O “Mamãe-Falei”, youtuber que se tornou deputado e hoje é pré-candidato a governador de São Paulo, não enganou ninguém quando foi eleito. Dentro de uma democracia, ele foi eleito com vídeos que tentavam destruir retoricamente os desafetos políticos deixando-os calados.
É uma velhíssima estratégia retórica, que consiste em destruir alguém por via do uso da materialidade do discurso, mesmo que no fundo e ao fim das contas esse alguém tivesse razão. Afinal, o efeito causado é mais importante do que as razões. E a questão é destruí-lo, e não encontrar um ponto comum: causando um efeito de vitória e derrota, de redução do adversário ao silêncio e ao absurdo, Mamãe-Falei embarcava na onda de tantos outros políticos.
A técnica é tão velha quanto os sofismas da Grécia Antiga, e tão bem descrita pelos gregos. Ela também foi mais do que refutada por um texto de Aristóteles que não à toa se chama Refutações Sofísticas – texto do fundador da lógica que parecia – ao menos até o século XXI e a era da internet – ter impresso marcas importantes ao ocidente.
A técnica do Mamãe-Falei não tem nada de democrático. Uma democracia exige as virtudes da dialética e do Logos: um cidadão admite o outro como interlocutor e não como inimigo. Inimigo se destrói na guerra, cidadão se convence na praça pública. Até mesmo “vencer” um igual numa discórdia exigiria ritos precisos, já que o grego acreditava que até a discórdia tinha uma deusa – Éris – e ela poderia ser boa ou má. Um cidadão não se dirigia a outro sob os signos da má Éris. O ensinamento – ao menos ele nos restaria – é claro: contradição não deveria significar destruição, ainda mais a destruição daquele que divide as fileiras comigo na vida e na guerra.
Mas, conforme visto, não é nada disso que se encontra em Mamãe-Falei. E para sermos justos, isso não é coisa dele, já que foi o segundo deputado mais votado em São Paulo e agora é pré-candidato a governador. Ele recém havia sido incentivado por Sergio Moro para fazer seu justo trabalho na Ucrânia. E agora, quando é pego falando das ucranianas com uma cara de pau proporcional ao tamanho do crime de decoro, ele está fazendo o que sempre fez: é o mesmo bombado de academia que usa comentários marombeiros sobre “as minas” e compartilha nas listas de futebol. Se ele o faz agora como deputado e pré-candidato a governador, qual é a surpresa? Afinal, são as mesmas coisas! Ele disse, dentre outras:
Acabei de cruzar a fronteira a pé aqui da Ucrânia com a Eslováquia. Maluco, eu juro… eu, nunca, na minha vida… ó, eu tenho 35 anos. Eu nunca na minha vida, nunca, vi nada parecido assim em termos de ‘mina’ bonita. Assim, a fila das refugiadas, irmão, assim… imagina uma fila, sei lá, nem sei… to sem palavras. Uma fila de 200 metros ou mais. Só deusa, assim, só deusa. É sem noção, é inacreditável. É um bagulho assim fora de série. Se você pegar a fila da melhor balada do Brasil, a melhor, na melhor época do ano, não chega aos pés da fila dos refugiados aqui. Maluco, eu ‘tô’ mal, eu ‘tô’ triste, porque é inacreditável
E detalhe: elas olham. E vou te dizer: são fáceis, porque elas são pobres. E aqui, cara, a minha carta do Instagram, cheia de inscritos, funciona demais. Funciona demais. Depois eu conto a história. Não peguei ninguém. Mas eu ‘colei’ em duas ‘minas’, que a gente não tinha tempo, em dois grupos de ‘minas’. E, assim, é inacreditável a facilidade. Essas ‘minas’ em São Paulo se você dá bom dia elas iam cuspir na tua cara. E aqui elas são supersimpáticas, super gente boa. É inacreditável.
Ele recebeu uma resposta demolidora de Jamil Chade. Depois dela, não sobraria nada dessa retórica e uma democracia exigiria respostas efetivas. Mas a questão não é ele.