“A vida não se encaixa entre dois livros”

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Alguns decidem consagrar à escritura o mesmo tempo concedido à leitura. Thoreau, lembra Emerson, teve por princípio não dedicar tempo para a escrita a não ser depois de uma caminhada. Isso para evitar as armadilhas da cultura e das bibliotecas. Pois, de outro modo, a escritura é preenchida pela escritura dos outros. Por pouco que eles mesmos tenham escrito sobre os livros dos outros…

Escrever deveria ser isso: o testemunho de uma experiência muda, viva. E não o comentário de um outro livro, não a explicação de um outro texto. O livro como testemunho. Mas eu diria “testemunho” no sentido que toma essa palavra em uma corrida de revezamento: passa-se o “testemunho” a um outro, e ele se põe a correr.

Assim o livro, nascido da experiência, reenvia à experiência. Os livros não são aquilo que nos ensina a viver (é o triste programa dos que dão lições), mas o que nos dá desejo de viver, de viver de outro modo [autrement]: encontrar em nós a possibilidade da vida, seu princípio.

A vida não se encaixa entre dois livros (gestos monótonos, cotidianos, necessários, entre duas leituras), mas o livro faz esperar uma existência diferente. Assim, ele não deve ser o que permite escapar da cinzenta vida cotidiana (o cotidiano é a vida como o que se repete, como o Mesmo), mas o que faz passar de uma vida a uma vida outra.

“É vão sentar-se para escrever quando não se levanta jamais para viver” (Thoreau)

Frédéric Gros sobre Thoreau, no belo Caminhar, uma Filosofia.

A leitura e o mundo novo

O mundo mudou.

Anos 80: “não leio porque não tenho instrução, a vida não me permitiu isso”

Anos 10: “não gosto de ler, acho uma perda de tempo. A nao ser que prenda muuuito minha atenção”

São dois modelos civilizatórios, dois sistemas de exclusão, dois regimes tecnológicos, dois tipos de luta diversos. A leitura como o perigo de produzir um mundo novo; a leitura porque não importa, não produz mais nada.

A escalada do ódio e as redes sociais

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Dias atrás um amigo comentou que as redes sociais não configuram propriamente espaços públicos, e que o FB serviria apenas para agregar algumas forças, sem possibilidade de uma mudança democrática efetiva. Além disso, os lugares costumeiros da publicidade estariam esvaziados, com as pessoas jogando suas pautas nesses espaçozinhos privados, cuja voz ativa seria enfraquecida.

Pensei bastante a respeito, e isso reativou velhos assuntos.

Acompanho a internet desde as jurássicas “personal web pages” e “listas de discussão”, com toda a evolução aos blogs, ao orkut, ao technorati, ao twitter e depois às “redes sociais”. Acompanhei a evolução do html ao RSS e agora a esse fechamento da Rede no Facebook.

Disso tudo, tempos atrás, quando ainda blogava, tive um breve debate com uma blogueira ainda famosa, que ficou ainda mais notória com as redes sociais. Eu argumentava que os blogs, mais antigos, constituíam uma teia aberta, descentralizada, mediada pelo link. Certamente havia pontos focais, caracterizados por blogs com nicho forte ou autores com papel de autoridade. Mas a “dinâmica” da coisa operava de modo que pequenos blogs poderiam chacoalhar políticas locais ou até nacionais. Blogueiros chegaram a ser perseguidos ou mortos. Inclusive Aaron Swartz, um dos inventores do RSS, acabou se suicidando devido a uma grande pressão institucional, após liberar em acesso público boa parte do acervo do JSTOR. Nomes como Bradley Manning e Assange também eram notórios por obrigar certa publicização “horizontal”, por assim dizer, num mundo ainda bastante verticalizado. E me refiro aos idos de 2010-2012…

Nesse sentido, eu enxergava o Facebook e o Twitter, ou mais precisamente a troca do link pelo aplicativo e pelo “follow”, como fechamentos, frente à abertura que os blogs representavam. Eu dizia que a abertura ao espaço público que se esboçava nos blogs, desde as páginas pessoais, corria o risco de se fechar na privacidade dos interesses passionais, egologismos, autoridades e na fragmentação em nichos incomunicáveis.

Contrariamente, a blogueira dizia que o FB e o twitter potencializavam os blogs, apenas dependendo do modo de usar. A tese utilizada por ela é a de que a tecnologia é neutra: “se você” usar para o bem, será bom. Um machado pode matar ou cortar lenha, a energia nuclear pode matar ou acender a luz…

Mas há algo mais… E aliás, toda a tradição que se consolida nos estudos CTS (Ciência, Tecnologia, Sociedade) diz bem mais coisa do que a mera tese “a tecnologia serve para o bem ou o mal, depende como você usa”.

Hoje o FB emplacou de vez e a Rede nunca esteve tão privada. É certo que o FB mobilizou massas, como na Primavera Árabe, ou redes como a do BlackBerry chegaram a chacoalhar a Inglaterra.

Mas, correlativamente, muita coisa ocorreu. Já se começa a pensar sobre como a intervenção em redes sociais auxiliou na vitória de Trump, inclusive sob influência russa. Ou como sites formadores de opinião nas redes sociais emergem… da fumaça (ver isso também). Ora, isso já era possível na época dos blogs. Mas nas redes sociais parece que algo mudou, devido ao próprio modo como elas se constituem e independente da escolha sobre seu “uso”.

Se os websites e blogs configuravam uma primeira camada de acesso ao “virtual”, as redes sociais configuram “acessos sobre acessos”, elas filtram e também oferecem previamente o que se dará a pensar. Quando o primeiro ato de navegação se refere a uma página pré-moldada, e não a páginas pré-escolhidas, toda a ação subsequente muda.

Isso é certamente diferente dos blogs.

Outro fator importante é a própria, digamos, “dinâmica das excitações” envolvida. Navegar de link a link, “escolhendo” o próprio rumo, é bem diferente desse fechamento em nicho ocasionado pelo FB. Leio e acesso o que alguns (não todos) dos outros me oferecem, mediados por algoritmos que buscam capturar, pelo padrão de minha navegação, o meu gosto. Se estou predisposto a determinadas idéias, elas me serão oferecidas diretamente, em manchetes rápidas e sem maior argumentação, junto a comentários afetados de pessoas que muitas vezes sou simpático a concordar, mesmo que – e isso é a parte importante – se eu examinasse de fato suas idéias, eu não concordaria (vale novamente esse link).

O mar aberto dos links oferecia algo diferente. Certamente alguém tende a clicar nos assuntos que tende a concordar, ou ao menos pretende saber. Mas entre a busca e análise de um texto (blogs, webpages) ou a oferta sem análise de uma simples manchete (twitter, facebook), a tecnologia mental empregada é inteiramente diferente. Somos “excitados” de forma bem diferente, e agimos diferentemente conforme tais “excitações”.

Além disso, reforça essa economia de “excitações” a diferença entre o “post” e o “textão”: os blogs e as webpages possuíam linguagem sintética, mas também abertura para argumentar. Agora os “memes” são predominantemente frases curtas, sacadinhas, excitações momentâneas, para nos “excitar” de um modo e depois canalizar outras excitações. O “textão” recebeu quase imediatamente conotação negativa: ler é ruim, não tenho tempo e nem disposição. Se você pode dizer tudo abreviadamente, pra quê ler textão?

Disso tudo, é evidente que as redes também engajam afeições, para além de cognições. Aliás, – e aqui chego a meu ponto – pode não ser por acaso que a escalada da violência e do ódio nos últimos anos conviva com a popularização e a massificação das redes sociais e o fechamento das navegações.

Os nichos fechados das redes sociais transformaram cada vez mais a internet na réplica do mundo “lá fora”, ao invés de virtualidades de tecnologias como a do hiperlink serem exportadas para fora. Exemplos disso são as políticas de direitos autorais, a unificação de cartões identitários ou a interface entre geolocalização e aplicativos de consumo, multiplicando possibilidades de “captura” e “individualização”, por assim dizer. Ainda por assim dizer, não se tem propriamente uma multiplicação das mobilidades e liberdades individuais, mas sim uma multiplicação do monitoramento das individualidades e mobilidades. O esquadrinhamento dos indivíduos em espaços fechados dá lugar à individualização em espaços abertos, conforme muitos autores já notaram. Em suma: quando a internet se popularizou, muitos enxergaram no hiperlink e no hipertexto a possibilidade de que o tipo de relação engajado por eles poderia ser exportado ao “mundo real”. Ocorreu algo um pouco diferente…

Mas há mais: as redes sociais, trazendo “para o virtual” as relações “reais”, inevitavelmente devolvem para “fora” o que ali dentro se condensou. Não é difícil provar o quanto as pessoas comentam e se posicionam favoravelmente a muito do que “encontram” nas redes sociais. Crenças prévias, trazidas de “fora”, são revestidas de novas camadas, transfiguradas em temas adequados à velha crença, produzindo por sua vez novas relações “reais”. A partir dessa dinâmica, sou de fato formado e carrego de volta ao “mundo lá fora” minha formação. Isso quer dizer que, se as redes trazem para “dentro” da internet o que havia lá fora, o que se condensou ali “dentro” também será, doravante, levado para “fora”. A Rede me auxilia a encontrar um produto do mesmo modo que me orienta a encontrar grupos de ódio ou eventualmente organizações mais complexas. Acredito no tema do “bandido bom é bandido morto?” Logo algum deputado que prega isso, ou grupos de ódio do facebook, estarão no meu horizonte de links, sem que eu os precise procurar. Os inesperados casos de brasileiros que, usando redes sociais, foram parar em grupos paramilitares na Ucrânia ou no terrorismo islâmico são apenas alguns exemplos.  Predisposições “reais” encontram algoritmos “virtuais”, que orientam tais predisposições em novas potências.

Agora, levando em conta o que dizem os “estudos CTS”: as redes sociais não são o “abstrato” versus o “concreto”, não se tem meramente o “virtual” contra o “real”. O que acima me referi por “dentro” e “fora” é inexato. O que há é um mecanismo no qual, “dentro” e “fora” induzem a dinâmicas inesperadas se considerarmos tecnologias mais antigas, como as dos blogs.

Seria preciso descrever o funcionamento desses investimentos… A meu ver, as coisas ocorrem quase como na época em que Freud criou a noção de “pulsão/impulso/trieb de morte”: como explicar a guerra, e principalmente a “atmosfera” que conduz a ela? Freud apelou à construção de um conceito reportado à condição humana, e mostrou que há investimentos não apenas orientados por Eros.

O que me parece relevante nisso tudo é que vivenciamos claramente uma nova escalada de ódio e violência. A considerar os ânimos, tudo funciona para nos encaminhar a novas e terríveis guerras, um pouco como Freud se estarrecia diante da matança da Primeira Guerra e via nascer as nuvens da Segunda. Voltando à nossa época, não preciso citar o discurso de posse de Trump. Nas expressões cotidianas, é nítido o ódio nas redes sociais e em diversas manifestações, inclusive artísticas. Há pouco um artista israelense precisou intervir contra as pessoas que fazem performances no Memorial do Holocausto. No Brasil, os casos de violência banal e motivados por estereótipos políticos começam a aumentar…

As pessoas não tiram tudo isso das próprias cabeças, e o alarme não estava tão vermelho assim 10 anos atrás.

Facebook, twitter, redes sociais: “fale sobre você”

Programas como o twitter e o de Zuckerberg emplacaram como “rede social”. Qualquer um sabe como opera: para além de simples  softwares, configuram conglomerados de dispositivos, agregando publicidade, especulação financeira, vigilância, tecnologias experimentais e inúmeros outros fatores.

Nesse imenso agregado, eu e você, nossa privacidade, o que temos de mais íntimo, aquilo que engendra nossas vidas e desejos, é uma das matérias principais a mover toda a maquinaria. O FB e o twitter funcionam principalmente porque respondemos, cada vez, à pergunta: “Fale sobre você”.

Essa pergunta funciona como um verdadeiro imperativo. E a finalidade desse imperativo, além de reforçar todo o conglomerado de dispositivos acima, é também a de aprimorá-lo, reiterar o sistema.

Nisso tudo é muito curioso ver como somos, aos milhões, arrastados pelo imperativo. A ponto de criarmos verdadeiras economias afetivas dentro desse negócio: somos capazes por exemplo de valorizar ou reprovar certas atitudes, reprovando condutas que não utilizam as redes sociais conforme esse imperativo.

Para redes como o Facebook e o twitter, nossa afetividade é verdadeiro objeto, e objeto de lucro e desenvolvimento de tecnologias para aprimorar ítens como lucro (mais lucro), vigilância e segurança. Parece um pouco surpreendente o quanto levamos isso a sério e transformamos isso tudo numa verdadeira vitrine. Como se ela traduzisse, sem recursos, quem somos nós.

O parlamento dos macacos

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Monkey parliament, Bansky

A obra de Bansky joga na cara um dos mais interessantes paradoxos de nosso tempo: na era do homo natura, nesse tempo no qual a arte “morreu”, as religiões caíram e o pensamento se reduz às diversas analogias com o animal ou a máquina, nesse tempo em que  impera o senso privado, onde haveria espaço para um parlamento? E que parlamento seria esse?

Esse cara não sou eu

Que as músicas chilet sempre existiram, talvez ninguém duvide. De repente, a novidade está no fato delas serem tão utilizadas nos últimos anos (ou talvez desde o último ano) na dita “indústria cultural”. Ou ainda, talvez desde há muito (talvez uns 60 anos em algum país totalitário da Europa) nunca aceitamos tanto sermos atravessados por enunciados que são deliberadamente exteriores, mas consideramos imediatamente interiores. Continuar lendo

dualismo invertido

O rapaz entra na van com o computador novo, na caixa, recém comprado no lojão. A van é pequena, apertada, insegura, com assentos sujos. O motorista é imprudente, e a categoria das vans – que ainda está em voga por uma questão de resolver as coisas na bala – apenas repete o mesmo mote dos restaurantes, mercados e todo o resto da cidade: se presto algum serviço, azar o do cliente. O serviço é para mim, não para ele.

O passageiro tenta acomodar o trambolho em meio à gente que sobe e desce. Se atrapalha não pede desculpas, como não lhe pedem desculpas quando esbarram na caixa. Afinal, na cidade tudo é assim. Logo o rapaz retira o fone de ouvido e mergulha na música do celular, como dentro em pouco conseguirá um mergulho ainda maior: em seu novo computador.

Afinal, ele não tinha um computador até hoje, e em meio a toda essa loucura ele profundamente só quer fazer o mesmo que todos nós: sair disso tudo (calor, concreto, laje, sujeira, rudeza no tratamento…) para deixar o pensamento e a imaginação em outro lugar (deixemos nossa mente lá – quanto ao corpo, resolveremos isso em um outro momento).

Dentro de algumas horas ele terá instalado o computador, até chegar a hora do trabalho na pizzaria. O rodízio é feito como todo o resto: a massa e os ingredientes são de segunda, a cerveja chegou ano passado (só estará ruim se reclamarem, certo?), e quando o lugar enche faltará gente para atender. Mas e o quê? Todo mundo pagará igual. E não dá 5 minutos, metade do restaurante estará se conectando com alguma coisa distante ou olhando para o celular.

O controle superdobrado

Em 1992 o filósofo Gilles Deleuze dizia que, no futuro, o controle sobre as condutas avançaria tanto que seríamos controlados até em ambiente aberto, inclusive com nosso consentimento.

Curioso notar, 20 anos depois, o seguinte: Você busca um tênis em qualquer site de vendas; você acessa uma lista de convidados, alunos, clientes, o que quer que seja. Logo o Google estará vinculando seu tênis buscado (ou algum semelhante) em qualquer anúncio da web; e o Facebook oferecerá, como “possíveis conhecidos”, a mesma lista de pessoas que você consultava há pouco. Que se imaginem as consequências.

20 anos atrás, o pensador citado acima escrevia coisas como:

Não há necessidade de ficção científica para se conceber um mecanismo de controle que dê, a cada instante,  a posição de um elemento em espaço aberto, animal numa reserva, homem numa empresa (coleira eletrônica). Félix Guattari imaginou uma cidade onde cada um pudesse deixar seu apartamento, sua rua, seu bairro, graças a um cartão eletrônico (dividual) que abriria as barreiras;  mas o cartão poderia também ser recusado em tal dia,  ou entre tal e tal hora; o que conta não é a barreira,  mas o computador que detecta a posição de cada um, lícita ou ilícita, e opera uma modulação universal.

A contemplação das estações

A New Season Approaches by Debbie Tubridy (DebbieTubridy) on 500px.com
A New Season Approaches by Debbie Tubridy

Autumn Bridge.... by Martin Kavanagh (murtkav) on 500px.com
Autumn Bridge…. by Martin Kavanagh

Circular em comunidades de fotografia traz costumes ainda existentes em alguns países: contemplar a mudança das estações.

O brasileiro tem esquecido disso, por pelo menos dois motivos: Em primeiro lugar, todo caipira, caiçara, nativo etc. mantinha relações com sua terra e a passagem das estações. Já o brasileiro urbano perdeu o vínculo com sua terra (porque a esmagadora maioria se tornou urbana; porque o senso de 2010 aponta inclusive “fuga” de trabalhadores para os centros urbanos; porque o avanço do agronegócio trouxe concentração de terras; porque a agricultura familiar não tem o mesmo estímulo do agronegócio).

O brasileiro se afastou tanto de sua terra, que sua relação com ela se resume ao slogan da propaganda de cerveja: “ah, é verão”. Verão = praia = bom (mesmo que quase nunca se vá à praia, e quando se vai há tanta gente que seria melhor não ter ido). E o contrário também: inverno = chuva = ruim. Como se todo o resto não fosse vida, como se enfim não vivêssemos todo o resto, mesmo que nos recusemos a viver parte considerável de nosso mundo e vidas.

Em segundo lugar, mudamos de tal modo nosso país que às vezes é bastante difícil perceber a mudança do tempo. Nosso esforço de transformar o mundo numa laje segue de vento em popa. E o vento ficou bastante quente por sinal. Exige a silenciosa (ou nem tanto) política do ar condicionado.

Sobre anonimato e intimidade

Palavra sobre o anonimato e a preservação da intimidade: dias atrás, no aeroporto, os policiais encontraram “algo” em minha mochila. Mochila de volta no Raio X, novamente ali o “algo”. Alguns policiais ao redor começam a se acercar. Todos à volta percebem e, como é de se esperar, a situação fica tensa. Até parecia que eu estava sendo “pego”. Um policial põe a luva e pergunta “você autoriza que eu reviste sua mochila?” “Claro”, digo. Situação tensa, todos olhando, e lá vai o guarda tirar minhas blusas, livros, câmera etc. Tudo no Raio X, e de repente o resultado: o “algo” não passava de meu carregador com as pilhas, que estava do lado do mini tripé de metal. Então, como se nada tivesse acontecido, nem transtorno e nem falta de cautela dos guardas, sou liberado.

Isso tudo é curioso, pois nossa intimidade é tratada como um nada, algo que deve ser (especialmente no país do “Você sabe com quem está falando?”) aberto sem muitas cerimônias e cuidados.

De lá para cá (Facebook, Google…), além de simplesmente nos sentirmos constrangidos a expor nossas intimidades sem muitos pretextos, fazemos isso voluntariamente. Tudo o que escrevemos no Facebook e em outros lugares (Google…) não é privado, mas sim está mais ou menos aberto para empresas bilionárias. Basta navegar um pouco e ver que o assunto que você navegava começa a aparecer nos anúncios publicitários das páginas visitadas. Os dados pessoais são cruzados com produtos, isto é, a intimidade é relativa e nem é possível dizer que “pode ser violada por mãos humanas”, visto que de saída já o foi, mesmo se a manutenção de tudo permanece sendo da máquina.

Enquanto isso o Mundo inteiro, especialmente no que diz respeito ao Mercado e à Política, mantém suas reservas, bastidores e segredos. Nossa intimidade virou um livro aberto, enquanto as operações que mudam nossas vidas seguem com todo sigilo.

Em vários lugares do Brasil é engraçado o tom que as pessoas dão à intimidade, afetividade e afins. Sou hospedado em um lugar e me chamam de “meu filho”; vou almoçar e me chamam de “irmão”; vou pagar e o caixa diz em voz alta “E aí meu camarada!” Mas se trato qualquer um com cortesia, mas sem estardalhaço, sou mal visto. E isso inclusive quando o serviço é péssimo. Pego o transporte público e fico sabendo (na maior parte das vezes em alta voz) que fulana tem a sobrinha viciada, que cicrano chama a si mesmo de “um velho safado que trai sua mulher”, que beltrano causou um acidente mas não está muito aí… As intimidades todas jogadas a algum holofote ocasional, como se qualquer porcaria devesse receber um holofote. Mais ainda: se qualquer coisa é oferecida a um possível holofote, não haverá qualquer constrangimento quando algum holofote aparecer.

A profusão de mediocridade apenas prepara a abertura das intimidades…

Disso tudo, não parece má idéia manter certa “intimidade” e, quando possível, o anonimato. Caso queiram alguma palavra pop, trata-se de “constituir para si um lado de dentro”, como diria um filósofo. Afinal, o movimento é todo contrário… (e já começaram as seleções para o Big Brother!)