Minha geladeira pifou e só restou procurar a assistência técnica. Vejo então que a empresa modernizou o atendimento conforme os ditames neoliberais pandêmicos: demitiu muita gente e iniciou um atendimento por WhatsApp com inteligência artificial (IA).
Clico nos devidos links e meu zap é invadido pelo contato da empresa. A IA põe-se a teclar. Mas é curioso: mesmo sendo uma inteligência artificial, ela foi programada para comportar-se como um humano, com as devidas perguntas fúteis e demoras nas respostas.
Minhas pulsões mais recônditas exclamam: como uma empresa é capaz de demitir tanta gente para colocar uma IA que se comporta igualzinho a um tiozão do WhatsApp?
Reprimo as pulsões por um momento e tento focar no problema atual. Mas a IA do WhatsApp não colabora. Demora à beça e então pede que eu explique, numa frase simples do tipo “Não congela”, o problema que tive. Respondo então “Não congela”. Respondo mais uma, duas vezes e… a resposta sempre demora, quando a IA não comete mais uma gracinha.
Então, por um momento, eu também começo a me comportar como a IA, isto é, como alguém que está no WhatsApp e demora para responder. Olho os outros chats, levanto para tomar uma água, vou ao banheiro fazer xixi.
Volto ao zap e surpresa: a IA cancelou o atendimento (por essa, nem Turing esperava).