MEC prepara cartilha “antipolítica” para as universidades

Não bastava a farsa do "kit gay"
Não bastava a farsa do “kit gay”

Recebo admirado a notícia de que o MEC está preparando uma cartilha “contra manifestações político-partidárias em universidades“, para “orientar cidadãos, gestores e servidores”.

A medida é, obviamente, de intimidação e revanchismo, para tentar enquadrar toda e qualquer pessoa que exerça pensamento crítico ou critique o governo. É a institucionalização da transformação de qualquer discordante num dissidente, num inimigo que deve ser perseguido e rechaçado.

Mas o que me espanta de fato é a simples possibilidade de conversarmos sobre isso. Está muito claro, conforme já comentamos outras vezes, que o atual ministro não tem qualquer vivência universitária para além das confusões que já causou na universidade. Não tem idéia de que política em sentido amplo é amplamente discutida em praticamente todos os setores da universidade, e que até a política de tipo partidário também o é.

A medida de Weintraub tem, no fundo, a tese olavista (completamente furada) de que as universidades são “antros de esquerda”, petistas, venezuelanos, cubanos e o que mais couber na paranóia. Afinal, é para isso que serve o velho tema da criação do “inimigo interno”. E é aí que está o truque sórdido: toda e qualquer manifestação contrária ao governo, ou que apresente temas sensíveis ao que o governo defende, poderá ser taxada de “político-partidária”.

O leitor pense, por exemplo, sobre um curso de Filosofia que discute Marx (como se não discutisse também a tradição liberal), ou um curso de Serviço Social com atividades ligadas a movimentos sociais (incluso o MST), ou ainda, pense um curso de Psicologia que paute o erro científico e racional figurado na “cura gay” (um lobby patrocinado por igrejas evangélicas). Virtualmente, agora ou no futuro, qualquer pessoa que explore esses temas poderá ser enquadrado, acusado de estar fazendo uso “político-partidário” da universidade.

Mas o que espanta ainda mais é o fato que, sob a mesma lógica, outros discursos que poderiam ser interpretados também como de espectro político-partidário permaneceriam intocados. Ora, o Partido Novo, por exemplo, tenta fazer com que o povo acredite que suas teses são iguais às encontráveis em cursos de Administração e Economia: será que com isso com os cursos de Administração e Economia se enquadrarão como político-partidários?

Eis mais um pepino para que uma instância superior, como o STF, recuse o que vier, seja na forma de portaria, decreto etc.. Raquel Dodge já pediu para que o STF barre qualquer medida assim.

Mais grave ainda: estamos colocando dentro do debate público pessoas que recusam o próprio debate público, a nossa própria voz pública. Estamos aceitando a fala daquele cujo discurso não aceita nossa fala. Isso tem nome. Olavo disse ainda ontem:

A coisa mais urgente no Brasil é uma militância bolsonarista organizada. Eu não disse militância conservadora, nem militância liberal. Eu falei militância bolsonarista. A política não é uma luta entre ideias, é uma luta entre pessoas e grupos

Carlos Bolsonaro acabara de dizer que “por vias democráticas, a transformação que o Brasil quer não acontecerá no ritmo que almejamos”, no que o próprio presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, complementou: “”Se fosse em Cuba ou na Coréia do Norte, já não teria aprovado tudo quanto é reforma, sem Parlamento?

Surpreendente revelação! Bolsonaro é um presidente como o de Cuba ou da Coréia do Norte, mas com sinal trocado.

Reúna-se todo o dito acima, e não é difícil unir os pontos: vamos lutar contra “eles” e ter a máquina do governo do “nosso lado”. Dentro da democracia, no coração dela, estamos abrigando aqueles que querem destruí-la.