Brasil terceirizado

Cenário: você é um Headhunter no universo da terceirização. Monta uma, ou várias, prestadoras de serviço. Afinal, qualquer trabalho pode ser terceirizado. Você então faz uma boa publicidade prometendo emprego certo (pouco importa se isso é verdade).

Os candidatos a “colaboradores” começam a aparecer. Você divulga a maravilha que é as pessoas pertencerem a seu leque de “colaboradores”. Para participar dele, elas precisam pagar uma “taxa administrativa”. Poderá ser única, “de manutenção”, trimestral ou, com jeitinho, até mensal. Pode haver desde o plano básico até o plus.

Quanto ao emprego de fato, depende: quem o candidato é ou conhece tem total preponderância. Berço, entende?  O curriculo vem em segundo ou terceiro lugar. E está no contrato: o pagamento é garantia de que o candidato será mantido no diretório de possíveis colaboradores, e NÃO de que será contratado. É preciso ter lábia. E a empresa que contratou serviço também vai ter poder decisório, mesmo que na prática, na manha. 

Com muita sorte, o headhunter é idôneo e tem de verdade contato com empresas (lembremos: o contrato não garante contratação).

Então um candidato é eventualmente chamado. Trabalhará sob o novo vínculo temporário, por 6 meses. Vínculo temporário é mais barato, entende? E a lei agora permite alargar mais 3 meses, 9 meses no total. Perfeito! Pode-se contratar em março e demitir no fim de novembro!

Depois de demitido, o feliz colaborador pode renovar o contrato de headhunting, ou até pagar um plano diferenciado. Depende sempre do berço.

Você, headhunter, enriquece. Quem sabe, para o colaborador, ano que vem tem mais.

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Instituições psiquiátricas de São Paulo constrangem atividade científica de professor da UFSCAR

Há tempos a imprensa brasileira tem divulgado diversos dados no mínimo polêmicos sobre os hospitais psiquiátricos na região de Sorocaba (SP). Dentre outras coisas, essas denúncias apontam a surpreendente média de uma morte a cada três dias nos últimos 8 anos (!), bem como  o aumento de mortes no inverno e por doenças infecto-contagiosas. Em suma: considerando esses e outros dados, algo muito estranho ocorre por lá.

O professor Marcos Vieira Garcia, da UFSCAR, é responsável por vários dos relatórios que serviram de fonte à imprensa. Visto que a região possui grande número de pacientes sob atendimento institucional, a necessidade de expor publicamente trabalhos no assunto é evidente.

Mas o prof. Vieira Garcia começou a sofrer diversos constrangimentos por realizar seu trabalho. Depois da publicação de dados científicos – lembre o leitor que o debate científico tem a função de criar um debate público com consequências públicas, por isso não implica, por definição, questão passional alguma, a não ser sob a constatação pública de que a pesquisa foi um engodo  -, uma junta de instituições psiquiátricas da região moveu ações de dano moral contra o professor da UFSCAR.

“Dano moral”: tudo se passa por exemplo como se o prof. Garcia hipostasiasse o nível propriamente científico de suas pesquisas e empregasse, contra instituições locais, a pura e simples ofensa, o engodo que é dano moral e não pesquisa com consequências públicas.

Diversos lances denunciariam, sob a ação jurídica, influência política para calar as implicações da pesquisa de Garcia. Caso contrário, por que retirar o mérito do debate e colocá-lo na imputação jurídica? Se o professor estivesse errado, bastaria refutá-lo em arena científica para então legitimar ação jurídica. Tentar calar sem debate só depõe contra os acusadores.

O professor criou um blog nesse endereço, onde expõe os fatores do caso. Diversas entidades de pesquisa manifestaram seu apoio.

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E para além do caso particular, tem-se aqui um evento de perigosas consequências: a intromissão de fatores políticos e interesses particulares em dados e consequências de uma pesquisa.

Sobre a prática do psicólogo e o ensino de epistemologia e história da psicologia

Tenho acompanhado algumas questões envolvidas com o ensino de História e Epistemologia da Psicologia em faculdades particulares. É muito interessante ver como o ensino de tais disciplinas é encarado pelo “senso comum” da psicologia:

– Em primeiro lugar, as duas são disciplinas ministradas no início do curso, geralmente no primeiro ano, para “apresentar” ao aluno as disciplinas psicológicas. Isso é muito importante, embora o ensino deixa uma série de questões muito sérias do ensino de história: como ensinar aos alunos de psicologia simplesmente o modo em que a psicologia se tornou ciência, sem ter uma noção clara do que é ciência e do que está em jogo quando se fala de ciência psicológica? Há, no surgimento da psicologia, todo um diálogo envolvendo questões filosóficas, e uma série de críticas à legitimidade “científica” da instauração de uma ciência psicológica. Em suma: se a psicologia não é ciência, o que a faz diferente de outras práticas, como o curandeirismo e as religiões? E se é, qual é seu estatuto enquanto psicologia e enquanto ciência, “exata” e/ou “humana”? Continuar lendo