O lado de cá da violência

Dias atrás publicamos um texto no qual comentávamos sobre a popularização recente de um tipo de experimento curioso: aquele no qual alguém deve “escolher” ou não pela morte de uma ou mais pessoas para salvar a vida de outras pessoas. Experimentos como o do “trem” (the trolley problem) e suas inúmeras variantes, tal como abaixo:

Na ocasião, comentávamos que o curioso nisso tudo não é a existência desse tipo de dilema, mas a facilidade, ou frequência, ou mesmo despudor, com os quais ele tem sido enunciado nos últimos tempos. Não se trata mais apenas, como ocorria após 11 de setembro, do dilema da “liberdade versus segurança”, mas sim a negociação de vidas ou de sofrimento em troca de outras vidas ou sofrimentos, tudo sob a alçada da decisão de alguém – e alguém com a capacidade de instrumentalizar a morte ou o sofrimento alheio.

Vale repetir: será que alguém compreendeu o que está em jogo? Para o homem comum, há tempos o matar não se coloca mais como tabu ou para além do limite do razoável. E não falo do velho chavão “bandido bom é bandido morto”, aquele tipo de bordão irrefletido que alguém esbraveja sem saber bem o que pensa. De algum modo, a questão saiu do simples ódio, do bordão, ou ainda, dos limites exteriores do racional, para ser colocada sob o mérito do pensavel, do calculável, do como vamos ou poderíamos fazer para…

As pessoas estão voltando a dizer (e não apenas esbravejar) que, em determinadas circunstâncias calculadas, é razoável matar.

Ou senão, basta ver a proliferação de memes dos últimos dias em torno dos acontecimentos de Charlottesville, nos EUA. De um lado, inúmeros vídeos sobre desfiles de milicianos racistas ou neonazistas com fuzis, como que preparados para a guerra, embora estivessem no que alegaram ser em tese uma passeata. E esse é exatamente o ponto: há quem julgue que uma passeata se faça com fuzis…

De outro lado, após esses acontecimentos que deveriam estar para lá da linha do aceitável, começaram a proliferar, como especies de modelos de ação, imagens de filmes como Bastardos Inglórios, no qual os personagens de Tarantino caçam nazistas sob regras não convencionais”.

O recado está claro: se abriram a porta para a violência, é com violência que a questão será resolvida.

Liberdade de expressão?

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Chegaram a circular imagens de policiais negros protegendo as passeatas dos supremacistas brancos (embora algumas se atribuam a outros eventos). Para alguns, tudo se passa como se alguns indivíduos quisessem se expressar, tendo assim seu direito garantido. Símbolo da liberdade de expressão, certo?

Nada mais errado. Inclusive é surpreendente que alguém precise explicar isso (o que também diz do estado em que estamos). Chega a ser estranho precisar dizer que termos como “liberdade” e “expressão” implicam a existência de uma sociedade civil e, nela, existe a regra incontornável de que o outro deve ser parceiro de debate.

Isso significa que um debate que pregue a inexistência de meu debatedor por meios violentos não é, simplesmente, um debate, mas a admissão de que os princípios da própria sociedade civil em que resido precisam ser negados. Passeatas como a de Charlottesville não são direitos democráticos ou civis porque, simplesmente, numa sociedade civil não se pode ferir o direito de civilidade.

Simplesmente não há qualquer idéia de democracia quando se pretende sustentar publicamente a não existência do alheio. Não é, simplesmente, um debate, mas a negação da possibilidade de que ocorra um debate.

Perigosamente, entramos nessa seara. Apesar de termos visto tanta coisa no passado. Surpreendente, esse esquecimento.

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Dois livros sobre budismo Theravada

É incrível como o budismo, ou mais precisamente os dizeres sobre “mindfulness“, estão cada vez mais na moda.

O que parece curioso, nisso tudo, é que o tal “mindfulness” já invadiu os meios empresariais e virou até dica para franco-atirador. Para espanto dos budistas – não só deles -, vamos dizer assim.

No meio disso tudo, nos últimos tempos o Brasil recepciona dois livros introdutórios ao budismo Theravada e, também, ao dito mindfulness segundo as tradições mais antigas. O autor é Bhante Henepola Gunaratana, e os livros são “Atenção plena em linguagem simples” e “Oito passos atentos para a felicidade” (a respeito do “Nobre Caminho Óctuplo”), ambos pela Editora Gaia.

Duas outras referências brasileiras no assunto são o site “Acesso ao Insight“, com inúmeros textos e livros do cânone Theravada, e aparentemente também a Sociedade Budista do Brasil, no RJ.

 

A leitura e o mundo novo

O mundo mudou.

Anos 80: “não leio porque não tenho instrução, a vida não me permitiu isso”

Anos 10: “não gosto de ler, acho uma perda de tempo. A nao ser que prenda muuuito minha atenção”

São dois modelos civilizatórios, dois sistemas de exclusão, dois regimes tecnológicos, dois tipos de luta diversos. A leitura como o perigo de produzir um mundo novo; a leitura porque não importa, não produz mais nada.

A mudança das estações

zig

O fotógrafo Zig Koch, especializado em natureza, fez hoje um comentário que é um verdadeiro “libelo” à História do Esquecimento. Ou melhor: o comentário é uma lembrança, mas a lembrança isolada apenas coroa um gigantesco esquecimento, não dele mas nosso. Cito as belas palavras:

As estações do ano marcam a passagem do tempo. São mudanças sutis que nos tocam como as ondas do mar no costão rochoso. Aos poucos vão mudando sua forma até não serem mais reconhecidas, mas ainda sim são as mesmas.

Ele compartilha a foto acima, que é um lindíssimo registro. Mas por quê seria um libelo à História do Esquecimento?

Ontem a previsão do tempo do Jornal Nacional bancou mais um desses episódios incríveis do jornalismo brasileiro (também pertencentes ao Esquecimento): o Jornal nos ensinou que o Outono é a estação de transição entre o Verão e o Inverno, e por isso ocorrem diversas mudanças no clima (!!!!!!)

As estações são cada vez mais esquecidas pelos brasileiros. Isso por um movimento duplo: ano a ano o inverno perde suas características mais históricas (do frio à intercalação entre a chuva e a seca) e, praticamente ao mesmo tempo, o brasileiro vive o país sob uma distância imensa do lugar “natural” que o Brasil sempre foi.

Como se o brasileiro pudesse viver exatamente do mesmo modo em qualquer lugar.

Isso é surpreendente se compararmos a fala isolada de Zig Koch com as comunidades fotográficas mundo afora. Sites como o Flickr e o 500px abundam motivos das estações. Mas só fora do Brasil, como se aqui não existissem estações.

***

Há vários modos de provar nosso esquecimento. O mais fácil e “pra já”, nessa época em que a imediaticidade acompanha o esquecimento, é a nova novela da Globo, sobre o rio São Francisco. Basta comparar as novas novelas da Globo, de época, com as antigas novelas de época, e está tudo lá:

– Antigamente muitas novelas se ambientavam em adaptações de romances ou relatos históricos; hoje elas são “obras coletivas” cujo único ímpeto é perdurar na audiência, com final ao gosto do freguês (esquecemos nossa vinculação à História, à Literatura, aos lugares…)

– N’0utros tempos as adaptações se ambientavam verdadeiramente aos ambientes: casas antigas, pessoas do lugar, lugares reais ou lugares imaginários mas sob fácil identificação geográfica; hoje, a novela parece acontecer num lugar etéreo, cuja única demarcação é o rio São Francisco, de onde brotam, como que de uma escuridão, alguns temas que reconhecemos ser nordestinos, mas um tanto quanto de longe (não nos reconhecemos nos sujeitos que vivem lá, naqueles lugares, em vista de um reconhecimento mais fácil do que nos é mais próximo)

– Isso diz respeito à linguagem da novela: uma trilha sonora que parece uma adaptação de quinta categoria da trilha de Sob o Céu que nos Protege; longas sequências em tom de fantasia, como que numa mistura entre Tim Burton e sabe-se lá o quê, para dar conta do misticismo do nordeste. Ontem foi impagável o sonho da mulher do coronel com menções impagáveis a O Exorcista. Disso tudo, a riquíssima música nordestina e seu misticismo acirrado, onde foram parar? (novamente: em nome de uma negação de características locais, projetamos um mundo de imagens remetidas a sonoridades e imagens mais próximas, mas apenas imagens!)

– O palavreado, os costumes, as roupas, tentam imitar uma época que se foi. Tirando alguns momentos quase fotográficos, o drama murcha e, de repente, percebemos: são apenas atores da zona sul do Rio, com corpo escultural, tentando esconder o sotaque chiado.

– A novela, enfim, contém muito pouco de nordeste e de Rio São Francisco, para além de um imaginário que parece mais o dos visitantes do Xingó do que dos moradores locais. A gente, a música, a cultura, aparecem pouco. O lugar é via de regra cenográfico, de amplas paisagens, algo a lembrar apenas que estamos num nordeste longínquo, idílico e irreal. Até o suor é falso. Algo muito longe de tantas séries do passado, onde os trajes eram sujos, o sotaque menos forçados e os lugares menos cenográficos.

Para fechar o exemplo: se a TV é um meio, uma mídia, é como dizer que antes ela tentava nos mediar a representação de lugares distantes. Mas hoje ela vincula, sem tentativa mas sob muita produção, lugares irreais.

Mas, conforme dito, a TV é apenas um exemplo a mais para nos mostrar o quanto nos distanciamos do Brasil.

Protestos aqui e lá

Para ser bastante honesto: algo mudou, e em várias frentes. E isso é muito interessante.

Facebook, twitter, redes sociais: “fale sobre você”

Programas como o twitter e o de Zuckerberg emplacaram como “rede social”. Qualquer um sabe como opera: para além de simples  softwares, configuram conglomerados de dispositivos, agregando publicidade, especulação financeira, vigilância, tecnologias experimentais e inúmeros outros fatores.

Nesse imenso agregado, eu e você, nossa privacidade, o que temos de mais íntimo, aquilo que engendra nossas vidas e desejos, é uma das matérias principais a mover toda a maquinaria. O FB e o twitter funcionam principalmente porque respondemos, cada vez, à pergunta: “Fale sobre você”.

Essa pergunta funciona como um verdadeiro imperativo. E a finalidade desse imperativo, além de reforçar todo o conglomerado de dispositivos acima, é também a de aprimorá-lo, reiterar o sistema.

Nisso tudo é muito curioso ver como somos, aos milhões, arrastados pelo imperativo. A ponto de criarmos verdadeiras economias afetivas dentro desse negócio: somos capazes por exemplo de valorizar ou reprovar certas atitudes, reprovando condutas que não utilizam as redes sociais conforme esse imperativo.

Para redes como o Facebook e o twitter, nossa afetividade é verdadeiro objeto, e objeto de lucro e desenvolvimento de tecnologias para aprimorar ítens como lucro (mais lucro), vigilância e segurança. Parece um pouco surpreendente o quanto levamos isso a sério e transformamos isso tudo numa verdadeira vitrine. Como se ela traduzisse, sem recursos, quem somos nós.

Uma estória sem razão

Procurando por um pequeno livro de entrevistas de François Châtelet, intitulado Uma História da Razão, deparo com o preço da Jorge Zahar, a editora que o publicou: 44 reais.

Há algo estranho aí. O livro tem apenas 150 páginas. Como pode custar tanto? Páginas de ouro, capa dura, monumento à ostentação do saber? Não, é um livrinho como qualquer outro, e bem pequeno por sinal.

É certo que a Jorge Zahar cobra muito caro por vários de seus outros livros. E se faz isso no Brasil, ainda mais em meio a protestos das editoras contra as tentativas de alunos escanearem livros, algo soa muito estranho.

Nesse ponto nem é tão estranho o fato de que o francês paga 7,60 euros (em torno de 20 reais), ou que o próprio brasileiro, importando esse livro e pagando ainda o lucro da livraria, paga 28 reais. O mais estranho é, depois do rombo no bolso, abrir o livro e ler o amigo Jean-Toussaint Desanti comentando sobre Châtelet:

Diria que sua paixão principal era publicizar a verdade. “Publicizar” deve ser entendido aqui em seu sentido forte: oferecer para que o maior número de pessoas compartilhe.

As letras de música mais influentes dos últimos tempos

“Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego”
“Eu quero tchu eu quero tchá tchu tchá tchu tchu tchá”
“Ai ai, ai ai ai ai assim você pega o papai”
“tche tchererê tchê tchê tchererê tchê tchê tchê tchê”

 

Livros e acesso à leitura no Brasil

O livro brasileiro é barato ou caro? E o brasileiro, tem acesso ao livro?

Visito uma loja virtual ou livraria qualquer em outros países e constato: muitos clássicos da literatura universal podem custar, digamos, 7, 8 ou 9  euros, 20 dólares ou menos, etc.

Aí visito uma livraria brasileira e vem o susto: traduzido, o mesmo livro custa muito mais caro, tanto em termos absolutos quanto relativos.

Um exemplo qualquer, Do Mundo Fechado ao Universo Infinito, de Alexandre Koyré (um clássico de história das ciências): pago entre 8 e 9,50 euros de um lado e por volta de 8,5 dólares de outro (13/02/2012).

Calculando alto, vejo que um consumidor paga 25 reais na opção mais cara. E se tento importá-los, pagarei com todas as taxas e mais o lucro da Livraria Cultura 31 reais na edição francesa e 60 reais numa edição (pelo jeito mais inacessível) da John Hopkins.

Retornando à edição brasileira, nosso preço: 69 reais!  (É certo que os livros dessa editora são mais caros, mas vale repetir o procedimento com outros títulos e editoras…)

Moral da história: sob termos absolutos, em muitos casos o brasileiro paga mais caro pelo livro brasileiro, mesmo frente à opção de importar o mesmo título pagando as taxas e o lucro da livraria. E isso quando o brasileiro tem a opção de fazer tal comparação, pois a comparação mesma mostra o quanto os preços estão caros por aqui e o quanto somos impedidos de fazer maiores escolhas.

E em termos relativos? Com o salário mínimo de 622 reais, pago 69 na edição brasileira, o que representa 11,1% de meus ganhos. Nos EUA, com o mínimo de 1160 dólares (maio/2011) o livro de US$ 8,50 representa 0,73% do salário. Já o consumidor francês gastará apenas 0,68% de seu mínimo de 1398,37 euros (jan/2012).

A conta é rasteira, mas ela diz muito sobre muita coisa.

Em primeiro lugar, o livro é um bem de relativo luxo por aqui. Não importa se o leitor utiliza o livro direta ou indiretamente em sua vida. Quem é pobre tende a ler menos, pois precisa trabalhar mais – e mais tempo – para garantir virtualmente condições de uma boa leitura (condições negadas pela própria necessidade de criá-las!).

Em segundo, é muito curioso como as coberturas dos jornais criam reportagens sobre o “valor da leitura”, como se a leitura tivesse uma espécie de valor em si mesma, no “mundo das idéias”, deslocada dos próprios interesses do leitor. Criam-se chavões (“quem lê viaja”), crianças em idade escolar lendo recebem elogios cerimoniosos (como se ler não implicasse a própria noção de “idade escolar”!), e as heróicas conquistas dos analfabetos que aprendem a ler parecem não servir aos jornalistas para uma crítica de nosso próprio sistema, mas sim como um reforço de que qualquer um pode e deve embarcar por vontade própria – e não por direito básico – nesse mundo das idéias! (Isso é particularmente interessante, pois se de um lado os mesmos jornais falam de boca cheia sobre a “qualificação para o mercado de trabalho”, de outro aparece o tema da “leitura pela leitura”, como espécie de opção sacralizada mas individual e solta, sem implicações efetivas para o leitor e seu mundo. Figuras contemporâneas de nossa cultura reduzida ao ornamento e ostentação privados – sem maiores compromissos públicos -, como dizia Sérgio Buarque).

Finalmente, sites como o Livros de Humanas são acusados de pirataria, infração de direito de cópia e afins. Como se o LdH fosse causa, e não efeito, de um sistema totalmente fajuto. O princípio é básico e nenhum liberal teria a coragem de negar abertamente: diminuindo o preço do livro e criando múltiplas opções de edição (caras, baratas, de bolso etc.), as editoras se salvam – se algum dia estiveram em perigo – e os leitores criam suas bibliotecas. Nos ditos “países avançados”, não é raro ver o mesmo título lançado em dois ou três tipos diferentes de edição, acessíveis para exigências diferentes. Ao invés de exploração do leitor pelas editoras e livrarias (como isso soa estranho!), o “mercado” é que se rege minimamente pelo consumo individual. Não seria até curioso encontrar alguns chamando isso de “capitalismo”?

Curioso notar: nos orgulhamos de ver o Brasil tão “reconhecido” mundo afora (6ª economia, país da Copa e das Olimpíadas…), mas de repente olhamos para dentro e percebemos que por aqui a leitura ainda funciona sob certo sistema de cabresto (pois nem o “mercado” apelado de fato é um mercado de direito – compare-se simplesmente o acesso ao livro aqui e em outros países -, pois a leitura tende a ser ornamento e “status“, pois desvinculam ela da “prática” e da “realidade”, pois quem ousa ler sob um sistema isento desses prejuízos é logo discriminado, pois enfim não há abertura do “mercado” à ampla leitura, alheia a esses prejuízos…).

(O presente post foi publicado em 13 de fevereiro de 2012, antes da acusação ao Livros de Humanas)

O fim do blogsome.com

Pelo jeito o alardeado fim do blogsome.com ocorreu mesmo. Para quem não conhece, o blogsome era uma interessante plataforma irlandesa de blogs gratuitos: baseada em wordpress mas colocando algumas restrições de código, permitia muito mais plasticidade e edição do que os grandes e também gratuitos Blogger e WordPress.com.

Este blog ficou hospedado lá até dezembro de 2011, quando de repente os editores anunciaram o fechamento do site. A medida não foi muito ética, pois os blogs mais sérios quase literalmente tiveram que “fugir em debandada” para outros lugares (provavelmente os editores pensaram: “reclama de que? era gratuito…”). Por aqui os acessos despencaram com a perda de pagerank, e não encontramos meios de contornar isso.

Em termos de gratuidade o blogger parece ter recuperado fôlego nos últimos anos. Eles oferecem agora mais opções de edição manual e outras opções intuitivas, bastante plásticas.