A normalidade doente das organizações

Desde que Henri Fayol escreveu Administração Industrial e Geral, em 1916, ele dizia que a, digamos, “organização”, deveria ter uma anatomia e uma fisiologia: deveria ter órgãos distribuindo suas funções, executadas por seres humanos.

Fayol inspirava-se em Claude Bernard, dentre outros, dando a visão de que uma empresa deveria se comportar semelhante a um organismo, com um meio de regulação interna, mesmo que em sua época as “empresas” industriais se vissem como sistemas fechados e não precisassem se adaptar tanto assim ao exterior.

Como se sabe, isso tudo foi contestado posteriormente, quando a bolha do trabalho circunscrito às indústrias estourou, rumo à complexidade econômica e de serviços que vimos hoje.

De lá para cá, muita coisa se inventou sobre as “organizações”. Muito se disse que o mundo muda rapidamente, que há instabilidade constante, que as organizações não são mais sistemas fechados e que precisam se adaptar a um mundo em constante mutação. Isso implicaria na busca de um gigantesco dinamismo, de capacidade interna de mudança, de competências para ver o que se passa lá fora e dar bom rumo às mudanças, sem o que a palavra “mudar” vira apenas um modismo vazio.

É aí que se vê um fenômeno muito curioso nas organizações, talvez as brasileiras: é que há empresas (públicas ou privadas, não importa), hoje, cuja imagem adequada seria a de um corpo doente.

Explico: um corpo sadio tem as características de ser espontâneo, fluido, sem a necessidade de ficar constantemente “inovando”, pois ele se adequa espontaneamente às situações ambientais sob suas possibilidades próprias. Um corpo sadio é, digamos para resumir, “criativo”. Ele não “pensa” em inovar, pois em seu funcionamento normal ele já “inova”.

Quanto ao corpo doente, ele tem esse círculo da espontaneidade e da criação rompidos. Se meu braço está quebrado, ele não se apresenta mais a mim como meu braço normal. Ele rompe a cadeia de movimentos espontâneos do corpo, ele exige cuidados próprios, ele cria demandas inexistentes em tempos “normais”. Num corpo doente, sua doença sempre lhe “dá trabalho”, ela corta o funcionamento normal, ela faz com que todo o funcionamento global fique colorido com as cores da doença.

Pois parece que muitas “organizações” nos dias atuais se comportam exatamente dessa forma, a da “doença”. Pois essas organizações “normalmente” se comportam como se fossem doentes. E isso porque elas acabam tomando para si uma série de slogans, de palavras de ordem, de modismos, que sequer são ou seriam importantes ou relevantes para seu funcionamento “normal”. Um desses slogans, dentre os mais malditos, é o da “inovação”.

A noção (jamais conceito) de “inovação” serviria, em tese, para que uma empresa não apenas consiga prever dificuldades futuras, mas também antever possibilidades de crescimento futuro, ou mesmo resolver problemas presentes. A busca de inovação é um processo criativo. E como tal, caso valha a imagem mais acima, “inovar” seria uma virtualidade das mais espontâneas de um corpo saudável, ou ainda, de uma empresa que gostaria de imitar as possibilidades de uma “organização”. Não se enxerta inovação numa empresa como se enxerta uma planta: ou ela constitui a situação global da empresa, ou lhe é um corpo estranho.

E a inovação como constitutiva de uma empresa, apesar do modismo, não é o que se vê por aí. O que se vê é um mandamento, uma injunção, uma obrigação pura e simples de “inovar” (e não importa o termo, pode ser qualquer outro à escolha, pois o princípio é o mesmo). Com pretexto da moda, cria-se uma série de práticas vazias, que muitas vezes só servem para justificar a colocação de certos funcionários de administração. Cria-se programas inteiros, avaliações, práticas, de “inovação”, as quais sequer fazem parte da lógica inerente da organização e, mais ainda, passam a atrapalhar tudo o que funcionava anteriormente de forma espontânea.

Por pressão de modismos empresariais supostamente dirigidos a uma sociedade “dinâmica”, cria-se verdadeiras quimeras empresariais. Muitas empresas que não tem qualquer implicação para com certas dinâmicas da moda acabam adotando-as, não por necessidade orgânica, mas por simples modismo e injunção externa.

Não à toa há tanto mal atendimento, tanta má gerência, e tanta gente de saco cheio.