O abismo entre as leis e a prática

Brasil: nem uma biblioteca borgeana explica

Notícia que, daqui alguns dias ou meses, fará bafafá: “Projeto de senadora prevê demissão de servidor público estável por mal desempenho”.

Nem vou inserir link. O Brasil está tão previsível que… E está tão ruim de viver por aqui… Mas vamos lá: tempos atrás publicamos exatamente a mesma coisa, sobre a Lei Seca. Nós, brasileiros, de fato exercemos nossa vocação histórica. Fazemos isso muito bem.

existe uma lei que demite servidor público, quando o servidor público não exerce sua função pública com eficiência. Chama-se Lei 8112/90.

No Brasil acontece assim: se a lei não é aplicada, criam então uma nova lei. Mas… se a lei antiga não era aplicada… o que se fez para que agora se aplique a nova lei? Nada, meus caros. Não se corrige o problema original, que é a não aplicação da lei. Num cenário desses, o que se fará é apenas o mesmo de sempre: criar subterfúgios para punir os servidores que trabalham e mascarar os que não trabalham. Criar jeitinhos para benefícios de uns e malefícios de outros. AliásAliás

Há uma lei de verdade, informal, operando por trás da Lei formal, jurídica, vocês entendem? É a Lei do malandro e do mané, muito mais profunda do que qualquer lei escrita. É o mesmo que ocorre quando você vai ao restaurante, ao hospital, à polícia e a tantos outros lugares, sempre. Não precisa haver outra Lei além da 8112. Ela precisa apenas ser aplicada. Servidores públicos precisam ter função pública. Ponto final.

Noves fora, permanece o conto inspirado em Borges, que reproduzo abaixo.

***

Assim poderíamos imaginar um conto borgeano, sobre um lugar que criasse sempre novas e novas leis. Uma lei não sendo fiscalizada na prática, cria-se outra lei, em segunda potência. Teríamos a progressão: Lei, Lei2, Lei3, Lei4, LeiN…
Desse modo, um dia as leis seriam tão dinâmicas que, progressivamente, um número menor de contravenções motivaria cada vez mais uma nova lei, até o ponto em que apenas uma contravenção motivaria a redação de uma Lei nova.
Esse novo jardim infinito das leis geraria um curioso efeito nas contravenções: a cada lei nascente que não se fizesse valer, o número de contravenções aumentaria. Isso motivaria mais ainda a criação de novas leis, e  mostraria ser o ramo das leis o único possível de se criar algo formal, fugindo das práticas criminosas espalhadas mundo afora.
Diante de tantas leis e contravenções, os legisladores seriam ovacionados pelo povo marginal. Mundo “ideal”, apenas nas Leis.  De resto, a barbárie. A ponto de, um dia, o próprio povo tornar-se motivo de desconfiança: não seria ele essa massa de seres irresponsáveis, razão de nossa existência e trabalho árduo?
E a classe legisladora continuaria seu trabalho infinito. Afinal, era da ineficácia de toda lei que se retirava a garantia de seu ofício, e todos os seus privilégios.

A leitura e o mundo novo

O mundo mudou.

Anos 80: “não leio porque não tenho instrução, a vida não me permitiu isso”

Anos 10: “não gosto de ler, acho uma perda de tempo. A nao ser que prenda muuuito minha atenção”

São dois modelos civilizatórios, dois sistemas de exclusão, dois regimes tecnológicos, dois tipos de luta diversos. A leitura como o perigo de produzir um mundo novo; a leitura porque não importa, não produz mais nada.

Brasil terceirizado

Cenário: você é um Headhunter no universo da terceirização. Monta uma, ou várias, prestadoras de serviço. Afinal, qualquer trabalho pode ser terceirizado. Você então faz uma boa publicidade prometendo emprego certo (pouco importa se isso é verdade).

Os candidatos a “colaboradores” começam a aparecer. Você divulga a maravilha que é as pessoas pertencerem a seu leque de “colaboradores”. Para participar dele, elas precisam pagar uma “taxa administrativa”. Poderá ser única, “de manutenção”, trimestral ou, com jeitinho, até mensal. Pode haver desde o plano básico até o plus.

Quanto ao emprego de fato, depende: quem o candidato é ou conhece tem total preponderância. Berço, entende?  O curriculo vem em segundo ou terceiro lugar. E está no contrato: o pagamento é garantia de que o candidato será mantido no diretório de possíveis colaboradores, e NÃO de que será contratado. É preciso ter lábia. E a empresa que contratou serviço também vai ter poder decisório, mesmo que na prática, na manha. 

Com muita sorte, o headhunter é idôneo e tem de verdade contato com empresas (lembremos: o contrato não garante contratação).

Então um candidato é eventualmente chamado. Trabalhará sob o novo vínculo temporário, por 6 meses. Vínculo temporário é mais barato, entende? E a lei agora permite alargar mais 3 meses, 9 meses no total. Perfeito! Pode-se contratar em março e demitir no fim de novembro!

Depois de demitido, o feliz colaborador pode renovar o contrato de headhunting, ou até pagar um plano diferenciado. Depende sempre do berço.

Você, headhunter, enriquece. Quem sabe, para o colaborador, ano que vem tem mais.

A escalada do ódio e as redes sociais

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Dias atrás um amigo comentou que as redes sociais não configuram propriamente espaços públicos, e que o FB serviria apenas para agregar algumas forças, sem possibilidade de uma mudança democrática efetiva. Além disso, os lugares costumeiros da publicidade estariam esvaziados, com as pessoas jogando suas pautas nesses espaçozinhos privados, cuja voz ativa seria enfraquecida.

Pensei bastante a respeito, e isso reativou velhos assuntos.

Acompanho a internet desde as jurássicas “personal web pages” e “listas de discussão”, com toda a evolução aos blogs, ao orkut, ao technorati, ao twitter e depois às “redes sociais”. Acompanhei a evolução do html ao RSS e agora a esse fechamento da Rede no Facebook.

Disso tudo, tempos atrás, quando ainda blogava, tive um breve debate com uma blogueira ainda famosa, que ficou ainda mais notória com as redes sociais. Eu argumentava que os blogs, mais antigos, constituíam uma teia aberta, descentralizada, mediada pelo link. Certamente havia pontos focais, caracterizados por blogs com nicho forte ou autores com papel de autoridade. Mas a “dinâmica” da coisa operava de modo que pequenos blogs poderiam chacoalhar políticas locais ou até nacionais. Blogueiros chegaram a ser perseguidos ou mortos. Inclusive Aaron Swartz, um dos inventores do RSS, acabou se suicidando devido a uma grande pressão institucional, após liberar em acesso público boa parte do acervo do JSTOR. Nomes como Bradley Manning e Assange também eram notórios por obrigar certa publicização “horizontal”, por assim dizer, num mundo ainda bastante verticalizado. E me refiro aos idos de 2010-2012…

Nesse sentido, eu enxergava o Facebook e o Twitter, ou mais precisamente a troca do link pelo aplicativo e pelo “follow”, como fechamentos, frente à abertura que os blogs representavam. Eu dizia que a abertura ao espaço público que se esboçava nos blogs, desde as páginas pessoais, corria o risco de se fechar na privacidade dos interesses passionais, egologismos, autoridades e na fragmentação em nichos incomunicáveis.

Contrariamente, a blogueira dizia que o FB e o twitter potencializavam os blogs, apenas dependendo do modo de usar. A tese utilizada por ela é a de que a tecnologia é neutra: “se você” usar para o bem, será bom. Um machado pode matar ou cortar lenha, a energia nuclear pode matar ou acender a luz…

Mas há algo mais… E aliás, toda a tradição que se consolida nos estudos CTS (Ciência, Tecnologia, Sociedade) diz bem mais coisa do que a mera tese “a tecnologia serve para o bem ou o mal, depende como você usa”.

Hoje o FB emplacou de vez e a Rede nunca esteve tão privada. É certo que o FB mobilizou massas, como na Primavera Árabe, ou redes como a do BlackBerry chegaram a chacoalhar a Inglaterra.

Mas, correlativamente, muita coisa ocorreu. Já se começa a pensar sobre como a intervenção em redes sociais auxiliou na vitória de Trump, inclusive sob influência russa. Ou como sites formadores de opinião nas redes sociais emergem… da fumaça (ver isso também). Ora, isso já era possível na época dos blogs. Mas nas redes sociais parece que algo mudou, devido ao próprio modo como elas se constituem e independente da escolha sobre seu “uso”.

Se os websites e blogs configuravam uma primeira camada de acesso ao “virtual”, as redes sociais configuram “acessos sobre acessos”, elas filtram e também oferecem previamente o que se dará a pensar. Quando o primeiro ato de navegação se refere a uma página pré-moldada, e não a páginas pré-escolhidas, toda a ação subsequente muda.

Isso é certamente diferente dos blogs.

Outro fator importante é a própria, digamos, “dinâmica das excitações” envolvida. Navegar de link a link, “escolhendo” o próprio rumo, é bem diferente desse fechamento em nicho ocasionado pelo FB. Leio e acesso o que alguns (não todos) dos outros me oferecem, mediados por algoritmos que buscam capturar, pelo padrão de minha navegação, o meu gosto. Se estou predisposto a determinadas idéias, elas me serão oferecidas diretamente, em manchetes rápidas e sem maior argumentação, junto a comentários afetados de pessoas que muitas vezes sou simpático a concordar, mesmo que – e isso é a parte importante – se eu examinasse de fato suas idéias, eu não concordaria (vale novamente esse link).

O mar aberto dos links oferecia algo diferente. Certamente alguém tende a clicar nos assuntos que tende a concordar, ou ao menos pretende saber. Mas entre a busca e análise de um texto (blogs, webpages) ou a oferta sem análise de uma simples manchete (twitter, facebook), a tecnologia mental empregada é inteiramente diferente. Somos “excitados” de forma bem diferente, e agimos diferentemente conforme tais “excitações”.

Além disso, reforça essa economia de “excitações” a diferença entre o “post” e o “textão”: os blogs e as webpages possuíam linguagem sintética, mas também abertura para argumentar. Agora os “memes” são predominantemente frases curtas, sacadinhas, excitações momentâneas, para nos “excitar” de um modo e depois canalizar outras excitações. O “textão” recebeu quase imediatamente conotação negativa: ler é ruim, não tenho tempo e nem disposição. Se você pode dizer tudo abreviadamente, pra quê ler textão?

Disso tudo, é evidente que as redes também engajam afeições, para além de cognições. Aliás, – e aqui chego a meu ponto – pode não ser por acaso que a escalada da violência e do ódio nos últimos anos conviva com a popularização e a massificação das redes sociais e o fechamento das navegações.

Os nichos fechados das redes sociais transformaram cada vez mais a internet na réplica do mundo “lá fora”, ao invés de virtualidades de tecnologias como a do hiperlink serem exportadas para fora. Exemplos disso são as políticas de direitos autorais, a unificação de cartões identitários ou a interface entre geolocalização e aplicativos de consumo, multiplicando possibilidades de “captura” e “individualização”, por assim dizer. Ainda por assim dizer, não se tem propriamente uma multiplicação das mobilidades e liberdades individuais, mas sim uma multiplicação do monitoramento das individualidades e mobilidades. O esquadrinhamento dos indivíduos em espaços fechados dá lugar à individualização em espaços abertos, conforme muitos autores já notaram. Em suma: quando a internet se popularizou, muitos enxergaram no hiperlink e no hipertexto a possibilidade de que o tipo de relação engajado por eles poderia ser exportado ao “mundo real”. Ocorreu algo um pouco diferente…

Mas há mais: as redes sociais, trazendo “para o virtual” as relações “reais”, inevitavelmente devolvem para “fora” o que ali dentro se condensou. Não é difícil provar o quanto as pessoas comentam e se posicionam favoravelmente a muito do que “encontram” nas redes sociais. Crenças prévias, trazidas de “fora”, são revestidas de novas camadas, transfiguradas em temas adequados à velha crença, produzindo por sua vez novas relações “reais”. A partir dessa dinâmica, sou de fato formado e carrego de volta ao “mundo lá fora” minha formação. Isso quer dizer que, se as redes trazem para “dentro” da internet o que havia lá fora, o que se condensou ali “dentro” também será, doravante, levado para “fora”. A Rede me auxilia a encontrar um produto do mesmo modo que me orienta a encontrar grupos de ódio ou eventualmente organizações mais complexas. Acredito no tema do “bandido bom é bandido morto?” Logo algum deputado que prega isso, ou grupos de ódio do facebook, estarão no meu horizonte de links, sem que eu os precise procurar. Os inesperados casos de brasileiros que, usando redes sociais, foram parar em grupos paramilitares na Ucrânia ou no terrorismo islâmico são apenas alguns exemplos.  Predisposições “reais” encontram algoritmos “virtuais”, que orientam tais predisposições em novas potências.

Agora, levando em conta o que dizem os “estudos CTS”: as redes sociais não são o “abstrato” versus o “concreto”, não se tem meramente o “virtual” contra o “real”. O que acima me referi por “dentro” e “fora” é inexato. O que há é um mecanismo no qual, “dentro” e “fora” induzem a dinâmicas inesperadas se considerarmos tecnologias mais antigas, como as dos blogs.

Seria preciso descrever o funcionamento desses investimentos… A meu ver, as coisas ocorrem quase como na época em que Freud criou a noção de “pulsão/impulso/trieb de morte”: como explicar a guerra, e principalmente a “atmosfera” que conduz a ela? Freud apelou à construção de um conceito reportado à condição humana, e mostrou que há investimentos não apenas orientados por Eros.

O que me parece relevante nisso tudo é que vivenciamos claramente uma nova escalada de ódio e violência. A considerar os ânimos, tudo funciona para nos encaminhar a novas e terríveis guerras, um pouco como Freud se estarrecia diante da matança da Primeira Guerra e via nascer as nuvens da Segunda. Voltando à nossa época, não preciso citar o discurso de posse de Trump. Nas expressões cotidianas, é nítido o ódio nas redes sociais e em diversas manifestações, inclusive artísticas. Há pouco um artista israelense precisou intervir contra as pessoas que fazem performances no Memorial do Holocausto. No Brasil, os casos de violência banal e motivados por estereótipos políticos começam a aumentar…

As pessoas não tiram tudo isso das próprias cabeças, e o alarme não estava tão vermelho assim 10 anos atrás.

As ocupações são um campo de batalha

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Tenho acompanhado notícias de diversas ocupações no Brasil, de escolas médias a universidades. De minha parte, está fora de questão o apoio: se elas são movidas pela luta contra a reforma do ensino médio e a PEC 241-55, a meu ver elas têm mais do que razão.

Além disso, os estudantes estão lutando de forma pouco vista por aqui ultimamente. É incrível, por exemplo, nossa total morbidez frente à reestruturação produtiva do Banco do Brasil. Estão demitindo 18 mil funcionários e fechando centenas de agências de um banco que tem (tinha?) função social importantíssima, sem contar que a última grande reestruturação produtiva foi recente. Alegam “corte de gastos” de 750mi, numa instituição que, com os mesmos funcionários, rendeu 15bi em ano de crise. Apenas assistimos a tudo, bestializados.

Voltando aos estudantes e à ocupação: estar ali, firmar posição e se reunir com outras ocupações nacionais é a luta. Há muito se sabe que boa parte da luta é questão do que chamam de “opinião pública”, “publicidade” e outras palavras da moda. É preciso, sobretudo, excitar a sociedade, mobilizá-la em prol das causas. Não à toa os movimentos estilo MBL se apoiam em vídeos para tentar mostrar que as ocupações não valem nada.

A imagem é moeda de troca. Disso tudo, creio que as ocupações têm um papel muito importante, para além de marcarem posição. É mostrar a quê vieram.

Digo isso porque a impressão é a de que há um imenso esvaziamento intelectual no ensino superior. Em muito isso se deve à profusão de uni-esquinas privadas no Brasil. Há faculdades e faculdades, mas há muito as privadas imprimem um ensino raso, feito para clientes inertes e não alunos ativos. Filmes como “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolucci, mostravam jovens descobrindo a vida em meio à intelectualidade e rebeldia dos anos 60. Relacionar a vida com a intelectualidade? Parece não haver paisagem mais distante.

Disso tudo, a direita (que agora se mobiliza e agrupa do liberalismo mais ingenuamente honesto às piores pulsões autoritárias), se aproveita soberbamente das imagens oferecidas pelas ocupações. Eles – não sou eu quem diz – acusam tudo.

E estão dando pancada.

Ouso dizer que, no centro das acusações, está certa adesão a pautas que não precisariam de estudo para existirem enquanto pautas. Que as mulheres e negros e demais minorias precisem ter lugar, basta ter um cérebro para concordar. Alguns dos ditos “direitistas” concordam, outros não estão nem aí, acéfalos. Mas há algo aqui que eu gostaria de chamar a atenção: o argumento.

O cerne da questão é que, olhando as centenas de ocupações do Brasil, dá-se muita munição ao adversário. Apenas mantendo os exemplos temáticos de gênero e cor: não se vê, por exemplo, grupos de estudos sobre a separação de gênero, questões de sexualidade ou as proveniências e funções do racismo. Menos ainda, questões detidas nas temáticas maiores da universidade, outrora tão contestadoras.

Pelo contrário, muitas pautas são diretas, rasas, do tipo “vamos deixar as minas”, “aulão sobre Foucalt” (sic!), “meditação” e “prática de empoderamento”.

Tudo isso tem lá sua legitimidade. Precisamos lembrar que os ocupantes não estudam 24 horas por dia. Mas, para quem é contra a ocupação, não ver atividades acadêmicas é prato cheio para a crítica. Afinal, não ocupam contra a baixa do nível de ensino e os cortes que atingirão a pesquisa e a extensão?

No caso das universidades públicas, elas são o último bastião onde se pode ter uma educação superior de qualidade, não voltada ao miojo do mercado, mas à grande gastronomia do conhecimento do mundo. Perigosamente, cada vez menos se compreende – à direita e à esquerda!!! – a importância de que o ensino público carrega os últimos bastiões do pensamento no Brasil.

Até a monarquia, que negociava privilégios, achava importante ver um Brasil com ensino superior, afinado às “novidades” européias. A universidade brasileira cresceu, e nos últimos anos houve muitos intercâmbios de igual para igual com inúmeras outras academias estrangeiras (não que isso seja o essencial, mas mostra o quanto houve de abertura de diálogo).

Aquele que quer ver o fim da universidade pública, ou que pretende transformar a universidade e o ensino médio numa fábrica de salsichas mentais, não percebe isso. Aliás, isso nunca foi para nós um ítem de percepção. Um país grande tem pesquisa, e pesquisa implica pesquisadores, mentes pensantes, um burburinho do qual muito ruído é gerado, mas que é também condição de possibilidade da inovação.

Estão atacando as universidades e massacrando o ensino médio. Diante disso, os alunos ocupantes são o pouco de movimento contrário. Com isso precisamos mostrar, todos nós, a que viemos.

Quando se caminhava de dia

https://i0.wp.com/i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/538687_427702477276184_1930413042_n.jpgDiversos Quero-quero se abrigam como podem em Araguaina, TO

Certa vez perguntei à minha avó se ela preferia os “tempos antigos” ou os atuais. Ela respondeu “os tempos antigos”. Por quê?

“Porque antigamente tinha de tudo em abundância, bastava você soltar o anzol para fora da janela e já pegava um peixe grande para o almoço. Hoje tudo exige algo de mais para que você consiga qualquer coisa.”

É incrível: hoje, “tudo exige algo de mais”. Minha avó achava melhores os “tempos antigos” em sentido bastante semelhante ao qual, 70 anos antes dela, Henry David Thoreau ficava estarrecido com certa relação que se configurava entre o indivíduo e o mundo.

Thoreau se surpreendia com o fato de que, se a América havia conquistado uma verdadeira res publica e a possibilidade de agir individualmente pela democracia representativa, a própria ação individual não foi, de fato, problematizada. Para além da res publica, ninguém nunca tocava no assunto da res privata, considerada por ele um gigantesco “ouro” inexplorado, muito mais além do “ouro” do Oeste e d’outros lugares.

Ao invés de problematizada, a capacidade de agir era inteiramente colonizada pela “maioria”, entrevista nos mundos das notícias e dos negócios. Ele via os vizinhos de Concord sentados, jornal na mão, corpos dormentes e conectados com acontecimentos longínquos durante várias horas do dia, à espera da próxima ida aos Correios (ou do fuxico do vizinho, com “cones no ouvido”) para chancelar tempos inteiros de vida distanciados daquilo que é mais precioso à própria vida: a capacidade de agir.

Thoreau também considerava estranho que alguém a dedicar várias horas por dia para caminhar a floresta (ele próprio) poderia ser chamado de vagabundo, enquanto quem gastava a vida para cortar a floresta era visto como homem de bem e trabalhador. Gasta-se a vida para ganhar a vida, dizia. Ou ainda: do mesmo modo como no aguardo das notícias, no mundo dos negócios o indivíduo inteiro se compromete em ações que não são verdadeiramente individuais, mas que poderiam ser feitas por qualquer um. Numa de suas grandes frases de efeito, Thoreau era fulminante: “Quem mata o tempo fere a Eternidade”.

“Tudo exige algo de mais”, disse minha avó. Note-se, em Thoreau, como qualquer capacidade de agir era protelada por alguma espécie de mediação: o voto medeia minha relação com as decisões políticas (que serão de uma “maioria”, isto é, todos e ninguém), o dinheiro me afasta das coisas, os jornais e o trabalho afastam o indivíduo de suas ações.

Dessa constatação resultam os inúmeros paradoxos que Thoreau adorava explorar: por exemplo, o fato de que um Estado não resiste ao poder de um único indivíduo (!). Isso porque são as ações individuais de cada um, uma a uma, aquilo que, na ponta da lança, constituirão o que se configura apenas a posteriori como um Estado. O Estado não é algo que se impõe, mas aquilo que tua ação reitera… A ponto de Thoreau ser preso por acreditar que um único proprietário de terras em Concord que não escravizasse poderia libertar todos os escravos da América. Em suma: o Estado não passaria de uma ficção… Ele se define pelo que faço aqui e agora. Por isso – novamente paradoxal – “o melhor governo é o que menos governa”, dizia Thoreau.

Eis a essência daquele enunciado privado de minha avó: antigamente não se acumulavam tantas mediações… Certamente o trabalho deveria ser duro (algo que certamente seria objeto de riso por Thoreau), mas, mesmo assim, era possível pegar gratuitamente um peixe que hoje não custa menos do que 90 reais (sem contar que hoje, no Brasil, também é preciso levar o vendedor da peixaria na conversa, mediação mais além das mediações).

Em suma: não se colocavam tantas etapas intermediárias para que o indivíduo se relacione com o mundo (e para começar a pensar em etapas intermediárias basta pensar na caixa de correio com as contas do fim do mês).

E hoje percebo o seguinte: estamos em abril e a temperatura não baixa de 32ºC no aplicativo, gerando diariamente sensação térmica à beira dos 37-45ºC. O único ganho é saber que, à noite, em meio às ameaças de Zika e a tarja vermelha do consumo de luz, a temperatura da madrugada atinge a casa dos 20 e poucos graus.

Não sei bem se o leitor entende o que isso significa, mas eu o convidaria a olhar um pouco ao redor e se perguntar: durante quantas horas do dia você tem contato efetivo com o mundo efetivo ao redor, sem maiores mediações?

Digo isso porque deve ser familiar a você o fato de que durante várias horas do dia é praticamente impossível simplesmente viver ao ar livre, estar na rua, na calçada, indo para qualquer lugar, sem alguma mediação para suportar o clima – ventilador, ar condicionado, climatizador… Valendo repetir: estamos em abril e, sob chuva escassa, a temperatura raramente baixa dos 32ºC nas horas mais ativas do dia.

O Brasil a cada dia bate recordes de consumo energético (e esse link é super-antigo). Ignoramos sistematicamente que influenciamos o clima. Esquecemos o velho tema de que a vegetação tem relação direta com o microclima de uma região, do mesmo modo que fingimos ignorar que o uso do ar condicionado contribui com o aumento desse mesmo microclima. A cada dia reiteramos o inconcebível.

Seguimos uma velha tradição colonial de desvincular nosso próprio modo de ser com o clima. Ter um ar condicionado não é questão de preocupação, e sim de ostentação. O esnobismo histórico da europeização das vestes brasileiras, ironizado por Gilberto Freyre (“sobrecasaca preta, botinas pretas, cartolas pretas, carruagens pretas, quase um luto fechado. Essa europeização de nossa paisagem, de preto e cinzento, começou com Dom João e culminou com Pedro II”), agora se transformou. A república das hemorroidas agora se transformou na república do ar condicionado!

É de pensar no recado que daremos a nossos netos (caso tenhamos algum no futuro): “Sim, quando eu era jovem vivi temperaturas abaixo dos 30ºC. Era possivel inclusive caminhar nas ruas”.

Golpe e impeachment no dualismo brasileiro

Monstro marinho que Pero de Magalhães Gândavo diz ter aparecido em São VicenteO brasileiro tem uma sensibilidade cujo teor é difícil de mudar, como ele mesmo diz, “para melhor”. Durante os últimos 10 anos, este blog se espantou com isso quase todos os dias.

Por “sensibilidade” quero dizer o seguinte: o que corre nas sensações, na carne, no corpo, nem de longe acompanha o que se registra como sentimento, sensação, aquilo que virá a ser discurso, por exemplo no enunciado “senti isso“. Ou, quando o enunciável acompanha o visível, isso apenas ocorre por diversos jogos sorrateiros.

O brasileiro vive um gigantesco dualismo às avessas. Não mais aquele de um mundo sensível que delira um mundo metafísico. O mundo sensível continua delirando, mas são outras virtualidades. Quebrado, sem grana: lá está o selfie glamouroso. Debaixo de 45ºC de sensação térmica: roupa de executivo para ostentar o fato de que não sou como os outros. Protestando contra a corrupção: o dedo em riste acusa sempre alguém, outro, ele, pois eu, bem… (só se você me pegar lá nos interstícios, na transação, no flagra, no caixa, na licitação… aí brota um sorriso sem vergonha).

Não é diferente em relação ao Golpe, ao anti-golpe, ao justo impeachment, a seja lá o que for.

Chega a ser surreal ver certa “intelectualidade” brasileira criticando, hoje, quem apóia, apoiou ou pareceria apoiar Dilma. Aliás, a mesma intelectualidade que, tempos atrás, sem suspeitas dizia: “dilma é muit@s!”. Esse mesmo pessoal acusa a ingenuidade alheia de não ter percebido que o Brasil se faz mais profundamente de Realpolitik, não de idealismos.

Muitos desses dizem que o “voto crítico” impediu, por exemplo, a ascensão de Marina, mais apta ao governo, e que foi – de fato – tratorada por Dilma, sob manobras que acabaram levando Aécio ao 2º turno.

O que este blog perguntaria é: será que apenas agora, com Dilma, começa a se perceber que a política brasileira se faz negociando com o capiroto? Que isso seja trazido à sensibilidade, assim e agora, isso é muito curioso.

O dualismo entre a sensação e a narrativa é o mesmo entre apoiadores do PT (protejam-nos do golpe corrupto, contra a corrupção!) e apoiadores do impeachment (protejam-nos na corrupção, contra a corrupção!).

Novamente, valeria sair um pouco e ver a rua, o cara que cuspiu no teu caminho, o colega que quase te mijou no banheiro público, o atendente que daria inveja aos exemplos de Sartre sobre a “má fé”, o policial que põe o fuzil na mesa para almoçar, com o detalhe de que o fuzil está virado para você, tantas outras ocasiões que são tão banais que se tornaram clichê… (“ih, lá vem o chato contar coisas desagradáveis“)

Aliás, é exatamente isso. Nós, brasileiros, fugimos de nosso cotidiano efetivo como o diabo foge da cruz. Disso a encenar uma narrativa de impeachment dentro de uma república, encenar o golpe ou o anti-golpe como se vivêssemos numa república de fato e de direito, é um pulo. Todos os poros nos convidam a problematizar o fato de que não vivemos numa república e que isso aqui é uma verdadeira encenação. Mas aí chegam as imagens, o discurso e…

Veja-se o PMDB desembarcando, em massa, do governo do PT, cuja governabilidade apenas foi tornada possível sob amplo apoio transitório do próprio PMDB. Todo mundo, a favor ou contra, insiste em pensar em termos de representação ou correspondência (PT e PMDB não estão mais “afinados”), quando tudo nunca passou de estratégia.

Para que o governo Lula surgisse e perdurasse, foram amplos os acertos, como se diz na rua em cada período eleitoral. Os mesmos acertos se fazem para sustentar um impeachment.

E um bando de piá de prédio, que não sai à rua para sentir o mormaço da calçada e o sol batendo pesado, ainda se sente na vanguarda do Pensamento, escolha-se o lado que quiser. O sol continua pesado e os acertos ali, no fio do bigode.

***

Lá venho de novo com o Foucault. Em muitas ocasiões ele faz jogar o “visível” e o “enunciável”. As práticas cotidianas sobre o sexo na Grécia, nem de longe fazem corpo com os esquemas de austeridade dos filósofos; o “grande medo” da proliferação da loucura ocasionado pelos internamentos do século XVIII nem de longe acompanha um aumento “real” do número dos loucos; o nascimento do Hospital moderno nem de longe é ocasionado por um movimento médico.

O encontro entre o médico e o hospital, a percepção dos loucos e a efetividade da loucura, dos interditos espontâneos com as práticas de si, isso sempre é problema de como determinados fatores, disjuntivos e heterogêneos, estrategicamente resultam em situações históricas singulares.

O Brasilzão é repleto desses jogos. Basta entrar no metrô às 6 horas da tarde na Estação da Sé e notar como o corpo, transformado num pedaço de carne, é depositado com outros corpos dentro de um vagão. Os dados perceptivos de repente se embaralham e transportamos a nós mesmos para outro cenário. A mente vaga, para bem longe (o smartphone é um incrível dispositivo que se encontra com o vagão), numa verdadeira economia da separação entre o que se diz e o que se faz.

samarco

Ou ainda: viram a manchete acima? Incrível comparar o que se passa com a Samarco com o que os jornais contam e os juristas dizem a respeito de corrupções como as de Lula e Dilma.

A mudança das estações

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O fotógrafo Zig Koch, especializado em natureza, fez hoje um comentário que é um verdadeiro “libelo” à História do Esquecimento. Ou melhor: o comentário é uma lembrança, mas a lembrança isolada apenas coroa um gigantesco esquecimento, não dele mas nosso. Cito as belas palavras:

As estações do ano marcam a passagem do tempo. São mudanças sutis que nos tocam como as ondas do mar no costão rochoso. Aos poucos vão mudando sua forma até não serem mais reconhecidas, mas ainda sim são as mesmas.

Ele compartilha a foto acima, que é um lindíssimo registro. Mas por quê seria um libelo à História do Esquecimento?

Ontem a previsão do tempo do Jornal Nacional bancou mais um desses episódios incríveis do jornalismo brasileiro (também pertencentes ao Esquecimento): o Jornal nos ensinou que o Outono é a estação de transição entre o Verão e o Inverno, e por isso ocorrem diversas mudanças no clima (!!!!!!)

As estações são cada vez mais esquecidas pelos brasileiros. Isso por um movimento duplo: ano a ano o inverno perde suas características mais históricas (do frio à intercalação entre a chuva e a seca) e, praticamente ao mesmo tempo, o brasileiro vive o país sob uma distância imensa do lugar “natural” que o Brasil sempre foi.

Como se o brasileiro pudesse viver exatamente do mesmo modo em qualquer lugar.

Isso é surpreendente se compararmos a fala isolada de Zig Koch com as comunidades fotográficas mundo afora. Sites como o Flickr e o 500px abundam motivos das estações. Mas só fora do Brasil, como se aqui não existissem estações.

***

Há vários modos de provar nosso esquecimento. O mais fácil e “pra já”, nessa época em que a imediaticidade acompanha o esquecimento, é a nova novela da Globo, sobre o rio São Francisco. Basta comparar as novas novelas da Globo, de época, com as antigas novelas de época, e está tudo lá:

– Antigamente muitas novelas se ambientavam em adaptações de romances ou relatos históricos; hoje elas são “obras coletivas” cujo único ímpeto é perdurar na audiência, com final ao gosto do freguês (esquecemos nossa vinculação à História, à Literatura, aos lugares…)

– N’0utros tempos as adaptações se ambientavam verdadeiramente aos ambientes: casas antigas, pessoas do lugar, lugares reais ou lugares imaginários mas sob fácil identificação geográfica; hoje, a novela parece acontecer num lugar etéreo, cuja única demarcação é o rio São Francisco, de onde brotam, como que de uma escuridão, alguns temas que reconhecemos ser nordestinos, mas um tanto quanto de longe (não nos reconhecemos nos sujeitos que vivem lá, naqueles lugares, em vista de um reconhecimento mais fácil do que nos é mais próximo)

– Isso diz respeito à linguagem da novela: uma trilha sonora que parece uma adaptação de quinta categoria da trilha de Sob o Céu que nos Protege; longas sequências em tom de fantasia, como que numa mistura entre Tim Burton e sabe-se lá o quê, para dar conta do misticismo do nordeste. Ontem foi impagável o sonho da mulher do coronel com menções impagáveis a O Exorcista. Disso tudo, a riquíssima música nordestina e seu misticismo acirrado, onde foram parar? (novamente: em nome de uma negação de características locais, projetamos um mundo de imagens remetidas a sonoridades e imagens mais próximas, mas apenas imagens!)

– O palavreado, os costumes, as roupas, tentam imitar uma época que se foi. Tirando alguns momentos quase fotográficos, o drama murcha e, de repente, percebemos: são apenas atores da zona sul do Rio, com corpo escultural, tentando esconder o sotaque chiado.

– A novela, enfim, contém muito pouco de nordeste e de Rio São Francisco, para além de um imaginário que parece mais o dos visitantes do Xingó do que dos moradores locais. A gente, a música, a cultura, aparecem pouco. O lugar é via de regra cenográfico, de amplas paisagens, algo a lembrar apenas que estamos num nordeste longínquo, idílico e irreal. Até o suor é falso. Algo muito longe de tantas séries do passado, onde os trajes eram sujos, o sotaque menos forçados e os lugares menos cenográficos.

Para fechar o exemplo: se a TV é um meio, uma mídia, é como dizer que antes ela tentava nos mediar a representação de lugares distantes. Mas hoje ela vincula, sem tentativa mas sob muita produção, lugares irreais.

Mas, conforme dito, a TV é apenas um exemplo a mais para nos mostrar o quanto nos distanciamos do Brasil.

Lula era muitos?

Desde as primeiras eleições de Lula, este blog considerava algo estranho: a fácil adesão de muita gente da “esquerda” a uma curiosa continuidade. Segundo essa gente, poderia-se fazer uma passagem direta entre a figura pessoal de Lula, seu papel social “simbólico”, por assim dizer, e as transformações que ocorreriam no Brasil.

Sob os slogans, certo marxismo heterodoxo chegava a dizer (utilizarei tais exemplos para tentar fazer a pergunta deste post, mais abaixo), sob a pena de gente graúda como Toni Negri: “Lula é muitos“. O palavreado era pomposo: “De fato, Lula foge ao controle dos poderes fortes da elite cínica e racista (…) porque expressa a capacidade de se comunicar com os muitos enquanto muitos, sem reduzi-los a um conjunto representável pela “opinião pública” (…) A elite treme. O que lhe aparecia como um monstro é, na realidade, o anjo da multidão dos “sem” (…)”

Note-se aqui uma dualidade: de um lado haveriam os devires, os “muit@s” do Brasil, aquele povo que até hoje não havia sido (e continua…) representado pelos poderes convencionais, enfim, a potência da multidão. De outro lado, a representação e seu poder do Mesmo, a cooptação da diferença em nome do que, no Brasil, seriam as oligarquias misturadas a certa importação duvidosa de alguma noção de “república”.

Era de se notar a discussão sobre a bolsa família, por ex.. Em termos convencionais, a idéia do PT poderia ser encarada como uma verdadeira revolução, embora autores mais contemporâneos, inspirados em Foucault, poderiam sentir-se na tentação de chamá-la de medida biopolítica. Ora, a “biopolítica” diz respeito a um nível de análise que não se situa mais sob as chaves de interpretação da política em termos de repressão. Disso, a política global da bolsa família poderia, mesmo assim, ser considerada benéfica ao povo e até crítica das velhas oligarquias. Mas, mesmo assim, em nome da “potência” de Lula, foi grande o esforço em provar que a bolsa família não era uma biopolítica, mas embrião de uma renda universal.

De lá para cá, houve ao menos duas ou três mudanças de perspectiva. Num primeiro momento, o “lulismo” continuou sob os auspícios da “potência” contra certo “poder” do “governismo” que se impunha como opressor (mesmo sendo Lula do próprio governo). Dilma ainda carregava o epíteto dos “muit@s” na primeira eleição, a potência da mudança contra a tristeza do poder.

Mas logo a terminologia mudou. Dilma e Lula deixaram de ser muit@s e cederam lugar à dualidade entre o “governismo”, de um lado, e os “muit@s”, de outro. Nas eleições de 2014 o “governismo” foi responsabilizado pela própria derrocada, quando afugentou Marina do 2º turno e jogou o jogo do PSDB. Toda a “potência” teria sido despotencializada ainda em 2013 (e este artigo chega a ser profético), quando os movimentos  de junho de 2013 foram reprimidos pelo governo.

Alinho essas informações apenas para tentar dizer o seguinte: de algum modo, quando Lula assumiu o poder ele foi totalmente creditado; e agora que sua imagem treme, é totalmente desacreditado. Mas, entre um e outro momento, alguém atentou à questão fundamental?

A tentação seria de perguntar: diante de tanta confiança irrefletida, quando foi que ocorreu a linha de ruptura, o corte, o abandono, a desesperança? Pois a resposta a isso poderia ter duas implicações: 1) ou o governo das “potências” de Lula teve certo momento de esgotamento após o esplendor, e acabou se entregando ao poder representativo das oligarquias, ou, 2) desde o início houve uma espécie de grande estratégia, na qual, bem ou mal (e o inferno é cheio de boas intenções), o PT tentou a) cooptar as oligarquias em nome de seus projetos, utilizando os mesmos mecanismos estratégicos das oligarquias, ou b) cooptar as oligarquias para se tornar igual ou melhor do que elas.

Sobre as últimas duas hipóteses, acho muito pouco provável a segunda, embora pareça nítido o projeto mais recente de prolongar o poder a qualquer custo. De todo modo – este blog tentaria dizer isso -, pareceria verossímil pensar que o PT jogou um péssimo jogo, uma vez que tentou vencer o diabo jogando com o tabuleiro e as peças do tinhoso. Isso se remete a inúmeras falas do Zé Dirceu, a respeito do mensalão: a compra de votos e pautas parlamentares já existia (ACM ou o golpe de 64 que o digam), o PT apenas se “aparelhou” com as táticas do inimigo, tudo servia para fortalecer o “nosso governo”, no futuro tudo será melhor compreendido, e – quero chegar aqui – no fim das contas, tudo se passaria como se a estratégia inteira consistisse em dobrar esse país corrupto, corruptamente, contra a corrupção.

Voltemos ao essencial (ao menos ao essencial deste blog esquecido): entre o crédito total e o descrédito total a Lula – temperado hoje pelas acusações de “isentismo”, pelo fracasso do “voto crítico” e pelo desejo de que Marina perdurasse na última eleição -, como foi possível a esquerda não considerar que, para além das dualidades entre “nós” e “eles”, o que há são estratégias e jogos de força? Que, para se eleger e manter-se no poder, o PT se alinhou com inúmeros partidos e políticos-anões, dos quais inclusive brotam inimigos atuais do PT, como o próprio Cunha? Que não foi fora dessas coalizões, mas no próprio jogo estratégico imanente a elas, que o PT angariou suas condições de “governabilidade”, e hoje as perde? Que todas as mudanças, positivas e negativas, visíveis no Brasil atual, vieram deste jogo?

Enquanto o brasileiro não tentar compreender como se dão as regras desse jogo, alheio aos supostos “poderes” clássicos e às “potências” vivas (e às outras metáforas da moda, vide alguns tentando importar agora o debate inglês entre liberais e conservadores), nada mudará de fato, e os últimos acontecimentos publicitários da coação de Lula apenas mostram, para além da Aletheia, mais uma correlação de forças esquecida. Leminski já fazia Descartes dizer, em pleno Brasil: “natura desvairada destes ares!” Até hoje não buscamos compreendê-la segundo o que ela própria nos oferece.

 

Microcefalia à brasileira

E lá estava eu, almoçando, com o livro na mão. Quando fui pagar, um senhor fez aquele comentário solto, supostamente desinteressado, mas “ad omnes”:

– É muito importante ler, heim? Aqui no Brasil as pessoas falam sem ler, criticam sem ler… raro ver alguém com um livro.

Eis que se esboça mais um daqueles papos sobre o brasileiro e seu complexo de vira-latas de um lado e sua microcefalia (não a da Zica) de outro. O velho se apresentou como italiano, vive por aqui há 20 anos e perguntou se… eu era estrangeiro!

No espaço de 4 dias, dois caras me perguntaram se eu era estrangeiro: o primeiro porque eu fui simplesmente… educado! (era um garçom e se surpreendeu com palavras do tipo “bom dia”, “você poderia…” e “obrigado”), o segundo porque eu carregava um livro.

A grande ironia é que, minutos antes, eu pensava: minha nossa, como é agressivo portar um livro por aqui… Quero dizer: não apenas destoa do ambiente, mas é um pouco constrangedor receber olhares ou perceber que o único livro possivelmente visado em tal ambiente é a Bíblia.

O pior de tudo é que estou a 150Km de uma das instituições de pesquisa mais privilegiadas do Brasil, um dos principais redutos da “intelectualidade” brasileira. Como seria possível ruptura tão grande? Lá, em meio a sebos e cafés, pós-graduandos debatem suas tão importantes questões. Aqui, carregar um livro é da ordem da ausência de sentido!

A ironia maior ainda é constatar que a simples enunciação de tais questões é um ultraje, pois a chave de leitura é sempre a mesma: o brasileiro vai mal porque os oligopólios comandam e oprimem.

Eu NUNCA discordaria de tal tese, mas ela precisaria ser infinitamente refinada. Não há justificativa alguma para alguém ser confundido com um estrangeiro porque foi educado ou carregou um livro. E o brasileiro deveria encarar isso de frente, ao invés dos fáceis argumentos da “falta de acesso” (falta de acesso numa sociedade orientada à posse de um smartphone???). O Brasil mudou nos últimos 20 anos, e muito! Mas certas coisas viscerais permanecem muito vivas!