Há uma semana e após o pronunciamento do ministro da educação, houve uma reviravolta nas campanhas de imprensa sobre a COVID. De uma hora para a outra, a imprensa brasileira começou a falar sobre a inevitabilidade do retorno às salas de aula, sob a pena de um prejuízo irreversível para a educação brasileira.
Que houve prejuízo: isso é fato. Se o prejuízo é irreversível: isso é uma questão, pois em termos de sociedade estamos numa pandemia que oferece perigo a todos e não apenas a alguns (embora alguns tenham menos riscos do que outros). Nisso, seria mais do que razoável dizer que, enquanto as pessoas se protegem numa pandemia, as aulas deveriam ser suspensas até que o retorno seja possível (embora saibamos que não foi o que ocorreu).
Mas há aqui uma terceira questão e ela se refere à própria imprensa.
Em 2020, no momento em que se dizia que as aulas deveriam ser suspensas, os setores de EAD trataram rapidamente de se posicionar. Muitos artigos foram contundentes em dizer que EAD não é ensino remoto. Com isso, os setores de EAD tentavam defender-se de uma crítica evidente: ensino remoto não é EAD porque não é eficiente e não serve como equivalente.
Mas e quanto aos setores de ensino presencial? Não houve maior reação, ou ao menos reação suficiente para influenciar qualquer instância de opinião pública. O ensino “emergencial-remoto” foi distribuído como panacéia, praticamente da mesma forma como o boato do “tratamento precoce” começava a se alastrar como “eficaz” na boca do povo. Pois o ensino remoto e o tratamento precoce não foram implementados por uma agenda exatamente científica (no caso, pedagógica).
Como – diziam – era preciso reagir ao ensino remoto? É preciso parar de resmungar e reclamar, pois as pessoas deveriam adaptar-se aos “novos tempos”. O problema não era tanto o ensino ser remoto, mas apenas muitos alunos não terem internet, ou ainda, restava apenas a necessidade desse ensino ser adaptado. Deveria-se investir em soluções individuais de professores para novos formatos de aula. Especialmente nas faculdades privadas, não se via diferenças entre o normal e o remoto, e circulavam acusações contra as universidades públicas sobre não aderirem ao remoto. Não tardou para promotores e outros moverem ações públicas obrigando as instituições a se adaptarem, enquanto ONGs passaram a ajudar e estados utilizaram plataformas online.
Moral da história? A questão do remoto era vendida como simplesmente de acesso ou “desafio“, e não de metodologia ou perspectiva de aprendizagem. Ao contrário do que fizeram os setores de EAD, não vimos maiores restrições ou críticas quando se passava do presencial ao remoto. As críticas restringiam-se a comentar sobre as carências de acesso, isto é, de quem tinha ou não computador ou internet. Tudo se passava como se, entre o presencial e o remoto, tudo significasse a mesma coisa, apenas a ser adaptada.
Dezoito meses depois do início da pandemia, o cenário de repente mudou, quase que da noite para o dia. O ensino remoto, predominantemente dito como inevitável e necessário (apesar das eventuais críticas), de repente passou a ser divulgado como algo prejudicial. Os setores de educação, anteriormente constrangidos a aceitar o remoto (pois houve até político dizendo que professor não quer trabalhar), agora passaram a ser vistos como resistentes ao retorno ao presencial!
A necessidade agora é divulgada como urgente. O tom – diz O Globo – é: “mesmo com a reabertura de vários setores econômicos, alunos da maior parte dos estados continuam sem aulas presenciais”. Outros estados “sequer definiram” o retorno. O Estadão, por exemplo, critica os gestores por terem priorizado shoppings, bares e igrejas e não as escolas, ou realça que “só 12 estados” não retornaram ao presencial (são apenas 3 em agosto, diz a Folha). É daqueles momentos em que se vê a reportagem ceder ao mandamento, o jornalismo à publicidade: a economia voltou, mas os educadores tornaram-se de repente os próprios agentes, os sujeitos, os responsáveis quase criminosos pelo ensino remoto (e os gestores que demoram o retorno são simples relapsos).
É uma conversão impressionante, da passividade à atividade: primeiro constrangidos a aceitar a inevitabilidade do ensino remoto e os “novos tempos” do “novo normal”, de repente os setores de educação transformaram-se em instâncias resistentes ao retorno ao presencial.
Durante a escrita deste texto, apenas 37,3 milhões de pessoas já haviam sido vacinadas no Brasil (são 17,66%). Os professores receberam majoritariamente apenas a primeira dose. A variante Delta está circulando. E os epidemiologistas alertam: manter o vírus circulando poderá valer o surgimento de uma nova cepa que fure as vacinas, isto é, que nos leve de volta ao início de 2020.