O carro e a sensibilidade

https://i2.wp.com/i224.photobucket.com/albums/dd139/Gustavo_Timm/Primeirosbondeseltricos1-modificado.jpgÉ muito curioso: o carro faz parte da vida do brasileiro, e muito mais do que ele poderia pensar. E sobre isso não me refiro aos jargões estilo “carro, paixão nacional”. Há algo muito mais fundamental (não achei palavra melhor) do que isso, e diz respeito à própria relação do brasileiro consigo, com seu ambiente e com os demais.

O carro diz respeito à vivência do brasileiro em relação às suas sensações sensações mais imediatas. A limpeza ou a sujeira de uma cidade, a violência, a urbanização, o transporte público, as convivências, os valores, tudo diz respeito ao carro, ou ao desejo de ter um.

Dias atrás um cara perguntou ao outro na van, “Virou patrão, heim?”. O outro respondeu: “Se virasse patrão, não estaria na van, mas sim em um carro”.

O carro diz respeito às sensações: os vidros fechados, a eventual música ligada, a velocidade prometida, a imaginação da publicidade, tudo se correlaciona diretamente com a existência e continuidade dos lugares ermos, as calçadas estreitas, os muros altos, a iluminação carente, os índices de segurança… As pessoas que você vê aqui e agora na rua, quem você vê, quem não vê e quem nunca verá.

Certamente não há vínculo a priori algum entre o carro e cada um dos pontos acima. Mas com esses pontos o carro compõe uma série de predisposições que se reiteram continuamente e deixam muita coisa, como se diz popularmente, “permanecer onde está”.

Não sei bem se o brasileiro é inteiramente capaz de “perceber” isso. Percepção exige sensação… e para isso seria preciso um deslocamento de sua relação com o carro.

Brasil monoglota

O Brasil está em franca ascensão financeira, configurando-se como civilização avançada e ator relevante para os assuntos mundiais, certo?

A considerar o informe do PP, não. Surpreende como, diante de tantas alvíssaras, o brasileiro mal domina o verbo to be, sem contar sua incrível ignorância da língua espanhola (praticamente todos os países vizinhos do Brasil falam espanhol).

Salta aos olhos a informação de que Portugal é o segundo país mais escolhido pelos estudantes do programa Universidade Sem Fronteiras: provável barreira linguística.

Nisso tudo são surpreendentes dois elementos: em primeiro lugar, o imperativo, jogado diariamente goela abaixo, de que o brasileiro DEVE aprender inglês para enfrentar o dito “mercado de trabalho”. Tal imperativo é tão dito quanto não aplicado! Mais do que um paradoxo, algo ocorre para torná-lo possível e manter tudo como está.

Em segundo lugar, mente quem diz que os alunos não tem interesse. É surpreendente quando qualquer escola elenca um bom professor para ensinar inglês (sim, já chegamos ao ponto de termos professores deslocados, e não oficiais, lencionando inglês): chovem alunos interessados e atentos.

Voltando ao paradoxo, eis outra curiosa tonalidade para um povo que se proclama tão multicolorido.

Facebook, twitter, redes sociais: “fale sobre você”

Programas como o twitter e o de Zuckerberg emplacaram como “rede social”. Qualquer um sabe como opera: para além de simples  softwares, configuram conglomerados de dispositivos, agregando publicidade, especulação financeira, vigilância, tecnologias experimentais e inúmeros outros fatores.

Nesse imenso agregado, eu e você, nossa privacidade, o que temos de mais íntimo, aquilo que engendra nossas vidas e desejos, é uma das matérias principais a mover toda a maquinaria. O FB e o twitter funcionam principalmente porque respondemos, cada vez, à pergunta: “Fale sobre você”.

Essa pergunta funciona como um verdadeiro imperativo. E a finalidade desse imperativo, além de reforçar todo o conglomerado de dispositivos acima, é também a de aprimorá-lo, reiterar o sistema.

Nisso tudo é muito curioso ver como somos, aos milhões, arrastados pelo imperativo. A ponto de criarmos verdadeiras economias afetivas dentro desse negócio: somos capazes por exemplo de valorizar ou reprovar certas atitudes, reprovando condutas que não utilizam as redes sociais conforme esse imperativo.

Para redes como o Facebook e o twitter, nossa afetividade é verdadeiro objeto, e objeto de lucro e desenvolvimento de tecnologias para aprimorar ítens como lucro (mais lucro), vigilância e segurança. Parece um pouco surpreendente o quanto levamos isso a sério e transformamos isso tudo numa verdadeira vitrine. Como se ela traduzisse, sem recursos, quem somos nós.

36ºC básicos

35, 36, 37ºC…

Lá fora os bichos se escondem na mata. Como se sabe, a vegetação tem pelo menos algumas vantagens: refresca, dá sombra, reverbera vento. Se a temperatura é uma no sol, a sombra pode reduzi-la em vários graus. Continuar lendo “36ºC básicos”

O brasileiro e suas medidas

Abro o wordpress para escrever sobre o Tiozão e na mesma hora aparece outra estória.

Conversando sobre segurança na região, Cicinho chama a atenção em um lugar qualquer (isto é, qualquer lugar do Brasil): “aqui estamos relativamente protegidos. Você não viu o adesivo na frente da casa? Sempre passa um guarda do Tiozão. O próprio adesivo afasta os ladrões”. Continuar lendo “O brasileiro e suas medidas”

O parlamento dos macacos

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Monkey parliament, Bansky

A obra de Bansky joga na cara um dos mais interessantes paradoxos de nosso tempo: na era do homo natura, nesse tempo no qual a arte “morreu”, as religiões caíram e o pensamento se reduz às diversas analogias com o animal ou a máquina, nesse tempo em que  impera o senso privado, onde haveria espaço para um parlamento? E que parlamento seria esse?

Esse cara não sou eu

Que as músicas chilet sempre existiram, talvez ninguém duvide. De repente, a novidade está no fato delas serem tão utilizadas nos últimos anos (ou talvez desde o último ano) na dita “indústria cultural”. Ou ainda, talvez desde há muito (talvez uns 60 anos em algum país totalitário da Europa) nunca aceitamos tanto sermos atravessados por enunciados que são deliberadamente exteriores, mas consideramos imediatamente interiores. Continuar lendo “Esse cara não sou eu”

catatau

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O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o…

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O horror de pensar

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Incrível de ver o horror, o pavor, o pânico, do homem ordinário (nós todos) quando oferecem a ele uma informação que não consiga compreender imediatamente. COMO ASSIM?

A informação não compreendida parece a ele um monolito vindo do espaço: ídolo a louvar ou destruir. Não há espaço para o pensamento.

Prato cheio para uma sociedade na qual a formação e a aprendizagem, com todo seu labor, dão lugar a termos como “treinamento”, “instrução” e outros retirados do comportamento animal.

Não à toa se fala de tanta crise na educação: o aluno deixa de ser aluno para se tornar cliente, e o professor se torna um “prestador” (palavra da moda: “instrutor”). Ai se o conteúdo não for imediatamente acessível! Antigamente se queimavam livros; hoje o acesso se tornou tão livre (embora caro, especialmente no Brasil), talvez porque o pensamento não ofereça mais perigo – afinal, quem é que vai ME ocupar com isso? E se alguém me ocupar com isso: que ultraje!

No que restou de bibliotecas de antigas casas estudantis brasileiras, não é difícil encontrar livros escritos em espanhol, inglês, francês e alemão, utilizados até 20 anos atrás. Florestan Fernandes comentava sobre o fato de seus professores passarem textos publicados em suas próprias línguas nativas, cabendo ao aluno correr atrás.

Correr atrás? É curioso como a falta de recursos do passado se transformou, no presente, na recusa diante da abundância de recursos.

Na Europa transformam igrejas medievais em bibliotecas, e isso deve ter lá seu significado: livros abandonados em igrejas abandonadas, cuidados depois de grandes movimentações – não muito bem quistas pelos burocratas  – para preservar o patrimônio material e imaterial.

Embora até nisso o Brasil tem lá suas diferenças. Basta ir a uma cidade histórica qualquer (ex.: Penedo-AL, de importante valor histórico) e encontrar, jogados às traças, inúmeros documentos de nossa história, que existem só porque algum senhor zeloso teve a decisão pessoal de não jogar fora. Senhores zelosos e professores estão ficando fora de moda 😉