Bolsonaro e o cristianismo

Jair Bolsonaro gosta de citar João 8:32 para sua campanha e governo: “Conheceis a verdade e a verdade vos libertará”.

A passagem é interessante porque “verdade” provém do termo grego Aletheia, que evoca o célebre rio narrado na antiguidade (A República, Livro X) chamado de Lethe, ou rio do esquecimento. Lethe, além de esquecimento, também significa encobrimento ou velamento. Dizer “conheceis a verdade” significa buscar desencobrir aquilo que está encoberto, buscar o desencoberto ou o desvelado (ou que deixou de ser esquecido), aquilo sobre o qual o véu deve ser retirado.

E o processo de “conhecer” o que está desencoberto implica uma atitude ativa, ligada ao próprio termo gnōsesthe, que remete ao conhecimento como compreensão, como apreensão interior, como contato direto com aquilo a ser conhecido, mais do que a simples colocação em relação entre eventos. Conheceis a verdade significa ter uma atitude ativa para o que precisa ser desencoberto e apreendido. Significa, muito curiosamente, totalmente o oposto de cultivar ou propagar a mentira (atitude a qual é exatamente a de encobrir ou deixar algo sob o véu).

É uma ironia e tanto. Mas apenas para mencionar os últimos dias, Bolsonaro, que gosta de dizer que enfrenta uma batalha espiritual e condenar qualquer outra religião não evangélica, foi pego participando de rituais maçônicos. Ocorreu o mesmo com a primeira-dama: num vídeo ela é vista acusando toda sorte de pensamento que os evangélicos chamam de “demoníacos”, mas no outro lá está ela num casamento maçônico, exatamente um dos alvos dos ataques evangélicos (a questão aqui, obviamente, não é a de condenar maçônicos, mas mostrar como certas posturas podem ser oportunistas). De um lado, incita-se o ódio e a divisão, pois elas rendem apoio político; do outro, busca-se apoio político junto aos mesmos discriminados.

Mas Bolsonaro também resolveu ir para o católico Círio de Nazaré, no que recebeu dos padres o comentário de que os eventos religiosos não são políticos e ele não foi convidado. Ele também apareceu na festa de Aparecida, cheio de câmeras para gravar seu horário eleitoral e escoltado por toda sorte de maluco que poderia ali aparecer (com avental portando sua foto, com copos cheios de Chopp e hostilizando jornalistas).

De todo modo, não há como certas coisas passarem despercebidas ou se manterem encobertas. Dias atrás, vandalizaram uma igreja em São Mateus do Sul, no PR. Representantes de mídias locais da ultradireita se apressaram em dizer que atos assim seriam culpa de gente como o vereador curitibano Renato Freitas, do PT. Tentaram, com isso, instrumentalizar a mentira para conseguir, novamente, apoio político, encobrindo fatos. A depredação da igreja não teve qualquer propósito político. E nem a acusação contra Renato Freitas era verdadeira: quando ele entrou em fevereiro na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São Benedito, em Curitiba, ele o fez em sinal de protesto contra o racismo. A diocese local inteira se solidarizou com o ato de Freitas, embora políticos locais tentaram cassá-lo. Mais uma vez, mentira. Freitas teve a cassação revertida e, além do apoio da Igreja, também foi recebido pelo Papa Francisco.

Mas se é mentira que os ditos “petistas” atacam igrejas, tem sido verdade que bolsonaristas atacam padres. Os exemplos apenas se multiplicam. Também no PR, em Fazenda Rio Grande um padre foi hostilizado por se posicionar contra a mentira e a fome. Outro padre foi hostilizado em Jacareí. O mesmo ocorreu com um Bispo na Paraíba. No Brasil inteiro tem gente dando piti e Políticos bolsonaristas incitam a violência chamando padres de pedófilos e vagabundos.

E o que dizer, no meio disso tudo, sobre as demais hostilidades? No Brasil inteiro, funcionários estão sendo assediados a votar em Bolsonaro por simples cabresto. Comércios são recomendados para boicote por serem “petistas”. Nas famílias, pessoas são agredidas ou isoladas por votarem em Lula. E quando Bolsonaro é confrontado com tais fatos, ele repete frases que se remetem a Hitler por pretexto de unidade, tais como “somos apenas um povo, uma raça e uma bandeira“.

Quando diz combater a corrupção, o cristão deveria ser minimamente sincero. Dizer, por exemplo, que se é contra Lula e o PT porque estes aceitam o aborto ou foram corruptos, não legitima que se apóie um candidato que repete motes do fascismo, do nazismo e do integralismo, pregue política de ódio, armas, divisão e mentira. Isso simplesmente não é cristão e nenhum pertencimento a uma massa conseguirá mascarar o que a consciência diz. E outra: Lula não é a favor do aborto e diz que essa é uma questão que lhe ultrapassa como indivíduo e como governo. Ele sabe que auto-governo moral e governo civil são coisas completamente diferentes, frutos da sociedade moderna. Além disso, mesmo que se admita que o PT tenha sido corrupto – o que é controverso – isso não legitima nem multiplicar Fake News sobre a dita corrupção, nem tapar os olhos para os inúmeros fatos em torno do clã Bolsonaro.

O Evangelho está repleto de exemplos que contrariam o bolsonarismo. Cristo não pediu para que as pessoas portassem armas em defesa própria, mas disse que quem prega a espada será ferido por ela (Mateus 26:52). Ele dizia que não é o homem que deve servir alguma conveniência qualquer, mas são as conveniências que devem servir ao homem (Mc 2,23-28). E – caso se possa dizer assim – qual foi o único ato com alguma violência praticado por Cristo? Foi a expulsão dos vendilhões do Templo (João 2), precisamente aqueles que buscavam usar a imagem da Igreja para conseguir ganhos pessoais.

Fascismo, algoritmos e bolhas (ou sobre cultura e revólveres)

Abro o Facebook do presidente da república do Brasil e vejo um post no qual ele está chamando os nordestinos de analfabetos, em plena campanha eleitoral. Ele pega uma reportagem apenas informativa e atribui a ela um valor moral: o fato de Lula ser o mais votado nos estados com mais analfabetos não é apenas uma informação a constatar ou um testemunho de que os mais necessitados depositam sua esperança em Lula; é o contrário, pois é o testemunho de que – segundo o presidente Bolsonaro – apenas os desinformados e analfabetos votariam em Lula!

Diante do absurdo, compartilho o post em minhas redes sociais. Alguém faz piada com a foto de Lula. Tento chamar a atenção à seriedade da questão. A reação? A pessoa se ofende, toma para si, torna pessoal. E a conclusão sobressai: que o grupo pare de postar sobre política.

Num dos momentos nos quais o Brasil mais deveria colocar a informação para circular, as redes sociais se fecharam em bolhas. O fenômeno é diferente do que ocorria em 2018, pois lá as Fake News circulavam livremente. Em 2022, entretanto, os “grupos do zap” com participantes de posições políticas diversas se calaram, enquanto os grupos voltados às bolhas estão a todo vapor.

Há, entre 2018 e 2022, outra diferença importante. Antes de 2018 a direita fascista compunha minoria nas redes sociais. Hoje ela as controla. E isso porque elas aprenderam a dominar um recurso essencial das redes sociais, o do engajamento. Um conteúdo sempre é mais engajado quando curtido, comentado ou repostado. E que tipo de conteúdo tem maior probabilidade disso? Exatamente aqueles que geram maior polêmica. E os campeões em polêmica são os conteúdos que estão fora do campo democrático.

Quando um influencer digital posta que é a favor do partido nazista, ele não atrai apenas a atenção daqueles que concordam com ele, mas igualmente a de todo e qualquer ser racional. Todo mundo “engaja”, pois o não-engajamento diante do post de alguém que não defende a existência de um partido nazista é simplesmente óbvia e redundante, pois trata-se de simplesmente afirmar o óbvio.

É da natureza dos algoritmos valorizar conteúdos mais engajáveis, e é da natureza da maldade ser combatida. Eis aí um prato cheio para os fascistas.

Disso eu retorno aos grupos de WhatsApp e às bolhas. Basta observamos o que está acontecendo, e é algo muito sério. É o fato de que nunca foi tão necessário furar as bolhas e colocar as informações para circular, desmentir as mentiras e afirmar as verdades. Isso evitaria precisamente a coincidência do fascismo com as estratégias de engajamento.

Só que ocorre exatamente o contrário: em 2022, quando alguém tenta colocar um conteúdo em termos de desmentir ou alertar outro conteúdo que foi postado, essa pessoa é imediatamente calada, reprovada, “cancelada”.

A matemática aqui é básica: ninguém dá bola para uma tese óbvia e racional, pois trata-se de afirmação redundante. Mas manifestações absurdas recebem um gigantesco engajamento. Entretanto, quando alguém tenta alertar quanto à circulação de conteúdos antidemocráticos, essa pessoa é invalidada e cancelada.

Chegamos num ponto no qual os algoritmos impulsionam qualquer fala que destrói o campo democrático. E ao mesmo tempo, chegamos num ponto no qual qualquer fala que defende o campo democrático é cancelada, desestimulada, desacreditada por outras pessoas.

Eu poderia ser um psicólogo behaviorista e dizer que vivemos numa cultura verbal (numa sociedade) na qual qualquer manifestação antidemocrática tende a ser reforçada e qualquer defesa da democracia tende a ser punida. Ou, como poderia dizer Hermann Goering, toda e qualquer manifestação de cultura tem se deparado com a ameaça de que alguém saque um revólver.

Lula, a “esquerda” e a corrupção

O primeiro turno das eleições de 2022 surpreendeu o eleitor brasileiro, mostrando muito mais eleitores de Bolsonaro do que os 1/3 projetados pelas agências de pesquisa. Isso se deve a inúmeros fatores, e o principal deles é provavelmente o do “voto envergonhado” e o fato de que nem de longe as amostragens no Brasil são uniformes.

O perfil do brasileiro não é o mesmo e o voto pode ser inclusive contraditório: um bom exemplo é o sulista que vota em Bolsonaro motivado por preconceito contra nordestinos (acusados de receberem “mamata” dos governos do PT), os quais também possuem parcelas que votaram em Bolsonaro sem partilhar dos mesmos valores.

Mas há um ponto ao redor do qual todos os votos orbitam. Trata-se do estereótipo, inventado, construído ou reforçado a conta-gotas nos últimos 10 ou 15 anos, de que simplesmente a corrupção se resume à esquerda e, mais ainda, a Lula.

Esse ponto foi tão bem construído que os votantes de Bolsonaro simplesmente ignoram que seu partido, o PL, é um dos mais historicamente corruptos do Brasil. Trata-se do mesmo PL que, nestas eleições, elegeu a maior bancada do congresso.

Eles ignoram que o PL é o mesmo partido do vice-presidente de Lula, José Alencar, ou mesmo que um dos principais nomes que recebiam propina no mensalão, Valdemar Costa Neto, foi preso. Se a prisão de Lula possui controvérsias e ambiguidades – sejam elas morais ou jurídicas -, não há qualquer ambiguidade sobre a prisão de Valdermar Costa Neto. Ele recebeu 8,8 milhões em propina e é conhecido como quem profissionalizou o esquema de propinas do mensalão. Isso é provado consistentemente.

Mas Costa Neto é exatamente quem trouxe Bolsonaro ao PL.

O eleitor também ignora muitas outras coisas. Por exemplo, que se a medida para julgar é a da corrupção, os indícios em torno do clã Bolsonaro são maiores e mais consistentes do que qualquer outro a respeito de Lula.

Supondo que Lula realmente comprou um triplex e teve um sítio patrocinados por propina, o eleitor menospreza as evidências em torno da família Bolsonaro ter comprado 51 imóveis em espécie. Dada a suposição de que ambos seriam corruptos, por que a corrupção de Lula seria pior do que a de Bolsonaro?

Mantenhamos a mesma suposição, a de que Lula seria ou é um corrupto. Ele foi efetivamente preso e o poderia ser novamente. Além disso, ele jamais deixou de realçar a independência da justiça. Isso é radicalmente diferente das inúmeras investidas de Bolsonaro contra as instituições democráticas (inclusive interferindo diretamente nelas) e a campanha de demonização contra a imprensa e o STF. Cabe o experimento para seres racionais: entre o candidato que se submete às leis e o outro que as despreza reiteradamente, qual seria a escolha óbvia?

Mas independente dessas questões, entramos novamente no essencial: parece posto que a corrupção apenas se torna visível se atribuída ao PT, à esquerda e a Lula. Eles é que seriam corruptos, e quando se fala em corrupção, fala-se estritamente deles.

Como decidir, desfazer, afirmar, contrariar esse tema? Parece óbvio que o maior dever de qualquer jornalista brasileiro, em 2022, deveria ser o de colocar esse tema à prova. Sem o que o caminho parece ser o do simples fascismo e a História já nos cansou de ensinar tais coisas.