A crise atinge a juventude

Nos últimos 15 anos, tenho viajado muito pelo Brasil e visto muitas coisas. Uma delas é que, por milhares de quilômetros, tornou-se muito mais difícil ver casas de pau a pique, de compensado ou de papelão, bem como favelas debaixo de pontes.

As favelas mesmas (e para dizer isso é Rio, Salvador e Sampa que tenho em mente) se tornaram conglomerados de tijolos, às vezes com muitos andares. E cidades que antes eram barro e madeira, agora configuram residências de tijolo, afastando inclusive aquela impressão de favela, antes tão presente em tantos lugares (embora, para perceber isso, era preciso andar, e muito, nesse brasilzão, e com uma percepção que não é a do velho costume de abstrair dos bem nascidos).

Isso significa que a vida do brasileiro melhorou. Muita gente voltou do sudeste maravilha para regiões anteriormente consideradas “pobres”.

Mas é impressionante ler essa notícia, sobre o fato de que desde 2014, o número de engenheiros demitidos tem aumentado frente ao número de contratados.

Isso significa muitas coisas. Uma delas é de que a crise chegou, de fato, num arco que vai desde a formação até a contratação (na educação ela já estava faz tempo). De algum modo, é o verdadeiro esgotamento daquela ideologia das empreiteiras, que já existia desde a Ditadura e que o PT soube aproveitar para si numa espécie de “neodesenvolvimentismo tupiniquim”.

Essa ideologia de empreiteiras funcionou de muitas formas, desde aquela que todo dia vemos na TV via Lava Jato, até aquela das construtoras privadas que, nos mesmos últimos 20 anos, aprenderam a construir muita coisa com pouco dinheiro e qualidade. Engenheiros foram necessários para ambas as opções. Vimos nos últimos anos pontes e viadutos caírem e estádios faraônicos inundarem ou racharem. Vimos também conjuntos inteiros – muitos deles financiados com o “Minha Casa, Minha Vida” – ruírem, embora sob menos publicidade.

Muita gente ficou muito rica ao construir esse lugar que hoje você aluga ou paga prestação, embora tenha que dar conta também dos defeitos inesperados que apareceram depois de alguns anos.

Ver agora engenheiros não contratados e precisando de outros bicos é algo muito simbólico. Significa que o Brasil voltou a ser o que era: não mais um país de empreiteiras gastando alto por altos conluios e propinas, mas um país de empreiteiras gastando baixo por altos conluios e propinas. Adivinhe quem está pagando o pato pela mudança?

Ao menos, um historiador do futuro poderá dizer que tirar o PT custou verdadeiramente caro, pois fez até o blocão dos políticos perpétuos  (aquele, do “grande acordo nacional“) viver de vacas menos gordas (magras, nunca).

Tenho visto, por exemplo no Nordeste, que o pessoal começou a perceber também que a crise chegou por lá. Preciso dizer que o Sul é absolutamente burro em julgar o Nordeste sem conhecer. Nos últimos anos, houve por lá uma verdadeira revolução nos modos de vida. O incauto do Sudeste nem imagina que muitas cidades do Nordeste, antes sob aquela aparência de abandono, hoje dão de 7 x 1 em muitas, mas muitas cidades do Sudeste, em termos de urbanização, esgoto, postes de luz etc.. Mas a situação começa a não ser mais a mesma. Questões mínimas de consumo, como ter geladeira e fogão ou trocar de carro, começam a ficar mais difíceis.

Outro significado muito importante é que a dita “crise” já atinge novamente a juventude. Isso significa que estamos gestando uma verdadeira bomba social. Muita gente melhorou de vida. E não vai querer piorar. As pessoas estão acessando a universidade, e o dito “mercado” não vai mais precisar delas (inclusive, ninguém informou essas pessoas que 90% da educação ampliada nos últimos 15 anos é ridiculamente péssima).

Não à toa, a dita “reforma” pretende precarizar as relações de acesso ao trabalho. É bastante lógico: flexibilizar as contratações de uma população que melhorou de vida, mas piorou na formação, embora o principal é que, bem formada ou não, não é mais necessária para manter o blocão (e vai demorar um bocado para perceber, por incrível que pareça).

Algo muito preocupante está se desenhando. Um pouco como uma volta aos anos 90, só que com mais pessoas, maior circulação de bens e mais patrimônio construído.

Diziam que “o gigante acordou”. O fato é que não viram ainda o tamanho do tombo.

O drama dos professores

É até um pouco irônico, mas aquele poema de Brecht, tão louvado por uns e condenado por outros, nunca pareceu tão atual. Ou senão, vale dar uma olhada no que se passa com os professores hoje.

Posso dizer, inclusive, hoje. Em Curitiba, um forte policiamento evita manifestações de funcionários públicos e professores de ensino básico – aqueles perigosos elementos que o brasileiro acostumou a chamar de “as tias da escola”, pois não aprendeu a respeitar seus professores porque não respeita a si próprio.

Há agressões. Estão batendo nas “tias da escola”. O prefeito atual, Rafael Greca, repete o velho rito: travestido de iniciativa de “gestão”, tenta passar seu péssimo planejamento com uma série de atalhos, que envolvem a não contratação de novos professores, o adiamento “legal” dos reajustes salariais conforme a lei, a interferência nas aposentadorias, a não liberação de licenças-prêmio e o cancelamento da confecção do plano de carreira dos professores (que ainda não existe!).

Para passar tudo na marra, os vereadores ameaçam fazer suas coisas transportados em camburão.

Legal isso, não? O tão orgulhoso cidadão da “República de Curitiba”, seguindo tão calado diante do fato de que seus professores serão menos qualificados – pois a profissão deixa cada vez mais de ser atrativa – e, assim, os filhos dos curitibanos ficarão mais burros. Se bem que… algo há para se entender nessa equação.

E para continuar falando de hoje. No mesmo Paraná, professores da Facel (uma “Facú” particular, dizem assim no Paraná) entraram em greve porque não recebem seus salários. A notícia parece clara: a preocupação é de que os alunos não percam “qualidade” do ensino. Será preciso juntar lê com crê e dizer que não há qualidade num ensino que não respeita o professor?

No RJ, a UENF agoniza porque não consegue repor funcionários e não possui autonomia de gestão (veja o quanto faz falta a boa educação: o repórter da Globo escreve na manchete “Heitor da UENF”, e não “Reitor”). A UENF não recebe verbas corretamente desde 2015, atrasa salários e corta bolsas de pesquisa e demais atividades dos alunos. E nem vou falar da UERJ.

Voltando ao Paraná, as universidades estaduais também agonizam. O ensino de base também.

Incrível como o brasileiro está anestesiado. Levou uma pancada na cabeça. Só pode ser. É como faz com seus professores.

Illan Pappé – A Limpeza Étnica da Palestina

Praticamente 10 anos atrás, divulgamos o lançamento desse livro, em primeira mão para a recepção brasileira.

A novidade (ou nem tanto) é a tradução brasileira, de 2017, pela Sundermann.

A edição se parece bastante com a gringa. Preço: em torno de 60 reais (junho/2017)

“Qualquer um aqui pode ser subornado”

É bastante temeroso ouvir os crimes enormes cometidos diariamente e não punidos. Um escravo que assassinar seu senhor se tornará um escravo do governo após ser confinado por algum tempo. Já um homem rico pode estar certo de que estará livre dentro de pouco tempo, por maior que seja a acusação contra si. Todos aqui podem ser subornados. Um homem pode se tornar marinheiro ou médico ou qualquer outra profissão se puder pagar o bastante. Alguns brasileiros já declararam com seriedade que o único defeito que enxergam nas leis inglesas foi não identificar qualquer vantagem dos ricos e respeitáveis sobre os pobres e miseráveis.

Os brasileiros, até onde posso julgar, possuem apenas uma pequena fração daquelas qualidades que conferem dignidade à humanidade. Ignorantes, covardes e indolentes ao extremo. Hospitaleiros e bem intencionados até onde isso não lhes causa qualquer problema. Moderados, vingativos, mas não briguentos. Contentes consigo e com seus costumes, eles respondem a qualquer comentário perguntando: “Por que não podemos fazer como nossos avós faziam?”. Sua própria aparência pressagia sua pequena elevaçao de caráter. De vulto pequeno, eles logo se tornam corpulentos. Devido a sua pouca expressão, parecem ter a cara afundada entre os ombros. Os monges são ainda piores nesse último aspecto. Não é preciso muita fisiognomia para ver plenamente estampados em seu rosto a dissimulação perseverante, a sensualidade e o orgulho. Há um velho que sempre paro para olhar, igual apenas a Judas Iscariotes em tudo que já vi.

(Charles Darwin, Viagem do Beagle, 2 de julho de 1832 (?) – hoje foi um dia em que lembrei muito dessa passagem)

Blogs e redes sociais

Dias atrás, recebi um comentário revelador: no Facebook, não escolhemos o que podemos ver. Essa tese é incrível: a tese de que escolhemos, sim, o que queremos ver, não é precisamente a tese das “redes sociais”?

Isso foi muito usado contra os blogs. De alguns anos para cá, os links foram trocados pelos “follow” e aplicativos. As tecnologias de RSS, que peneiravam a informação ao gosto do freguês (se você não conhece, vale se informar), deram lugar ao Twitter, ao Facebook etc..

Para mim, foi revelador o comentário do “não escolhemos”, quando na vez seguinte, abri meu Facebook e constatei algo que muita gente comenta há muito tempo: e não é que o Facebook é um verdadeiro esgoto, repleto de gatinhos fofinhos e pessoas cheias de verniz, de um lado, e de outro o mais puro ódio escoado em indiretas e palavras de condenação? Entre um e outro, aparecem alguns factóides e… até links e notícias interessantes. Mas não sai a aparência de uma enxurrada de coisas passando, como numa enchente levando tudo (o Facebook e o Twitter não tem memória e histórico, aliás).

De fato, não escolho o que vejo no Facebook. É como se eu regredisse na “evolução” da internet.

Os blogs, por exemplo: antes das redes sociais, formavam por si próprios espécies de “redes”, só que sem o “follow”. O link capitaneava tudo. Sempre houve pontos focais e autores transformados em autoridades, mas o que sempre mediou tudo foi o assunto.

Com as redes sociais, algo mudou: pode ser até que pessoas se concentrem em nichos específicos de assuntos, mas via de regra você não segue mais assuntos, e sim pessoas. Disso se segue tudo o mais: por simpatia à pessoa, e não ao assunto, somos bombardeados por toda sorte de questão de aprazimento (não de gosto), entre gatinhos, pessoas bonitas, condenações de pobre e hails a políticos fascistas. Se em alguns momentos as redes mostraram interessantes articulações (como na Primavera Árabe), em boa parte do resto se mostraram incrivelmente reacionárias e fascistas.

Deixo meu ponto mais claro: não se trata aqui de uma diferença de escolha, mas de plataforma. A escolha da plataforma define todo o resto, se um amontoado de ressentimentos, ou se uma autonomia maior para dialogar assuntos. Vale, sobre isso, dar uma olhadinha em assuntos como esse.

Outra diferença: os comentários. Pela presunção do “você tem sua opinião, eu tenho a minha“, isto é, do respeito auto-inibidor, toda sorte de lixo é propagada nas redes sociais, sem qualquer possibilidade de comentário. Afinal, o comentário afeta a pessoa, e não o assunto (ou, via de regra, é isso que ocorre). Mas aceitar uma opinião lixo – que muitas vezes ofende ou abre espaço para a ofensa de outras pessoas, como o apoio a políticos fascistas – não é respeito, é a negação da possibilidade de respeitar. É, portanto, a negação do “social” no nome “redes sociais”.

E o mais curioso: o “eu tenho minha opinião, você tem a sua” acaba com a própria comunicação social, na rede social. Ou as caixas ficam vazias, ou se perde a oportunidade de fazer o que se faz na vida real, isto é, de conversar ao vivo, o que é muito mais gostoso. Por pretexto de trocas, redes sociais muitas vezes deixam de trocar.

Quanto aos blogs, é óbvio que já existiam blogs e assuntos reaças. Mas o foco no assunto afastava a hipótese do “respeito auto-inibidor”.  Por isso, ponto novamente para os blogs, pois neles as pessoas tinham algum horizonte de escolha sobre o que ler e como acessar.

Inclusive, vocês não têm idéia sobre o quanto os blogs proporcionavam bons encontros e amizades 😉

O abismo entre as leis e a prática

Brasil: nem uma biblioteca borgeana explica

Notícia que, daqui alguns dias ou meses, fará bafafá: “Projeto de senadora prevê demissão de servidor público estável por mal desempenho”.

Nem vou inserir link. O Brasil está tão previsível que… E está tão ruim de viver por aqui… Mas vamos lá: tempos atrás publicamos exatamente a mesma coisa, sobre a Lei Seca. Nós, brasileiros, de fato exercemos nossa vocação histórica. Fazemos isso muito bem.

existe uma lei que demite servidor público, quando o servidor público não exerce sua função pública com eficiência. Chama-se Lei 8112/90.

No Brasil acontece assim: se a lei não é aplicada, criam então uma nova lei. Mas… se a lei antiga não era aplicada… o que se fez para que agora se aplique a nova lei? Nada, meus caros. Não se corrige o problema original, que é a não aplicação da lei. Num cenário desses, o que se fará é apenas o mesmo de sempre: criar subterfúgios para punir os servidores que trabalham e mascarar os que não trabalham. Criar jeitinhos para benefícios de uns e malefícios de outros. AliásAliás

Há uma lei de verdade, informal, operando por trás da Lei formal, jurídica, vocês entendem? É a Lei do malandro e do mané, muito mais profunda do que qualquer lei escrita. É o mesmo que ocorre quando você vai ao restaurante, ao hospital, à polícia e a tantos outros lugares, sempre. Não precisa haver outra Lei além da 8112. Ela precisa apenas ser aplicada. Servidores públicos precisam ter função pública. Ponto final.

Noves fora, permanece o conto inspirado em Borges, que reproduzo abaixo.

***

Assim poderíamos imaginar um conto borgeano, sobre um lugar que criasse sempre novas e novas leis. Uma lei não sendo fiscalizada na prática, cria-se outra lei, em segunda potência. Teríamos a progressão: Lei, Lei2, Lei3, Lei4, LeiN…
Desse modo, um dia as leis seriam tão dinâmicas que, progressivamente, um número menor de contravenções motivaria cada vez mais uma nova lei, até o ponto em que apenas uma contravenção motivaria a redação de uma Lei nova.
Esse novo jardim infinito das leis geraria um curioso efeito nas contravenções: a cada lei nascente que não se fizesse valer, o número de contravenções aumentaria. Isso motivaria mais ainda a criação de novas leis, e  mostraria ser o ramo das leis o único possível de se criar algo formal, fugindo das práticas criminosas espalhadas mundo afora.
Diante de tantas leis e contravenções, os legisladores seriam ovacionados pelo povo marginal. Mundo “ideal”, apenas nas Leis.  De resto, a barbárie. A ponto de, um dia, o próprio povo tornar-se motivo de desconfiança: não seria ele essa massa de seres irresponsáveis, razão de nossa existência e trabalho árduo?
E a classe legisladora continuaria seu trabalho infinito. Afinal, era da ineficácia de toda lei que se retirava a garantia de seu ofício, e todos os seus privilégios.

A leitura e o mundo novo

O mundo mudou.

Anos 80: “não leio porque não tenho instrução, a vida não me permitiu isso”

Anos 10: “não gosto de ler, acho uma perda de tempo. A nao ser que prenda muuuito minha atenção”

São dois modelos civilizatórios, dois sistemas de exclusão, dois regimes tecnológicos, dois tipos de luta diversos. A leitura como o perigo de produzir um mundo novo; a leitura porque não importa, não produz mais nada.

Brasil terceirizado

Cenário: você é um Headhunter no universo da terceirização. Monta uma, ou várias, prestadoras de serviço. Afinal, qualquer trabalho pode ser terceirizado. Você então faz uma boa publicidade prometendo emprego certo (pouco importa se isso é verdade).

Os candidatos a “colaboradores” começam a aparecer. Você divulga a maravilha que é as pessoas pertencerem a seu leque de “colaboradores”. Para participar dele, elas precisam pagar uma “taxa administrativa”. Poderá ser única, “de manutenção”, trimestral ou, com jeitinho, até mensal. Pode haver desde o plano básico até o plus.

Quanto ao emprego de fato, depende: quem o candidato é ou conhece tem total preponderância. Berço, entende?  O curriculo vem em segundo ou terceiro lugar. E está no contrato: o pagamento é garantia de que o candidato será mantido no diretório de possíveis colaboradores, e NÃO de que será contratado. É preciso ter lábia. E a empresa que contratou serviço também vai ter poder decisório, mesmo que na prática, na manha. 

Com muita sorte, o headhunter é idôneo e tem de verdade contato com empresas (lembremos: o contrato não garante contratação).

Então um candidato é eventualmente chamado. Trabalhará sob o novo vínculo temporário, por 6 meses. Vínculo temporário é mais barato, entende? E a lei agora permite alargar mais 3 meses, 9 meses no total. Perfeito! Pode-se contratar em março e demitir no fim de novembro!

Depois de demitido, o feliz colaborador pode renovar o contrato de headhunting, ou até pagar um plano diferenciado. Depende sempre do berço.

Você, headhunter, enriquece. Quem sabe, para o colaborador, ano que vem tem mais.

A escalada do ódio e as redes sociais

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Dias atrás um amigo comentou que as redes sociais não configuram propriamente espaços públicos, e que o FB serviria apenas para agregar algumas forças, sem possibilidade de uma mudança democrática efetiva. Além disso, os lugares costumeiros da publicidade estariam esvaziados, com as pessoas jogando suas pautas nesses espaçozinhos privados, cuja voz ativa seria enfraquecida.

Pensei bastante a respeito, e isso reativou velhos assuntos.

Acompanho a internet desde as jurássicas “personal web pages” e “listas de discussão”, com toda a evolução aos blogs, ao orkut, ao technorati, ao twitter e depois às “redes sociais”. Acompanhei a evolução do html ao RSS e agora a esse fechamento da Rede no Facebook.

Disso tudo, tempos atrás, quando ainda blogava, tive um breve debate com uma blogueira ainda famosa, que ficou ainda mais notória com as redes sociais. Eu argumentava que os blogs, mais antigos, constituíam uma teia aberta, descentralizada, mediada pelo link. Certamente havia pontos focais, caracterizados por blogs com nicho forte ou autores com papel de autoridade. Mas a “dinâmica” da coisa operava de modo que pequenos blogs poderiam chacoalhar políticas locais ou até nacionais. Blogueiros chegaram a ser perseguidos ou mortos. Inclusive Aaron Swartz, um dos inventores do RSS, acabou se suicidando devido a uma grande pressão institucional, após liberar em acesso público boa parte do acervo do JSTOR. Nomes como Bradley Manning e Assange também eram notórios por obrigar certa publicização “horizontal”, por assim dizer, num mundo ainda bastante verticalizado. E me refiro aos idos de 2010-2012…

Nesse sentido, eu enxergava o Facebook e o Twitter, ou mais precisamente a troca do link pelo aplicativo e pelo “follow”, como fechamentos, frente à abertura que os blogs representavam. Eu dizia que a abertura ao espaço público que se esboçava nos blogs, desde as páginas pessoais, corria o risco de se fechar na privacidade dos interesses passionais, egologismos, autoridades e na fragmentação em nichos incomunicáveis.

Contrariamente, a blogueira dizia que o FB e o twitter potencializavam os blogs, apenas dependendo do modo de usar. A tese utilizada por ela é a de que a tecnologia é neutra: “se você” usar para o bem, será bom. Um machado pode matar ou cortar lenha, a energia nuclear pode matar ou acender a luz…

Mas há algo mais… E aliás, toda a tradição que se consolida nos estudos CTS (Ciência, Tecnologia, Sociedade) diz bem mais coisa do que a mera tese “a tecnologia serve para o bem ou o mal, depende como você usa”.

Hoje o FB emplacou de vez e a Rede nunca esteve tão privada. É certo que o FB mobilizou massas, como na Primavera Árabe, ou redes como a do BlackBerry chegaram a chacoalhar a Inglaterra.

Mas, correlativamente, muita coisa ocorreu. Já se começa a pensar sobre como a intervenção em redes sociais auxiliou na vitória de Trump, inclusive sob influência russa. Ou como sites formadores de opinião nas redes sociais emergem… da fumaça (ver isso também). Ora, isso já era possível na época dos blogs. Mas nas redes sociais parece que algo mudou, devido ao próprio modo como elas se constituem e independente da escolha sobre seu “uso”.

Se os websites e blogs configuravam uma primeira camada de acesso ao “virtual”, as redes sociais configuram “acessos sobre acessos”, elas filtram e também oferecem previamente o que se dará a pensar. Quando o primeiro ato de navegação se refere a uma página pré-moldada, e não a páginas pré-escolhidas, toda a ação subsequente muda.

Isso é certamente diferente dos blogs.

Outro fator importante é a própria, digamos, “dinâmica das excitações” envolvida. Navegar de link a link, “escolhendo” o próprio rumo, é bem diferente desse fechamento em nicho ocasionado pelo FB. Leio e acesso o que alguns (não todos) dos outros me oferecem, mediados por algoritmos que buscam capturar, pelo padrão de minha navegação, o meu gosto. Se estou predisposto a determinadas idéias, elas me serão oferecidas diretamente, em manchetes rápidas e sem maior argumentação, junto a comentários afetados de pessoas que muitas vezes sou simpático a concordar, mesmo que – e isso é a parte importante – se eu examinasse de fato suas idéias, eu não concordaria (vale novamente esse link).

O mar aberto dos links oferecia algo diferente. Certamente alguém tende a clicar nos assuntos que tende a concordar, ou ao menos pretende saber. Mas entre a busca e análise de um texto (blogs, webpages) ou a oferta sem análise de uma simples manchete (twitter, facebook), a tecnologia mental empregada é inteiramente diferente. Somos “excitados” de forma bem diferente, e agimos diferentemente conforme tais “excitações”.

Além disso, reforça essa economia de “excitações” a diferença entre o “post” e o “textão”: os blogs e as webpages possuíam linguagem sintética, mas também abertura para argumentar. Agora os “memes” são predominantemente frases curtas, sacadinhas, excitações momentâneas, para nos “excitar” de um modo e depois canalizar outras excitações. O “textão” recebeu quase imediatamente conotação negativa: ler é ruim, não tenho tempo e nem disposição. Se você pode dizer tudo abreviadamente, pra quê ler textão?

Disso tudo, é evidente que as redes também engajam afeições, para além de cognições. Aliás, – e aqui chego a meu ponto – pode não ser por acaso que a escalada da violência e do ódio nos últimos anos conviva com a popularização e a massificação das redes sociais e o fechamento das navegações.

Os nichos fechados das redes sociais transformaram cada vez mais a internet na réplica do mundo “lá fora”, ao invés de virtualidades de tecnologias como a do hiperlink serem exportadas para fora. Exemplos disso são as políticas de direitos autorais, a unificação de cartões identitários ou a interface entre geolocalização e aplicativos de consumo, multiplicando possibilidades de “captura” e “individualização”, por assim dizer. Ainda por assim dizer, não se tem propriamente uma multiplicação das mobilidades e liberdades individuais, mas sim uma multiplicação do monitoramento das individualidades e mobilidades. O esquadrinhamento dos indivíduos em espaços fechados dá lugar à individualização em espaços abertos, conforme muitos autores já notaram. Em suma: quando a internet se popularizou, muitos enxergaram no hiperlink e no hipertexto a possibilidade de que o tipo de relação engajado por eles poderia ser exportado ao “mundo real”. Ocorreu algo um pouco diferente…

Mas há mais: as redes sociais, trazendo “para o virtual” as relações “reais”, inevitavelmente devolvem para “fora” o que ali dentro se condensou. Não é difícil provar o quanto as pessoas comentam e se posicionam favoravelmente a muito do que “encontram” nas redes sociais. Crenças prévias, trazidas de “fora”, são revestidas de novas camadas, transfiguradas em temas adequados à velha crença, produzindo por sua vez novas relações “reais”. A partir dessa dinâmica, sou de fato formado e carrego de volta ao “mundo lá fora” minha formação. Isso quer dizer que, se as redes trazem para “dentro” da internet o que havia lá fora, o que se condensou ali “dentro” também será, doravante, levado para “fora”. A Rede me auxilia a encontrar um produto do mesmo modo que me orienta a encontrar grupos de ódio ou eventualmente organizações mais complexas. Acredito no tema do “bandido bom é bandido morto?” Logo algum deputado que prega isso, ou grupos de ódio do facebook, estarão no meu horizonte de links, sem que eu os precise procurar. Os inesperados casos de brasileiros que, usando redes sociais, foram parar em grupos paramilitares na Ucrânia ou no terrorismo islâmico são apenas alguns exemplos.  Predisposições “reais” encontram algoritmos “virtuais”, que orientam tais predisposições em novas potências.

Agora, levando em conta o que dizem os “estudos CTS”: as redes sociais não são o “abstrato” versus o “concreto”, não se tem meramente o “virtual” contra o “real”. O que acima me referi por “dentro” e “fora” é inexato. O que há é um mecanismo no qual, “dentro” e “fora” induzem a dinâmicas inesperadas se considerarmos tecnologias mais antigas, como as dos blogs.

Seria preciso descrever o funcionamento desses investimentos… A meu ver, as coisas ocorrem quase como na época em que Freud criou a noção de “pulsão/impulso/trieb de morte”: como explicar a guerra, e principalmente a “atmosfera” que conduz a ela? Freud apelou à construção de um conceito reportado à condição humana, e mostrou que há investimentos não apenas orientados por Eros.

O que me parece relevante nisso tudo é que vivenciamos claramente uma nova escalada de ódio e violência. A considerar os ânimos, tudo funciona para nos encaminhar a novas e terríveis guerras, um pouco como Freud se estarrecia diante da matança da Primeira Guerra e via nascer as nuvens da Segunda. Voltando à nossa época, não preciso citar o discurso de posse de Trump. Nas expressões cotidianas, é nítido o ódio nas redes sociais e em diversas manifestações, inclusive artísticas. Há pouco um artista israelense precisou intervir contra as pessoas que fazem performances no Memorial do Holocausto. No Brasil, os casos de violência banal e motivados por estereótipos políticos começam a aumentar…

As pessoas não tiram tudo isso das próprias cabeças, e o alarme não estava tão vermelho assim 10 anos atrás.

As ocupações são um campo de batalha

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Tenho acompanhado notícias de diversas ocupações no Brasil, de escolas médias a universidades. De minha parte, está fora de questão o apoio: se elas são movidas pela luta contra a reforma do ensino médio e a PEC 241-55, a meu ver elas têm mais do que razão.

Além disso, os estudantes estão lutando de forma pouco vista por aqui ultimamente. É incrível, por exemplo, nossa total morbidez frente à reestruturação produtiva do Banco do Brasil. Estão demitindo 18 mil funcionários e fechando centenas de agências de um banco que tem (tinha?) função social importantíssima, sem contar que a última grande reestruturação produtiva foi recente. Alegam “corte de gastos” de 750mi, numa instituição que, com os mesmos funcionários, rendeu 15bi em ano de crise. Apenas assistimos a tudo, bestializados.

Voltando aos estudantes e à ocupação: estar ali, firmar posição e se reunir com outras ocupações nacionais é a luta. Há muito se sabe que boa parte da luta é questão do que chamam de “opinião pública”, “publicidade” e outras palavras da moda. É preciso, sobretudo, excitar a sociedade, mobilizá-la em prol das causas. Não à toa os movimentos estilo MBL se apoiam em vídeos para tentar mostrar que as ocupações não valem nada.

A imagem é moeda de troca. Disso tudo, creio que as ocupações têm um papel muito importante, para além de marcarem posição. É mostrar a quê vieram.

Digo isso porque a impressão é a de que há um imenso esvaziamento intelectual no ensino superior. Em muito isso se deve à profusão de uni-esquinas privadas no Brasil. Há faculdades e faculdades, mas há muito as privadas imprimem um ensino raso, feito para clientes inertes e não alunos ativos. Filmes como “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolucci, mostravam jovens descobrindo a vida em meio à intelectualidade e rebeldia dos anos 60. Relacionar a vida com a intelectualidade? Parece não haver paisagem mais distante.

Disso tudo, a direita (que agora se mobiliza e agrupa do liberalismo mais ingenuamente honesto às piores pulsões autoritárias), se aproveita soberbamente das imagens oferecidas pelas ocupações. Eles – não sou eu quem diz – acusam tudo.

E estão dando pancada.

Ouso dizer que, no centro das acusações, está certa adesão a pautas que não precisariam de estudo para existirem enquanto pautas. Que as mulheres e negros e demais minorias precisem ter lugar, basta ter um cérebro para concordar. Alguns dos ditos “direitistas” concordam, outros não estão nem aí, acéfalos. Mas há algo aqui que eu gostaria de chamar a atenção: o argumento.

O cerne da questão é que, olhando as centenas de ocupações do Brasil, dá-se muita munição ao adversário. Apenas mantendo os exemplos temáticos de gênero e cor: não se vê, por exemplo, grupos de estudos sobre a separação de gênero, questões de sexualidade ou as proveniências e funções do racismo. Menos ainda, questões detidas nas temáticas maiores da universidade, outrora tão contestadoras.

Pelo contrário, muitas pautas são diretas, rasas, do tipo “vamos deixar as minas”, “aulão sobre Foucalt” (sic!), “meditação” e “prática de empoderamento”.

Tudo isso tem lá sua legitimidade. Precisamos lembrar que os ocupantes não estudam 24 horas por dia. Mas, para quem é contra a ocupação, não ver atividades acadêmicas é prato cheio para a crítica. Afinal, não ocupam contra a baixa do nível de ensino e os cortes que atingirão a pesquisa e a extensão?

No caso das universidades públicas, elas são o último bastião onde se pode ter uma educação superior de qualidade, não voltada ao miojo do mercado, mas à grande gastronomia do conhecimento do mundo. Perigosamente, cada vez menos se compreende – à direita e à esquerda!!! – a importância de que o ensino público carrega os últimos bastiões do pensamento no Brasil.

Até a monarquia, que negociava privilégios, achava importante ver um Brasil com ensino superior, afinado às “novidades” européias. A universidade brasileira cresceu, e nos últimos anos houve muitos intercâmbios de igual para igual com inúmeras outras academias estrangeiras (não que isso seja o essencial, mas mostra o quanto houve de abertura de diálogo).

Aquele que quer ver o fim da universidade pública, ou que pretende transformar a universidade e o ensino médio numa fábrica de salsichas mentais, não percebe isso. Aliás, isso nunca foi para nós um ítem de percepção. Um país grande tem pesquisa, e pesquisa implica pesquisadores, mentes pensantes, um burburinho do qual muito ruído é gerado, mas que é também condição de possibilidade da inovação.

Estão atacando as universidades e massacrando o ensino médio. Diante disso, os alunos ocupantes são o pouco de movimento contrário. Com isso precisamos mostrar, todos nós, a que viemos.