Dar parabéns à IA

Outra modalidade de analfabetismo digital, mas com grandes consequências políticas (seguindo o post anterior) é bem exemplificado pelas as IA’s e tem se intensificado com elas: é a atribuição de autoria a um meme não feito por humanos, ou de retrato a uma imagem postada como spam, ou de simples confusão de personagens.

Anos atrás, tínhamos as histórias sobre as velhinhas que penduravam a foto de Obi-wan Kenobi na parede ou detinham um bonequinho de Elrond num altar para rezar a Jesus ou Santo Antonio. Isso era certamente confusão, mas não deliberadamente explorada por outrem.

Hoje a indução ao erro se tornou uma indústria, por exemplo de engajamento. Há as páginas no Facebook e no Instagram feitas pura e simplesmente para coletar fotos e vídeos de influencers de corpo bonito. O engajamento é alto, e o que se vê nas interações? Gente elogiando as fotos como se fossem postadas pelos próprios retratados.

Isso quando o retratado é uma pessoa real.  Redes como o Facebook se esforçam para distinguir se há um retrato ou uma IA, sinalizando a postagem. Mas não falta gente que cai no engodo (ou no engajamento) com mensagens do tipo “olá, bebê” e quetais (quando não se dedicam a atacar as modelos).

Na mesma linha, há as imagens de IA geradas automaticamente. Se elas são sobre gatinhos, fofurices ou mensagens de paz, não faltam os velhinhos dando os parabéns e abençoando. A máquina dos anos 2020 recebe de seus usuários diversos “Deus lhe abençoe”.

Daí às fake news e às maiores barbaridades deste mundo, o caminho é o de um curto-circuito.

Comentário sobre a boxeadora argelina que ganhou as Olimpíadas

A inteligência artificial do WhatsApp

Minha geladeira pifou e só restou procurar a assistência técnica. Vejo então que a empresa modernizou o atendimento conforme os ditames neoliberais pandêmicos: demitiu muita gente e iniciou um atendimento por WhatsApp com inteligência artificial (IA).

Clico nos devidos links e meu zap é invadido pelo contato da empresa. A IA põe-se a teclar. Mas é curioso: mesmo sendo uma inteligência artificial, ela foi programada para comportar-se como um humano, com as devidas perguntas fúteis e demoras nas respostas.

Minhas pulsões mais recônditas exclamam: como uma empresa é capaz de demitir tanta gente para colocar uma IA que se comporta igualzinho a um tiozão do WhatsApp?

Reprimo as pulsões por um momento e tento focar no problema atual. Mas a IA do WhatsApp não colabora. Demora à beça e então pede que eu explique, numa frase simples do tipo “Não congela”, o problema que tive. Respondo então “Não congela”. Respondo mais uma, duas vezes e… a resposta sempre demora, quando a IA não comete mais uma gracinha.

Então, por um momento, eu também começo a me comportar como a IA, isto é, como alguém que está no WhatsApp e demora para responder. Olho os outros chats, levanto para tomar uma água, vou ao banheiro fazer xixi.

Volto ao zap e surpresa: a IA cancelou o atendimento (por essa, nem Turing esperava).