O luto contido e a volta do comércio

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Todo brasileiro presencia em 2021 o fechamento de inúmeros comércios, já iniciado em 2020 devido à inépcia do governo Bolsonaro em combater a pandemia. A única estratégia empregada pelo governo foi a da “imunidade de rebanho” (um pseudo-conceito já desmentido pelos epidemiologistas, mas que ainda consegue politizar muitos desinformados): expor a situação à morte até garantir a eventualidade de que 70% da população estivesse infectada. Apesar dos esforços em contrário, deu no que deu: até agora, 600 mil mortos, mais do que um a cada 500 brasileiros.

Mas o assunto a que chamo a atenção, agora, é o do fechamento dos comércios, e sob esse fenômeno, um acontecimento singular. Pois há, para uma História do Esquecimento, também aqueles comércios que, no irromper da pandemia, não cultivavam qualquer cuidado, mantendo-se abertos “normalmente”, com grande fluxo de entrada e saída de pessoas, aglomerações internas e ausência de qualquer protocolo.

E de repente, do nada, o comércio fecha – por alguns dias, por vezes semanas. E quando reabre, volta com adoção radical de protocolos: atendimentos apenas externos, take away, álcool-gel…

A reviravolta tem uma explicação óbvia: o dono e/ou vários funcionários pegaram COVID e quiçá morreram dela. Os outros – familiares, funcionários -, traumatizados, retornam às atividades, meio atordoados.

E seria muito importante entender o que aconteceu nesse retorno, pois é uma volta encabulada, contida, titubeante, tateante, como que tentando reconhecer os mesmos lugares e hábitos que se tinha em mãos. E ao mesmo tempo é um retorno silencioso, quase um retorno de derrota ou envergonhado.

É quase como se o brasileiro, contra uma pandemia que ceifou diversos dos seus, não tivesse nada além da resignação, da contenção e do puro e simples silêncio.

E isso revela muita coisa. Revela que a pandemia não é uma pandemia propriamente dita: não é um assunto coletivo, de saúde pública, mas um assunto privado, quase o de um velório a portas fechadas sob uma morte envergonhada. O meu morreu, embora tudo siga normal. E o clima de contenção (até derrota) impede a pergunta: como pode estar normal se o meu morreu?

Mesmo assim, mesmo sob a constatação de que os meus e os seus morrem, cada um de nós se recolhe pura e simplesmente em seu âmbito privado. O vizinho até pode prestar-me condolências. Mas tudo ocorre como se a morte do meu próximo e a do meu vizinho fossem assuntos privados, separados, não ligados à mesma cadeia de mortes que também ameaça nossas vidas. Em 2021, tratamos uma questão de saúde pública de modo absolutamente privado.

Mas, como eu disse, aparentemente isso vai para a História do Esquecimento.