Dois livros sobre budismo Theravada

É incrível como o budismo, ou mais precisamente os dizeres sobre “mindfulness“, estão cada vez mais na moda.

O que parece curioso, nisso tudo, é que o tal “mindfulness” já invadiu os meios empresariais e virou até dica para franco-atirador. Para espanto dos budistas – não só deles -, vamos dizer assim.

No meio disso tudo, nos últimos tempos o Brasil recepciona dois livros introdutórios ao budismo Theravada e, também, ao dito mindfulness segundo as tradições mais antigas. O autor é Bhante Henepola Gunaratana, e os livros são “Atenção plena em linguagem simples” e “Oito passos atentos para a felicidade” (a respeito do “Nobre Caminho Óctuplo”), ambos pela Editora Gaia.

Duas outras referências brasileiras no assunto são o site “Acesso ao Insight“, com inúmeros textos e livros do cânone Theravada, e aparentemente também a Sociedade Budista do Brasil, no RJ.

 

Agindo pelo não-agir

Livro interessante de Edward Slingerland, “Effortless Action – Wu-wei as conceptual Metaphor and Spiritual Ideal in Early China“.

Como se sabe por aqui (ou talvez, nem tanto), o Wu-Wei, traduzido por “agir pelo não-agir”, é um dos motes centrais do Taoísmo, filosofia chinesa (VI a. C.) que acabou se contrapondo (e se misturando) com o confucionismo.

Por aqui, recebemos os motes do Taoísmo sob certos motivos românticos, um pouco misturados com pensamento New Age. Aquela velha fórmula de uma fonte originária, não-discursiva, fundamento do mundo contra a maldosa razão ocidental.

O estudo de Slingerland às vezes parece com isso, por exemplo quando ele propõe uma “filosofia da espontaneidade” contra nosso maldoso racionalismo.

Por outras vezes, parece recuperar certos tons orientalistas um pouco mais… honestos? Enfim, segue informe sobre Slingerland aqui, e aqui um artigo preparatório de seu livro. Aqui, segue a referência de sua dissertação.

Dentre a fortuna, especialmente interessante é a recente descoberta de documentos antigos de filosofia taoísta, inscritos em bambus:

Hence the preoccupation with wu wei, whose ancient significance has become clearer to scholars since the discovery in 1993 of bamboo strips in a tomb in the village of Guodian in central China. The texts on the bamboo, composed more than three centuries before Christ, emphasize that following rules and fulfilling obligations are not enough to maintain social order.

These texts tell aspiring politicians that they must have an instinctive sense of their duties to their superiors: “If you try to be filial, this not true filiality; if you try to be obedient, this is not true obedience. You cannot try, but you also cannot not try.”

Enfim, os anos 1990 não são tão recentes, mas não deixa de ser alguma novidade. 🙂

Para o leitor brasileiro, ainda vale um lembrete: há pouco a Editora da Unesp lançou uma esperada edição do Tao Te Ching.

A roda do tempo

Kalachakra ou A Roda do Tempo, lindo documentário de Werner Herzog, de 2003. Aqui, a versão em inglês. Aparentemente, aqui tem com legenda.

Mas o que me fez escrever esse post é um exemplo que me tocou: um peregrino vai à pé até a árvore Bodhi desde terras “mais longínquas do que o Tibet”. Para traduzi-lo, precisam de duas pessoas, uma que verta seu dialeto ao tibetano, e outra do tibetano ao inglês. O peregrino fez todo o caminho não apenas à pé, mas em prostração, durante 3 anos e meio. Estava ali, junto à árvore do Buda e sereno.

O mundo e suas antigas práticas de peregrinação e hospedagem ainda existe.

Evangélicos, índios e intolerância religiosa

Texto essencial de Felipe Milanez, sobre a evangelização (mais ou menos forçada, travestida de “escolha”) dos índios e suas articulações com outros interesses ideológicos.

“Convenceram todo mundo a ser crente. Botaram uma ameaça no nosso coração, dizendo que sem essa religião todo mundo iria para o inferno, que nós não teríamos salvação, não seríamos capaz de ser um povo feliz. Que nós vivíamos com o demônio. Que nossos rituais e nossas crenças eram coisas do demônio.”

“nosso povo estava não apenas perdendo a língua, mas perdendo o nosso espírito. Nossa conexão espiritual com nós mesmos, com a natureza, com o nosso mundo, com os nossos ancestrais”

Ágora, de Alejandro Amenabar

 

Quando assiste Ágora, filme de Alejandro Amenabar (2009, download do filme ou comprar DVD), por vezes o espectador é lançado, junto com as imagens, para o espaço. As tomadas, situadas nos dramas dos homens, de repente se afastam rapidamente da terra, mostrando então uma Alexandria cada vez mais pequenina (a despeito de sua grandeza histórica), até sumir do olhar. Junto com as imagens, os sons (o tumulto, o burburinho das intrigas), também gradativamente silenciam enquanto a "câmera" se afasta, deixando o espectador à mercê de um planeta mudo e desolador.

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Ateísmo e ateísmo

Durante essa semana Porto Alegre foi a primeira capital brasileira a exibir outdoors "ateus".
 
Pelo visto, o "ateísmo" (ou mais rigorosamente: certo ateísmo) parece se definir pela crença, baseada às vezes em foro íntimo e por outras vezes em algum primado científico (ou nos dois), da não existência de Deus.
 
Se historicamente o ateísmo parece ter recebido em nossa cultura caráter vazio ou negativo (pois se avizinhou de valorações como as do absurdo, o erro do juízo, o vazio do não-ser,  a blasfêmia ou a manifestação de alguma entidade maligna), hoje aparentemente essa noção impõe para si mesma um estatuto positivo e uma curiosa consistência (às vezes até mesmo próxima das apologéticas de alguns sectos cristãos).
 
O ateísmo se encontra em nossa cultura entre duas outras questões maiores: em primeiro lugar, advogamos para nós mesmos uma sociedade "pluralista", na qual qualquer crença pode ser adotada e todas elas devem ser respeitadas (sob o limite da liberdade alheia, e aqui o ateísmo conforme a definição acima dá as mãos com a noção de uma sociedade plural). 
 
Mas em segundo lugar, o ateísmo coloca (ou deveria colocar, coisa que não se faz muito) o problema mesmo de nossa própria cultura. Na linha de Nietzsche, muitos enunciaram (por exemplo, desse modo) o problema de um ateísmo não reduzido a mera crença privada.
 
Nesse contexto, o modo de Fernando Pessoa abordar o problema na figura de Bernardo Soares é tão bem feito quanto bonito (vale dizer: e um tanto esquecido no meio de tanta certeza). Por exemplo:
Pertenço a uma geração que herdou a descrença na fé cristã e que criou em si uma descrença em todas as outras fés. Os nossos pais tinham ainda o impulso credor, que transferiam do cristianismo para outras formas de ilusão. Uns eram entusiastas da igualdade social, outros eram enamorados sé da beleza, outros tinham a fé na ciência e nos seus proveitos, e havia outros que, mais cristãos ainda, iam buscar a Orientes e Ocidentes outras formas religiosas, com que entretivessem a consciência, sem elas oca, de meramente viver.
 
Tudo isso nós perdemos, de todas essas consolações nascemos órfãos. Cada civilização segue a linha íntima de uma religião que a representa: passar para outras religiões é perder essa, e por fim perdê-las a todas.
 
Nós perdemos essa, e às outras também.
 
Ficámos, pois, cada um entregue a si próprio, na desolação de se sentir viver. Um barco parece ser um objecto cujo fim é navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto. Nós encontrámo-nos navegando, sem a ideia do porto a que nos deveríamos acolher. Reproduzimos assim, na espécie dolorosa, a fórmula aventureira dos argonautas: navegar é preciso, viver não é preciso.
 
Sem ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a ilusão de quem não pode ter ilusões. Vivendo de nós próprios, diminuímo-nos, porque o homem completo é o homem que se ignora. Sem fé, não temos esperança, e sem esperança não temos propriamente vida. Não tendo uma ideia do futuro, também não temos uma ideia de hoje, porque o hoje, para o homem de acção, não é senão um prólogo do futuro. A energia para lutar nasceu morta connosco, porque nós nascemos sem o entusiasmo da luta.

Uns de nós estagnaram na conquista alvar do quotidiano, reles e baixos buscando o pão de cada dia, e querendo obtê-lo sem o trabalho sentido, sem a consciência do esforço, sem a nobreza do conseguimento.

Outros, de melhor estirpe, abstivemo-nos da coisa pública, nada querendo e nada desejando, e tentando levar até ao calvário do esquecimento a cruz de simplesmente existirmos. Impossível esforço, em que[m] não tem, como o portador da Cruz, uma origem divina na consciência.

Outros entregaram-se, atarefados por fora da alma, ao culto da confusão e do ruído, julgando viver quando se ouviam, crendo amar quando chocavam contra as exterioridades do amor. Viver doía-nos, porque sabíamos que estávamos vivos; morrer não nos aterrava porque tínhamos perdido a noção normal da morte.

Mas outros, Raça do Fim, limite espiritual da Hora Morta, nem tiveram a coragem da negação e do asilo em si próprios. O que viveram foi em negação, em descontentamento e em desconsolo. Mas vivemo-lo de dentro, sem gestos, fechados sempre, pelo menos no género de vida, entre as quatro paredes do quarto e os quatro muros de não saber agir.

Homens e Deuses

 
 
 Com muita curiosidade assisti, a partir da crítica de Bruno Cava, Des Hommes et des Dieux, filme aplaudido em Cannes no ano passado.

Em sua crítica, Cava chamou a atenção a um elemento: "são humanistas", comentava ele sobre o filme.

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O cristão e o hacker

Um padre jesuíta chamado Antonio Spadaro publicou um artigo intitulado Etica "hacker" e visione cristiana na Civiltà Cattolica, importante veículo dessa religião.

Spadaro difere em primeiro lugar "hacker" de "cracker". Ele evoca uma distinção já conhecida: o "cracker" transgride as regras em prol de seu prazer individual; já o "hacker" atuaria conforme certo teor de, diga-se, "universalidade". Enquanto o cracker se concentra no ganho pessoal por via do delito, o hacker interfere  em regras grosso modo de maneira "criativa", criando novos caminhos e alternativas mais livres para a coletividade. Assim, tais atos de criação emulariam virtuosamente a própría dimensão criativa de Deus. 

Ao invés da repetição, a busca de alternativas; ao invés do lucro, a divisão. Substitui-se a individualidade pela coletividade; o individualismo, pela colaboração.

O autor italiano reconhece diferenças entre os dois universos, por exemplo a hierarquia institucional católica e a radical horizontalidade hacker. Mas parece tentar extrair direções do "hacker" afins a certas inspirações cristãs.

É curioso notar que, em certo sentido e em termos bem gerais, a Igreja Católica sempre teve duas grandes vertentes, relativamente não conciliadas. De um lado, séculos de fortuna dogmática acumularam todo um universo de regras (Regulae) de conduta, não poucas vezes semelhantes à halaká judaica – prescrições sobre como se comportar em determinadas situações gerais ou específicas, interdições etc.

De outro lado, outras direções (às vezes em um mesmo movimento) buscaram temas muito mais ligados à espiritualidade e muito menos à regra. O movimento trapista, por exemplo, é extravasado e desdobrado em curiosas direções sob o nome de Thomas Merton; e no Brasil salta aos olhos a coexistência de movimentos como a TFP (bastante afim à ordem estabelecida e a relações de autoridade) e a CPT (ligada aos movimentos populares e a diversas manifestações como a Romaria da Terra).

Um dos links acima situa o artigo de Spadaro como uma nova atenção da ICAR às novas tecnologias. Resta ver para quais  das "direções" acima essa atenção apontará.

A Campanha da Fraternidade e o papel político da Igreja

A CNBB lançou em 2011 o novo slogan de sua Campanha da Fraternidade: ‘A criação geme em dores de parto‘.

Trata-se de chamar a atenção ao que o homem faz com seu mundo, mostrando a necessidade de ações para impedir o famoso aquecimento global.

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