Entre coxinhas, mortadelas, ressentidos e isentões: há saída?

Debret

É realmente irônico: atualmente, qualquer posição política brasileira, inevitavelmente, fica entre:

  • Ser governista, vulgo “mortadela”: isso significa defender o PT, dizer sem ressalvas que Lula mudou o país e agora Dilma sofre injustamente um golpe.
  • Ser “coxinha”: as posições são as mais variadas, entre defender as bolsonetes, desejar o afastamento de Dilma por incompetência, proclamar contra a corrupção petista, defender um estado “liberal” (ou, de quebra, a importação do sistema político inglês) ou dizer que agora tudo vai, de fato, mudar.
  • Em terceiro lugar, o “isentão”: é o cara que “não é petista, mas…
  • Finalmente, há o que chamaríamos de “esquerdista ressentido”: ele esteve entre os grandes entusiastas dos governos PT nos tempos “áureos”, mas agora acusa os outros esquerdistas (“governistas”) de terem feito besteira com o “voto crítico” e de se omitirem em momentos nos quais o PT fez barbaridades (desapropriações para a Copa, medidas impopulares, endossamento da violência contra os índios…).

E acabou o cenário político brasileiro, não há mais escolha. Mas se é assim, que cenário é esse? Pois ele parece bastante sufocante.

Este blog já tem um tempinho de (sobre)vida e acompanhou algumas discussões dos últimos 10 anos. Nisso, não deixa de ser surpreendente o seguinte: o imenso crédito conferido a Lula nos governos iniciais, sem maior crítica, e agora a imensa condenação de seu governo. Como se, de uma hora para outra, ocorresse um corte, uma magia, um passe de mágica.

1 – O imenso crédito conferido a Lula nos governos iniciais

Há algo aí que deveria ser estranho. Basta lembrar de 2003: o PT foi apoiado pelo PCB e o PCdoB, o que não seria surpresa. Mas também foi apoiado por PMN e PL, sem contar outros como José Sarney, cuja filha Roseana era do PFL e teve a candidatura debelada por um aliado frequente do PFL, o PSDB.

O PT fez aliança com partidos de nanicos e fisiologistas brasileiros, urubus clássicos sem conteúdo partidário definido. Como se sabe, tais alianças sempre foram volúveis, mas envolveram sazonalmente inúmeros outros partidos, como o PP, PTB, PSB et caterva, guinando agora para novas correlações de forças.

Sinto-me como se estivesse redescobrindo a roda, mas vamos lá: o próprio PMDB veio para o PT e há tempos estava “dividido”. O mais incrível é ver o mesmo partido sustentando o vice-presidente e o presidente da câmara em vetores opostos, inclusive envolvendo um possível impeachment! Mas parece que a estranheza disso ficou em segundo lugar.

Vale dizer que o PSOL nasceu com o descontentamento de membros do PT e a acusação de que o partido guinava à direita, tornava-se autoritário e favorecia o velho fisiologismo. E Lula apresentou notável tom conciliador.

Não obstante, inúmeros intelectuais aplaudiam os efeitos da coalizão de Lula. Há pouco, o blog citou imensos elogios à (primeira) gestão “transformadora” de Lula, vindos de intelectuais de peso. Basta convidar o leitor a buscar os blogs brasileiros do período para ver inúmeras injunções ao apoio, mesmo quando algo deveria parecer estranho.

Aliás, as injunções de apoio do passado eram muito semelhantes às injunções de desapoio do presente.

Mas enfim, para além da eventual estranheza, foi maior o vislumbre do progresso. O Brasil efetivamente mudou. Se hoje o ex-ministro Janine Ribeiro chamava a atenção ao fato de que o brasileiro recebeu benesses, mas não educação em geral e educação política em particular, ao menos o brasileiro recebeu benesses. Novas universidades foram criadas e imensos lugares remotos, onde antes reinavam casas de pau a pique, agora possuem água, rua, luz, casas de material (coisa que todo brasileiro deveria conhecer para além da Rede Globo).

Aqui, nosso ponto é precisamente esse: a estranheza ocasional conviveu com o vislumbre do progresso. E esses dois fatores nunca foram dado como inseparáveis.

2 – A imensa condenação ao governo

Os “coxinhas” permaneceram os mesmos, mas não é exagero dizer que a “transformação” da esquerda em governistas, isentões e ressentidos foi um verdadeiro “acontecimento”. Uma vez que os isentões e os governistas parecem mais óbvios, é notável ver agora diversos intelectuais colocando-se numa atitude de condenar os outros pelo simples isencionismo ou pela adesão irrefletida a um governo que agora afunda.

Mas isso novamente deveria parecer estranho, e talvez por isso devem fazer algum sentido os quatro tipos listados acima: todos eles projetam o PT como ator solitário do cenário, ou, quando muito, ator em meio a outros autores culpáveis.

Meus amigos da mecânica quântica ;p costumam me ensinar que, se a física clássica considerava os atores móveis e o cenário imóvel, depois do século XX é impossível não ter sob conceito o fato de que atores e cenários são, igualmente, actantes.

Nisso, é absolutamente espantoso o fato de que nunca houve maior tematização das alianças do PT com os fisiologistas do Brasil e, ao mesmo tempo, a questão sobre como isso é função direta de todas as benesses conquistadas. Ninguém, até hoje, prestou atenção ao jogo que deu todo o suporte ao sucesso e ao fracasso do PT. O funcionamento da correlação de forças costurada num momento e descosturada em outro, isso nem de longe é tema para qualquer discussão, seja ela de coxinha, isentão, governista ou ressentido.

Em suma: hoje o PT é muito condenado, mas ninguém colocou seriamente o problema sobre como foi possível seu esplendor e, depois, sua condenação. Imagino que, ao pensar sobre isso, muita gente que aplaudia Lula quase romanticamente terá alguma dor de cabeça. Mas tal problema é importante porque traz consigo o futuro: o jogo que pôs o PT no governo e agora o retira não mudou, na essência, suas regras, seja lá quais forem. E outro governante está por vir.

***

Para ilustrar o problema aqui colocado, recorrerei a um exemplo: o filósofo Michel Foucault aderiu ao PCF (Partido Comunista Francês) no início dos anos 50, mas por volta de 1952-1953, saiu do Partido. Em diversos de seus Ditos e Escritos, ele comenta sobre os motivos. Dentre outras, houve um certo mal estar: a URSS era pintada como o braço efetivamente comunista do mundo, a alternativa à desigualdade capitalista, e diversos debates mostravam como os sovietes já teriam alcançado progressos impensáveis aos ocidentais. Mas por outro lado, Foucault via, aqui e ali, algumas questões: estranhamente os soviéticos reduziram toda a ciência relativa à aprendizagem e ao comportamento a Pavlov (!), criaram uma estranha biologia “mitchuriana” (alternativa ao evolucionismo) e haviam rumores sobre coisas estranhas, como o culto à personalidade de Stalin e a existência de campos de concentração. Tudo se escancarou após a morte de Stalin e das comunicações de Kruschev sobre as desmedidas do regime.

Mas antes da saída do PCF houve a estranheza, combinada ao fato do esplendor (seja ele real ou fictício).

Foucault olhava para os colegas do PCF e constatava um estranho rito. O PCF se isentava daquilo que aconteceu na URSS a respeito dos Gulags. Dizia-se, por um lado, que a URSS cometeu um desvio em relação ao que virtualmente ensinariam os textos de Marx; por outro lado, dizia-se que houve um desvio frente ao próprio caminho histórico que a URSS deveria percorrer.

Note-se, nos dois argumentos, um subterfúgio: o PCF faz com que o caso do Gulag e do culto à personalidade não sejam o caso do marxismo, não sendo também, no fundo, coisa séria para a URSS. Desviar-se negativamente do texto escrito, desviar-se virtualmente da história efetiva, isso sempre deixa o texto escrito e a história efetiva ali, possíveis e alcançáveis.

A pergunta que Foucault faz é uma verdadeira guinada, ao menos para o francês: e se… para além do desvio negativo e virtual, a URSS deveria ser encarada naquilo que mostra de “positivo e real”? Dizer que o Gulag é mero desvio da norma marxista ou do que a história deveria mostrar é simplesmente ocultar a questão mais importante: como é que tudo isso foi possível? A resposta por esse como é precisamente a chamada às condições de possibilidade históricas para que tal evento ocorra de tal forma, e não de outra. (se Foucault é hoje famoso, foi por ter colocado na obra inteira questões de ordem semelhante, coisa esquecida por inúmeros de seus, err, cultuadores)

Agora, em linguagem popular: como, sob que tipo de correlação de forças, por pretexto de obediência à revolução e ao marxismo, a URSS tornou-se uma ditadura stalinista que dispõe dos Gulags? Apenas tal questão permitiria mostrar as condições de existência do Gulag – e junto com ele as condições do próprio regime soviético. Apenas esse tipo de problema poderia implicar alguma mudança.

Uso o exemplo de Foucault porque, em todas as opções acima (ao menos as da “esquerda”), algo semelhante está em jogo. Mesmo os mais inteligentes encaram o PT como uma espécie de desvio “daquilo que deveria ser ou ter sido”. Mas ninguém junta a estranheza – aquele tipo de angústia descrita pelos fenomenólogos – e o esplendor da era Lula. A estranheza e o esplendor eram simplesmente encarados como separados, disjuntivos. O PT agenciando consigo um gigantesco agregado de partidos, e ao mesmo tempo as benesses sociais, isso sempre se viu como fatores separados.

Seria preciso fazer a pergunta pelo “positivo” e “real”: sob que correlações de forças o PT chegou ao poder e angariou certo esplendor? Sob que condições, pertencentes ao mesmo jogo, o PT foi derrubado por conjuntura similar? Como foi possível essa conjunção de estranheza e esplendor?

Mas parece que colocar esse tipo de questão é, hoje, impossível. Você precisa mostrar que está em algum dos lados.

Vamos partir pra cima da corrupção

O Brasil está em polvorosa, em meio a uma série de escândalos envolvendo o PT. A palavra de ordem, como se sabe, é “corrupção”. Todos contra a corrupção, certo? Enfim, falarei umas coisas estranhas, e mais abaixo colocarei a questão.

O que parece curioso é ver, aqui e ali, o próprio modo como a coisa é tratada. Para a manifestação do dia 13 de março, por exemplo, como encarar o fato de que há o treino para uma coreografia de axé, um trio elétrico com Bolsonaro, Feliciano e Malafaia, pedidos de intervenção para Donald Trump (?), as redes sociais temperadas de ódio e palavras de baixo calão (palavras como “seu idiota” e “seu merda” devem estar entre as mais digitadas do Facebook) e comissões organizadoras que não pretendem protestar contra a corrupção, mas sim contra a corrupção do PT? Ou senão, vejamos o que diz o organizador da manifestação do Paraná:

– Mas também há denúncias nacionais contra outros partidos. É o caso do Eduardo Cunha e de políticos do PSDB implicados na Lava Jato, por exemplo. Isso não entra [na manifestação]?
– Não. Estamos focados no conceito petista de corrupção institucionalizada, que visa a um projeto de poder totalitário. Comparados, os outros são ladrões de galinha. Não dá para comparar a destruição da Petrobras, no BNDES com as coisas do Eduardo Cunha, por exemplo. É claro que ele deve ser punido, mas em proporção é uma diferença muito grande. Aqui roubam para comprar apartamento em Balneário Camboriú, para comprar carro importado, o que é um crime, é algo terrível, é algo abominável. Mas o PT rouba para implantar um projeto de poder aos moldes cubanos, aos moldes venezuelanos.
– O sr. vai sair candidato?
– Não estou focado nisso AINDA.

Junte-se a isso a lambança do pedido de prisão preventiva de Lula, ou a condução coercitiva do ex-presidente ao aeroporto de Congonhas, com avião da PF pronta para conduzi-lo a Curitiba, sob pretexto de “segurança pública”.

Para condenar um ex-presidente e enterrar um partido, não há coisa estranha demais? Um processo condenatório desse naipe deveria ter um rigor exemplar, ou não? Não encaramos o fato de que isso tudo ficará para a História? Ou estamos nem aí para a História?

Mas esse é, talvez, o fato mais importante, e aí vem minha questão: estamos encarando de fato que isso tudo ficará para a História, e desse jeito? 

Onde começa tanta corrupção? A maior ironia, talvez, seja pensar que tanta lambança não se separa tanto assim de nosso cotidiano.

Ontem mesmo, participei de um daqueles ritos insuportáveis, quase diários, de precisar sentar ao lado de alguém no ônibus. Em certas regiões do Brasil – não pequenas -, se a pessoa ao lado é um homem, não é raro que eu me sinta num filme de Tarantino. Não poucas vezes – e ontem foi o caso – preciso chamar a atenção ao colega sobre o fato de que existe uma divisória ali, entre os bancos, e que ele não deve passar o braço e a perna “para o lado de cá”. Como sempre, após dizer isso, há uma reação agressiva do outro passageiro. Às vezes sinto que o colega pode partir pra cima e não falo. Mas experimente não falar.

Chego em casa e… não é que, não muito longe dali, coisas desse tipo ocorrem toda hora e lugar? Não que eu ou você não saibamos disso, embora não seja o tipo de informação que levamos para a cama.

Na ausência de uma esfera pública, somos a terra do “partiu pra cima” (e muito mais notavelmente se vivemos no RJ). Pode-se partir mais ainda pra cima se você é político ou prefeito. Ou, em outras palavras, tudo é pessoal, marrento, gente boa. Tudo é apelo à pessoalidade, valeu meu querido? Você quebra essa pra mim? Te vendo um imóvel legalizado. Paga aí a “taxa de administração”. Ou, não verbalmente, ficarei sentado aqui mesmo do jeito que estou.

Quando a relação entre dois brasileiros não pode ser personalista ocorre um vácuo, um buraco negro, um curto-circuito. É a impossibilidade de o brasileiro ser tudo o que é: personalista. Senão, basta lembrar do jeito idiota com que os brasileiros se comportam quando vão ao exterior (enquanto ostentam suas viagens nas redes sociais), comportando-se como se o mundo inteiro fosse obrigado a reconhecê-los como brasileiros para… pra quê mesmo?

Se você não quebra essa pra mim, para que eu fique com as pernas e braços abertos enquanto você senta do meu lado (melhor ainda se for mulher! vide como as mulheres se transformam em reféns quando estão em ônibus), se você não “quebra essa pra mim”, o que acontece? Eu “parto pra cima” de você.

Alguém deve ter “quebrado alguma” para os promotores de São Paulo emitirem aquele pedido de prisão preventiva – tão mal feito!! – de Lula.

E o PT, como pode estar agora tão malfadado, ele que conseguia coordenar as forças do país, em alianças com os partidos mais nanicos (e corruptos?). O mesmo governo que José Dirceu chamava de “nosso governo”, como foi possível perder qualquer governança? Ora, o PT fez alguma, e não é à toa que estão agora partindo pra cima dele.

E amanhã também, dia 13 de março, cantando, dançando e se estapeando, o povo vai partir pra cima.

Onde não há uma correlação de forças suficiente para fazer certas instituições valerem, elas podem valer de todo e qualquer modo. Elas podem quebrar o galho ou podem partir pra cima.

Lula era muitos?

Desde as primeiras eleições de Lula, este blog considerava algo estranho: a fácil adesão de muita gente da “esquerda” a uma curiosa continuidade. Segundo essa gente, poderia-se fazer uma passagem direta entre a figura pessoal de Lula, seu papel social “simbólico”, por assim dizer, e as transformações que ocorreriam no Brasil.

Sob os slogans, certo marxismo heterodoxo chegava a dizer (utilizarei tais exemplos para tentar fazer a pergunta deste post, mais abaixo), sob a pena de gente graúda como Toni Negri: “Lula é muitos“. O palavreado era pomposo: “De fato, Lula foge ao controle dos poderes fortes da elite cínica e racista (…) porque expressa a capacidade de se comunicar com os muitos enquanto muitos, sem reduzi-los a um conjunto representável pela “opinião pública” (…) A elite treme. O que lhe aparecia como um monstro é, na realidade, o anjo da multidão dos “sem” (…)”

Note-se aqui uma dualidade: de um lado haveriam os devires, os “muit@s” do Brasil, aquele povo que até hoje não havia sido (e continua…) representado pelos poderes convencionais, enfim, a potência da multidão. De outro lado, a representação e seu poder do Mesmo, a cooptação da diferença em nome do que, no Brasil, seriam as oligarquias misturadas a certa importação duvidosa de alguma noção de “república”.

Era de se notar a discussão sobre a bolsa família, por ex.. Em termos convencionais, a idéia do PT poderia ser encarada como uma verdadeira revolução, embora autores mais contemporâneos, inspirados em Foucault, poderiam sentir-se na tentação de chamá-la de medida biopolítica. Ora, a “biopolítica” diz respeito a um nível de análise que não se situa mais sob as chaves de interpretação da política em termos de repressão. Disso, a política global da bolsa família poderia, mesmo assim, ser considerada benéfica ao povo e até crítica das velhas oligarquias. Mas, mesmo assim, em nome da “potência” de Lula, foi grande o esforço em provar que a bolsa família não era uma biopolítica, mas embrião de uma renda universal.

De lá para cá, houve ao menos duas ou três mudanças de perspectiva. Num primeiro momento, o “lulismo” continuou sob os auspícios da “potência” contra certo “poder” do “governismo” que se impunha como opressor (mesmo sendo Lula do próprio governo). Dilma ainda carregava o epíteto dos “muit@s” na primeira eleição, a potência da mudança contra a tristeza do poder.

Mas logo a terminologia mudou. Dilma e Lula deixaram de ser muit@s e cederam lugar à dualidade entre o “governismo”, de um lado, e os “muit@s”, de outro. Nas eleições de 2014 o “governismo” foi responsabilizado pela própria derrocada, quando afugentou Marina do 2º turno e jogou o jogo do PSDB. Toda a “potência” teria sido despotencializada ainda em 2013 (e este artigo chega a ser profético), quando os movimentos  de junho de 2013 foram reprimidos pelo governo.

Alinho essas informações apenas para tentar dizer o seguinte: de algum modo, quando Lula assumiu o poder ele foi totalmente creditado; e agora que sua imagem treme, é totalmente desacreditado. Mas, entre um e outro momento, alguém atentou à questão fundamental?

A tentação seria de perguntar: diante de tanta confiança irrefletida, quando foi que ocorreu a linha de ruptura, o corte, o abandono, a desesperança? Pois a resposta a isso poderia ter duas implicações: 1) ou o governo das “potências” de Lula teve certo momento de esgotamento após o esplendor, e acabou se entregando ao poder representativo das oligarquias, ou, 2) desde o início houve uma espécie de grande estratégia, na qual, bem ou mal (e o inferno é cheio de boas intenções), o PT tentou a) cooptar as oligarquias em nome de seus projetos, utilizando os mesmos mecanismos estratégicos das oligarquias, ou b) cooptar as oligarquias para se tornar igual ou melhor do que elas.

Sobre as últimas duas hipóteses, acho muito pouco provável a segunda, embora pareça nítido o projeto mais recente de prolongar o poder a qualquer custo. De todo modo – este blog tentaria dizer isso -, pareceria verossímil pensar que o PT jogou um péssimo jogo, uma vez que tentou vencer o diabo jogando com o tabuleiro e as peças do tinhoso. Isso se remete a inúmeras falas do Zé Dirceu, a respeito do mensalão: a compra de votos e pautas parlamentares já existia (ACM ou o golpe de 64 que o digam), o PT apenas se “aparelhou” com as táticas do inimigo, tudo servia para fortalecer o “nosso governo”, no futuro tudo será melhor compreendido, e – quero chegar aqui – no fim das contas, tudo se passaria como se a estratégia inteira consistisse em dobrar esse país corrupto, corruptamente, contra a corrupção.

Voltemos ao essencial (ao menos ao essencial deste blog esquecido): entre o crédito total e o descrédito total a Lula – temperado hoje pelas acusações de “isentismo”, pelo fracasso do “voto crítico” e pelo desejo de que Marina perdurasse na última eleição -, como foi possível a esquerda não considerar que, para além das dualidades entre “nós” e “eles”, o que há são estratégias e jogos de força? Que, para se eleger e manter-se no poder, o PT se alinhou com inúmeros partidos e políticos-anões, dos quais inclusive brotam inimigos atuais do PT, como o próprio Cunha? Que não foi fora dessas coalizões, mas no próprio jogo estratégico imanente a elas, que o PT angariou suas condições de “governabilidade”, e hoje as perde? Que todas as mudanças, positivas e negativas, visíveis no Brasil atual, vieram deste jogo?

Enquanto o brasileiro não tentar compreender como se dão as regras desse jogo, alheio aos supostos “poderes” clássicos e às “potências” vivas (e às outras metáforas da moda, vide alguns tentando importar agora o debate inglês entre liberais e conservadores), nada mudará de fato, e os últimos acontecimentos publicitários da coação de Lula apenas mostram, para além da Aletheia, mais uma correlação de forças esquecida. Leminski já fazia Descartes dizer, em pleno Brasil: “natura desvairada destes ares!” Até hoje não buscamos compreendê-la segundo o que ela própria nos oferece.

 

Microcefalia à brasileira

E lá estava eu, almoçando, com o livro na mão. Quando fui pagar, um senhor fez aquele comentário solto, supostamente desinteressado, mas “ad omnes”:

– É muito importante ler, heim? Aqui no Brasil as pessoas falam sem ler, criticam sem ler… raro ver alguém com um livro.

Eis que se esboça mais um daqueles papos sobre o brasileiro e seu complexo de vira-latas de um lado e sua microcefalia (não a da Zica) de outro. O velho se apresentou como italiano, vive por aqui há 20 anos e perguntou se… eu era estrangeiro!

No espaço de 4 dias, dois caras me perguntaram se eu era estrangeiro: o primeiro porque eu fui simplesmente… educado! (era um garçom e se surpreendeu com palavras do tipo “bom dia”, “você poderia…” e “obrigado”), o segundo porque eu carregava um livro.

A grande ironia é que, minutos antes, eu pensava: minha nossa, como é agressivo portar um livro por aqui… Quero dizer: não apenas destoa do ambiente, mas é um pouco constrangedor receber olhares ou perceber que o único livro possivelmente visado em tal ambiente é a Bíblia.

O pior de tudo é que estou a 150Km de uma das instituições de pesquisa mais privilegiadas do Brasil, um dos principais redutos da “intelectualidade” brasileira. Como seria possível ruptura tão grande? Lá, em meio a sebos e cafés, pós-graduandos debatem suas tão importantes questões. Aqui, carregar um livro é da ordem da ausência de sentido!

A ironia maior ainda é constatar que a simples enunciação de tais questões é um ultraje, pois a chave de leitura é sempre a mesma: o brasileiro vai mal porque os oligopólios comandam e oprimem.

Eu NUNCA discordaria de tal tese, mas ela precisaria ser infinitamente refinada. Não há justificativa alguma para alguém ser confundido com um estrangeiro porque foi educado ou carregou um livro. E o brasileiro deveria encarar isso de frente, ao invés dos fáceis argumentos da “falta de acesso” (falta de acesso numa sociedade orientada à posse de um smartphone???). O Brasil mudou nos últimos 20 anos, e muito! Mas certas coisas viscerais permanecem muito vivas!

O mar e o bar

Paulo Leminski dizia: “se o Rio tem o mar, Curitiba tem o bar”. Ele também dizia algo como “pinheiro não se muda”.

As duas frases parecem se reportar ao mesmo tempo à beleza de Curitiba e à sua singularidade. Como diversas outras cidades, Curitiba conquistou em sua história algumas características únicas e que conferem seu valor próprio.

Curitiba continua bastante famosa com aquela velha fama de “cidade de primeiro mundo”. Quando os outros mencionam essa expressão, parecem dizer: em Curitiba o transporte funciona (e talvez os outros serviços públicos); a cidade dispõe de muitos parques; a qualidade de vida é grande.

O slogan de “primeiro mundo” também repercute no dito “primeiro mundo”, e muito se deve a medidas – talvez não tão nobres assim – advindas desde os governos de Jaime Lerner.

É possível ser bastante crítico desse tipo de slogan (e este blog nunca o deixou de os criticar). De todo modo, hoje é tão difícil separar da cidade a estética de Poty Lazarotto quanto os ônibus, os tubos e os parques. Quem sabe já não pertençam ao contexto das declarações acima, do Leminski.

Mas, para além dos ideais, é difícil não ver que, na vida cotidiana, Curitiba não vive mais o que vendeu como slogan. O trânsito, o transporte público e os parques – enfim, a maquinaria urbana e os bens públicos – nem de longe acompanharam o crescimento da cidade.

Para Curitiba continuar sendo Curitiba, seria preciso aumentar a oferta do transporte público e o número de parques na mesma medida em que aumentaram a população e a geografia. Algo que, sistematicamente, os governos não fizeram.

E hoje é muito estranha a paisagem contemplada dos ônibus em muitos lugares: lotação excessiva, pessoas embrutecidas se empurrando, e lá fora uma população de desatendidos que parece crescer a cada dia.

O Rio de Janeiro parece vender ao Brasil e ao mundo uma visão de “cidade maravilhosa” que se resume à sua “Zona Sul” (sinônimo de status e bem-estar) e, quem sabe, algumas partes do centro. A cidade ainda se vangloria de oferecer o mar (mesmo que sob diversas controvérsias, vide a invasão de algas devido à sujeira do ano passado). Quanto a Curitiba: o que tem oferecido?

Entre o Ok e o Óchente

Vi diversas manifestações sobre Ariano Suassuna. Dentre todas, algumas atribuições chamam a atenção. Suassuna já chegou a dizer que nosso “ochente” vale muito mais do que qualquer “ok”; que o advento da guitarra elétrica nas músicas nordestinas apenas teria como próximo passo a Alca; que de Sergipe pra baixo não temos mais Brasil, tudo se torna estrangeiro.

A partir dessas falas e de outras, apareceram atribuições como a de “regionalista”, “conservador” e outras. Inclusive houve cristão muito contente em mostrar vídeo no qual ele “contesta” a teoria da evolução.

É curioso que, se Ariano Suassuna discordaria do evolucionismo (para além de sua incrível e fina ironia), numa coisa ele concordaria, e muito, com Darwin.

Quando passou pelo Brasil com seu Beagle, Darwin não falava apenas do Brasil, mas dos “brasis” (sic.). Isso é muito interessante, pois, quando veio ao Brasil, Darwin teve a percepção, a sensibilidade suficiente (e nem tão difícil, na época) de perceber esse lugar como um amálgama de múltiplas dinâmicas culturais.

Nisso tenho a impressão de que Suassuna concordaria com Darwin. E mais ainda: nesse ponto, Suassuna não seria nem um pouco “conservador”. Isso porque, para além do esmagador movimento massificador que enfrentamos – há quantas décadas?, no qual falarmos em “cultura brasileira”, “música brasileira”, “país do futebol” e outras (via de regra atribuindo ao Brasil inteiro alguns estereótipos retirados do sudeste ou do nordeste), Suassuna tinha especial ouvido para o que temos de mais local, singular, não massificável. Cito por ex. a passagem:

No mesmo texto, ele não media as palavras para criticar ícones da cultura pop. “(…) a imitação seria ainda pior no caso do rock, música na qual os jovens americanos brancos, liderados por um imbecil como Elvis Presley, falsificam uma raiz popular negra, enfraquecendo sua força original e achatando-a deacordo com o gosto médio e o mau gosto dos meios de comunicação de massa”.

Veja-se: movimentos de massa, grandes motes culturais, “enfraquecem”, “achatam”, “falsificam” o ímpeto de múltiplos e  intensos movimentos locais, plenos de beleza, singularidade e ensinamentos. Não à toa Chico Science deveria se chamar “Chico Ciência”. Suassuna não dava “aulas-show”, mas “aulas-espetáculo”. E assim por diante.

Mas há algo mais: como seria possível o uso da guitarra elétrica conduzir à aceitação irrefletida da ALCA, ou à negação de qualquer talento de um violeiro que aceitasse tocar uma guitarra? Em que se baseia inclusive a negação do uso linguístico dos estrangeirismos?

A tese de fundo parece inteiramente complementar àquele culto ao local, singular (e singular não é simplesmente particular, enquanto algo massificável pode ser incrivelmente idiotizante). Pelo menos conforme me parece, ocorre nessas passagens que entre as palavras e as coisas, as ações e a realidade, não há ruptura. Um uso linguístico, por exemplo, não se resume a uma arbitrariedade, a um flatus vocis que apenas “representaria” coisas. O uso linguístico está estreitamente vinculado ao próprio uso das outras coisas do mundo. Tocar a “música brasileira” e não o pífano ou qualquer outra cultura local significa, sorrateiramente, desfazer os vínculos locais mais tênues em função de um critério massificante geral.

A ação mais tênue – inclusive a fala – não se desliga do modo como configuramos nosso próprio mundo, ações e identidades. O apelo a ações massificantes ajudará a configurar um mundo massificado, aberto a toda quinquilharia sociotécnica made in. Nisso tudo é radicalmente diferente dizer “aula show” ou “aula espetáculo”, sentar para ouvir a viola ou ligar o rádio para ouvir a guitarra. O uso do corpo, das sensações, dos artefatos ao redor, da casa, da rua, da cidade, enfim – tudo muda a partir de simples decisões.

Se tudo ocorre assim, é motivo extra mais do que suficiente para nunca esquecer Suassuna.

Legados da Copa e violência policial

Não sei bem, como diz o texto de Safatle e metade da dita “intelectualidade brasileira”, se a Copa mostrou um Brasil que avançou em termos de violência policial, suspensão de direitos civis e diversas desmedidas.

Para dar um exemplo: antes da Copa o complexo de favelas da Maré estava lá, com aquele chocante muro de Berlim em pleno Rio de Janeiro, separando a via dos que vão ao Aeroporto Internacional e as vielas chocantes e indescritíveis da favela.

Durante da Copa era o mesmo muro, só que com um diferencial: lá dentro, do outro lado, haviam inúmeras “forças de segurança”, com policiais, blindados e tropas de paraquedistas do exército.

Arrisco dizer: depois da Copa nenhuma “força de segurança” estará mais ali.

Entre antes e depois da Copa, o que mudou? Alguém pode dizer que mudou a presença policial antes, durante e depois.

Mas o fato é que antes tínhamos uma favela brutalmente desatendida e objeto de intervenções policiais brutais, entretanto sazonais. Durante a incursão policial a favela continuou brutalmente desatendida, mas agora com forças desmedidas. E agora, como é que ficará?

As “forças de segurança” podem ter mudado de quantidade, mas em qualidade nada mudou. Se a imprensa e a intelectualidade enxergam desmedida, ela não ocorreu em uma espécie de avanço do estado policial.

No fim das contas, era a mesma polícia, antes e depois. A diferença é que ela apenas precisou ser mais solicitada. Como poderá ser novamente, sob qualquer outra demanda.

O importante a notar é que, antes e depois, as demandas não são verdadeiramente públicas, republicanas ou o que quer que o valha. A relação entre “segurança” e “população” não obedece no Brasil o velho projeto moderno, a segurança não é uma espécie de duplo e regulador da população.

As forças de segurança agem como a taça que Messi ganhou, patrocinada pela Adidas (não foi o futebol que motivou o ganho…). E a população é exatamente o exemplo de Podolski (o amado jogador alemão) voltando da Zona Sul ao Galeão: ele verá algo muito estranho no caminho, e talvez se perguntará “minha nossa, como isso foi possível?” – Mas logo recordará dos momentos felizes e do carnaval.

O brasileiro é um torcedor por vocação

ÍndiceO brasileiro é um torcedor por vocação.

Lá vai ele, com seus 9 anos, camisa canarinho e cara pintada, para ver o jogo.

Sobe orgulhoso na van, lotada com outros torcedores orgulhosos.

O pneu é careca, as ferragens estão à mostra. O motorista não devolve o troco (“quem precisa de 10 centavos?” – dizem, sabendo que de 10 em 10…), e ainda incentiva a superlotação (“senta no degrau para o fiscal não ver!” “vai mais para o lado que cabe mais 3!”

E lá vai nosso herói mirim. Torce, vê os adultos torcendo. Eles se descabelam. Há muito tempo ele aprendeu a ver que na torcida ocorre, certamente, algo importante e muito reforçador.

Torcer é o que ele aprendeu a fazer desde pequeno. Quando bebê, já tinha roupinha do time. Na escola não há estrutura para aprender, mas bastava jogar uma bola no campinho para ver (ela podia ser até mesmo uma garrafinha ou papel amassado). No hospital há problemas, mas não faltam as tiradas contra o time que perdeu na última rodada. Na rua ruim, no trabalho estafante, nas filas do banco, nas intervenções autoritárias…

A vida inteira permeada pela torcida. Nelson Rodrigues já romanceava ela nos idos dos anos 50. Impressiona como se tornou tão brasileira (ou o contrário: o brasileiro tão torcedor). Tem caba que até no caixão leva a bandeira do time para o outro lado.

É torcendo que o brasileiro aprende a se manifestar na vida pública. Basta ver uma manifestação. Ela tem quase sempre ritmo de torcida. As palavras de ordem, os ritmos, os pulos, as mãos para cima, tudo igual a um estádio.

Até presidente brasileiro já teve impeachment sob ritmo de torcida – embora a torcida não tenha, até hoje, plena ciência do que fez.

E quando os ânimos se exaltam, até a dita “baderna” não tem grandes diferenças frente às torcidas descontroladas.

Rodeado de injustiças indizíveis – para dizê-las seria preciso abrir antes um sorriso de canto de boca -, o brasileiro torce.

O cara de Humanas e suas palavras

Uma das coisas doidas que vejo em Humanas é certo molejo com relação às palavras. Você conversa com um cara de Humanas em linguagem coloquial, emprega tal ou qual palavra, essa palavra evoca no cara alguma teoria que ele aprendeu um dia (especialmente alguma em voga, na moda) e, de repente, a alquimia: a linguagem coloquial se transforma, sem maior justificativa, em compromisso conceitual. E, porque o cara leu tal coisa sobre aquela palavra, isso serve de justificativa para, mais ou menos discretamente, você ser repreendido por tê-la utilizado.

Mas a maior ironia é que o mesmo cara de Humanas também comete o procedimento exatamente inverso: quando não está mais numa situação coloquial, mas precisa ater-se às palavras em sentido rigorosamente acadêmico, as palavras perdem seu rigor e inúmeros termos que precisavam ser tratados em seus devidos contextos são inadvertidamente unificados ou tratados sem maior crítica.

Entre a condenação normativa e o desleixo conceitual, alguma coisa se passa 😉

Justin Bieber e o Brasil

Estranho caso, esse do Justin Bieber. Ou não seria familiar?

A primeira coisa que salta aos olhos é a confusão da imprensa. Tudo se passa como se, parado pelos policiais, houve polêmica e confusão sobre se Bieber deveria ser multado.

Mas… houve quem disse (por ex., o Jornal da Band) que Bieber estava pichando e se incomodou com a presença da imprensa. Mandou então os leões de chácara para constrangerem a atividade dos jornalistas, aqueles que tiravam fotos como a mostrada acima. A intervenção dos seguranças gerou confusão. Então, e só então, os policiais interviram.

Bieber não foi advertido porque o pegaram pichando, mas porque, na confusão entre seguranças e jornalistas, os policiais precisaram em algum ponto intervir.

Que se cogite tudo o mais: se os policiais estavam ali e não fizeram nada, se agiram por causa da confusão ou não, se a prefeitura autorizou ou não a pichação e autorizaria então uma pichação fora do local autorizado, tudo isso não importa.

A grande questão é que entre a “liberdade” de expressão do megastar e a “liberdade” de expressão da imprensa brasileira, houve um jogo de forças, um jogo para resolver quem falava mais alto.

Ou em outras palavras: se não existisse a confusão entre jornalistas e seguranças antes da intervenção da polícia, alguém acredita mesmo que isso viraria caso de polícia?