Este blog já acompanhou, há bastante tempo, a dinâmica de assassinatos em escolas nos EUA e o que ocorria no Brasil (tais como ônibus 174 e caso Eloá, ver isso também). Dizíamos: os casos eram diferentes, o Brasil tem especificidades próprias.
E os recentes casos, dos assassinatos em Blumenau e São Paulo, talvez mostrem que algo tenha mudado.
Em primeiro lugar, pelo método: enquanto nos EUA os espetáculos são tramados com armas de fogo, no Brasil parece que qualquer arma branca já serve de subterfúgio. Isso é muito mais perigoso e mostra certo estado de coisas nos quais estamos.
Em segundo lugar, salta aos olhos a imitação das matanças americanas, mas “à brasileira”: é como se o Brasil tivesse nos EUA um quê daquilo que os psicanalistas chamam de “ideal do ego”, a projeção de um modelo ao qual o brasileiro não deixa de se comparar quando pensa em suas melhores formas de vida. E a projeção do modelo americano é o que mostra como as coisas vão mal por aqui: não se trata da projeção dos ideais americanos, ligados à democracia moderna e ao valor do indivíduo, e sim de uma espécie de imitação em acting-out de certos eventos que ocorrem por lá, embora imitação à brasileira, com os recursos daqui e sob as mazelas daqui – uso de machados e facas ao invés de armas de fogo, invasão de escolas precarizadas, e nas quais os funcionários, já abandonados à própria sorte, presenciam mais um espetáculo mórbido e amalucado.
Mas em terceiro lugar, essas matanças não são mais parecidas com eventos passados que também chocaram o país. Os invasores das escolas não são pessoas que sofrem os padecimentos dos problemas sociais brasileiros, mas pessoas já anteriormente suscetíveis, pegas agora por narrativas paranóicas, tais como as da ultradireita e do bolsonarismo.
A criação de um clima de constante conflito e desconfiança para com o alheio, sob ameaças, transformação de discordantes em desafetos e discursos conspiracionistas de ultradireita, é o que faz com que as antenas de qualquer pessoa perturbada passem a ficar super-excitadas, e eventos como esses que presenciamos, mais prováveis.