Junho de 2013 e o ovo da serpente

Em 13 de junho de 2013, este blog timidamente escreveu:

Para ser bastante honesto: algo mudou, e em várias frentes. E isso é muito interessante.

Essas palavras não foram honestas. Numa outra rede social, privada, escrevi no dia 21 de junho:

Resumo da ópera: galerinha tá confundindo movimento suprapartidário com movimento apartidário… Ótima porta de entrada para regimes totalitários.

Era um pouco estranho, pois as atitudes, naqueles dias, dividiam-se entre condenar passeatas dizendo que eram “de esquerda” (como fazia a imprensa), e defendê-las, dizendo que elas traziam algo de novo.

Eu estava nas passeatas, mas sob um imenso estranhamento. Pois havia uma espécie de injunção para gostar delas. A esquerda estava em polvorosa e, contra o que diziam os jornais, algo novo ali estava mesmo para nascer.

Sobre o que estava para nascer, não se entrevia muita coisa de concreto. Será? Eis o estranhamento e a citação acima: pois, para além da injunção constante para gostar das passeatas e todo aquele clima de mudança, elas traziam mensagens bem concretas.

Além das solicitações que não eram suprapartidárias e pluralistas, mas apartidárias, bastava ver os cartazes. Quando as manifestações se generalizaram, dificilmente havia cartazes pedindo algo de real ou efetivo. Os slogans eram genéricos tais como “pela paz”, “contra a corrupção”, “por mais segurança”. O cidadão podia vir à passeata usando a rede miliciana de vans que domina sua cidade, e mesmo assim manter-se incapaz de colocar em seus cartazes alguma pauta um pouco mais efetiva do que algo como “por melhor transporte”.

Um agregado de manifestações difusas, sem reconhecimento de temas concretos, amparada em solicitações “apartidárias” (e não suprapartidárias), poderia dar em qualquer coisa. Mas que essa dinâmica parecia apontar em certa direção, isso parecia.

8 anos depois, o mesmo cidadão acima tem um presidente historicamente cúmplice de milícias, repleto de vieses fascistas, que manda a imprensa à merda e não pretende largar o osso tão cedo.

A canalização do descontentamento

Durante os protestos de 2013, algo me chamou muito a atenção. Vi muitas manifestações contra a corrupção e os desmandos, gritos pelo mundo, pela ecologia, a justiça e a paz. Mas praticamente não vi nenhuma manifestação sobre questões objetivas, sobre a máfia das vans da cidade, a inexistência de serviço de hospital, o ensino precário, as milícias correndo solto…

É certo que as manifestações de 2013 começaram com algo bem concreto, o preço das passagens de ônibus. Mas quando generalizadas, ocorreu como se elas perdessem o foco.

E logo começaram as fotos de policiais mascarados incitando violência, no mesmo instante em que também surgiam os “black blocks”. Então colou no imaginário popular o tema dos black blocks, seguido do tema sem pé nem cabeça do “protesto sem violência”.

Foi tudo muito rápido. Mas enquanto muita gente cantava as alvíssaras de 2013, já era possível pensar: não pedíamos coisas relativas ao que efetivamente vivemos, não havia ali pautas concretas. Outra coisa era o que se passava.