Fascismo, algoritmos e bolhas (ou sobre cultura e revólveres)

Abro o Facebook do presidente da república do Brasil e vejo um post no qual ele está chamando os nordestinos de analfabetos, em plena campanha eleitoral. Ele pega uma reportagem apenas informativa e atribui a ela um valor moral: o fato de Lula ser o mais votado nos estados com mais analfabetos não é apenas uma informação a constatar ou um testemunho de que os mais necessitados depositam sua esperança em Lula; é o contrário, pois é o testemunho de que – segundo o presidente Bolsonaro – apenas os desinformados e analfabetos votariam em Lula!

Diante do absurdo, compartilho o post em minhas redes sociais. Alguém faz piada com a foto de Lula. Tento chamar a atenção à seriedade da questão. A reação? A pessoa se ofende, toma para si, torna pessoal. E a conclusão sobressai: que o grupo pare de postar sobre política.

Num dos momentos nos quais o Brasil mais deveria colocar a informação para circular, as redes sociais se fecharam em bolhas. O fenômeno é diferente do que ocorria em 2018, pois lá as Fake News circulavam livremente. Em 2022, entretanto, os “grupos do zap” com participantes de posições políticas diversas se calaram, enquanto os grupos voltados às bolhas estão a todo vapor.

Há, entre 2018 e 2022, outra diferença importante. Antes de 2018 a direita fascista compunha minoria nas redes sociais. Hoje ela as controla. E isso porque elas aprenderam a dominar um recurso essencial das redes sociais, o do engajamento. Um conteúdo sempre é mais engajado quando curtido, comentado ou repostado. E que tipo de conteúdo tem maior probabilidade disso? Exatamente aqueles que geram maior polêmica. E os campeões em polêmica são os conteúdos que estão fora do campo democrático.

Quando um influencer digital posta que é a favor do partido nazista, ele não atrai apenas a atenção daqueles que concordam com ele, mas igualmente a de todo e qualquer ser racional. Todo mundo “engaja”, pois o não-engajamento diante do post de alguém que não defende a existência de um partido nazista é simplesmente óbvia e redundante, pois trata-se de simplesmente afirmar o óbvio.

É da natureza dos algoritmos valorizar conteúdos mais engajáveis, e é da natureza da maldade ser combatida. Eis aí um prato cheio para os fascistas.

Disso eu retorno aos grupos de WhatsApp e às bolhas. Basta observamos o que está acontecendo, e é algo muito sério. É o fato de que nunca foi tão necessário furar as bolhas e colocar as informações para circular, desmentir as mentiras e afirmar as verdades. Isso evitaria precisamente a coincidência do fascismo com as estratégias de engajamento.

Só que ocorre exatamente o contrário: em 2022, quando alguém tenta colocar um conteúdo em termos de desmentir ou alertar outro conteúdo que foi postado, essa pessoa é imediatamente calada, reprovada, “cancelada”.

A matemática aqui é básica: ninguém dá bola para uma tese óbvia e racional, pois trata-se de afirmação redundante. Mas manifestações absurdas recebem um gigantesco engajamento. Entretanto, quando alguém tenta alertar quanto à circulação de conteúdos antidemocráticos, essa pessoa é invalidada e cancelada.

Chegamos num ponto no qual os algoritmos impulsionam qualquer fala que destrói o campo democrático. E ao mesmo tempo, chegamos num ponto no qual qualquer fala que defende o campo democrático é cancelada, desestimulada, desacreditada por outras pessoas.

Eu poderia ser um psicólogo behaviorista e dizer que vivemos numa cultura verbal (numa sociedade) na qual qualquer manifestação antidemocrática tende a ser reforçada e qualquer defesa da democracia tende a ser punida. Ou, como poderia dizer Hermann Goering, toda e qualquer manifestação de cultura tem se deparado com a ameaça de que alguém saque um revólver.

Lula, a “esquerda” e a corrupção

O primeiro turno das eleições de 2022 surpreendeu o eleitor brasileiro, mostrando muito mais eleitores de Bolsonaro do que os 1/3 projetados pelas agências de pesquisa. Isso se deve a inúmeros fatores, e o principal deles é provavelmente o do “voto envergonhado” e o fato de que nem de longe as amostragens no Brasil são uniformes.

O perfil do brasileiro não é o mesmo e o voto pode ser inclusive contraditório: um bom exemplo é o sulista que vota em Bolsonaro motivado por preconceito contra nordestinos (acusados de receberem “mamata” dos governos do PT), os quais também possuem parcelas que votaram em Bolsonaro sem partilhar dos mesmos valores.

Mas há um ponto ao redor do qual todos os votos orbitam. Trata-se do estereótipo, inventado, construído ou reforçado a conta-gotas nos últimos 10 ou 15 anos, de que simplesmente a corrupção se resume à esquerda e, mais ainda, a Lula.

Esse ponto foi tão bem construído que os votantes de Bolsonaro simplesmente ignoram que seu partido, o PL, é um dos mais historicamente corruptos do Brasil. Trata-se do mesmo PL que, nestas eleições, elegeu a maior bancada do congresso.

Eles ignoram que o PL é o mesmo partido do vice-presidente de Lula, José Alencar, ou mesmo que um dos principais nomes que recebiam propina no mensalão, Valdemar Costa Neto, foi preso. Se a prisão de Lula possui controvérsias e ambiguidades – sejam elas morais ou jurídicas -, não há qualquer ambiguidade sobre a prisão de Valdermar Costa Neto. Ele recebeu 8,8 milhões em propina e é conhecido como quem profissionalizou o esquema de propinas do mensalão. Isso é provado consistentemente.

Mas Costa Neto é exatamente quem trouxe Bolsonaro ao PL.

O eleitor também ignora muitas outras coisas. Por exemplo, que se a medida para julgar é a da corrupção, os indícios em torno do clã Bolsonaro são maiores e mais consistentes do que qualquer outro a respeito de Lula.

Supondo que Lula realmente comprou um triplex e teve um sítio patrocinados por propina, o eleitor menospreza as evidências em torno da família Bolsonaro ter comprado 51 imóveis em espécie. Dada a suposição de que ambos seriam corruptos, por que a corrupção de Lula seria pior do que a de Bolsonaro?

Mantenhamos a mesma suposição, a de que Lula seria ou é um corrupto. Ele foi efetivamente preso e o poderia ser novamente. Além disso, ele jamais deixou de realçar a independência da justiça. Isso é radicalmente diferente das inúmeras investidas de Bolsonaro contra as instituições democráticas (inclusive interferindo diretamente nelas) e a campanha de demonização contra a imprensa e o STF. Cabe o experimento para seres racionais: entre o candidato que se submete às leis e o outro que as despreza reiteradamente, qual seria a escolha óbvia?

Mas independente dessas questões, entramos novamente no essencial: parece posto que a corrupção apenas se torna visível se atribuída ao PT, à esquerda e a Lula. Eles é que seriam corruptos, e quando se fala em corrupção, fala-se estritamente deles.

Como decidir, desfazer, afirmar, contrariar esse tema? Parece óbvio que o maior dever de qualquer jornalista brasileiro, em 2022, deveria ser o de colocar esse tema à prova. Sem o que o caminho parece ser o do simples fascismo e a História já nos cansou de ensinar tais coisas.