará com todas as pautas ligadas aos direitos humanos, aniquilando toda e qualquer minoria, que se identificará ao velho disco furado da “vagabundagem”, do “crime” e da “afronta aos costumes”.

Quem apoia Bolsonaro – declaradamente ou não – acaba apoiando as idéias acima. O duplipensar é incrível. Senão, vejamos:

– Os sujeitos dizem que Bolsonaro é bom porque “acabará com a bandidagem” e “dará fim à corja do PT”, quando desconsideram que o partido do dito cujo recebeu propina igualzinho aos outros, e o próprio Bolsonaro também foi beneficiado por ganhar propina “esquentada”!

– Os mesmos acham estranho que se chame Bolsonaro de fascista, e ao mesmo tempo sustentam a idéia de que os direitos humanos devem ser banidos e a violência policial é a única boa solução para “colocar ordem na coisa”

– Finalmente – e uma das coisas mais surpreendentes – o pensamento empregado por esse tipo de gente é inteiramente negativo, isto é, vazio e amparado na reação, no contra-efeito: não há qualquer proposta ligada à existência de Bolsonaro. O que há é a canalização de um descontentamento e uma recusa de pensar, aliás ilustrada pelo método favorito dessa gente: responder uma acusação com outra acusação. É a existência motivada pela vitória do “zero a menos um”, no abandono do jogo em busca do gol contra do adversário. O mais puro reacionarismo.

Há nuvens à vista, e a enxurrada vai afundar o Brasil ainda mais… Embora o brasileiro, ora bolas, já está acostumado e até… deseja isso!

Paradoxos de matar ou viver

Em minha timeline, 2 posts sobre como ‘optar’ numa situação na qual:

1) você pode causar a alguém uma morte rápida para que ela não sofra uma violência brutal e imediata (situação: um trem está em rota e, logo adiante, presumivelmente esmagará 5 pessoas; mas para que elas não sofram, você tem a chance de acionar injeções letais para uma morte indolor)

2) você pode salvar 5 vidas, caso mate uma (provavelmete alguém que causará a morte delas).

O que me espanta não é o dilema, e sim a colocação da questão.

Pessoas fazem decisões em situações, isso é fato. Outra coisa bem diferente é criar um plano normativo de contingências para provocar decisões para possíveis situações, baseando-se em números e um ideário “neutro”.

Compreendeu o que está em jogo? A simples colocação do cálculo sobre as condições da morte alheia mostra que o matar e o morrer não são mais, por assim dizer, tabus ou limites do razoável. Nós, do século XXI, trouxemos para cá do limite do razoável a decisão pela vida e pela morte de outrem.

De minha parte, deveríamos voltar correndo para Albert Camus:

Há crimes de paixão e crimes de lógica. O código penal distingue um do outro, bastante comodamente, pela premeditação. Estamos na época da premeditação e do crime perfeito. Nossos criminosos não são mais aquelas crianças desarmadas que invocavam a desculpa do amor. São, ao contrário, adultos, e seu álibi é irrefutável: a filosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformar assassinos em juizes.

Heathcliff, em O morro dos ventos uivantes, seria capaz de matar a terra inteira para possuir Kathie, mas não teria a idéia de dizer que esse assassinato é racional ou justificado por um sistema. Ele o cometeria, aí termina toda a sua crença. Isso implica a força do amor e caráter. Sendo rara a força do amor, o crime continua excepcional, conservando desse modo o seu aspecto de transgressão. Mas a partir do momento em que, na falta do caráter, o homem corre para refugiar-se em uma doutrina, a partir do instante em que o crime é racionalizado, ele prolifera como a própria razão, assumindo todas as figuras do silogismo. Ele, que era solitário como o grito, ei-lo universal como a ciência. Ontem julgado, hoje faz a lei.

(…) Nos tempos ingênuos em que o tirano arrasava as cidades para sua maior glória; em que o escravo acorrentado à biga do vencedor era arrastado pelas ruas em festa; em que o inimigo era atirado às feras diante do povo reunido, diante de crimes tão cândidos, a consciência conseguia ser firme, e o julgamento, claro. Mas os campos de escravos sob a flámula da liberdade, os massacres justificados pelo amor ao homem pelo desejo de super-humanidade anuviam, em certo sentido, o julgamento. No momento em que o crime se enfeita com os despojos da inocência, por uma curiosa inversão peculiar ao nosso tempo, a própria inocência é intimada a justificar-se. Este ensaio pretende aceitar e examinar esse estranho desafio. Trata-se de saber se a inocência, a partir do momento em que age, não pode deixar de matar.

O que resta da mata atlântica

Le Comte de Clarac - La Foret Vierge du Bresil 1822

A notícia é praticamente irrelevante: “o que resta da mata atlântica“. Mas ela carrega muita coisa consigo.

A primeira é uma questão de sensibilidade. Por exemplo, o Brasil inteiro apenas existe devido à Mata Atlântica. Mas o brasileiro pouco a conhece. Se a conhecesse, talvez a probabilidade de preservá-la seria maior. Mas quando a conhece, muitas vezes isso se faz sob outro tipo de relação – nosso velho aventureirismo extrativista.

No Rio de Janeiro, por exemplo, permanecem alguns monumentos de outrora. A exuberância do Parque da Tijuca praticamente toca alguns outros parques urbanos, como o Jardim Botânico do Rio, onde o Imperador almoçava enquanto contemplava a floresta.

Mas é curioso, pois muito do resto do Rio não tem maior contato com a floresta senão apontando o dedo. Beleza para inglês ver. Em muitas regiões do RJ, as árvores frondosas e a identidade da Mata Atlântica são simples estorvo.

A mesma coisa se repete em inúmeros outros estados. No link acima, é possível ver a mata remanescente. No PR e SC, ela parece um pouquinho mais concentrada. Talvez um pouco mais entre o norte do PR e sudeste de SP.

Predominam os espaços pontilhados. É surpreendente ver, em tantos lugares, a simples ausência da mata. O habitante simplesmente nasce e cresce sem saber que, ali, havia tanta exuberância.

Um exemplo bastante notável é o Parque da Cidade, em Aracaju. Embora abandonado, ele concentra sobre si muito do que era a região em tempos passados. Mas a grande maioria dos sergipanos não tem tal experiência. É um verdadeiro choque visitar o parque, como se cortasse o padrão do restante da cidade.

É de se imaginar o que seria nosso país se valorizasse seus verdadeiros tesouros. A Mata Atlântica é um dos principais. Mas parecemos seguir em outra direção.

Illan Pappé – A Limpeza Étnica da Palestina

Praticamente 10 anos atrás, divulgamos o lançamento desse livro, em primeira mão para a recepção brasileira.

A novidade (ou nem tanto) é a tradução brasileira, de 2017, pela Sundermann.

A edição se parece bastante com a gringa. Preço: em torno de 60 reais (junho/2017)

“Qualquer um aqui pode ser subornado”

É bastante temeroso ouvir os crimes enormes cometidos diariamente e não punidos. Um escravo que assassinar seu senhor se tornará um escravo do governo após ser confinado por algum tempo. Já um homem rico pode estar certo de que estará livre dentro de pouco tempo, por maior que seja a acusação contra si. Todos aqui podem ser subornados. Um homem pode se tornar marinheiro ou médico ou qualquer outra profissão se puder pagar o bastante. Alguns brasileiros já declararam com seriedade que o único defeito que enxergam nas leis inglesas foi não identificar qualquer vantagem dos ricos e respeitáveis sobre os pobres e miseráveis.

Os brasileiros, até onde posso julgar, possuem apenas uma pequena fração daquelas qualidades que conferem dignidade à humanidade. Ignorantes, covardes e indolentes ao extremo. Hospitaleiros e bem intencionados até onde isso não lhes causa qualquer problema. Moderados, vingativos, mas não briguentos. Contentes consigo e com seus costumes, eles respondem a qualquer comentário perguntando: “Por que não podemos fazer como nossos avós faziam?”. Sua própria aparência pressagia sua pequena elevaçao de caráter. De vulto pequeno, eles logo se tornam corpulentos. Devido a sua pouca expressão, parecem ter a cara afundada entre os ombros. Os monges são ainda piores nesse último aspecto. Não é preciso muita fisiognomia para ver plenamente estampados em seu rosto a dissimulação perseverante, a sensualidade e o orgulho. Há um velho que sempre paro para olhar, igual apenas a Judas Iscariotes em tudo que já vi.

(Charles Darwin, Viagem do Beagle, 2 de julho de 1832 (?) – hoje foi um dia em que lembrei muito dessa passagem)

Pedra da Gávea, 9 de junho

 

Parti às seis e meia com Derbyshire para uma longa caminhada até a [pedra da] Gávea. Essa montanha fica próxima ao mar e pode ser reconhecida a grande distância por sua forma muito singular. Como boa parte das montanhas, trata-se de um cone íngreme e arredondado, mas no cume é uma massa angular plana, daí o nome de mesa ou montanha-mezena.
A trilha estreita se desdobrava em sua base sul. A manhã estava agradável, e o ar, muito fresco e perfumado. Não vi em nenhum outro lugar liliáceas ou plantas com folhas grandes em tão exuberante profusão. Crescendo à margem dos riachos transparentes sombreados e ainda assim brilhando com gotas de orvalho, elas convidavam o viajante ao descanso. O oceano azul devido ao reflexo do céu era visto em relances através da floresta. Ilhas coroadas com palmeiras davam diversidade ao nosso horizonte. À medida que passávamos, divertíamo-nos observando os beija-flores. Contei quatro espécies. A uma pequena distância, a menor delas se parecia precisamente com uma esfinge em seus hábitos e aparência. As asas se moviam tão rapidamente que mal eram visíveis. Permanecendo estacionário, o pequeno pássaro dardejava seu bico nas flores selvagens, ao mesmo tempo que fazia um extraordinário zumbido com suas asas. Os beija-flores que encontrei nas florestas afastadas e sombreadas podem ser vistos afugentando seus rivais, as borboletas. Em vão tentamos achar uma trilha para subir a [pedra da] Gávea. Essa montanha íngreme tem um ângulo de 42º. Voltamos para casa. No ponto mais distante, tivemos uma boa vista da costa por muitas milhas. A montanha era margeada por uma faixa de matagal denso por trás da qual havia uma ampla planície de pântanos e lagoas que, em alguns pontos, eram tão verdes que pareciam prados.
(Darwin, Viagem do Beagle)

Blogs e redes sociais

Dias atrás, recebi um comentário revelador: no Facebook, não escolhemos o que podemos ver. Essa tese é incrível: a tese de que escolhemos, sim, o que queremos ver, não é precisamente a tese das “redes sociais”?

Isso foi muito usado contra os blogs. De alguns anos para cá, os links foram trocados pelos “follow” e aplicativos. As tecnologias de RSS, que peneiravam a informação ao gosto do freguês (se você não conhece, vale se informar), deram lugar ao Twitter, ao Facebook etc..

Para mim, foi revelador o comentário do “não escolhemos”, quando na vez seguinte, abri meu Facebook e constatei algo que muita gente comenta há muito tempo: e não é que o Facebook é um verdadeiro esgoto, repleto de gatinhos fofinhos e pessoas cheias de verniz, de um lado, e de outro o mais puro ódio escoado em indiretas e palavras de condenação? Entre um e outro, aparecem alguns factóides e… até links e notícias interessantes. Mas não sai a aparência de uma enxurrada de coisas passando, como numa enchente levando tudo (o Facebook e o Twitter não tem memória e histórico, aliás).

De fato, não escolho o que vejo no Facebook. É como se eu regredisse na “evolução” da internet.

Os blogs, por exemplo: antes das redes sociais, formavam por si próprios espécies de “redes”, só que sem o “follow”. O link capitaneava tudo. Sempre houve pontos focais e autores transformados em autoridades, mas o que sempre mediou tudo foi o assunto.

Com as redes sociais, algo mudou: pode ser até que pessoas se concentrem em nichos específicos de assuntos, mas via de regra você não segue mais assuntos, e sim pessoas. Disso se segue tudo o mais: por simpatia à pessoa, e não ao assunto, somos bombardeados por toda sorte de questão de aprazimento (não de gosto), entre gatinhos, pessoas bonitas, condenações de pobre e hails a políticos fascistas. Se em alguns momentos as redes mostraram interessantes articulações (como na Primavera Árabe), em boa parte do resto se mostraram incrivelmente reacionárias e fascistas.

Deixo meu ponto mais claro: não se trata aqui de uma diferença de escolha, mas de plataforma. A escolha da plataforma define todo o resto, se um amontoado de ressentimentos, ou se uma autonomia maior para dialogar assuntos. Vale, sobre isso, dar uma olhadinha em assuntos como esse.

Outra diferença: os comentários. Pela presunção do “você tem sua opinião, eu tenho a minha“, isto é, do respeito auto-inibidor, toda sorte de lixo é propagada nas redes sociais, sem qualquer possibilidade de comentário. Afinal, o comentário afeta a pessoa, e não o assunto (ou, via de regra, é isso que ocorre). Mas aceitar uma opinião lixo – que muitas vezes ofende ou abre espaço para a ofensa de outras pessoas, como o apoio a políticos fascistas – não é respeito, é a negação da possibilidade de respeitar. É, portanto, a negação do “social” no nome “redes sociais”.

E o mais curioso: o “eu tenho minha opinião, você tem a sua” acaba com a própria comunicação social, na rede social. Ou as caixas ficam vazias, ou se perde a oportunidade de fazer o que se faz na vida real, isto é, de conversar ao vivo, o que é muito mais gostoso. Por pretexto de trocas, redes sociais muitas vezes deixam de trocar.

Quanto aos blogs, é óbvio que já existiam blogs e assuntos reaças. Mas o foco no assunto afastava a hipótese do “respeito auto-inibidor”.  Por isso, ponto novamente para os blogs, pois neles as pessoas tinham algum horizonte de escolha sobre o que ler e como acessar.

Inclusive, vocês não têm idéia sobre o quanto os blogs proporcionavam bons encontros e amizades 😉

O abismo entre as leis e a prática

Brasil: nem uma biblioteca borgeana explica

Notícia que, daqui alguns dias ou meses, fará bafafá: “Projeto de senadora prevê demissão de servidor público estável por mal desempenho”.

Nem vou inserir link. O Brasil está tão previsível que… E está tão ruim de viver por aqui… Mas vamos lá: tempos atrás publicamos exatamente a mesma coisa, sobre a Lei Seca. Nós, brasileiros, de fato exercemos nossa vocação histórica. Fazemos isso muito bem.

existe uma lei que demite servidor público, quando o servidor público não exerce sua função pública com eficiência. Chama-se Lei 8112/90.

No Brasil acontece assim: se a lei não é aplicada, criam então uma nova lei. Mas… se a lei antiga não era aplicada… o que se fez para que agora se aplique a nova lei? Nada, meus caros. Não se corrige o problema original, que é a não aplicação da lei. Num cenário desses, o que se fará é apenas o mesmo de sempre: criar subterfúgios para punir os servidores que trabalham e mascarar os que não trabalham. Criar jeitinhos para benefícios de uns e malefícios de outros. AliásAliás

Há uma lei de verdade, informal, operando por trás da Lei formal, jurídica, vocês entendem? É a Lei do malandro e do mané, muito mais profunda do que qualquer lei escrita. É o mesmo que ocorre quando você vai ao restaurante, ao hospital, à polícia e a tantos outros lugares, sempre. Não precisa haver outra Lei além da 8112. Ela precisa apenas ser aplicada. Servidores públicos precisam ter função pública. Ponto final.

Noves fora, permanece o conto inspirado em Borges, que reproduzo abaixo.

***

Assim poderíamos imaginar um conto borgeano, sobre um lugar que criasse sempre novas e novas leis. Uma lei não sendo fiscalizada na prática, cria-se outra lei, em segunda potência. Teríamos a progressão: Lei, Lei2, Lei3, Lei4, LeiN…
Desse modo, um dia as leis seriam tão dinâmicas que, progressivamente, um número menor de contravenções motivaria cada vez mais uma nova lei, até o ponto em que apenas uma contravenção motivaria a redação de uma Lei nova.
Esse novo jardim infinito das leis geraria um curioso efeito nas contravenções: a cada lei nascente que não se fizesse valer, o número de contravenções aumentaria. Isso motivaria mais ainda a criação de novas leis, e  mostraria ser o ramo das leis o único possível de se criar algo formal, fugindo das práticas criminosas espalhadas mundo afora.
Diante de tantas leis e contravenções, os legisladores seriam ovacionados pelo povo marginal. Mundo “ideal”, apenas nas Leis.  De resto, a barbárie. A ponto de, um dia, o próprio povo tornar-se motivo de desconfiança: não seria ele essa massa de seres irresponsáveis, razão de nossa existência e trabalho árduo?
E a classe legisladora continuaria seu trabalho infinito. Afinal, era da ineficácia de toda lei que se retirava a garantia de seu ofício, e todos os seus privilégios.

Demarcando o Brasil

Para a História do Esquecimento é digno de lembrança o modo pelo qual o Brasil começou a se preocupar com algo inerentemente interno, brasileiro, isto é, quando o poder central achou por bem que algo desse lugar devesse ser organizado, influenciando no fluxo e no hábito das pessoas e na configuração do local, e para isso utilizou leis e polícia.

Note-se que é bem diferente chegar aqui e revirar o país em busca do pau-brasil e outras benesses para enriquecer o poder central, e começar a se preocupar com algo inerente a esse lugar. Uma coisa é adotar o Brasil como mero meio para determinados fins; outra é supor que o Brasil merece alguma importância para organizar o que existe aqui para fins – mesmo que provisórios – brasileiros.

Um caso muito peculiar disso diz respeito à relação entre a povoação do interior e do litoral. Durante muito tempo, o poder central não aconselhou, e mesmo impediu, o povoamento e o fluxo de pessoas ao interior. Não à toa a população brasileira é, até hoje, litorânea:

O primeiro donatário penetrara melhor do que muitos dos futuros governadores os verdadeiros interesses do Estado: (…) não ignorava que dom João III tinha mandado fundar colônias em país tão remoto com o intuito de retirar proveitos para o Estado, mediante a exportação de gêneros de procedência brasileira: sabia que os gêneros produzidos junto ao mar podiam conduzir-se facilmente à Europa e que os do sertão, pelo contrário, demoravam a chegar aos portos onde fossem embarcados e, se chegassem, seria com tais despesas, que aos lavradores “não faria conta largá-los pelo preço por que se vendessem os da marinha”. (Raízes do Brasil, p. 101)

Veja-se que (estamos no século XVII-XVIII) a colonização do interior não ofereceria interesse – e São Paulo é para Sergio Buarque pioneer em certa autonomia brasileira – por critérios que não dizem respeito à criação de um país, mas simplesmente pelo escoamento das benesses, do quintal para onde realmente interessa.

Mas algo muda quando descobrem as Minas Gerais. Como evitar a emigração massiva ao interior, por tanta gente – inclusive estrangeiros e monges – interessada naquilo que pertence em maior parte à Coroa? Algo faz os interesses do poder português precisarem se focar no Brasil, isto é, em negócios brasileiros:

Então, e só então, é que Portugal delibera intervir mais energicamente nos negócios de sua possessão ultramarina, mas para usar de uma energia puramente repressiva, policial, e menos dirigida a edificar alguma coisa de permanente do que a absorver tudo quanto lhe fosse de imediato proveito. É o que se verifica em particular na chamada Demarcação Diamantina, espécie de Estado dentro do Estado, com seus limites rigidamente definidos, e que ninguém pode transpor sem licença expressa das autoridades. (…) “ Única na história” , observa Martius, “essa idéia de se isolar um território, onde todas as condições civis ficavam subordinadas à exploração de um bem exclusivo da Coroa.” (…) A circunstância do descobrimento das minas, sobretudo das minas de diamantes, foi, pois, o que determinou finalmente Portugal a pôr um pouco mais de ordem em sua colônia, ordem mantida com artifício pela tirania dos que se interessavam em ter mobilizadas todas as forças econômicas do país para lhe desfrutarem, sem maior trabalho, os benefícios. (…) Não fosse também essa circunstância, veríamos, sem dúvida, prevalecer até ao fim o recurso fácil à colonização litorânea, graças à qual tais benefícios ficariam relativamente acessíveis. (Raízes do Brasil, p. 103)

Um país que faz medidas “únicas no mundo”, dizia Martius, quando se refere a esse curioso caráter de estabelecer medidas civilizatórias – demarcar o povo e a circulação dos bens – e, ao mesmo tempo, faz com que o povo, os bens e tudo apenas sirvam para outros propósitos, os propósitos da Coroa.

Um país no qual as medidas civilizatórias são “únicas no mundo” e podem variar ao sabor da Coroa? Um país no qual a própria noção de civilização serve de adorno para critérios não civilizatórios? Não sei o porquê, mas hoje abri o jornal e isso me fez lembrar outras estórias. Nada que precise mover você, leitor, do sofá (afinal, é assim que brindamos nossa vocação histórica).