Políticas do clima

 

São 22h e olho o termômetro: 25 graus. Chegou a época das quedas de luz, da dengue e da falta de abastecimento de água. A máfia dos caminhões-pipa lucrará mais do que nunca. A conta de luz terá cobranças indevidas. Vários preços aumentarão. Enfim, é verão.

Dizem que tudo isso se deve ao aquecimento global. Outros dizem que as temperaturas nem aumentam tanto assim. Mas parece que ambos os lados do debate não enxergam algo: o projeto civilizatório brasileiro (se há algum) tem criado cidades muito quentes.

Ou então, basta abrir a janela, olhar para a rua: as árvores mais altas já são velhas, não raramente enforcadas por concreto colocado ali não faz muito tempo. As novas ruas e calçadas são estreitas. Moradias e estabelecimentos são, via de regra, concretados. Cimento e asfalto por todo lugar. E, para compensar o calor, um mundaréu de aparelhos de ar condicionado (a contribuir com o fenômeno das ilhas de calor).

Já chamaram o Brasil de paraíso, lugar de clima tropical. Mas os brasileiros que aqui viveram sempre tiveram vento, árvores e água em abundância. Mesmo o matuto colonizador criou estratégias, mais ou menos voluntárias, para enfrentar o clima. Mesmo casa sem eira nem beira tem janela grande e teto alto, para não contar as varandas e outros ítens.

De duas ou três décadas para cá, mas sobretudo atualmente, algo mudou. O brasileiro perdeu certa sensibilidade. O corpo sua, a rua é insalubre, os dedos se prendem ao smartphone e ao celular enquanto a cabeça pensa em outras situações ou lugares.

O brasileiro cria a galope, para si mesmo, um ambiente bastante hostil para habitar.

Dilma: “advogado é custo, engenheiro é produtividade”

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Recentemente a presidenta Dilma disse:

“Somos um país que formava mais advogados que engenheiros. Advogado é custo, engenheiro é produtividade”

Como de costume, as reações se distribuiram entre dois grandes lados do espectro: de um lado, dizem, o país evolui, pois engenheiro É MESMO produtividade; de outro lado, acusam a presidenta de enxovalhar agora o pessoal do direito, depois de já ter feito ou dito coisas deploráveis sobre os cientistas humanos.

Os dois argumentos referem-se ao mesmo tema: Lula, e depois Dilma, estariam de olho no “desenvolvimento” do Brasil em detrimento de sua carga “humana”, e nesse sentido seriam tecnicistas, desenvolvimentistas e outras atribuições mais.

De todo modo, é curioso notar a figura mesma do argumento. O profissional de direito sempre teve estatuto prestigiado no país. “Doutor” se refere a advogado, juiz e delegado. O direito sempre foi caminho mais do que aplainado para as velhas políticas dos coronéis. Boa parte do que diz respeito à desigualdade social no país se apoia em relações de âmbito jurídico, bastando ver desde os relatos dos viajantes estrangeiros a reiterados casos nacionais.

Mas… significaria isso tudo então uma reviravolta, na qual a técnica agora sobrepuja as velhas políticas dos coronés? Vivemos agora a “neutralidade” da técnica contra as velhas e acaloradas relações políticas tradicionais?

Algo mudou? Não é muito difícil procurar por onde começaria a resposta. Recentemente Pelé disse que todo dinheiro roubado nas obras da copa será recuperado pelo turismo. E Ronaldo Fenômeno comentou que Copa não se faz com estádios, mas com hospitais.

Para usar as palavras de Dilma, difícil pensar que tanta “produtividade” não mobiliza igualmente muitos “advogados”, para escolhermos estádios ao invés de hospitais.

O carro e a sensibilidade

https://i2.wp.com/i224.photobucket.com/albums/dd139/Gustavo_Timm/Primeirosbondeseltricos1-modificado.jpgÉ muito curioso: o carro faz parte da vida do brasileiro, e muito mais do que ele poderia pensar. E sobre isso não me refiro aos jargões estilo “carro, paixão nacional”. Há algo muito mais fundamental (não achei palavra melhor) do que isso, e diz respeito à própria relação do brasileiro consigo, com seu ambiente e com os demais.

O carro diz respeito à vivência do brasileiro em relação às suas sensações sensações mais imediatas. A limpeza ou a sujeira de uma cidade, a violência, a urbanização, o transporte público, as convivências, os valores, tudo diz respeito ao carro, ou ao desejo de ter um.

Dias atrás um cara perguntou ao outro na van, “Virou patrão, heim?”. O outro respondeu: “Se virasse patrão, não estaria na van, mas sim em um carro”.

O carro diz respeito às sensações: os vidros fechados, a eventual música ligada, a velocidade prometida, a imaginação da publicidade, tudo se correlaciona diretamente com a existência e continuidade dos lugares ermos, as calçadas estreitas, os muros altos, a iluminação carente, os índices de segurança… As pessoas que você vê aqui e agora na rua, quem você vê, quem não vê e quem nunca verá.

Certamente não há vínculo a priori algum entre o carro e cada um dos pontos acima. Mas com esses pontos o carro compõe uma série de predisposições que se reiteram continuamente e deixam muita coisa, como se diz popularmente, “permanecer onde está”.

Não sei bem se o brasileiro é inteiramente capaz de “perceber” isso. Percepção exige sensação… e para isso seria preciso um deslocamento de sua relação com o carro.

Brasil monoglota

O Brasil está em franca ascensão financeira, configurando-se como civilização avançada e ator relevante para os assuntos mundiais, certo?

A considerar o informe do PP, não. Surpreende como, diante de tantas alvíssaras, o brasileiro mal domina o verbo to be, sem contar sua incrível ignorância da língua espanhola (praticamente todos os países vizinhos do Brasil falam espanhol).

Salta aos olhos a informação de que Portugal é o segundo país mais escolhido pelos estudantes do programa Universidade Sem Fronteiras: provável barreira linguística.

Nisso tudo são surpreendentes dois elementos: em primeiro lugar, o imperativo, jogado diariamente goela abaixo, de que o brasileiro DEVE aprender inglês para enfrentar o dito “mercado de trabalho”. Tal imperativo é tão dito quanto não aplicado! Mais do que um paradoxo, algo ocorre para torná-lo possível e manter tudo como está.

Em segundo lugar, mente quem diz que os alunos não tem interesse. É surpreendente quando qualquer escola elenca um bom professor para ensinar inglês (sim, já chegamos ao ponto de termos professores deslocados, e não oficiais, lencionando inglês): chovem alunos interessados e atentos.

Voltando ao paradoxo, eis outra curiosa tonalidade para um povo que se proclama tão multicolorido.

Facebook, twitter, redes sociais: “fale sobre você”

Programas como o twitter e o de Zuckerberg emplacaram como “rede social”. Qualquer um sabe como opera: para além de simples  softwares, configuram conglomerados de dispositivos, agregando publicidade, especulação financeira, vigilância, tecnologias experimentais e inúmeros outros fatores.

Nesse imenso agregado, eu e você, nossa privacidade, o que temos de mais íntimo, aquilo que engendra nossas vidas e desejos, é uma das matérias principais a mover toda a maquinaria. O FB e o twitter funcionam principalmente porque respondemos, cada vez, à pergunta: “Fale sobre você”.

Essa pergunta funciona como um verdadeiro imperativo. E a finalidade desse imperativo, além de reforçar todo o conglomerado de dispositivos acima, é também a de aprimorá-lo, reiterar o sistema.

Nisso tudo é muito curioso ver como somos, aos milhões, arrastados pelo imperativo. A ponto de criarmos verdadeiras economias afetivas dentro desse negócio: somos capazes por exemplo de valorizar ou reprovar certas atitudes, reprovando condutas que não utilizam as redes sociais conforme esse imperativo.

Para redes como o Facebook e o twitter, nossa afetividade é verdadeiro objeto, e objeto de lucro e desenvolvimento de tecnologias para aprimorar ítens como lucro (mais lucro), vigilância e segurança. Parece um pouco surpreendente o quanto levamos isso a sério e transformamos isso tudo numa verdadeira vitrine. Como se ela traduzisse, sem recursos, quem somos nós.

36ºC básicos

35, 36, 37ºC…

Lá fora os bichos se escondem na mata. Como se sabe, a vegetação tem pelo menos algumas vantagens: refresca, dá sombra, reverbera vento. Se a temperatura é uma no sol, a sombra pode reduzi-la em vários graus. Continuar lendo “36ºC básicos”

O brasileiro e suas medidas

Abro o wordpress para escrever sobre o Tiozão e na mesma hora aparece outra estória.

Conversando sobre segurança na região, Cicinho chama a atenção em um lugar qualquer (isto é, qualquer lugar do Brasil): “aqui estamos relativamente protegidos. Você não viu o adesivo na frente da casa? Sempre passa um guarda do Tiozão. O próprio adesivo afasta os ladrões”. Continuar lendo “O brasileiro e suas medidas”

O parlamento dos macacos

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Monkey parliament, Bansky

A obra de Bansky joga na cara um dos mais interessantes paradoxos de nosso tempo: na era do homo natura, nesse tempo no qual a arte “morreu”, as religiões caíram e o pensamento se reduz às diversas analogias com o animal ou a máquina, nesse tempo em que  impera o senso privado, onde haveria espaço para um parlamento? E que parlamento seria esse?

Esse cara não sou eu

Que as músicas chilet sempre existiram, talvez ninguém duvide. De repente, a novidade está no fato delas serem tão utilizadas nos últimos anos (ou talvez desde o último ano) na dita “indústria cultural”. Ou ainda, talvez desde há muito (talvez uns 60 anos em algum país totalitário da Europa) nunca aceitamos tanto sermos atravessados por enunciados que são deliberadamente exteriores, mas consideramos imediatamente interiores. Continuar lendo “Esse cara não sou eu”