O isolamento vertical entrou pela porta dos fundos

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Com o retorno às aulas e a pouca vacinação das crianças, estamos vivenciando algo surreal: há uma posição geral, quase espontânea, que legitima a divisão entre pessoas idosas e com comorbidades que devem trabalhar remotamente, de um lado, e pessoas jovens e (supostamente) saudáveis que devem trabalhar presencialmente, de outro.

Essa posição apenas repete, sem nominar, o velho tema do “isolamento vertical” que os bolsonaristas tentaram emplacar no início da pandemia: idosos e com comorbidades devem ficar isolados, pessoas “normais” devem trabalhar para fazer “girar a economia”. 

Essa posição, além de ser equívoca e derivada de um falso conceito (amplamente desmentido pelos epidemiologistas), tem efeitos absolutamente nocivos: cria uma clivagem na sociedade entre os que tem algum risco de morrer e aqueles outros que supostamente (pois não o sabem) podem viver, amar e trabalhar livremente. 

Ora, o primeiro contra-efeito disso é o de que as pessoas que serão agora constrangidas ao isolamento não viverão as mesmas condições dos últimos dois anos: 1) elas não viverão mais numa população de isolados em meio a uma política pública de isolamento e 2) não vivendo mais assim, é certo que, a não ser que vivam de forma absolutamente isolada, acabarão por se infectar. Além disso, 3) as condições de variabilidade do vírus não são igualmente as mesmas e estamos dando vazão para o surgimento de outras variantes. 

É claro que há uma boa dose de probabilidade de que, mesmo sob esses preços, alcancemos em alguma hora a dita “imunidade de rebanho” (outro conceito que foi usado de maneira falsa e nociva pelo bolsonarismo). Também é provável que não tenhamos uma nova variante a quebrar com todo o esforço já realizado. Mas é igualmente certa a advertência dos especialistas: 1) as medidas de afrouxamento não deveriam ser tão rápidas e nem feitas sob politicagem, como em algumas prefeituras, e 2) deveríamos esperar um pouco mais o avanço das vacinas e da terceira dose. 

Com a pandemia avançando, não estamos apenas nos livrando de máscaras e de certos tipos de pessoa (aliás: um a cada 317 brasileiros morreu de COVID). Estamos também forjando novas concepções sobre o que significa trabalhar e ensinar e o que é uma pessoa. 

Deslocamos, ao vivo e a cores, nossa noção do que significa ser um ser humano, inclusive aquele que a nossos olhos é digno de viver e de morrer.