Agindo pelo não-agir

Livro interessante de Edward Slingerland, “Effortless Action – Wu-wei as conceptual Metaphor and Spiritual Ideal in Early China“.

Como se sabe por aqui (ou talvez, nem tanto), o Wu-Wei, traduzido por “agir pelo não-agir”, é um dos motes centrais do Taoísmo, filosofia chinesa (VI a. C.) que acabou se contrapondo (e se misturando) com o confucionismo.

Por aqui, recebemos os motes do Taoísmo sob certos motivos românticos, um pouco misturados com pensamento New Age. Aquela velha fórmula de uma fonte originária, não-discursiva, fundamento do mundo contra a maldosa razão ocidental.

O estudo de Slingerland às vezes parece com isso, por exemplo quando ele propõe uma “filosofia da espontaneidade” contra nosso maldoso racionalismo.

Por outras vezes, parece recuperar certos tons orientalistas um pouco mais… honestos? Enfim, segue informe sobre Slingerland aqui, e aqui um artigo preparatório de seu livro. Aqui, segue a referência de sua dissertação.

Dentre a fortuna, especialmente interessante é a recente descoberta de documentos antigos de filosofia taoísta, inscritos em bambus:

Hence the preoccupation with wu wei, whose ancient significance has become clearer to scholars since the discovery in 1993 of bamboo strips in a tomb in the village of Guodian in central China. The texts on the bamboo, composed more than three centuries before Christ, emphasize that following rules and fulfilling obligations are not enough to maintain social order.

These texts tell aspiring politicians that they must have an instinctive sense of their duties to their superiors: “If you try to be filial, this not true filiality; if you try to be obedient, this is not true obedience. You cannot try, but you also cannot not try.”

Enfim, os anos 1990 não são tão recentes, mas não deixa de ser alguma novidade. 🙂

Para o leitor brasileiro, ainda vale um lembrete: há pouco a Editora da Unesp lançou uma esperada edição do Tao Te Ching.

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Marco Aurélio e os “encontros”

“Afirmamos que tais fatos “se encontram” em nossa vida, como os operários dizem que as pedras quadradas dos muros e das pirâmides “se encontram” quando se adaptam umas às outras em determinada posição. Em resumo, porque há uma combinação única.”

(Marco Aurélio, Meditações, Livro V, VIII)

“A vida não se encaixa entre dois livros”

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Alguns decidem consagrar à escritura o mesmo tempo concedido à leitura. Thoreau, lembra Emerson, teve por princípio não dedicar tempo para a escrita a não ser depois de uma caminhada. Isso para evitar as armadilhas da cultura e das bibliotecas. Pois, de outro modo, a escritura é preenchida pela escritura dos outros. Por pouco que eles mesmos tenham escrito sobre os livros dos outros…

Escrever deveria ser isso: o testemunho de uma experiência muda, viva. E não o comentário de um outro livro, não a explicação de um outro texto. O livro como testemunho. Mas eu diria “testemunho” no sentido que toma essa palavra em uma corrida de revezamento: passa-se o “testemunho” a um outro, e ele se põe a correr.

Assim o livro, nascido da experiência, reenvia à experiência. Os livros não são aquilo que nos ensina a viver (é o triste programa dos que dão lições), mas o que nos dá desejo de viver, de viver de outro modo [autrement]: encontrar em nós a possibilidade da vida, seu princípio.

A vida não se encaixa entre dois livros (gestos monótonos, cotidianos, necessários, entre duas leituras), mas o livro faz esperar uma existência diferente. Assim, ele não deve ser o que permite escapar da cinzenta vida cotidiana (o cotidiano é a vida como o que se repete, como o Mesmo), mas o que faz passar de uma vida a uma vida outra.

“É vão sentar-se para escrever quando não se levanta jamais para viver” (Thoreau)

Frédéric Gros sobre Thoreau, no belo Caminhar, uma Filosofia.

“Qualquer um aqui pode ser subornado”

É bastante temeroso ouvir os crimes enormes cometidos diariamente e não punidos. Um escravo que assassinar seu senhor se tornará um escravo do governo após ser confinado por algum tempo. Já um homem rico pode estar certo de que estará livre dentro de pouco tempo, por maior que seja a acusação contra si. Todos aqui podem ser subornados. Um homem pode se tornar marinheiro ou médico ou qualquer outra profissão se puder pagar o bastante. Alguns brasileiros já declararam com seriedade que o único defeito que enxergam nas leis inglesas foi não identificar qualquer vantagem dos ricos e respeitáveis sobre os pobres e miseráveis.

Os brasileiros, até onde posso julgar, possuem apenas uma pequena fração daquelas qualidades que conferem dignidade à humanidade. Ignorantes, covardes e indolentes ao extremo. Hospitaleiros e bem intencionados até onde isso não lhes causa qualquer problema. Moderados, vingativos, mas não briguentos. Contentes consigo e com seus costumes, eles respondem a qualquer comentário perguntando: “Por que não podemos fazer como nossos avós faziam?”. Sua própria aparência pressagia sua pequena elevaçao de caráter. De vulto pequeno, eles logo se tornam corpulentos. Devido a sua pouca expressão, parecem ter a cara afundada entre os ombros. Os monges são ainda piores nesse último aspecto. Não é preciso muita fisiognomia para ver plenamente estampados em seu rosto a dissimulação perseverante, a sensualidade e o orgulho. Há um velho que sempre paro para olhar, igual apenas a Judas Iscariotes em tudo que já vi.

(Charles Darwin, Viagem do Beagle, 2 de julho de 1832 (?) – hoje foi um dia em que lembrei muito dessa passagem)

Pedra da Gávea, 9 de junho

 

Parti às seis e meia com Derbyshire para uma longa caminhada até a [pedra da] Gávea. Essa montanha fica próxima ao mar e pode ser reconhecida a grande distância por sua forma muito singular. Como boa parte das montanhas, trata-se de um cone íngreme e arredondado, mas no cume é uma massa angular plana, daí o nome de mesa ou montanha-mezena.
A trilha estreita se desdobrava em sua base sul. A manhã estava agradável, e o ar, muito fresco e perfumado. Não vi em nenhum outro lugar liliáceas ou plantas com folhas grandes em tão exuberante profusão. Crescendo à margem dos riachos transparentes sombreados e ainda assim brilhando com gotas de orvalho, elas convidavam o viajante ao descanso. O oceano azul devido ao reflexo do céu era visto em relances através da floresta. Ilhas coroadas com palmeiras davam diversidade ao nosso horizonte. À medida que passávamos, divertíamo-nos observando os beija-flores. Contei quatro espécies. A uma pequena distância, a menor delas se parecia precisamente com uma esfinge em seus hábitos e aparência. As asas se moviam tão rapidamente que mal eram visíveis. Permanecendo estacionário, o pequeno pássaro dardejava seu bico nas flores selvagens, ao mesmo tempo que fazia um extraordinário zumbido com suas asas. Os beija-flores que encontrei nas florestas afastadas e sombreadas podem ser vistos afugentando seus rivais, as borboletas. Em vão tentamos achar uma trilha para subir a [pedra da] Gávea. Essa montanha íngreme tem um ângulo de 42º. Voltamos para casa. No ponto mais distante, tivemos uma boa vista da costa por muitas milhas. A montanha era margeada por uma faixa de matagal denso por trás da qual havia uma ampla planície de pântanos e lagoas que, em alguns pontos, eram tão verdes que pareciam prados.
(Darwin, Viagem do Beagle)

Filosofia das montanhas

Foto da expedição de Mallory em 1922

Na nova edição da Revista Aurora, saiu um artigo intitulado Become Mountain (Tornar-se montanha), de Ian Buchanan.

É sobre Deleuze, e utiliza o exemplo de George Mallory e sua tentativa de escalar o Everest para ilustrar a noção de “corpo sem órgãos”.

Vou ali ler. Considerando os elementos justapostos, o texto promete algo mais do que uma leitura. 😉

Entre o bico de professor e o de garçom…

A imagem acima é do ano passado. Muitos dizem que foi exagerada. Mas e o que dizer disso, por exemplo? Breve citação:

ficar abaixo desse nível significa que os alunos não são capazes de enfrentar situações financeiras diárias para poder tomar decisões – como reconhecer o simples montante de um orçamento ou saber, em função do preço, se é melhor comprar tomates por quilo ou por caixa. De acordo com o estudo, 53% dos alunos brasileiros na faixa de 15 anos ficaram abaixo do nível de conhecimentos financeiros mínimos.

Em relação aos professores, alguém poderia lembrar que a Reforma Trabalhista, com as terceirizações e o trabalho intermitente, cria condições de interpretação perigosa. A Reforma da Previdência estabelece maior tempo de trabalho para a aposentadoria. E os índices de procura nas licenciaturas mostram que a procura para a profissão de professor tem reduzido drasticamente.

Quanto ao dado da OCDE, permite dizer:  já não dá mais nem pra ser garçom.

Blogs e redes sociais

Dias atrás, recebi um comentário revelador: no Facebook, não escolhemos o que podemos ver. Essa tese é incrível: a tese de que escolhemos, sim, o que queremos ver, não é precisamente a tese das “redes sociais”?

Isso foi muito usado contra os blogs. De alguns anos para cá, os links foram trocados pelos “follow” e aplicativos. As tecnologias de RSS, que peneiravam a informação ao gosto do freguês (se você não conhece, vale se informar), deram lugar ao Twitter, ao Facebook etc..

Para mim, foi revelador o comentário do “não escolhemos”, quando na vez seguinte, abri meu Facebook e constatei algo que muita gente comenta há muito tempo: e não é que o Facebook é um verdadeiro esgoto, repleto de gatinhos fofinhos e pessoas cheias de verniz, de um lado, e de outro o mais puro ódio escoado em indiretas e palavras de condenação? Entre um e outro, aparecem alguns factóides e… até links e notícias interessantes. Mas não sai a aparência de uma enxurrada de coisas passando, como numa enchente levando tudo (o Facebook e o Twitter não tem memória e histórico, aliás).

De fato, não escolho o que vejo no Facebook. É como se eu regredisse na “evolução” da internet.

Os blogs, por exemplo: antes das redes sociais, formavam por si próprios espécies de “redes”, só que sem o “follow”. O link capitaneava tudo. Sempre houve pontos focais e autores transformados em autoridades, mas o que sempre mediou tudo foi o assunto.

Com as redes sociais, algo mudou: pode ser até que pessoas se concentrem em nichos específicos de assuntos, mas via de regra você não segue mais assuntos, e sim pessoas. Disso se segue tudo o mais: por simpatia à pessoa, e não ao assunto, somos bombardeados por toda sorte de questão de aprazimento (não de gosto), entre gatinhos, pessoas bonitas, condenações de pobre e hails a políticos fascistas. Se em alguns momentos as redes mostraram interessantes articulações (como na Primavera Árabe), em boa parte do resto se mostraram incrivelmente reacionárias e fascistas.

Deixo meu ponto mais claro: não se trata aqui de uma diferença de escolha, mas de plataforma. A escolha da plataforma define todo o resto, se um amontoado de ressentimentos, ou se uma autonomia maior para dialogar assuntos. Vale, sobre isso, dar uma olhadinha em assuntos como esse.

Outra diferença: os comentários. Pela presunção do “você tem sua opinião, eu tenho a minha“, isto é, do respeito auto-inibidor, toda sorte de lixo é propagada nas redes sociais, sem qualquer possibilidade de comentário. Afinal, o comentário afeta a pessoa, e não o assunto (ou, via de regra, é isso que ocorre). Mas aceitar uma opinião lixo – que muitas vezes ofende ou abre espaço para a ofensa de outras pessoas, como o apoio a políticos fascistas – não é respeito, é a negação da possibilidade de respeitar. É, portanto, a negação do “social” no nome “redes sociais”.

E o mais curioso: o “eu tenho minha opinião, você tem a sua” acaba com a própria comunicação social, na rede social. Ou as caixas ficam vazias, ou se perde a oportunidade de fazer o que se faz na vida real, isto é, de conversar ao vivo, o que é muito mais gostoso. Por pretexto de trocas, redes sociais muitas vezes deixam de trocar.

Quanto aos blogs, é óbvio que já existiam blogs e assuntos reaças. Mas o foco no assunto afastava a hipótese do “respeito auto-inibidor”.  Por isso, ponto novamente para os blogs, pois neles as pessoas tinham algum horizonte de escolha sobre o que ler e como acessar.

Inclusive, vocês não têm idéia sobre o quanto os blogs proporcionavam bons encontros e amizades 😉

A roda do tempo

Kalachakra ou A Roda do Tempo, lindo documentário de Werner Herzog, de 2003. Aqui, a versão em inglês. Aparentemente, aqui tem com legenda.

Mas o que me fez escrever esse post é um exemplo que me tocou: um peregrino vai à pé até a árvore Bodhi desde terras “mais longínquas do que o Tibet”. Para traduzi-lo, precisam de duas pessoas, uma que verta seu dialeto ao tibetano, e outra do tibetano ao inglês. O peregrino fez todo o caminho não apenas à pé, mas em prostração, durante 3 anos e meio. Estava ali, junto à árvore do Buda e sereno.

O mundo e suas antigas práticas de peregrinação e hospedagem ainda existe.

89 segundos em Alcázar

Há muito tempo anunciamos o lançamento de 89 Segundos em Alcázar. É a reprodução exata do quadro Las Meninas, de Velasquez. Vale a pena rever. 😉