A crise atinge a juventude

Nos últimos 15 anos, tenho viajado muito pelo Brasil e visto muitas coisas. Uma delas é que, por milhares de quilômetros, tornou-se muito mais difícil ver casas de pau a pique, de compensado ou de papelão, bem como favelas debaixo de pontes.

As favelas mesmas (e para dizer isso é Rio, Salvador e Sampa que tenho em mente) se tornaram conglomerados de tijolos, às vezes com muitos andares. E cidades que antes eram barro e madeira, agora configuram residências de tijolo, afastando inclusive aquela impressão de favela, antes tão presente em tantos lugares (embora, para perceber isso, era preciso andar, e muito, nesse brasilzão, e com uma percepção que não é a do velho costume de abstrair dos bem nascidos).

Isso significa que a vida do brasileiro melhorou. Muita gente voltou do sudeste maravilha para regiões anteriormente consideradas “pobres”.

Mas é impressionante ler essa notícia, sobre o fato de que desde 2014, o número de engenheiros demitidos tem aumentado frente ao número de contratados.

Isso significa muitas coisas. Uma delas é de que a crise chegou, de fato, num arco que vai desde a formação até a contratação (na educação ela já estava faz tempo). De algum modo, é o verdadeiro esgotamento daquela ideologia das empreiteiras, que já existia desde a Ditadura e que o PT soube aproveitar para si numa espécie de “neodesenvolvimentismo tupiniquim”.

Essa ideologia de empreiteiras funcionou de muitas formas, desde aquela que todo dia vemos na TV via Lava Jato, até aquela das construtoras privadas que, nos mesmos últimos 20 anos, aprenderam a construir muita coisa com pouco dinheiro e qualidade. Engenheiros foram necessários para ambas as opções. Vimos nos últimos anos pontes e viadutos caírem e estádios faraônicos inundarem ou racharem. Vimos também conjuntos inteiros – muitos deles financiados com o “Minha Casa, Minha Vida” – ruírem, embora sob menos publicidade.

Muita gente ficou muito rica ao construir esse lugar que hoje você aluga ou paga prestação, embora tenha que dar conta também dos defeitos inesperados que apareceram depois de alguns anos.

Ver agora engenheiros não contratados e precisando de outros bicos é algo muito simbólico. Significa que o Brasil voltou a ser o que era: não mais um país de empreiteiras gastando alto por altos conluios e propinas, mas um país de empreiteiras gastando baixo por altos conluios e propinas. Adivinhe quem está pagando o pato pela mudança?

Ao menos, um historiador do futuro poderá dizer que tirar o PT custou verdadeiramente caro, pois fez até o blocão dos políticos perpétuos  (aquele, do “grande acordo nacional“) viver de vacas menos gordas (magras, nunca).

Tenho visto, por exemplo no Nordeste, que o pessoal começou a perceber também que a crise chegou por lá. Preciso dizer que o Sul é absolutamente burro em julgar o Nordeste sem conhecer. Nos últimos anos, houve por lá uma verdadeira revolução nos modos de vida. O incauto do Sudeste nem imagina que muitas cidades do Nordeste, antes sob aquela aparência de abandono, hoje dão de 7 x 1 em muitas, mas muitas cidades do Sudeste, em termos de urbanização, esgoto, postes de luz etc.. Mas a situação começa a não ser mais a mesma. Questões mínimas de consumo, como ter geladeira e fogão ou trocar de carro, começam a ficar mais difíceis.

Outro significado muito importante é que a dita “crise” já atinge novamente a juventude. Isso significa que estamos gestando uma verdadeira bomba social. Muita gente melhorou de vida. E não vai querer piorar. As pessoas estão acessando a universidade, e o dito “mercado” não vai mais precisar delas (inclusive, ninguém informou essas pessoas que 90% da educação ampliada nos últimos 15 anos é ridiculamente péssima).

Não à toa, a dita “reforma” pretende precarizar as relações de acesso ao trabalho. É bastante lógico: flexibilizar as contratações de uma população que melhorou de vida, mas piorou na formação, embora o principal é que, bem formada ou não, não é mais necessária para manter o blocão (e vai demorar um bocado para perceber, por incrível que pareça).

Algo muito preocupante está se desenhando. Um pouco como uma volta aos anos 90, só que com mais pessoas, maior circulação de bens e mais patrimônio construído.

Diziam que “o gigante acordou”. O fato é que não viram ainda o tamanho do tombo.

Entre o bico de professor e o de garçom…

A imagem acima é do ano passado. Muitos dizem que foi exagerada. Mas e o que dizer disso, por exemplo? Breve citação:

ficar abaixo desse nível significa que os alunos não são capazes de enfrentar situações financeiras diárias para poder tomar decisões – como reconhecer o simples montante de um orçamento ou saber, em função do preço, se é melhor comprar tomates por quilo ou por caixa. De acordo com o estudo, 53% dos alunos brasileiros na faixa de 15 anos ficaram abaixo do nível de conhecimentos financeiros mínimos.

Em relação aos professores, alguém poderia lembrar que a Reforma Trabalhista, com as terceirizações e o trabalho intermitente, cria condições de interpretação perigosa. A Reforma da Previdência estabelece maior tempo de trabalho para a aposentadoria. E os índices de procura nas licenciaturas mostram que a procura para a profissão de professor tem reduzido drasticamente.

Quanto ao dado da OCDE, permite dizer:  já não dá mais nem pra ser garçom.

Não é mais normal ser professor #naoenormal

Na mesma noite, recebo dois posts: o primeiro, acusando a universidade pública em geral de “causar depressão” nos estudantes. O segundo, informando que professores “dizem sofrer” (com dois verbos, assim mesmo) censura de simpatizantes do Escola Sem Partido.

A sincronicidade é incrível.

É certo que a educação, do básico ao superior, mudou muito nos últimos anos. Mas é absolutamente surpreendente o fenômeno: onde a educação diz rigor, qualidade, reflexão, à direita acusam de doutrinação, e à esquerda acusam de tradicionalismo.

É certo que as universidades públicas ainda carregam ranços de tradicionalismo. E por isso o vídeo acima quer dizer: há professores de gerações antigas que são insensíveis a questões pedagógicas mais construtivas e utilizam sua autoridade para negar cidadania aos alunos no mundo do Saber; há igualmente certo lobby de produtivismo, mais recente, que fica intolerante às questões pessoais.

Isso está completamente certo.  Mas é inteiramente errado quando pretende generalizar. E é míope também.

Para começar o assunto, as universidades não são mais as mesmas. As públicas, que sempre tiveram pesquisa e extensão, não ditam mais as regras. Os professores cada vez mais perdem direitos e espaço que não seja o de sala de aula. Aula está se tornando a finalidade última da universidade, que está perdendo a dignidade do nome de “universidade”. Proliferam os vínculos horistas, que dispensam pesquisa. E o lobby das privadas achata, cada vez mais, o ensino num didatismo forçado, que para dar justo nome à coisa não passaria de uma forçada facilitação.

É incrível o número de professores que adoecem com isso, ou precisam não mostrar que adoecem sob a pena de perderem o emprego.

Sob pretexto de “não afetar os alunos”, as Unidunitês por aí fazem para suas avaliações bancos de questões baseadas em manuais ultrapassados (quando não, apostilas facilitantes), ou permitem sistemas de avaliações cuja única função é a de existir para dizer que algo foi feito. Muitas vezes isso tudo é coordenado por quem não tem olho na pedagogia, mas no bolso. Alunos de exatas não aprendem a calcular e de humanas não aprendem a ler. As questões analíticas são negligenciadas em nome de uma instrução programada, para não causar dificuldade ou sofrimento.

Não bastasse isso, o aluno que entra em universidade não tem formação suficiente. A coisa já vem da base. O professor é muitas vezes constrangido a fazer milagres, pois o comportamento do aluno também mudou muito. Ele não mais se dedica a fazer o mínimo. Há 20 anos existia certo pacto de mediocridade, no qual os alunos ao menos faziam o mínimo. O pacto de hoje é de não fazer nada: aprovação automática. E o professor, além do mais, precisa contemplar índices de produtividade, quer dizer, de aprovação.

O dilema é cruel: Reprovar significa demitir, aprovar significa ser desonesto e, em qualquer das duas hipóteses, o professor será visto como mal professor, sem ética, caráter ou didática. Não há para onde correr, pois a linguagem de fundo é a do dinheiro, não a pedagógica. Sob pretexto de didatismo, a TV gosta de mostrar soluções pessoais de professores mirabolantes, e não o fato de que educação requer discussão pública e suprapessoal. Mas ora bolas, diante de tanta coisa, o professor é alguém a quem é possível apontar o dedo em riste.

Vida dura, a de professor. E nem vou lembrar que a Reforma Trabalhista traz agora o trabalho intermitente, as terceirizações e os vínculos que dispensam remunerações complementares ao estrito horário em trabalho (preparar aula, qualificar-se e corrigir avaliação: pra quê?). Ou que a Reforma da Previdência aumentará o tempo para aposentadoria integral. Ou que as licenciaturas – por que será? – não são mais atrativas.

Afinal, o professor não passa de um tradicionalista que causa depressão nos alunos. Ou ainda, não passa de um doutrinador.

A leitura e o mundo novo

O mundo mudou.

Anos 80: “não leio porque não tenho instrução, a vida não me permitiu isso”

Anos 10: “não gosto de ler, acho uma perda de tempo. A nao ser que prenda muuuito minha atenção”

São dois modelos civilizatórios, dois sistemas de exclusão, dois regimes tecnológicos, dois tipos de luta diversos. A leitura como o perigo de produzir um mundo novo; a leitura porque não importa, não produz mais nada.

Brasil terceirizado

Cenário: você é um Headhunter no universo da terceirização. Monta uma, ou várias, prestadoras de serviço. Afinal, qualquer trabalho pode ser terceirizado. Você então faz uma boa publicidade prometendo emprego certo (pouco importa se isso é verdade).

Os candidatos a “colaboradores” começam a aparecer. Você divulga a maravilha que é as pessoas pertencerem a seu leque de “colaboradores”. Para participar dele, elas precisam pagar uma “taxa administrativa”. Poderá ser única, “de manutenção”, trimestral ou, com jeitinho, até mensal. Pode haver desde o plano básico até o plus.

Quanto ao emprego de fato, depende: quem o candidato é ou conhece tem total preponderância. Berço, entende?  O curriculo vem em segundo ou terceiro lugar. E está no contrato: o pagamento é garantia de que o candidato será mantido no diretório de possíveis colaboradores, e NÃO de que será contratado. É preciso ter lábia. E a empresa que contratou serviço também vai ter poder decisório, mesmo que na prática, na manha. 

Com muita sorte, o headhunter é idôneo e tem de verdade contato com empresas (lembremos: o contrato não garante contratação).

Então um candidato é eventualmente chamado. Trabalhará sob o novo vínculo temporário, por 6 meses. Vínculo temporário é mais barato, entende? E a lei agora permite alargar mais 3 meses, 9 meses no total. Perfeito! Pode-se contratar em março e demitir no fim de novembro!

Depois de demitido, o feliz colaborador pode renovar o contrato de headhunting, ou até pagar um plano diferenciado. Depende sempre do berço.

Você, headhunter, enriquece. Quem sabe, para o colaborador, ano que vem tem mais.

Devo contratar/demitir um socialista?

Rapaz, estão saindo até textos com dicas para não contratar os “socialistas”, ou para demiti-los com preferência.

Disso, não sei o que consegue ser pior: se a política transformada em puro ódio ou a imensa desinformação (talvez burrice) de alguns caras. Por isso, vou começar por algo bastante trivial: não sou um desses “socialistas”, ok? E nem acho que isso teria alguma importância. Dito isso, contra os textos mencionados acima e o que eles dizem, não é inútil escrever os tópicos abaixo. Lá vai:

“A crise foi causada por esse governo E ele é socialista”

1) Sinceramente? Acho que há um bom quinhão de responsabilidade no governo Dilma sobre tudo de ruim que ocorreu a ela. Aliás, acredito que o PT colhe hoje os frutos de um pacto com o “diabo” feito desde o primeiro governo Lula (tal como esse blog já disse algumas vezes). Pacto com o “diabo”? Sim, meus caros: pacto com tudo o que existe de retrógrado na política brasileira desde os últimos 500 anos. Lembram daquele falatório sobre “pacto social” (depois de Lula ter José Alencar na chapa), depois “governabilidade” e então “governo de coalizão”? Isso é, em bom tom, a distribuição de cargos e benesses, aquilo que tornou o mensalão possível. Tais atos dizem respeito – algum historiador dirá isso no futuro – ao movimento gradativo do PT chafurdar na lama, primeiramente para sustentar seus fins sob os meios da política lamacenta brasileira, e depois apenas para se garantir no poder.

2) Mas se você é realmente honesto, deveria considerar uma coisa em termos de Realpolitik: o PT chafurdou numa lama que, infelizmente, já existia. Sim, culpa do PT. Mas sim, culpa da lama que, aliás, continuará existindo, e provavelmente mal cheirosa como nunca (por culpa de nós todos, aliás).

3) Isso envolve outra infeliz questão: como seria possível o PT, com Dilma, tornar-se um governo tão ruim, uma vez que Lula saiu do governo com esmagadora popularidade e Dilma foi total continuidade? Isso não se explica apenas  por incompetência. Não tivemos apenas um governo inviável, mas também – e talvez sobretudo – um governo inviabilizado. Ou senão, basta revisitar a posse de Dilma-1 para rever ali, ironicamente, as mesmas tentativas que se tornaram bem sucedidas após as eleições de Dilma-2. Está tudo ali, desde a tentativa de dividir o Brasil, até a busca desenfreada por algum motivo que justificasse o impeachment.

Isso dito, se você chegou até aqui, é preciso dizer algo mais. Nem o governo do PT é de “esquerda” e nem a “esquerda” é “socialista”.

4) Claro, diante da histórica oligarquia brasileira, qualquer cidadão que dividiu o pão algum dia é “de esquerda”.

5) Mas meu amigo, informe-se: o governo Lula, e depois Dilma, beneficiaram imensamente os bancos. Sob o PT, o Código Florestal foi reformulado a favor dos ruralistas (a meu ver, o fator mais surreal disso é o apoio do… PCdoB!). Terras indígenas não foram agilmente demarcadas. Belo Monte foi construída sob corrupções e desmandos ainda a serem apurados. Mais ainda: os escândalos do PT envolvem os grandes empresários brasileiros, as empreiteiras que mobilizam a política mas ficaram tanto tempo nas sombras. E o PT já jogou as ditas “forças de segurança” contra militantes “de esquerda”. Patrocinou desocupações para a Copa e fechou os olhos para a matança dos Guarani-Kaiowá. Sob o governo do PT, é certo que as universidades federais foram de algum modo fortalecidas. Mas o contexto é complexo e existe a contraparte: sob imensos riscos, da estabilidade do servidor, da terceirização dos serviços e do avanço da precariedade, as universidades públicas tiveram sob o PT as duas maiores greves da História. Esquerda? Socialismo?

5) A esquerda não é socialista. Ah sim, certamente você vê bastante gente vestida de vermelho. Mas, do mesmo modo como os “verde e amarelos” não se resumem a apoiadores de Bolsonaro (ainda bem, não é mesmo?), os “vermelhos” não são necessariamente socialistas. Aliás, o socialismo foi mais do que revisto durante os século XX. Um “socialista” ortodoxo (?) e/ou fã do estatismo “real” de Stalin, se você achar alguém assim, por favor, interne. Pois se o cara é leitor de Marx, ele certamente não deixou de ler também os outros marxistas que, como Marx ensinou, foram sensíveis às inúmeras mudanças históricas do século XX (rapidamente: se você acredita que o “socialismo vai tirar tua propriedade” ou é contra o mérito do trabalho, é melhor sair por aí e ler um pouco). Isso para não citar aqueles que requerem independência ou alheiamento ao legado marxista. Basta citar, nisso, o “Marx mais além de Marx”, de Toni Negri, e as inúmeras questões de Foucault, bastante desenvoltas para com o marxismo. Duas outras esquerdas, mas não socialistas.

6) Mas olha só: isso não significa nem que esses tais socialistas – mesmo os ortodoxos – são “bolivaristas-venezuelanos”, e nem o contrário. Falo isso, obviamente, para evitar outra associação, a de que ser de esquerda = ser socialista e isso implica ser bolivarista-venezuelano conforme certa crendice entrevista por aí, por ex. em revistas como a Veja. Aliás, já mostramos por aqui que Marx e Bolívar não eram algo tão a ver assim. Nem o “socialismo do século XXI”, aquele que existia com Chavez, é um socialismo clássico. Talvez não passasse de um estatismo financiado a petro-dólares.

7) Disso, parece louco e vai chocar os leitores da Veja mais babões, mas… nem o governo do PT é socialista-bolivarista. Novamente, é preciso dizer: é claro que qualquer governo que teve qualquer acento social, diante de 500 anos de história de uma América Latina continuamente estuprada, pode ser visto como alguém de esquerda (o que, nesse sentido, é um belo título, inclusive até para quem quer brincar de ser liberal). Mas o Brasil não se transformou numa economia fundamentada em petrodólares, nem num estatismo dependente daquilo. Aliás, gostei do termo “neoliberalismo soft” (contra o “neoliberalismo hard“, motivo para temer, quer dizer, Temer), embora só o tenha visto num meme de Facebook.

Ser contra o impechment não é ser comunista/socialista etc.

8) É simples assim, e aqui está o principal. O processo de impeachment não se deve a uma “causa socialista”, mas aos decretos e ditas pedaladas fiscais de Dilma. Aqui constam razões inteiramente jurídicas – nem um pouco socialistas, diga-se – contra o impeachment. Curiosamente, não vi ainda uma réplica, pois os argumentos a mereciam. Além disso, diversos outros políticos cometeram e cometem as mesmas manobras que, agora, levaram ao processo contra Dilma.

Por isso, tome cuidado: aquilo que você enxerga no “socialista”, para não contratá-lo, pode não passar de sua própria imagem invertida vista no espelho.

“Devo então contratar/demitir um socialista?”

9) Minha nossa, se você chegou até aqui e ainda acha essa pergunta possível, seria preciso ler alguns textos de política. Nenhum deles dirá que a política implica o ódio e a anulação do próximo baseada num critério político. Aliás, mesmo que você seja um zeloso empresário liberal, não seria inútil notar que a própria bolsa família, contra 500 anos de miséria, tornou o brasileiro um ser um pouquinho mais individual. Isso – consumo e iniciativa individuais – fomentou o mercado, inclusive nas crises do fim dos anos 2000. De todo modo, falávamos de política, e a atitude anuladora do próximo já foi vista muitas vezes no século XX sob o nome de… fascismo.

dualismo invertido

O rapaz entra na van com o computador novo, na caixa, recém comprado no lojão. A van é pequena, apertada, insegura, com assentos sujos. O motorista é imprudente, e a categoria das vans – que ainda está em voga por uma questão de resolver as coisas na bala – apenas repete o mesmo mote dos restaurantes, mercados e todo o resto da cidade: se presto algum serviço, azar o do cliente. O serviço é para mim, não para ele.

O passageiro tenta acomodar o trambolho em meio à gente que sobe e desce. Se atrapalha não pede desculpas, como não lhe pedem desculpas quando esbarram na caixa. Afinal, na cidade tudo é assim. Logo o rapaz retira o fone de ouvido e mergulha na música do celular, como dentro em pouco conseguirá um mergulho ainda maior: em seu novo computador.

Afinal, ele não tinha um computador até hoje, e em meio a toda essa loucura ele profundamente só quer fazer o mesmo que todos nós: sair disso tudo (calor, concreto, laje, sujeira, rudeza no tratamento…) para deixar o pensamento e a imaginação em outro lugar (deixemos nossa mente lá – quanto ao corpo, resolveremos isso em um outro momento).

Dentro de algumas horas ele terá instalado o computador, até chegar a hora do trabalho na pizzaria. O rodízio é feito como todo o resto: a massa e os ingredientes são de segunda, a cerveja chegou ano passado (só estará ruim se reclamarem, certo?), e quando o lugar enche faltará gente para atender. Mas e o quê? Todo mundo pagará igual. E não dá 5 minutos, metade do restaurante estará se conectando com alguma coisa distante ou olhando para o celular.

Kakfa no Brasil (ou a repartição feliz)

https://i1.wp.com/i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/funcionario-publico.jpgNo Facebook e no Orkut é tudo lindo etc., mas é engraçado, uma dessas milhões de pessoas com prováveis perfis floridos impede você de um direito seu porque a vida dela se resume – em meio a outras milhões –  inteiramente em agir sob o seguinte postulado intimidatório: “meu papel é fazer o papel sair daqui e ir ali, não me importa o que você pensa; e não insista, porque você sabe bem: seu papel está aqui, e meu papel é fazer o papel sair daqui e ir ali”.

Então nos surpreendemos, às vezes até com um pensamento fugidio, com  “essas coisas estranhas que nos acontecem”. Damos um jeito e esquecemos de tudo até o próximo evento.

Aí Thoreau, prevendo há 150 anos em sua cabana como as pessoas serão tão doidas de viverem essa vida citadina (e mesmo os que reclamam a merecem), anota num borrão:

“Aonde vai parar essa divisão do trabalho? e no final das contas a que objetivo ela serve? Claro que outra pessoa também pode pensar por mim; mas nem por isso é desejável que o faça e que eu deixe de pensar por mim mesmo”.

“A que objetivo ela serve?” É de se pensar, dentro de algumas décadas, que tipo de frase de lápide faria justiça à vida do fidalgo dos papéis descrito acima. Isto é: entre a vida e o orkut, que tipo de frase faria justiça de verdade.

Mas nem Thoreau e nem Kafka seriam bons nomes para esse texto. Falamos do que o Brasil tem de próprio, não do que compartilha com o resto do mundo. Diante do alegre perfil do burocrata acima (multiplicado em milhões), seria de se pensar em Bernardo Soares, o heterônimo de Fernando Pessoa em prosa.

“Dono do mundo em mim”, Bernardo Soares tem o mundo inteiro em seu pequeno ofício, como ajudante de guarda-livros na Rua dos Douradores. Lá ele descreve como o mais simples trabalho oferece uma infinidade de sensações para uma vida inalienavelmente única, conduzindo a palavra “poesia” a significados esquecidos:

Penso, muitas vezes, em como eu seria se, resguardado do vento da sorte pelo biombo da riqueza, nunca houvesse sido trazido, pela mão moral de meu tio, para um escritório de Lisboa (…) Se houvesse de inscrever, no lugar sem letras de resposta a um questionário, a que influências literárias estava grata a formação do meu espírito, abriria o espaço ponteado com o nome de Cesário Verde, mas não o fecharia sem nele inscrever os nomes do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, do Vieira caixeiro de praça e do Antonio moço do escritório. E a todos poria, em letras magnas, o endereço chave LISBOA.

É admirável como a figura de Soares se abre às pessoas que frequentam sua mesa ou balcão, enfim, a rua inteira e Lisboa. Mas isso ainda não serve de exemplo aplicável ao que começou o presente assunto: não há ali um lindo perfil laureando um orgulhoso Soberano dos escritórios, um Rei dos papéis, Fidalgo dos caprichos? Entre uma omissão ao cliente eventual, uma ação submissa ao cupincha e as pilhas de papel acumuladas pela incompetência, ele tem bastante tempo para entrar na rede social e repostar no perfil a frase de Fernando Pessoa:

“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”.

https://i1.wp.com/i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/funcionario-publico.jpg

Os 5 principais arrependimentos antes de morrer

Uma enfermeira australiana compilou os principais arrependimentos (testemunhados por ela) de pacientes prestes a morrer. Segundo o informe da BBC, são cinco:

1. Queria ter tido a coragem de fazer o que realmente queria, e não o que esperavam que eu fizesse

2.Queria não ter trabalhado tanto

3.Queria ter tido coragem de falar o que realmente sentia

4.Queria ter retomado o contato com os amigos

5.Queria ter sido mais feliz

O que é interessante nisso tudo? Cada um dos arrependimentos é exatamente a imagem invertida de várias prerrogativas que nos são empurradas goela abaixo, todos os dias, sobre o mundo, o trabalho e os outros.

Dúvidas? Basta ligar a TV 😉

Quem não gosta de grevistas? (2)

 
Alguém colocou a foto ao lado numa rede social, com a legenda "ele não roubou nem matou, apenas luta por uma educação de qualidade!"

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