Nesta semana viralizou a imagem de um bolsonarista que, para impedir a compra de uma revista que chamava Bolsonaro de “Mercador da Morte” (comparando-o com Hitler num bigode com o escrito “genocida”), acabou por comprar diversas revistas, apenas para jogá-las fora.
As reações de chacota foram automáticas, pois para “impedir” que uma revista circulasse, o bolsonarista tratou logo de comprá-la (portanto, de estimular a tiragem).
À parte a graça, pouco ou nada se comentou sobre algo mais óbvio e fundamental. Pois esse manifestante não fez nada diferente do que já faz de costume igual a outros bolsonaristas: ele protesta – como diz Bolsonaro – dentro das quatro linhas da constituição, ou do que imagina serem essas linhas.
Por definição, um protesto ou manifestação jamais é algo “normal”. Protestos apenas ocorrem contra algum descontentamento ou injustiça (o nome “protesto” já o diz…). Logo, não há qualquer normalidade presumida, nenhuma cartilha de como um manifestante deve se manifestar, nenhum código de boa conduta.
Mas para o bolsonarista (ou para certos bolsonaristas) é diferente, pois ele aprendeu desde 2013 que protestos precisam ser “sem violência”, sem “quebrar vidraças” ou “sem atrapalhar o trânsito”, vestindo a camisa da seleção da CBF e outros quitutes. Ele aprendeu que toda manifestação deve ser “pacífica”, pois todos devem ir com a família pregar em praça pública pelo assassínio de opositores políticos ou pela morte coletiva de pessoas com COVID por omissão do Estado e da sociedade civil. O “protesto” bolsonarista é, com frequência, comportado.
Isso significa dizer que muitos desses aí nunca exerceriam violência. Mas como o diabo mora nos detalhes, aí está: não exerceriam violência com o próprio punho ou, se o fizessem, não exerceriam sem uma margem de segurança que não os comprometesse ou, ainda, não exerceriam violência porque escolhem de antemão alguém para fazer o trabalho sujo. E no caso, o ator delegado para a violência é o Estado. Ele é quem deve calar o discordante, rasgar as revistas ou matar os desafetos. Não é à toa que o twitter consegue tantas vezes emplacar a hashtag “eu autorizo”.
Há número considerável de pessoas pacíficas, perfeitamente eichmannianas, que não teriam sequer coragem de encarar alguém na rua. Mas elas se tornaram dispostas, nos últimos anos, a aceitar a existência e a colocação em ato de alguma máquina de violência para calar jornais ou pessoas, máquina preferencialmente estatal.
Quando alguém compra uma revista para rasgá-la, isso seria um gesto simplesmente ridículo se não tivesse contexto. Mas o contexto é o de que há milhões de pessoas ao redor que, além de verem esse meme, também viralizam outros memes sobre pessoas ou motivos que pregam a morte.