Era uma vez em Bacurau

Tarantino faz arminha

(esse texto contém spoilers) Num cinema qualquer vou asistir Era uma vez em Hollywood, sem influências prévias, sinopse ou crítica.

Tarantino, como se sabe, é inteligente, cruza os filmes novos com os anteriores e com inúmeras outras culturas cinematográficas (especialmente apócrifas e de filmes-B). Ele turva os dados reais com os imaginários, compõe narrativas complexas, cria múltiplas referências.

Uma das primeiras referências é Sharon Tate e Roman Polanski. Se é assim, não há (infelizmente) como não vir outra: Charles Manson. O filme, cujos protagonistas são vizinhos de Polanski, certamente abordará algo a respeito. Narrativa intrincada, menções-mil, homenagens a Tate e, finalmente, a série de desfechos.

Quando começa a violência gratuita e escancarada à la Tarantino – em torno do esperado caso Manson -, de repente o cinema inteiro começa a rir. É um riso incontido, escancarado, um sorriso de grindhouse, que se espalha incontrolavelmente, como se o cinema começasse a fazer parte da cena retratada (antes os espectadores já estavam com as pernas esticadas nas cadeiras da frente, como os próprios personagens nas cenas). Em meio ao riso, o olhar se dirige à tela, mas também à platéia, às cadeiras, e de repente não sei mais o que é filme e o que não é.

Como explicar o riso? Seria uma decorrência do modo como Tarantino conduz o filme ao clímax e ao paroxismo do cruzamento das referências, criando uma catarse que lava o sangue do espectador no caso Tate? Não, caso se julguem os comentários que vieram depois. As pessoas não remetiam nada a Tate ou a Manson, ou ao curioso desfecho. O riso era um riso contagiado, mas não era (por assim dizer) intelectual. Ele se ligava às cenas explícitas, e não aos rasgos (de narrativa, e não de corpos) que ali se implicavam. Não era sarcasmo, sacada, referência cruzada, inteligência, superação de contingências, inclusive as da história já contada. Era, por assim dizer, um riso de carnificina, e não um riso de cinema!

Então retorno uma semana depois para ver Bacurau. Não obstante a divulgação, o cinema parece esvaziado. O filme avança e outra carnificina começa a se desenhar.

Dessa vez, não há como não cruzar os temas com os vividos agora, em 2019. Não se trata (a meu ver) de um “nós contra eles”, tal como alguns divulgaram, mas de um momento no qual, em breve, o brasileiro deixaria de ser homem público – mesmo em teoria – e estaria (estará?) jogado à própria sorte, num ideal radicalmente anarco-capitalista (e o que me parece ser o mérito maior do filme: o retrato de um anarco-capitalismo bem à brasileira).

A televisão anuncia assassinatos em massa e a morte se transforma em algo banal, quando não num comércio. É como se, por assim dizer, o homem não pudesse mais se definir, como diriam os existencialistas, como um “ser-com“: é como se a referência fundamental ao Outro se apagasse de nossas possibilidades existenciais e o outro passasse a se revelar como simples objeto de uso. Em alternativa a isso, restariam apenas as vivências de tradições locais e de micro-comunidades sobreviventes, ainda unidas (embora descaracterizadas, até vazias) e resistentes ao que está para chegar.

É então que vejo a platéia recomeçando a rir. Virá violência gratuita, e ela vem. Uma pena aqui sobre a criança morta. Ali outra gargalhada, nas cenas que supõem a idéia de armamento como auto-defesa. Começo a esperar um novo riso geral de carnificina.

Mas não é o que ocorre. Esse riso não vem. De repente as pessoas silenciam. Por alguns momentos, aquela linha entre a tela e a platéia também pareceu se desfazer. O filme acaba, mas não acaba, pois ninguém sai do cinema. Todo mundo fica ali e, de repente, surge um aplauso espontâneo. Ninguém sai, até o fim das últimas letras e o acender das luzes.