Lula, a “esquerda” e a corrupção

O primeiro turno das eleições de 2022 surpreendeu o eleitor brasileiro, mostrando muito mais eleitores de Bolsonaro do que os 1/3 projetados pelas agências de pesquisa. Isso se deve a inúmeros fatores, e o principal deles é provavelmente o do “voto envergonhado” e o fato de que nem de longe as amostragens no Brasil são uniformes.

O perfil do brasileiro não é o mesmo e o voto pode ser inclusive contraditório: um bom exemplo é o sulista que vota em Bolsonaro motivado por preconceito contra nordestinos (acusados de receberem “mamata” dos governos do PT), os quais também possuem parcelas que votaram em Bolsonaro sem partilhar dos mesmos valores.

Mas há um ponto ao redor do qual todos os votos orbitam. Trata-se do estereótipo, inventado, construído ou reforçado a conta-gotas nos últimos 10 ou 15 anos, de que simplesmente a corrupção se resume à esquerda e, mais ainda, a Lula.

Esse ponto foi tão bem construído que os votantes de Bolsonaro simplesmente ignoram que seu partido, o PL, é um dos mais historicamente corruptos do Brasil. Trata-se do mesmo PL que, nestas eleições, elegeu a maior bancada do congresso.

Eles ignoram que o PL é o mesmo partido do vice-presidente de Lula, José Alencar, ou mesmo que um dos principais nomes que recebiam propina no mensalão, Valdemar Costa Neto, foi preso. Se a prisão de Lula possui controvérsias e ambiguidades – sejam elas morais ou jurídicas -, não há qualquer ambiguidade sobre a prisão de Valdermar Costa Neto. Ele recebeu 8,8 milhões em propina e é conhecido como quem profissionalizou o esquema de propinas do mensalão. Isso é provado consistentemente.

Mas Costa Neto é exatamente quem trouxe Bolsonaro ao PL.

O eleitor também ignora muitas outras coisas. Por exemplo, que se a medida para julgar é a da corrupção, os indícios em torno do clã Bolsonaro são maiores e mais consistentes do que qualquer outro a respeito de Lula.

Supondo que Lula realmente comprou um triplex e teve um sítio patrocinados por propina, o eleitor menospreza as evidências em torno da família Bolsonaro ter comprado 51 imóveis em espécie. Dada a suposição de que ambos seriam corruptos, por que a corrupção de Lula seria pior do que a de Bolsonaro?

Mantenhamos a mesma suposição, a de que Lula seria ou é um corrupto. Ele foi efetivamente preso e o poderia ser novamente. Além disso, ele jamais deixou de realçar a independência da justiça. Isso é radicalmente diferente das inúmeras investidas de Bolsonaro contra as instituições democráticas (inclusive interferindo diretamente nelas) e a campanha de demonização contra a imprensa e o STF. Cabe o experimento para seres racionais: entre o candidato que se submete às leis e o outro que as despreza reiteradamente, qual seria a escolha óbvia?

Mas independente dessas questões, entramos novamente no essencial: parece posto que a corrupção apenas se torna visível se atribuída ao PT, à esquerda e a Lula. Eles é que seriam corruptos, e quando se fala em corrupção, fala-se estritamente deles.

Como decidir, desfazer, afirmar, contrariar esse tema? Parece óbvio que o maior dever de qualquer jornalista brasileiro, em 2022, deveria ser o de colocar esse tema à prova. Sem o que o caminho parece ser o do simples fascismo e a História já nos cansou de ensinar tais coisas.

A canalização do descontentamento

Durante os protestos de 2013, algo me chamou muito a atenção. Vi muitas manifestações contra a corrupção e os desmandos, gritos pelo mundo, pela ecologia, a justiça e a paz. Mas praticamente não vi nenhuma manifestação sobre questões objetivas, sobre a máfia das vans da cidade, a inexistência de serviço de hospital, o ensino precário, as milícias correndo solto…

É certo que as manifestações de 2013 começaram com algo bem concreto, o preço das passagens de ônibus. Mas quando generalizadas, ocorreu como se elas perdessem o foco.

E logo começaram as fotos de policiais mascarados incitando violência, no mesmo instante em que também surgiam os “black blocks”. Então colou no imaginário popular o tema dos black blocks, seguido do tema sem pé nem cabeça do “protesto sem violência”.

Foi tudo muito rápido. Mas enquanto muita gente cantava as alvíssaras de 2013, já era possível pensar: não pedíamos coisas relativas ao que efetivamente vivemos, não havia ali pautas concretas. Outra coisa era o que se passava.