1917 (Sam Mendes)

1917 tem aquela linguagem cada vez mais familiar ao habitante de 2019 (quando o filme foi lançado), e que será ainda mais familiar ao restante dos habitantes do século XXI: filmagens em plano-sequência, imersivas, com história absolutamente rasa e sem evocar grandes argumentos sobre os dramas humanos.

Mas 1917 também saiu em 2019, em pleno limiar de uma pandemia. E isso muda tudo, revira o significado do filme, a começar pelo fato da oferta desse tipo de filme em salas de cinema. Tentei, mas não consegui de forma alguma vê-lo no cinema. E logo ele sumiu (bem como, de algum modo, todos nós sumimos). E não me parece nada casual que muitos espectadores apenas puderam ver o filme sob as penas de uma pandemia, não importando se ela foi subjetivamente negada ou afirmada.

Nisso, levando a sério a linguagem, as cenas em (falso) plano-sequência certamente não evocam nas pequenas salas aquilo que foram, ou puderam ser, nas grandes salas de cinema. E além disso, a urgência predominante no filme certamente é vivenciada de forma diferente na telona e nas telinhas (no meu caso, precisei parar duas vezes para tomar fôlego e suportar o que acontecia).

O mesmo ocorre para o roteiro raso e para o argumento superficial: ele é o que o habitante do século XXI já espera sem ver e já declara por resolvido se depara com uma curta sinopse do filme, já que nosso admirável mundo novo nunca traz nada de novo. Mas em meio a uma pandemia, o filme faz – quem sabe – ver algo mais. Ali está, em meio a tanta urgência, nossa tamanha fragilidade. O olhar e o corpo estão cansados, adormecem, mas de repente precisam despertar e já se lançar num mundo absolutamente desesperador e sem sentido. Alguém – da família, ou mesmo tantos outros lançados no anonimato – precisa dos meus atos para continuar vivo. Sigo, em completa admiração e espanto, as paisagens que não me deixam absorvê-las, pois é preciso estar sempre mais além, responsivo, para permanecer vivo e também garantir a vida de outrem enquanto o mundo desmorona.

Aqui e ali, em meio à torrente algumas flores caem e conduzem o olhar a outros motivos. Mas é preciso retomar o fôlego e seguir.