Invadiram a Ucrânia mesmo?

Há algum tempo (uns 20 anos) ocorreu um episódio que se provou muito digno da História do Esquecimento, narrado por Ron Suskind. Ele citava, a propósito da invasão do Iraque pelos EUA, as falas de um funcionário da Casa Branca criticando jornalistas. O adido dizia algo como: muito bem, façam como quiserem, mas nós é que mudamos o mundo. Não vivemos mais sob um princípio de “comunidade baseada em realidade“. Vocês podem narrar a realidade como quiserem, mas quem a modifica somos nós. Enquanto vocês narram, estaremos sempre um passo à frente, modificando. Somos nós, agora, os verdadeiros atores da História.

Essa fala, tão surpreendente, só consegue paralelo em casos como o de Julian Assange (e outros, como Aaron Swartz): em plena era de uma inovação tecnológica – a internet -, seus maiores heróis (ou indivíduos capazes de modificar o curso dos acontecimentos utilizando o novo instrumento tecnológico) são relegados ao puro e simples esquecimento. Os tempos modernos do Iluminismo se esgotaram, ainda mais do que o século XX já presumia (Pierre Levy já dizia isso, sem querer, em As Tecnologias da Inteligência).

Desde ao menos essa fala do adido, o mundo deixou de ser (mais uma vez) o mesmo. De lá para cá, e num ritmo ainda mais acelerado a partir do Facebook e depois do WhatsApp, os mundos se separaram. Não há mais “comunidade baseada em realidade” porque não haveria, presumivelmente, “realidade” para agrupar algum princípio comunitário (lembremos de Umberto Eco: a internet deu voz ao idiota da aldeia, e quando ele disse isso ninguém deu ouvidos à etimologia da palavra idiota). Já era possível nos anos 2000, em plena era da informação, promover uma guerra baseada em mentiras, com apoio de parte da imprensa. E quando o gato era pego no pulo, era sempre possível neutralizar o flagrante.

O WhatsApp e as eleições ao menos desde 2016 vieram para o mostrar: sem “realidade” para se basear, não há mais “comunidade”. As pessoas começaram a viver em mundos tão distintos que nem uma pandemia e o fato mais duro da morte permitem mais um princípio comunitário. Se você vive como o Átila Iamarino, com práticas de vida baseadas em “evidências científicas” para cuidar-se contra a pandemia, não há mais qualquer comunicação com o tiozão do WhatsApp, que se vacinou apenas porque começou a ver gente morrendo e só espera da vida a próxima piada do pavê (com a eventualidade de algum parente não estar mais ali). Se você é bolsonarista, é impossível sair da polarização antipetista.

É nisso tudo que entra a invasão da Rússia à Ucrânia. Parece até engraçado, mas não faz muito tempo que os bolsonaristas ostentavam símbolos da Ucrânia para expressar preconceitos de ultra-direita e anti-Russia. Figuras como Daniel Silveira (do PSL) e Sarah Winter diziam que era preciso “ucranizar o Brasil“, aludindo com isso a movimentos de ultradireita por lá. Não durou muito e Bolsonaro estava na Rússia barrando as botas de Putin nas vésperas da invasão à Ucrânia, o que rendeu críticas até mesmo dos amados EUA.

Mas de quê tudo isso importa? Pois não importa a realidade. Nem ela importa para dizer, com os ocidentais, que a invasão de Putin é inadmissível e pode ter efeitos avassaladores. Nem ela importa para dizer, com os russos, que não é possível aceitar um quintal da OTAN, com logística para mísseis até nucleares, em plena fronteira com a Russia. Não importa mais a realidade para dizer que a OTAN não cumpriu certas regras e expandiu-se até as bordas da Russia, um pouco como, outrora, os russos ameaçavam instalar mísseis nucleares em Cuba.

A vida tornou-se um pouco como a dos bolsonaristas: num dia você pode justificar símbolos que podem ser usados pela ultradireita no mundo – até contra a Russia – e no outro apoiar os elogios de Bolsonaro a Putin em troca de algum comércio com fertilizantes, sem problemas.

E o que dizer daquelas bombas todas na Ucrânia? Elas são como a COVID: a situação não apertou por aqui ainda. Se apertar, depois nós vemos (e é claro que cada um vê por si).