É a tese que leio num informe da ABMES, a associação das mantenedoras das faculdades privadas.
O informe diz que um estudante de federal custa 89% a mais do que um estudante de privada, e faz clara propaganda contra as universidades federais.
Vou atrás do estudo feito e encontro um pdf cheio de figurinhas. Para um dado tão grave, qual é a fonte? Cito:
Isto é, não há fonte clara, ou ao menos forma clara de colhimento e análise dos dados. O informe é uma série de alusões, senão ilações. A reportagem da Reuters é essa e nada tem a ver com a tese em jogo. Mas a idéia a ser passada é bem clara:
Colocada sob o fato de que as universidades públicas estão sob claro ataque (teto de gastos, corte de gastos, Future-se), isso é no mínimo irresponsável.
Mas vamos supor que seja assim mesmo. Já que nós e a ABMES estamos igualmente falando por alto, o custo mais caro de um estudante federal (e o custo é sim mais caro) envolve uma série de fatores.
Começa pelo fato de que as universidades federais são responsáveis por 95% da pesquisa no Brasil. Onde estão as privadas? Apenas as que conservaram alguma preocupação com excelência, tais como as PUCs, constam nesses índices de qualidade (sendo interessante comparar o custo por aluno também nas privadas). Suspeito que, se o contribuinte brasileiro olhasse bem sobre como as bolsas FIES se aplicam, ficaria assustado com ítens como baixa qualidade de ensino, aprovações compulsórias e faculdades caça-níqueis, muitas delas sob baixa avaliação histórica do MEC. Embora eu suspeite que o brasileiro comum enxerga tais coisas cotidianamente, sob serviços cada vez mais degradados.
Mas não é só isso. As universidades federais, via de regra, possuem estrutura e pessoal muito maior. Pois, além de Ensino e Pesquisa, também possuem Extensão, projetos voltados à comunidade. E também inúmeras estruturas associadas: empresas-júnior, incubadoras tecnológicas, hospitais universitários, colégios-aplicação e muitas outras. O que dizer das bolsas? Há inúmeras bolsas de pesquisa, extensão, monitoria e de assistência estudantil. Há programas de intercâmbio internacional e fomento a eventos acadêmicos. Ora, tais coisas envolvem gasto, que é público e precisa ter responsabilidade social.
Sem contar outro fato: os investimentos em expansão em infraestrutura das federais foi altíssimo nos últimos anos. Há prédios ainda sendo erguidos.
Não é por acaso que as universidades públicas não apenas formam melhor, apesar da precarização. Elas também carregam a pesquisa brasileira nas costas.
Se, como diz a ABMES, é melhor financiar o estudante privado, onde estão os índices positivos? Afinal, mesmo sob irrigação de dinheiro privado, em torno de 1 a cada 3 reais recebidos pelas faculdades privadas vem de dinheiro público.
Já houve mais do que tempo para provar a relevância. E aí constatamos outra coisa importante: se o estudante de federal custa mais caro, as privadas, cuja finalidade é o lucro mas 33% da receita é pública (uma mina de ouro!), não oferecem os mesmos índices de qualidade, apesar de divulgar dados como se tudo fosse a mesma coisa.

