Pedra da Gávea, 9 de junho

 

Parti às seis e meia com Derbyshire para uma longa caminhada até a [pedra da] Gávea. Essa montanha fica próxima ao mar e pode ser reconhecida a grande distância por sua forma muito singular. Como boa parte das montanhas, trata-se de um cone íngreme e arredondado, mas no cume é uma massa angular plana, daí o nome de mesa ou montanha-mezena.
A trilha estreita se desdobrava em sua base sul. A manhã estava agradável, e o ar, muito fresco e perfumado. Não vi em nenhum outro lugar liliáceas ou plantas com folhas grandes em tão exuberante profusão. Crescendo à margem dos riachos transparentes sombreados e ainda assim brilhando com gotas de orvalho, elas convidavam o viajante ao descanso. O oceano azul devido ao reflexo do céu era visto em relances através da floresta. Ilhas coroadas com palmeiras davam diversidade ao nosso horizonte. À medida que passávamos, divertíamo-nos observando os beija-flores. Contei quatro espécies. A uma pequena distância, a menor delas se parecia precisamente com uma esfinge em seus hábitos e aparência. As asas se moviam tão rapidamente que mal eram visíveis. Permanecendo estacionário, o pequeno pássaro dardejava seu bico nas flores selvagens, ao mesmo tempo que fazia um extraordinário zumbido com suas asas. Os beija-flores que encontrei nas florestas afastadas e sombreadas podem ser vistos afugentando seus rivais, as borboletas. Em vão tentamos achar uma trilha para subir a [pedra da] Gávea. Essa montanha íngreme tem um ângulo de 42º. Voltamos para casa. No ponto mais distante, tivemos uma boa vista da costa por muitas milhas. A montanha era margeada por uma faixa de matagal denso por trás da qual havia uma ampla planície de pântanos e lagoas que, em alguns pontos, eram tão verdes que pareciam prados.
(Darwin, Viagem do Beagle)
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