Render homenagem aos mortos

Uma das cenas mais memoráveis do cinema

Uma das efemérides da semana foi a disponibilização gratuita de Dersu Uzala no Youtube com outros clássicos russos (tais como Vá e Veja). Em tempos pandêmicos – li por aí -, nada melhor do que filmes e mais filmes.

E para quem tem o descaramento de ver esses “filmes parados” (são os jovens que o dizem), o início do filme já traz uma mensagem para 2021. Ali o Capitão Vladimir, cientista russo, visita uma vegetação devastada, mas transformada em vila pelo “progresso”. Ele tenta encontrar onde foi que o amigo Dersu havia sido enterrado.

Se o filme foi disponibilizado para (re)ver em tempos de pandemia, surpreende como sua temática inicial já mexe com a temporalidade. O Capitão quer visitar o lugar onde Dersu repousa. Mas ali, onde até há pouco era uma densa floresta, agora transformou-se numa vila pouco afeita a achar túmulos ou outras coisas do passado (é o que mostra a atitude do personagem encontrado pelo Capitão).

A cena mostra que entre aquilo que o Capitão e Dersu viveram e o presente há uma lacuna, um abismo. Não o dos inevitáveis tempos vencidos, mas o de que os tempos de agora, esses tempos tão modernos, constituem-se fundamentalmente na negação daquilo que passou. Importa dizer que não somos mais “aqueles”, nem essa floresta e nem esses eventuais túmulos porque agora somos outra coisa que só pode ser assim ao negar aquilo (mesmo que não passemos então de uma vila orgulhosamente atolada no barro).

O Capitão, em 1910, estranhava como tanta coisa mudara em tão pouco tempo (“três anos”, disse ao transeunte). Mas ao menos em um ritual havia continuidade: o de render homenagem aos mortos.

Nem o transeunte, nem o Capitão, negariam a importância de visitar os túmulos. O transeunte poderia ignorar a localização de algum túmulo ali, mas não o ritual. Reservar um dia que simbolize ou rememore o falecimento e visitar alguém que passou: não foi sempre uma ocasião essencial? Esse rito sempre deu continuidade a quem eu fui, quem sou e quem poderei ser.

Visitar Dersu dava ao Capitão sentido, palavra que não se refere a nada simplesmente privado, ensimesmado, abstrato. As ações de Dersu e do Capitão não são mera fantasia do passado, mas fazem corpo com o presente. Lição que – é claro – ultrapassava esse pequeno drama de Kurosawa.

E eis que 110 anos depois (da cena representada) somos nós que supostamente vemos o Capitão rever Dersu. E o que temos em mãos?

Eu poderia começar a falar sobre os números da pandemia ou o total desprezo pelo corpo e pela existência que ensejamos ao não usar medidas eficazes, permanecendo como que anestesiados entre máscaras e negacionismos. Mas para manter o exemplo utilizado, salta aos olhos como é que lidamos com os mortos. Só para manter o exemplo da velhice, não foram poucos os alertas de que não mais somos sensíveis a muita coisa. Tratamos os mortos e os velhos de um modo que depõe radicalmente contra nós mesmos (nós, os mortos e velhos de amanhã).

E quanto ao ritual de homenagem? Que o diga a impossibilidade de se despedir dos mortos, as escavadeiras abrindo covas em massa, os presidentes pregando remédios falsos, o trabalho em forma de aplicativo que elimina a possibilidade de qualquer dia não ser de trabalho, as escolas que continuam as aulas após saberem que um professor morreu de COVID e essa incrível anestesia que ronda por aí.

Um exemplo, dentre todos, é notável: no Canadá, uma universidade continuou vinculando aulas online de um professor mesmo depois de morto. Sequer o colega que compartilhava o crédito da disciplina com ele, tampouco os alunos, sabiam do falecimento. Nem é preciso dizer que isso não é uma homenagem, mas um puro e simples uso da imagem do professor para propósitos outros.

François-Marc Gagnon, professor cujas aulas online eram vinculadas após o falecimento

O caso das aulas do professor morto contrasta com outro exemplo recente, o de um jovem que jogava videogame com o pai morto há dez anos. Ao reutilizar um videogame, o jovem descobriu que uma das corridas do pai ainda estava gravada, e que poderia sempre jogar contra ele: misto de lembrança, celebração e saudade.

No que os dois casos diferem? Aí está patente que o desempenho do pai no videogame é algo mais do que um objeto que ficou para trás, pois é uma performance que pode sempre ser revisitada. As ações daquele que conviveu comigo no passado podem ser reatualizadas agora, no presente. Quanto ao caso das aulas do professor morto, é um aluno, ao tentar contato com o professor após as aulas, que mostra o ponto no qual chegamos: aquelas falas tão boas e comprometidas, de repente, foram descobertas como não possuindo vida. Enquanto aluno, não fui posto num contexto de troca com um professor detentor de uma obra, pesquisas, ações, mas diante de um aparelho que cospe informação a ser captada.

Ao ver que o professor estava morto, de repente o aluno percebeu que não havia descoberto – como o fazemos por exemplo nos livros – um pensamento vivo sendo continuado por aqueles que estão vivos, mas sim o uso instrumental de um morto para questões administrativas (financeiras?) que não tem nada a ver com sua vida e pensamento. O professor havia virado mero meio para outros fins, ele não era mais alguém a ser revivido na memória. Na aula post-mortem, passa-se instrução com o vídeo gravado para ouvintes ou clientes do mesmo modo como a informação passa na internet de um aparelho para outro: se o locutor está vivo ou morto, isso é um mero detalhe.

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Mas como a vida sempre tem suas reviravoltas, é uma informação muito feliz a defesa póstuma de mestrado de Ely Macuxi, na UFAM. Às vésperas de sua defesa, Macuxi foi levado pela COVID.

O exemplo, aqui, é de uma obra que permanece para além de seu autor. Não há uso instrumental de alguém que se foi, mas sim homenagem à memória e ao modo como o Pensamento pode permanecer vivo para além das limitações materiais.