Napoleão, de Ridley Scott

Assisti Napoleão e é surpreendente saber que o filme é de Ridley Scott, de tão ruim. O filme é um retrato de nossa época: muito bem produzido, extremamente mal amarrado.

Por vezes perguntei se aquilo era um repeteco de Joaquin Phoenix fazendo Coringa. Por outras, a impressão é a do vazio nos saltos de narrativa, nos cortes não explicados, nas batalhas sem sentido, no enredo sem contexto. Nem na biografia, nem no contexto histórico ou político, em nada o filme mostra conexões, mesmo saltando anos na narrativa.

É um filme horrível em 2:40h.

Mas talvez a explicação para isso esteja no fato de que a versão do diretor, que sairá pela Apple TV, tem 4 horas de duração. É esperar e ver.

1917 (Sam Mendes)

1917 tem aquela linguagem cada vez mais familiar ao habitante de 2019 (quando o filme foi lançado), e que será ainda mais familiar ao restante dos habitantes do século XXI: filmagens em plano-sequência, imersivas, com história absolutamente rasa e sem evocar grandes argumentos sobre os dramas humanos.

Mas 1917 também saiu em 2019, em pleno limiar de uma pandemia. E isso muda tudo, revira o significado do filme, a começar pelo fato da oferta desse tipo de filme em salas de cinema. Tentei, mas não consegui de forma alguma vê-lo no cinema. E logo ele sumiu (bem como, de algum modo, todos nós sumimos). E não me parece nada casual que muitos espectadores apenas puderam ver o filme sob as penas de uma pandemia, não importando se ela foi subjetivamente negada ou afirmada.

Nisso, levando a sério a linguagem, as cenas em (falso) plano-sequência certamente não evocam nas pequenas salas aquilo que foram, ou puderam ser, nas grandes salas de cinema. E além disso, a urgência predominante no filme certamente é vivenciada de forma diferente na telona e nas telinhas (no meu caso, precisei parar duas vezes para tomar fôlego e suportar o que acontecia).

O mesmo ocorre para o roteiro raso e para o argumento superficial: ele é o que o habitante do século XXI já espera sem ver e já declara por resolvido se depara com uma curta sinopse do filme, já que nosso admirável mundo novo nunca traz nada de novo. Mas em meio a uma pandemia, o filme faz – quem sabe – ver algo mais. Ali está, em meio a tanta urgência, nossa tamanha fragilidade. O olhar e o corpo estão cansados, adormecem, mas de repente precisam despertar e já se lançar num mundo absolutamente desesperador e sem sentido. Alguém – da família, ou mesmo tantos outros lançados no anonimato – precisa dos meus atos para continuar vivo. Sigo, em completa admiração e espanto, as paisagens que não me deixam absorvê-las, pois é preciso estar sempre mais além, responsivo, para permanecer vivo e também garantir a vida de outrem enquanto o mundo desmorona.

Aqui e ali, em meio à torrente algumas flores caem e conduzem o olhar a outros motivos. Mas é preciso retomar o fôlego e seguir.

Era uma vez em Bacurau

Tarantino faz arminha

(esse texto contém spoilers) Num cinema qualquer vou asistir Era uma vez em Hollywood, sem influências prévias, sinopse ou crítica.

Tarantino, como se sabe, é inteligente, cruza os filmes novos com os anteriores e com inúmeras outras culturas cinematográficas (especialmente apócrifas e de filmes-B). Ele turva os dados reais com os imaginários, compõe narrativas complexas, cria múltiplas referências.

Uma das primeiras referências é Sharon Tate e Roman Polanski. Se é assim, não há (infelizmente) como não vir outra: Charles Manson. O filme, cujos protagonistas são vizinhos de Polanski, certamente abordará algo a respeito. Narrativa intrincada, menções-mil, homenagens a Tate e, finalmente, a série de desfechos.

Quando começa a violência gratuita e escancarada à la Tarantino – em torno do esperado caso Manson -, de repente o cinema inteiro começa a rir. É um riso incontido, escancarado, um sorriso de grindhouse, que se espalha incontrolavelmente, como se o cinema começasse a fazer parte da cena retratada (antes os espectadores já estavam com as pernas esticadas nas cadeiras da frente, como os próprios personagens nas cenas). Em meio ao riso, o olhar se dirige à tela, mas também à platéia, às cadeiras, e de repente não sei mais o que é filme e o que não é.

Como explicar o riso? Seria uma decorrência do modo como Tarantino conduz o filme ao clímax e ao paroxismo do cruzamento das referências, criando uma catarse que lava o sangue do espectador no caso Tate? Não, caso se julguem os comentários que vieram depois. As pessoas não remetiam nada a Tate ou a Manson, ou ao curioso desfecho. O riso era um riso contagiado, mas não era (por assim dizer) intelectual. Ele se ligava às cenas explícitas, e não aos rasgos (de narrativa, e não de corpos) que ali se implicavam. Não era sarcasmo, sacada, referência cruzada, inteligência, superação de contingências, inclusive as da história já contada. Era, por assim dizer, um riso de carnificina, e não um riso de cinema!

Então retorno uma semana depois para ver Bacurau. Não obstante a divulgação, o cinema parece esvaziado. O filme avança e outra carnificina começa a se desenhar.

Dessa vez, não há como não cruzar os temas com os vividos agora, em 2019. Não se trata (a meu ver) de um “nós contra eles”, tal como alguns divulgaram, mas de um momento no qual, em breve, o brasileiro deixaria de ser homem público – mesmo em teoria – e estaria (estará?) jogado à própria sorte, num ideal radicalmente anarco-capitalista (e o que me parece ser o mérito maior do filme: o retrato de um anarco-capitalismo bem à brasileira).

A televisão anuncia assassinatos em massa e a morte se transforma em algo banal, quando não num comércio. É como se, por assim dizer, o homem não pudesse mais se definir, como diriam os existencialistas, como um “ser-com“: é como se a referência fundamental ao Outro se apagasse de nossas possibilidades existenciais e o outro passasse a se revelar como simples objeto de uso. Em alternativa a isso, restariam apenas as vivências de tradições locais e de micro-comunidades sobreviventes, ainda unidas (embora descaracterizadas, até vazias) e resistentes ao que está para chegar.

É então que vejo a platéia recomeçando a rir. Virá violência gratuita, e ela vem. Uma pena aqui sobre a criança morta. Ali outra gargalhada, nas cenas que supõem a idéia de armamento como auto-defesa. Começo a esperar um novo riso geral de carnificina.

Mas não é o que ocorre. Esse riso não vem. De repente as pessoas silenciam. Por alguns momentos, aquela linha entre a tela e a platéia também pareceu se desfazer. O filme acaba, mas não acaba, pois ninguém sai do cinema. Todo mundo fica ali e, de repente, surge um aplauso espontâneo. Ninguém sai, até o fim das últimas letras e o acender das luzes.