Quem é de direita toma cloroquina, e quem é de esquerda toma…

Boslonaro persegue emas com uma caixa de cloroquina

Olhando o noticiário em janeiro de 2022, não deixa de ser um soco de estômago ver que, diante do aumento exponencial dos casos de COVID, 91% do número de mortes é de não-vacinados.

Não são pessoas que não tiveram acesso à vacina, mas em grande parte gente que não quis se vacinar. As reportagens o mostram: começa a pipocar histórias tristes de arrependimento, aquele arrependimento envergonhado e frustrado ao se admitir que estava errado, ou desesperado ou revoltado por constatar que não há mais tempo. “Se ao menos eu soubesse…”

Trata-se da mesma gente que, antes da pandemia, enquadrava-se no discurso de Bolsorano sobre a “liberdade” para não usar cadeirinha de criança no carro, a “liberdade” de aceitar no emprego condições de trabalho não mais previstas pela CLT ou a “liberdade” de comprar uma arma de milhares de reais para carregar na bolsa (como se os brasileiros tivessem dinheiro para isso).

Em todas as opções, aliás, “liberdade” resume-se a viver sem qualquer pressuposto de sociedade civil e solidariedade social. Mas continuemos: essas pessoas que continuam morrendo se somam ao incrível exército – capítulo monstruoso para uma História do Esquecimento – de aleijados e sequelados que o Brasil criou entre os que sobreviveram ao vírus: gente que, jogando baixo, perdeu o olfato e o paladar por alguns meses (como se isso fosse jogar baixo! – ocorre entre 40-68% dos infectados), mas que jogando alto, caso não morra por alguma complicação decorrente da COVID, carregará sequelas pelo resto da vida.

Todo mundo conhece, entre os ainda vivos, o antivax que deu sorte, o parente que piorou a saúde depois de ter COVID ou o conhecido que até hoje sente cheiro ou gosto podre. Quem olhava para a pandemia com olhar de economista sequer considerava o prejuízo que um exército de sequelados ocasionaria. Mas ora bolas, não estamos numa época de políticas públicas, e sim de oportunistas que ganham alto com a morte (e a demanda por cloroquina fez girar muito o mercado).

Não faz muito tempo, Boslonaro falava em alto e bom tom que “quem é de direita toma cloroquina, e quem é de esquerda toma… tubaína“. Todo brasileiro entende o que Bolsorano queria dizer com as reticências e o que simbolizam as palavras de um presidente que manda parte de sua população tomar… na tubaína. Mas o que salta aos olhos é que estamos vendo só agora os efeitos de declarações como essa. Esses efeitos são tão concretos que ainda no dia 21 de janeiro uma nota técnica do Ministério da Saúde divulgava que vacinas não tem demonstração de segurança, mas cloroquina sim. O dado é absolutamente mentiroso, mas é uma demonstração institucional que dá incrível continuidade às palavras do presidente. A tabela:

Muitos dos que hoje morrem tomaram cloroquina e deram à época suas gargalhadas, quiçá também uma banana para esses outros que, conforme a palavra do presidente, deveriam tomar naquela outra coisa.

Mas a pergunta que fica é: ninguém enxerga vínculo de “causalidade” entre as palavras do presidente – e tantas outras – e o que hoje vivenciamos? Ou esses vínculos sequer existem? Um presidente não tem voz pública e suas palavras não carregam qualquer consequência? Há quem não morreu e talvez pense nisso, pondo a mão no queixo enquanto esquece por um momento o cheiro de carne estragada. Mas para nossa sorte, há também quem pesquise o assunto e tenha provas de que nada disso ocorre por acaso.