O abismo entre as leis e a prática

Brasil: nem uma biblioteca borgeana explica

Notícia que, daqui alguns dias ou meses, fará bafafá: “Projeto de senadora prevê demissão de servidor público estável por mal desempenho”.

Nem vou inserir link. O Brasil está tão previsível que… E está tão ruim de viver por aqui… Mas vamos lá: tempos atrás publicamos exatamente a mesma coisa, sobre a Lei Seca. Nós, brasileiros, de fato exercemos nossa vocação histórica. Fazemos isso muito bem.

existe uma lei que demite servidor público, quando o servidor público não exerce sua função pública com eficiência. Chama-se Lei 8112/90.

No Brasil acontece assim: se a lei não é aplicada, criam então uma nova lei. Mas… se a lei antiga não era aplicada… o que se fez para que agora se aplique a nova lei? Nada, meus caros. Não se corrige o problema original, que é a não aplicação da lei. Num cenário desses, o que se fará é apenas o mesmo de sempre: criar subterfúgios para punir os servidores que trabalham e mascarar os que não trabalham. Criar jeitinhos para benefícios de uns e malefícios de outros. AliásAliás

Há uma lei de verdade, informal, operando por trás da Lei formal, jurídica, vocês entendem? É a Lei do malandro e do mané, muito mais profunda do que qualquer lei escrita. É o mesmo que ocorre quando você vai ao restaurante, ao hospital, à polícia e a tantos outros lugares, sempre. Não precisa haver outra Lei além da 8112. Ela precisa apenas ser aplicada. Servidores públicos precisam ter função pública. Ponto final.

Noves fora, permanece o conto inspirado em Borges, que reproduzo abaixo.

***

Assim poderíamos imaginar um conto borgeano, sobre um lugar que criasse sempre novas e novas leis. Uma lei não sendo fiscalizada na prática, cria-se outra lei, em segunda potência. Teríamos a progressão: Lei, Lei2, Lei3, Lei4, LeiN…
Desse modo, um dia as leis seriam tão dinâmicas que, progressivamente, um número menor de contravenções motivaria cada vez mais uma nova lei, até o ponto em que apenas uma contravenção motivaria a redação de uma Lei nova.
Esse novo jardim infinito das leis geraria um curioso efeito nas contravenções: a cada lei nascente que não se fizesse valer, o número de contravenções aumentaria. Isso motivaria mais ainda a criação de novas leis, e  mostraria ser o ramo das leis o único possível de se criar algo formal, fugindo das práticas criminosas espalhadas mundo afora.
Diante de tantas leis e contravenções, os legisladores seriam ovacionados pelo povo marginal. Mundo “ideal”, apenas nas Leis.  De resto, a barbárie. A ponto de, um dia, o próprio povo tornar-se motivo de desconfiança: não seria ele essa massa de seres irresponsáveis, razão de nossa existência e trabalho árduo?
E a classe legisladora continuaria seu trabalho infinito. Afinal, era da ineficácia de toda lei que se retirava a garantia de seu ofício, e todos os seus privilégios.

A leitura e o mundo novo

O mundo mudou.

Anos 80: “não leio porque não tenho instrução, a vida não me permitiu isso”

Anos 10: “não gosto de ler, acho uma perda de tempo. A nao ser que prenda muuuito minha atenção”

São dois modelos civilizatórios, dois sistemas de exclusão, dois regimes tecnológicos, dois tipos de luta diversos. A leitura como o perigo de produzir um mundo novo; a leitura porque não importa, não produz mais nada.

Brasil terceirizado

Cenário: você é um Headhunter no universo da terceirização. Monta uma, ou várias, prestadoras de serviço. Afinal, qualquer trabalho pode ser terceirizado. Você então faz uma boa publicidade prometendo emprego certo (pouco importa se isso é verdade).

Os candidatos a “colaboradores” começam a aparecer. Você divulga a maravilha que é as pessoas pertencerem a seu leque de “colaboradores”. Para participar dele, elas precisam pagar uma “taxa administrativa”. Poderá ser única, “de manutenção”, trimestral ou, com jeitinho, até mensal. Pode haver desde o plano básico até o plus.

Quanto ao emprego de fato, depende: quem o candidato é ou conhece tem total preponderância. Berço, entende?  O curriculo vem em segundo ou terceiro lugar. E está no contrato: o pagamento é garantia de que o candidato será mantido no diretório de possíveis colaboradores, e NÃO de que será contratado. É preciso ter lábia. E a empresa que contratou serviço também vai ter poder decisório, mesmo que na prática, na manha. 

Com muita sorte, o headhunter é idôneo e tem de verdade contato com empresas (lembremos: o contrato não garante contratação).

Então um candidato é eventualmente chamado. Trabalhará sob o novo vínculo temporário, por 6 meses. Vínculo temporário é mais barato, entende? E a lei agora permite alargar mais 3 meses, 9 meses no total. Perfeito! Pode-se contratar em março e demitir no fim de novembro!

Depois de demitido, o feliz colaborador pode renovar o contrato de headhunting, ou até pagar um plano diferenciado. Depende sempre do berço.

Você, headhunter, enriquece. Quem sabe, para o colaborador, ano que vem tem mais.

A escalada do ódio e as redes sociais

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Dias atrás um amigo comentou que as redes sociais não configuram propriamente espaços públicos, e que o FB serviria apenas para agregar algumas forças, sem possibilidade de uma mudança democrática efetiva. Além disso, os lugares costumeiros da publicidade estariam esvaziados, com as pessoas jogando suas pautas nesses espaçozinhos privados, cuja voz ativa seria enfraquecida.

Pensei bastante a respeito, e isso reativou velhos assuntos.

Acompanho a internet desde as jurássicas “personal web pages” e “listas de discussão”, com toda a evolução aos blogs, ao orkut, ao technorati, ao twitter e depois às “redes sociais”. Acompanhei a evolução do html ao RSS e agora a esse fechamento da Rede no Facebook.

Disso tudo, tempos atrás, quando ainda blogava, tive um breve debate com uma blogueira ainda famosa, que ficou ainda mais notória com as redes sociais. Eu argumentava que os blogs, mais antigos, constituíam uma teia aberta, descentralizada, mediada pelo link. Certamente havia pontos focais, caracterizados por blogs com nicho forte ou autores com papel de autoridade. Mas a “dinâmica” da coisa operava de modo que pequenos blogs poderiam chacoalhar políticas locais ou até nacionais. Blogueiros chegaram a ser perseguidos ou mortos. Inclusive Aaron Swartz, um dos inventores do RSS, acabou se suicidando devido a uma grande pressão institucional, após liberar em acesso público boa parte do acervo do JSTOR. Nomes como Bradley Manning e Assange também eram notórios por obrigar certa publicização “horizontal”, por assim dizer, num mundo ainda bastante verticalizado. E me refiro aos idos de 2010-2012…

Nesse sentido, eu enxergava o Facebook e o Twitter, ou mais precisamente a troca do link pelo aplicativo e pelo “follow”, como fechamentos, frente à abertura que os blogs representavam. Eu dizia que a abertura ao espaço público que se esboçava nos blogs, desde as páginas pessoais, corria o risco de se fechar na privacidade dos interesses passionais, egologismos, autoridades e na fragmentação em nichos incomunicáveis.

Contrariamente, a blogueira dizia que o FB e o twitter potencializavam os blogs, apenas dependendo do modo de usar. A tese utilizada por ela é a de que a tecnologia é neutra: “se você” usar para o bem, será bom. Um machado pode matar ou cortar lenha, a energia nuclear pode matar ou acender a luz…

Mas há algo mais… E aliás, toda a tradição que se consolida nos estudos CTS (Ciência, Tecnologia, Sociedade) diz bem mais coisa do que a mera tese “a tecnologia serve para o bem ou o mal, depende como você usa”.

Hoje o FB emplacou de vez e a Rede nunca esteve tão privada. É certo que o FB mobilizou massas, como na Primavera Árabe, ou redes como a do BlackBerry chegaram a chacoalhar a Inglaterra.

Mas, correlativamente, muita coisa ocorreu. Já se começa a pensar sobre como a intervenção em redes sociais auxiliou na vitória de Trump, inclusive sob influência russa. Ou como sites formadores de opinião nas redes sociais emergem… da fumaça (ver isso também). Ora, isso já era possível na época dos blogs. Mas nas redes sociais parece que algo mudou, devido ao próprio modo como elas se constituem e independente da escolha sobre seu “uso”.

Se os websites e blogs configuravam uma primeira camada de acesso ao “virtual”, as redes sociais configuram “acessos sobre acessos”, elas filtram e também oferecem previamente o que se dará a pensar. Quando o primeiro ato de navegação se refere a uma página pré-moldada, e não a páginas pré-escolhidas, toda a ação subsequente muda.

Isso é certamente diferente dos blogs.

Outro fator importante é a própria, digamos, “dinâmica das excitações” envolvida. Navegar de link a link, “escolhendo” o próprio rumo, é bem diferente desse fechamento em nicho ocasionado pelo FB. Leio e acesso o que alguns (não todos) dos outros me oferecem, mediados por algoritmos que buscam capturar, pelo padrão de minha navegação, o meu gosto. Se estou predisposto a determinadas idéias, elas me serão oferecidas diretamente, em manchetes rápidas e sem maior argumentação, junto a comentários afetados de pessoas que muitas vezes sou simpático a concordar, mesmo que – e isso é a parte importante – se eu examinasse de fato suas idéias, eu não concordaria (vale novamente esse link).

O mar aberto dos links oferecia algo diferente. Certamente alguém tende a clicar nos assuntos que tende a concordar, ou ao menos pretende saber. Mas entre a busca e análise de um texto (blogs, webpages) ou a oferta sem análise de uma simples manchete (twitter, facebook), a tecnologia mental empregada é inteiramente diferente. Somos “excitados” de forma bem diferente, e agimos diferentemente conforme tais “excitações”.

Além disso, reforça essa economia de “excitações” a diferença entre o “post” e o “textão”: os blogs e as webpages possuíam linguagem sintética, mas também abertura para argumentar. Agora os “memes” são predominantemente frases curtas, sacadinhas, excitações momentâneas, para nos “excitar” de um modo e depois canalizar outras excitações. O “textão” recebeu quase imediatamente conotação negativa: ler é ruim, não tenho tempo e nem disposição. Se você pode dizer tudo abreviadamente, pra quê ler textão?

Disso tudo, é evidente que as redes também engajam afeições, para além de cognições. Aliás, – e aqui chego a meu ponto – pode não ser por acaso que a escalada da violência e do ódio nos últimos anos conviva com a popularização e a massificação das redes sociais e o fechamento das navegações.

Os nichos fechados das redes sociais transformaram cada vez mais a internet na réplica do mundo “lá fora”, ao invés de virtualidades de tecnologias como a do hiperlink serem exportadas para fora. Exemplos disso são as políticas de direitos autorais, a unificação de cartões identitários ou a interface entre geolocalização e aplicativos de consumo, multiplicando possibilidades de “captura” e “individualização”, por assim dizer. Ainda por assim dizer, não se tem propriamente uma multiplicação das mobilidades e liberdades individuais, mas sim uma multiplicação do monitoramento das individualidades e mobilidades. O esquadrinhamento dos indivíduos em espaços fechados dá lugar à individualização em espaços abertos, conforme muitos autores já notaram. Em suma: quando a internet se popularizou, muitos enxergaram no hiperlink e no hipertexto a possibilidade de que o tipo de relação engajado por eles poderia ser exportado ao “mundo real”. Ocorreu algo um pouco diferente…

Mas há mais: as redes sociais, trazendo “para o virtual” as relações “reais”, inevitavelmente devolvem para “fora” o que ali dentro se condensou. Não é difícil provar o quanto as pessoas comentam e se posicionam favoravelmente a muito do que “encontram” nas redes sociais. Crenças prévias, trazidas de “fora”, são revestidas de novas camadas, transfiguradas em temas adequados à velha crença, produzindo por sua vez novas relações “reais”. A partir dessa dinâmica, sou de fato formado e carrego de volta ao “mundo lá fora” minha formação. Isso quer dizer que, se as redes trazem para “dentro” da internet o que havia lá fora, o que se condensou ali “dentro” também será, doravante, levado para “fora”. A Rede me auxilia a encontrar um produto do mesmo modo que me orienta a encontrar grupos de ódio ou eventualmente organizações mais complexas. Acredito no tema do “bandido bom é bandido morto?” Logo algum deputado que prega isso, ou grupos de ódio do facebook, estarão no meu horizonte de links, sem que eu os precise procurar. Os inesperados casos de brasileiros que, usando redes sociais, foram parar em grupos paramilitares na Ucrânia ou no terrorismo islâmico são apenas alguns exemplos.  Predisposições “reais” encontram algoritmos “virtuais”, que orientam tais predisposições em novas potências.

Agora, levando em conta o que dizem os “estudos CTS”: as redes sociais não são o “abstrato” versus o “concreto”, não se tem meramente o “virtual” contra o “real”. O que acima me referi por “dentro” e “fora” é inexato. O que há é um mecanismo no qual, “dentro” e “fora” induzem a dinâmicas inesperadas se considerarmos tecnologias mais antigas, como as dos blogs.

Seria preciso descrever o funcionamento desses investimentos… A meu ver, as coisas ocorrem quase como na época em que Freud criou a noção de “pulsão/impulso/trieb de morte”: como explicar a guerra, e principalmente a “atmosfera” que conduz a ela? Freud apelou à construção de um conceito reportado à condição humana, e mostrou que há investimentos não apenas orientados por Eros.

O que me parece relevante nisso tudo é que vivenciamos claramente uma nova escalada de ódio e violência. A considerar os ânimos, tudo funciona para nos encaminhar a novas e terríveis guerras, um pouco como Freud se estarrecia diante da matança da Primeira Guerra e via nascer as nuvens da Segunda. Voltando à nossa época, não preciso citar o discurso de posse de Trump. Nas expressões cotidianas, é nítido o ódio nas redes sociais e em diversas manifestações, inclusive artísticas. Há pouco um artista israelense precisou intervir contra as pessoas que fazem performances no Memorial do Holocausto. No Brasil, os casos de violência banal e motivados por estereótipos políticos começam a aumentar…

As pessoas não tiram tudo isso das próprias cabeças, e o alarme não estava tão vermelho assim 10 anos atrás.

As ocupações são um campo de batalha

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Tenho acompanhado notícias de diversas ocupações no Brasil, de escolas médias a universidades. De minha parte, está fora de questão o apoio: se elas são movidas pela luta contra a reforma do ensino médio e a PEC 241-55, a meu ver elas têm mais do que razão.

Além disso, os estudantes estão lutando de forma pouco vista por aqui ultimamente. É incrível, por exemplo, nossa total morbidez frente à reestruturação produtiva do Banco do Brasil. Estão demitindo 18 mil funcionários e fechando centenas de agências de um banco que tem (tinha?) função social importantíssima, sem contar que a última grande reestruturação produtiva foi recente. Alegam “corte de gastos” de 750mi, numa instituição que, com os mesmos funcionários, rendeu 15bi em ano de crise. Apenas assistimos a tudo, bestializados.

Voltando aos estudantes e à ocupação: estar ali, firmar posição e se reunir com outras ocupações nacionais é a luta. Há muito se sabe que boa parte da luta é questão do que chamam de “opinião pública”, “publicidade” e outras palavras da moda. É preciso, sobretudo, excitar a sociedade, mobilizá-la em prol das causas. Não à toa os movimentos estilo MBL se apoiam em vídeos para tentar mostrar que as ocupações não valem nada.

A imagem é moeda de troca. Disso tudo, creio que as ocupações têm um papel muito importante, para além de marcarem posição. É mostrar a quê vieram.

Digo isso porque a impressão é a de que há um imenso esvaziamento intelectual no ensino superior. Em muito isso se deve à profusão de uni-esquinas privadas no Brasil. Há faculdades e faculdades, mas há muito as privadas imprimem um ensino raso, feito para clientes inertes e não alunos ativos. Filmes como “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolucci, mostravam jovens descobrindo a vida em meio à intelectualidade e rebeldia dos anos 60. Relacionar a vida com a intelectualidade? Parece não haver paisagem mais distante.

Disso tudo, a direita (que agora se mobiliza e agrupa do liberalismo mais ingenuamente honesto às piores pulsões autoritárias), se aproveita soberbamente das imagens oferecidas pelas ocupações. Eles – não sou eu quem diz – acusam tudo.

E estão dando pancada.

Ouso dizer que, no centro das acusações, está certa adesão a pautas que não precisariam de estudo para existirem enquanto pautas. Que as mulheres e negros e demais minorias precisem ter lugar, basta ter um cérebro para concordar. Alguns dos ditos “direitistas” concordam, outros não estão nem aí, acéfalos. Mas há algo aqui que eu gostaria de chamar a atenção: o argumento.

O cerne da questão é que, olhando as centenas de ocupações do Brasil, dá-se muita munição ao adversário. Apenas mantendo os exemplos temáticos de gênero e cor: não se vê, por exemplo, grupos de estudos sobre a separação de gênero, questões de sexualidade ou as proveniências e funções do racismo. Menos ainda, questões detidas nas temáticas maiores da universidade, outrora tão contestadoras.

Pelo contrário, muitas pautas são diretas, rasas, do tipo “vamos deixar as minas”, “aulão sobre Foucalt” (sic!), “meditação” e “prática de empoderamento”.

Tudo isso tem lá sua legitimidade. Precisamos lembrar que os ocupantes não estudam 24 horas por dia. Mas, para quem é contra a ocupação, não ver atividades acadêmicas é prato cheio para a crítica. Afinal, não ocupam contra a baixa do nível de ensino e os cortes que atingirão a pesquisa e a extensão?

No caso das universidades públicas, elas são o último bastião onde se pode ter uma educação superior de qualidade, não voltada ao miojo do mercado, mas à grande gastronomia do conhecimento do mundo. Perigosamente, cada vez menos se compreende – à direita e à esquerda!!! – a importância de que o ensino público carrega os últimos bastiões do pensamento no Brasil.

Até a monarquia, que negociava privilégios, achava importante ver um Brasil com ensino superior, afinado às “novidades” européias. A universidade brasileira cresceu, e nos últimos anos houve muitos intercâmbios de igual para igual com inúmeras outras academias estrangeiras (não que isso seja o essencial, mas mostra o quanto houve de abertura de diálogo).

Aquele que quer ver o fim da universidade pública, ou que pretende transformar a universidade e o ensino médio numa fábrica de salsichas mentais, não percebe isso. Aliás, isso nunca foi para nós um ítem de percepção. Um país grande tem pesquisa, e pesquisa implica pesquisadores, mentes pensantes, um burburinho do qual muito ruído é gerado, mas que é também condição de possibilidade da inovação.

Estão atacando as universidades e massacrando o ensino médio. Diante disso, os alunos ocupantes são o pouco de movimento contrário. Com isso precisamos mostrar, todos nós, a que viemos.

Uma nova fuga de cérebros no Brasil?

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A Piauí anuncia que Suzana Herculano-Houzel, renomada neurocientista, deixa o Brasil e lecionará nos EUA. Dentre as razões, constam:

  • os poucos recursos fornecidos pelas universidades brasileiras
  • a derrocada do financiamento científico no Brasil e no RJ
  • a carreira engessada dos pesquisadores, não definível por produtividade
  • o confinamento do pesquisador na função pública de professor em universidades
  • o “nivelamento por baixo” das carreiras, sem incentivos para a produtividade
  • a burocracia ineficiente e desmotivadora

O curioso, após isso tudo, foi a divulgação, via “Partido Novo”, de que a fuga do cérebro de SHH se deveria a motivos advogados pelo partido, como a “falta de meritocracia e o excesso de burocracia”.

Dá para ver facilmente onde o Novo quer chegar. Só não dá bem para entender no quê o Partido seria efetivamente “Novo”. Sobre a dita “meritocracia”, já discutimos largamente, ponto a ponto, o assunto por aqui. O “Novo” parece mais é velho.

Dito isso, as queixas da professora têm, sim, grande fundamento.

A começar pelo fato de que um doutor bem formado, quando é admitido numa universidade pública qualquer – dando graças aos deuses de suas (não)crenças por conseguir a única oportunidade dada no Brasil a um pesquisador, a de tornar-se professor de uma universidade pública -, muitas vezes se vê sob uma carga burocrática tão grande que não consegue ocupar seu tempo de pesquisa em meio às inúmeras tarefas: reuniões intermináveis para burocracias, tarefas administrativas kafkianas e demais encargos do ensino. A própria pesquisa está tão burocratizada que é difícil mover um dedo, especialmente quando se está começando. Projetos excelentes podem muito bem ser negados por ausência de vinculação ou demais conquistas burocráticas, e não pelo puro e simples mérito.

Somando-se a isso, consta a precarização do ensino, da pesquisa e da extensão. É fato que os governos Lula ampliaram as universidades de um modo totalmente contrário às pretensões do governo FHC. Também é fato que muitas pós-graduações – responsáveis por formar nossos pesquisadores – cresceram em número e em bolsistas, pois as agências de fomento receberam muito dinheiro e muita boa gente foi formada. Mas também é fato que os financiamentos caíram vertiginosamente (por ex.) e o prognóstico é aterrador. Quem não viu ainda a notícia de que Temer pretende escolher um pastor da universal para o ministério da Ciência e Tecnologia? Aliás, exatamente o inverso do que promulgaria uma guinada “liberal”.

Quanto à carreira engessada, o fato é que, nos últimos anos, as carreiras dos docentes são constantemente reformuladas, ficando mais burocratizadas e nivelando cada vez mais para baixo. Nem de longe se trata de um projeto de valorizar a situação inicial e recompensar os avanços. A aposentadoria se aproxima cada vez mais da iniciativa privada e quase metade do salário é de “gratificações”, que podem ser retiradas a qualquer momento, dependendo apenas de vontade política. Além disso, quando um professor doutor é agora contratado, ele tem mais etapas a cumprir para chegar ao patamar mínimo de alguns anos atrás – o de Professor Adjunto. Desengessamento, maior estímulo à produtividade? Não, é o contrário: a carreira é cada vez mais escalonada para baixo, enquanto exige titulação cada vez mais para cima. Nisso, vê-se que não há incentivo ao mérito, ao menos por dois motivos:

  • Não são criadas condições de base igualitárias para a produtividade
  • O incentivo ao mérito deveria ser “para cima”, e não para sair de um buraco cada vez mais profundo. Recompensa, e não fuga da punição…

A própria noção de “produtividade”, nisso tudo, é dúbia. De um lado, há um movimento de encarar a produtividade como número: publish or perish. Isso faz com que muitos pesquisadores “produtivistas” realizem verdadeiros atentados ambientais, papéis e mais papéis publicados que não passam de auto-paráfrases, auto-cópias ou solenes inutilidades para conseguir um índice a mais nos Qualis da vida. De outro lado, o engajamento necessário a uma boa pesquisa, custe o que custar, é desencorajado. Grandes pesquisadores brasileiros já diziam que essa importação da moda dos papers apenas traria prejuízo, uma vez que os riscos e desafios necessários às grandes descobertas não possuem a velocidade dos papers publicitários e sem ineditismo. Escrever e “produzir” não é igual a postar num blog ou no Facebook. Um bom texto não se mede por backlinks ou por elogios. Muitas das grandes pesquisas exigem o tempo, a paciência e a dedicação do anonimato. Um pesquisador precisaria ter garantida também sua dedicação e solidão. Conquistas e descobertas exigem grande mérito, mas mérito não é o que a meritocracia de um lado, e as instituições (meritocratas ou não) de outro, pretendem fornecer.

Dando fundo a isso tudo, há uma gigantesca confusão do que deve significar a pesquisa em âmbito público. Confunde-se produtividade com “utilidade ao mercado”, e nesse sentido, por exemplo, o PSDB paulista começa a repreender a FAPESP por financiar pesquisas “inúteis”, especialmente chamando de inúteis as pesquisas em humanidades. Quanto a isso, é inominável a falta de informação, ou quiçá a burrice. Todos sabem que as grandes conquistas da ciência vieram dos grandes sacrifícios do conhecimento. Muitas descobertas “inúteis” propiciaram consequências inimagináveis, para o bem e para o mal. Sem contar o seguinte: experimente conversar com um engenheiro com boa formação em humanidades, e depois compare-o com outro que só aprendeu as tabelas. A diferença é abissal, como é também a diferença entre uma sociedade “com” e “sem” humanidades (os fascismos do século XX que o digam).

Um grande país se mede pelo incentivo à pesquisa, pura e aplicada. Os países pequenos se medem pela dependência de quem faz pesquisa e inovação. Aliás, os acontecimentos políticos dos últimos tempos, o naniquismo espiritual brasileiro, tem nos empurrado cada vez mais para um vergonhoso “7 a 1” existencial. Voltamos a galope ao dependentismo intelectual.

A crise atual fornece um panorama tenebroso para o ensino superior e a pesquisa. Nos anos 90, o fenômeno da “fuga de cérebros” era bastante conhecido. Nos anos 2000, alguns “voltaram”. Foi caso notório a “vinda” das pesquisas de Nicolelis ao Brasil. Agora, pelo jeito, o risco voltou, e querem nos apresentar como novo o que no passado já não deu certo.

Devo contratar/demitir um socialista?

Rapaz, estão saindo até textos com dicas para não contratar os “socialistas”, ou para demiti-los com preferência.

Disso, não sei o que consegue ser pior: se a política transformada em puro ódio ou a imensa desinformação (talvez burrice) de alguns caras. Por isso, vou começar por algo bastante trivial: não sou um desses “socialistas”, ok? E nem acho que isso teria alguma importância. Dito isso, contra os textos mencionados acima e o que eles dizem, não é inútil escrever os tópicos abaixo. Lá vai:

“A crise foi causada por esse governo E ele é socialista”

1) Sinceramente? Acho que há um bom quinhão de responsabilidade no governo Dilma sobre tudo de ruim que ocorreu a ela. Aliás, acredito que o PT colhe hoje os frutos de um pacto com o “diabo” feito desde o primeiro governo Lula (tal como esse blog já disse algumas vezes). Pacto com o “diabo”? Sim, meus caros: pacto com tudo o que existe de retrógrado na política brasileira desde os últimos 500 anos. Lembram daquele falatório sobre “pacto social” (depois de Lula ter José Alencar na chapa), depois “governabilidade” e então “governo de coalizão”? Isso é, em bom tom, a distribuição de cargos e benesses, aquilo que tornou o mensalão possível. Tais atos dizem respeito – algum historiador dirá isso no futuro – ao movimento gradativo do PT chafurdar na lama, primeiramente para sustentar seus fins sob os meios da política lamacenta brasileira, e depois apenas para se garantir no poder.

2) Mas se você é realmente honesto, deveria considerar uma coisa em termos de Realpolitik: o PT chafurdou numa lama que, infelizmente, já existia. Sim, culpa do PT. Mas sim, culpa da lama que, aliás, continuará existindo, e provavelmente mal cheirosa como nunca (por culpa de nós todos, aliás).

3) Isso envolve outra infeliz questão: como seria possível o PT, com Dilma, tornar-se um governo tão ruim, uma vez que Lula saiu do governo com esmagadora popularidade e Dilma foi total continuidade? Isso não se explica apenas  por incompetência. Não tivemos apenas um governo inviável, mas também – e talvez sobretudo – um governo inviabilizado. Ou senão, basta revisitar a posse de Dilma-1 para rever ali, ironicamente, as mesmas tentativas que se tornaram bem sucedidas após as eleições de Dilma-2. Está tudo ali, desde a tentativa de dividir o Brasil, até a busca desenfreada por algum motivo que justificasse o impeachment.

Isso dito, se você chegou até aqui, é preciso dizer algo mais. Nem o governo do PT é de “esquerda” e nem a “esquerda” é “socialista”.

4) Claro, diante da histórica oligarquia brasileira, qualquer cidadão que dividiu o pão algum dia é “de esquerda”.

5) Mas meu amigo, informe-se: o governo Lula, e depois Dilma, beneficiaram imensamente os bancos. Sob o PT, o Código Florestal foi reformulado a favor dos ruralistas (a meu ver, o fator mais surreal disso é o apoio do… PCdoB!). Terras indígenas não foram agilmente demarcadas. Belo Monte foi construída sob corrupções e desmandos ainda a serem apurados. Mais ainda: os escândalos do PT envolvem os grandes empresários brasileiros, as empreiteiras que mobilizam a política mas ficaram tanto tempo nas sombras. E o PT já jogou as ditas “forças de segurança” contra militantes “de esquerda”. Patrocinou desocupações para a Copa e fechou os olhos para a matança dos Guarani-Kaiowá. Sob o governo do PT, é certo que as universidades federais foram de algum modo fortalecidas. Mas o contexto é complexo e existe a contraparte: sob imensos riscos, da estabilidade do servidor, da terceirização dos serviços e do avanço da precariedade, as universidades públicas tiveram sob o PT as duas maiores greves da História. Esquerda? Socialismo?

5) A esquerda não é socialista. Ah sim, certamente você vê bastante gente vestida de vermelho. Mas, do mesmo modo como os “verde e amarelos” não se resumem a apoiadores de Bolsonaro (ainda bem, não é mesmo?), os “vermelhos” não são necessariamente socialistas. Aliás, o socialismo foi mais do que revisto durante os século XX. Um “socialista” ortodoxo (?) e/ou fã do estatismo “real” de Stalin, se você achar alguém assim, por favor, interne. Pois se o cara é leitor de Marx, ele certamente não deixou de ler também os outros marxistas que, como Marx ensinou, foram sensíveis às inúmeras mudanças históricas do século XX (rapidamente: se você acredita que o “socialismo vai tirar tua propriedade” ou é contra o mérito do trabalho, é melhor sair por aí e ler um pouco). Isso para não citar aqueles que requerem independência ou alheiamento ao legado marxista. Basta citar, nisso, o “Marx mais além de Marx”, de Toni Negri, e as inúmeras questões de Foucault, bastante desenvoltas para com o marxismo. Duas outras esquerdas, mas não socialistas.

6) Mas olha só: isso não significa nem que esses tais socialistas – mesmo os ortodoxos – são “bolivaristas-venezuelanos”, e nem o contrário. Falo isso, obviamente, para evitar outra associação, a de que ser de esquerda = ser socialista e isso implica ser bolivarista-venezuelano conforme certa crendice entrevista por aí, por ex. em revistas como a Veja. Aliás, já mostramos por aqui que Marx e Bolívar não eram algo tão a ver assim. Nem o “socialismo do século XXI”, aquele que existia com Chavez, é um socialismo clássico. Talvez não passasse de um estatismo financiado a petro-dólares.

7) Disso, parece louco e vai chocar os leitores da Veja mais babões, mas… nem o governo do PT é socialista-bolivarista. Novamente, é preciso dizer: é claro que qualquer governo que teve qualquer acento social, diante de 500 anos de história de uma América Latina continuamente estuprada, pode ser visto como alguém de esquerda (o que, nesse sentido, é um belo título, inclusive até para quem quer brincar de ser liberal). Mas o Brasil não se transformou numa economia fundamentada em petrodólares, nem num estatismo dependente daquilo. Aliás, gostei do termo “neoliberalismo soft” (contra o “neoliberalismo hard“, motivo para temer, quer dizer, Temer), embora só o tenha visto num meme de Facebook.

Ser contra o impechment não é ser comunista/socialista etc.

8) É simples assim, e aqui está o principal. O processo de impeachment não se deve a uma “causa socialista”, mas aos decretos e ditas pedaladas fiscais de Dilma. Aqui constam razões inteiramente jurídicas – nem um pouco socialistas, diga-se – contra o impeachment. Curiosamente, não vi ainda uma réplica, pois os argumentos a mereciam. Além disso, diversos outros políticos cometeram e cometem as mesmas manobras que, agora, levaram ao processo contra Dilma.

Por isso, tome cuidado: aquilo que você enxerga no “socialista”, para não contratá-lo, pode não passar de sua própria imagem invertida vista no espelho.

“Devo então contratar/demitir um socialista?”

9) Minha nossa, se você chegou até aqui e ainda acha essa pergunta possível, seria preciso ler alguns textos de política. Nenhum deles dirá que a política implica o ódio e a anulação do próximo baseada num critério político. Aliás, mesmo que você seja um zeloso empresário liberal, não seria inútil notar que a própria bolsa família, contra 500 anos de miséria, tornou o brasileiro um ser um pouquinho mais individual. Isso – consumo e iniciativa individuais – fomentou o mercado, inclusive nas crises do fim dos anos 2000. De todo modo, falávamos de política, e a atitude anuladora do próximo já foi vista muitas vezes no século XX sob o nome de… fascismo.

Ross e o cardeal

Duas efemérides:

Artigo de David Hopkins sobre como, no nível da narrativa, das imagens, de todo o “conteúdo dramático” de nosso mundo, estamos criando para nós mesmos um mundo essencialmente idiota, avesso a qualquer atividade intelectual e indiferente para com qualquer outra coisa que se apresente como outra. E como esse mundo criado por nós envolve a destruição de qualquer Mundo possível. Hopkins menciona uma série de acontecimentos dos anos 2000, dentre eles o grande sucesso da série Friends.

Vídeo da agressão ao cardeal Dom Odilo Scherer, de São Paulo, em plenas comemorações de Páscoa. A agressora gritava: “Você a CNBB são comunistas infiltrados; não podem fazer isso com a minha Igreja”. Perseguição contra os supostos “vermelhos” em pleno tempo pascoal.

O ponto de contato entre essas e tantas outras é incrível. Não farei delongas sobre como estamos colocando tudo a perder. Mas é absolutamente incrível ver essa onda de perseguição a quem se veste de vermelho, no Brasil, por suposto caráter “ideológico”.

Quanto à Igreja Católica, é absolutamente incrível a insensibilidade de tal tipo de pessoa para com padres que requerem uma verdadeira guinada (de fato ou de direito) da Igreja Católica, frente a inúmeros outros alinhamentos históricos com a oligarquia brasileira.

 

A mudança das estações

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O fotógrafo Zig Koch, especializado em natureza, fez hoje um comentário que é um verdadeiro “libelo” à História do Esquecimento. Ou melhor: o comentário é uma lembrança, mas a lembrança isolada apenas coroa um gigantesco esquecimento, não dele mas nosso. Cito as belas palavras:

As estações do ano marcam a passagem do tempo. São mudanças sutis que nos tocam como as ondas do mar no costão rochoso. Aos poucos vão mudando sua forma até não serem mais reconhecidas, mas ainda sim são as mesmas.

Ele compartilha a foto acima, que é um lindíssimo registro. Mas por quê seria um libelo à História do Esquecimento?

Ontem a previsão do tempo do Jornal Nacional bancou mais um desses episódios incríveis do jornalismo brasileiro (também pertencentes ao Esquecimento): o Jornal nos ensinou que o Outono é a estação de transição entre o Verão e o Inverno, e por isso ocorrem diversas mudanças no clima (!!!!!!)

As estações são cada vez mais esquecidas pelos brasileiros. Isso por um movimento duplo: ano a ano o inverno perde suas características mais históricas (do frio à intercalação entre a chuva e a seca) e, praticamente ao mesmo tempo, o brasileiro vive o país sob uma distância imensa do lugar “natural” que o Brasil sempre foi.

Como se o brasileiro pudesse viver exatamente do mesmo modo em qualquer lugar.

Isso é surpreendente se compararmos a fala isolada de Zig Koch com as comunidades fotográficas mundo afora. Sites como o Flickr e o 500px abundam motivos das estações. Mas só fora do Brasil, como se aqui não existissem estações.

***

Há vários modos de provar nosso esquecimento. O mais fácil e “pra já”, nessa época em que a imediaticidade acompanha o esquecimento, é a nova novela da Globo, sobre o rio São Francisco. Basta comparar as novas novelas da Globo, de época, com as antigas novelas de época, e está tudo lá:

– Antigamente muitas novelas se ambientavam em adaptações de romances ou relatos históricos; hoje elas são “obras coletivas” cujo único ímpeto é perdurar na audiência, com final ao gosto do freguês (esquecemos nossa vinculação à História, à Literatura, aos lugares…)

– N’0utros tempos as adaptações se ambientavam verdadeiramente aos ambientes: casas antigas, pessoas do lugar, lugares reais ou lugares imaginários mas sob fácil identificação geográfica; hoje, a novela parece acontecer num lugar etéreo, cuja única demarcação é o rio São Francisco, de onde brotam, como que de uma escuridão, alguns temas que reconhecemos ser nordestinos, mas um tanto quanto de longe (não nos reconhecemos nos sujeitos que vivem lá, naqueles lugares, em vista de um reconhecimento mais fácil do que nos é mais próximo)

– Isso diz respeito à linguagem da novela: uma trilha sonora que parece uma adaptação de quinta categoria da trilha de Sob o Céu que nos Protege; longas sequências em tom de fantasia, como que numa mistura entre Tim Burton e sabe-se lá o quê, para dar conta do misticismo do nordeste. Ontem foi impagável o sonho da mulher do coronel com menções impagáveis a O Exorcista. Disso tudo, a riquíssima música nordestina e seu misticismo acirrado, onde foram parar? (novamente: em nome de uma negação de características locais, projetamos um mundo de imagens remetidas a sonoridades e imagens mais próximas, mas apenas imagens!)

– O palavreado, os costumes, as roupas, tentam imitar uma época que se foi. Tirando alguns momentos quase fotográficos, o drama murcha e, de repente, percebemos: são apenas atores da zona sul do Rio, com corpo escultural, tentando esconder o sotaque chiado.

– A novela, enfim, contém muito pouco de nordeste e de Rio São Francisco, para além de um imaginário que parece mais o dos visitantes do Xingó do que dos moradores locais. A gente, a música, a cultura, aparecem pouco. O lugar é via de regra cenográfico, de amplas paisagens, algo a lembrar apenas que estamos num nordeste longínquo, idílico e irreal. Até o suor é falso. Algo muito longe de tantas séries do passado, onde os trajes eram sujos, o sotaque menos forçados e os lugares menos cenográficos.

Para fechar o exemplo: se a TV é um meio, uma mídia, é como dizer que antes ela tentava nos mediar a representação de lugares distantes. Mas hoje ela vincula, sem tentativa mas sob muita produção, lugares irreais.

Mas, conforme dito, a TV é apenas um exemplo a mais para nos mostrar o quanto nos distanciamos do Brasil.

Lula era muitos?

Desde as primeiras eleições de Lula, este blog considerava algo estranho: a fácil adesão de muita gente da “esquerda” a uma curiosa continuidade. Segundo essa gente, poderia-se fazer uma passagem direta entre a figura pessoal de Lula, seu papel social “simbólico”, por assim dizer, e as transformações que ocorreriam no Brasil.

Sob os slogans, certo marxismo heterodoxo chegava a dizer (utilizarei tais exemplos para tentar fazer a pergunta deste post, mais abaixo), sob a pena de gente graúda como Toni Negri: “Lula é muitos“. O palavreado era pomposo: “De fato, Lula foge ao controle dos poderes fortes da elite cínica e racista (…) porque expressa a capacidade de se comunicar com os muitos enquanto muitos, sem reduzi-los a um conjunto representável pela “opinião pública” (…) A elite treme. O que lhe aparecia como um monstro é, na realidade, o anjo da multidão dos “sem” (…)”

Note-se aqui uma dualidade: de um lado haveriam os devires, os “muit@s” do Brasil, aquele povo que até hoje não havia sido (e continua…) representado pelos poderes convencionais, enfim, a potência da multidão. De outro lado, a representação e seu poder do Mesmo, a cooptação da diferença em nome do que, no Brasil, seriam as oligarquias misturadas a certa importação duvidosa de alguma noção de “república”.

Era de se notar a discussão sobre a bolsa família, por ex.. Em termos convencionais, a idéia do PT poderia ser encarada como uma verdadeira revolução, embora autores mais contemporâneos, inspirados em Foucault, poderiam sentir-se na tentação de chamá-la de medida biopolítica. Ora, a “biopolítica” diz respeito a um nível de análise que não se situa mais sob as chaves de interpretação da política em termos de repressão. Disso, a política global da bolsa família poderia, mesmo assim, ser considerada benéfica ao povo e até crítica das velhas oligarquias. Mas, mesmo assim, em nome da “potência” de Lula, foi grande o esforço em provar que a bolsa família não era uma biopolítica, mas embrião de uma renda universal.

De lá para cá, houve ao menos duas ou três mudanças de perspectiva. Num primeiro momento, o “lulismo” continuou sob os auspícios da “potência” contra certo “poder” do “governismo” que se impunha como opressor (mesmo sendo Lula do próprio governo). Dilma ainda carregava o epíteto dos “muit@s” na primeira eleição, a potência da mudança contra a tristeza do poder.

Mas logo a terminologia mudou. Dilma e Lula deixaram de ser muit@s e cederam lugar à dualidade entre o “governismo”, de um lado, e os “muit@s”, de outro. Nas eleições de 2014 o “governismo” foi responsabilizado pela própria derrocada, quando afugentou Marina do 2º turno e jogou o jogo do PSDB. Toda a “potência” teria sido despotencializada ainda em 2013 (e este artigo chega a ser profético), quando os movimentos  de junho de 2013 foram reprimidos pelo governo.

Alinho essas informações apenas para tentar dizer o seguinte: de algum modo, quando Lula assumiu o poder ele foi totalmente creditado; e agora que sua imagem treme, é totalmente desacreditado. Mas, entre um e outro momento, alguém atentou à questão fundamental?

A tentação seria de perguntar: diante de tanta confiança irrefletida, quando foi que ocorreu a linha de ruptura, o corte, o abandono, a desesperança? Pois a resposta a isso poderia ter duas implicações: 1) ou o governo das “potências” de Lula teve certo momento de esgotamento após o esplendor, e acabou se entregando ao poder representativo das oligarquias, ou, 2) desde o início houve uma espécie de grande estratégia, na qual, bem ou mal (e o inferno é cheio de boas intenções), o PT tentou a) cooptar as oligarquias em nome de seus projetos, utilizando os mesmos mecanismos estratégicos das oligarquias, ou b) cooptar as oligarquias para se tornar igual ou melhor do que elas.

Sobre as últimas duas hipóteses, acho muito pouco provável a segunda, embora pareça nítido o projeto mais recente de prolongar o poder a qualquer custo. De todo modo – este blog tentaria dizer isso -, pareceria verossímil pensar que o PT jogou um péssimo jogo, uma vez que tentou vencer o diabo jogando com o tabuleiro e as peças do tinhoso. Isso se remete a inúmeras falas do Zé Dirceu, a respeito do mensalão: a compra de votos e pautas parlamentares já existia (ACM ou o golpe de 64 que o digam), o PT apenas se “aparelhou” com as táticas do inimigo, tudo servia para fortalecer o “nosso governo”, no futuro tudo será melhor compreendido, e – quero chegar aqui – no fim das contas, tudo se passaria como se a estratégia inteira consistisse em dobrar esse país corrupto, corruptamente, contra a corrupção.

Voltemos ao essencial (ao menos ao essencial deste blog esquecido): entre o crédito total e o descrédito total a Lula – temperado hoje pelas acusações de “isentismo”, pelo fracasso do “voto crítico” e pelo desejo de que Marina perdurasse na última eleição -, como foi possível a esquerda não considerar que, para além das dualidades entre “nós” e “eles”, o que há são estratégias e jogos de força? Que, para se eleger e manter-se no poder, o PT se alinhou com inúmeros partidos e políticos-anões, dos quais inclusive brotam inimigos atuais do PT, como o próprio Cunha? Que não foi fora dessas coalizões, mas no próprio jogo estratégico imanente a elas, que o PT angariou suas condições de “governabilidade”, e hoje as perde? Que todas as mudanças, positivas e negativas, visíveis no Brasil atual, vieram deste jogo?

Enquanto o brasileiro não tentar compreender como se dão as regras desse jogo, alheio aos supostos “poderes” clássicos e às “potências” vivas (e às outras metáforas da moda, vide alguns tentando importar agora o debate inglês entre liberais e conservadores), nada mudará de fato, e os últimos acontecimentos publicitários da coação de Lula apenas mostram, para além da Aletheia, mais uma correlação de forças esquecida. Leminski já fazia Descartes dizer, em pleno Brasil: “natura desvairada destes ares!” Até hoje não buscamos compreendê-la segundo o que ela própria nos oferece.