O protesto a favor

Uma manifestação ou protesto é, como o nome o diz, algo que ocorre quando a ordem normal dos acontecimentos não é obedecida. Houve uma injustiça, um arroubo, uma desmesura, e então uma manifestação ocorre. Um protesto nunca é uma manifestação da ordem, mas uma reação a um rompimento do que deveria ser, em tese, ordenado. Tome-se os exemplos de Gandhi, Luther King e tantos outros, e suas manifestações que sempre testemunharam reações a alguma injustiça.

Isso significa que não existe “manifestação a favor”. Imaginemos, por exemplo, Luther King manifestando-se sobre os direitos civis dos negros e tendo que calar a boca porque um punhado de brancos também se manifestou “pacificamente” a favor do sistema vigente e então é a voz dos brancos, e não a dos negros, que devesse valer. “Rosa Parks sequer deveria subir num ônibus!” – imaginem a bandeira.

É simplesmente non sense, absurdo, erro lógico.

Mas é exatamente o que está acontecendo hoje no Brasil. Pessoas inventaram o “protesto pacífico”, que é o protesto a favor “disso que está aí” e contra qualquer manifestação em contrário, contra qualquer acusação de que houve injustiça. E o protesto a favor permite que sejam cometidas as maiores barbáries.

A primeira função do protesto a favor é criar um dispositivo, inerente ao próprio povo, que inibe qualquer possibilidade do mesmo povo protestar contra. Se uma parcela da população protesta contra uma desmedida e outra parcela – mais numerosa – protesta a favor, tudo se passa como se a primeira parcela devesse permanecer calada. Pois ora bolas, a demonstração geral é a de que tudo vai bem. Tudo funciona como a pura e simples anulação de uma tensão: diante de uma carga, põe-se outra carga contrária de valor igual e tudo se reduz a zero.

A segunda função do protesto a favor é fazer com que qualquer reivindicação, sobre qualquer tipo de barbárie, possa ser aceita. Pois ninguém fica descontente por coisas boas. Conforme dito acima, um protesto, por definição, envolve algo que foi desrespeitado, rompido, algum perigo que foi solto, alguma injustiça cometida. Mas se, em cima desse protesto contra, cria-se um protesto a favor, isso não significa apenas neutralizar ou calar o protesto contra, e sim fazer com que a injustiça, diante da qual nasceu o primeiro protesto, seja garantida.

É exatamente isso que se presencia no dia de hoje, no Brasil. Pessoas que perderam uma eleição se arrogaram o direito de protestar. Mas protestam contra o quê? A eleição foi injusta? Há provas de fraude? Alguma ordem constitucional foi rompida?

De forma alguma. Nada foi rompido, e apesar de inúmeras denúncias de compras de votos e assédio eleitoral, surpreendentemente as eleições ocorreram sob legitimidade, sendo reconhecidas pelos mais diversos observadores externos.

É aí que se aciona o dispositivo do “protesto a favor”. Pois há quem diga que esteja protestando “ordeiramente e democraticamente”. Mas protesta pelo quê? Pois nada foi rompido.

Eles protestam para que as eleições, que foram legítimas e democráticas, sejam desrespeitadas, os poderes sejam dissolvidos, os membros do STF sejam presos, o exército tome o país e garanta de assalto mais um governo para a figura que foi derrotada nas urnas.

É certo que o WhatsApp engane e faz com que as pessoas comemorem até coisas que não existem. Mas não faz muito tempo, isso tudo tinha outros nomes.

Fechar as rodovias: para quê?

Hoje o Brasil fingiu que parou, ao ver as manifestações de caminhões e barricadas bloqueando o trânsito nas rodovias. Tudo em protesto contra a eleição de Lula. Bolsonaro havia permanecido calado até hoje, mas estava na cara que o silêncio e cada palavra falada apenas o foram porque Bolsonaro esperou – se não tramou – todo o ocorrido para dosar a própria intervenção.

Se ele visse o Brasil inteiro se mobilizar com apoio massivo, o discurso seria um. Mas ao ver essas manifestações meia-bomba de desvairados, desaprovadas por muitos seguidores, o discurso foi outro.

Mas entre os favoráveis e os contrários, parece que não ficou claro a quê eles foram favoráveis ou contrários. Pois mesmo os bolsonaristas e o próprio Bolsonaro foram contra a forma e não o conteúdo das manifestações. Reprovaram o fato de que elas atrapalham o trânsito. Aproveitaram inclusive para dizer que quem atrapalha seria costumeiramente a esquerda.

Isso tudo é incrível, pois tudo se passa como se, nessas manifestações, não circulassem até Fake News sobre a prisão de membros do STF. Ou ainda: a motivação delas foi pelo mitológico “artigo 142”, uma pura e simples notícia falsa de que o presidente teria poder de mobilizar uma intervenção militar como se fosse uma espécie de rei.

Essas pessoas todas, numa passeata ao mesmo tempo alegre e covarde, estavam pedindo um golpe militar. Elas foram diante dos quartéis para pedir que o país entrasse num estado de sítio, que o STF fosse fechado, que pessoas fossem perseguidas e mortas.

Elas foram covardemente fazer isso, pois apenas conseguem agir em grupo e de maneira covarde. Mas pedir mortes, cerceamento de liberdades, perseguição dos poderes independentes e uma ditadura com culto à personalidade foi exatamente o que foram fazer. E nós nos acostumamos com isso, com a naturalidade da aposentada que leva o pet urinar enquanto comenta em aprovação.

Da bolinha de papel aos tiros

Domingo haverá votação, e por duas vezes vi aquela cena dos amigos que se reencontram na rua e fazem o lembrete: não vamos esquecer do patriotismo, heim? Domingo, já sabe…

No WhatsApp de alguém no ônibus, uma voz de criança diz que Lula destruiu o Brasil e que você tem que convencer alguém que votaria ele a não levantar da cama no domingo (soou irônico, mas também ameaçador…)

Um fusca cor de mosca-varejeira passa com Bolsonaro fazendo arminha e uma bandeira nacional. No noticiário, suspeitas de que os seguranças de Tarcício mataram propositalmente uma pessoa. Outra notícia mostra Bob Jefferson atendido pela polícia federal como num episódio de Porta dos Fundos. O jornal faz enquete sobre quantas famílias estão separadas e os membros já não mais se falam.

Não é mais uma eleição normal. Chega a ser irônico, mas outrora, neste mesmo blog, apresentávamos polêmicas como a daquela bolinha de papel que atiraram na cabeça de José Serra, em 2010. Valorizaram tanto o fato, que isso apenas poderia ser prognóstico para algo muito ruim para o futuro. Pois se uma bolinha de papel poderia abastecer tantas mentiras…

E de todo modo, ainda era só uma bolinha de papel.

E hoje vivenciamos mortes, assassinatos, deputados com tornozeleira eletrônica atirando granadas e projéteis em policiais federais, empresários reatualizando o voto de cabresto, pessoas instrumentalizando listas para boicotar comércios locais. Há até quem agrida padres. Não tem como não dizer que tudo isso é gestado há vários anos. E não tem como não dizer que estamos ficando cada vez mais habituados a ver as coisas cada vez piores.

Qual será o limite? É difícil, também, não ver o Brasil vivenciando uma versão tupiniquim daquele livro de Viktor Kemplerer, A linguagem do Terceiro Reich. Kemplerer descrevia precisamente como na Alemanha, durante 12 anos, a violência não começou de uma hora para a outra. Ela começou primeiro nas palavras, depois migrou para as ações. Pois palavras, ora bolas, são ações.

Lá na Alemanha, tudo começou com menções descompromissadas, por vezes piadas. Elas vagarosamente começaram a deslizar em comentários e em manifestação de “opinião”. Quando os judeus viram, eles já estavam com marcas da estrela em seus corpos e direcionados aos guetos e aos campos de concentração.

É um pouco o que vivenciamos hoje. Amigos se reencontram e dizem para não perder o compromisso domingo para votar no candidato que prega a morte e as armas, mentindo sobre praticamente tudo. Outros ostentam suas arminhas e símbolos pró-fascismo. Quanto a quem votará em Lula, muita gente tem medo de sair na rua para manifestar sua intenção.

Ainda antes das eleições de 2018, uma amiga que viveu na União Soviética comentou sobre como era a perseguição por lá. Não se podia sequer pisar num jornal. Mas ela disse que o mais estranho, por aqui, é que o inimigo é interno. Em outros lugares, sempre se acusava algum tipo de perigo externo. Aqui é o petê, o Lula, e as desculpas sobre ameaças externas apenas coroam os rivalismos internos.

O brasileiro é mesmo um tipo a ser estudado. Há quem não saiba sequer onde fica o volume de seu celular, mas se considera capaz de acreditar em Fake News sobre mamadeiras de piroca e julgar a partir daí o contexto nacional. Há quem cumprimente seu amigo falando do voto patriótico no domingo, e ao mesmo tempo aplauda um presidiário com coleira eletrônica que atira em agentes federais.

Alguém disse, enfim, que tudo isso só pode ser contido por um velhinho de 70 e poucos anos que nem queria mais se candidatar a presidente. Que venha, então, o domingo.

O bolsonarista, o pombo enxadrista e o jornalista

Ontem foi mais um dia daqueles, no qual fiquei parte do tempo pensativo sobre como responder um bolsonarista. Ele postava aquele famoso poema de Martin Niemöller – “primeiro levaram os comunistas, mas eu não era comunista…” – para ilustrar a suposta perseguição do STF (era decisão justa) contra os “inocentes” (de fato, culpados) jornalistas da Jovem Pam e outros que propagam Fake News e transformam jornalismo em publicidade.

Responder é difícil, porque o bolsonarista joga fora a lógica. O que há é apenas uma narrativa que quer o assentimento, embasada mais em emoção e em palavras de ordem do que em razão. É como querer argumentar em política porque seu time de futebol é melhor do que o dele, embora política não seja futebol e a comida possa faltar no prato.

O bolsonarista se comporta, assim, como um pombo enxadrista. Você quer jogar, mas… ele derruba todo o tabuleiro. E pombo só sabe, quando muito, pressionar alavancas ou girar para receber prendas.

Nessas horas, não consigo não pensar em certos jornalistas, como por exemplo Reinaldo Azevedo. Esse naipe não mediu esforços para condenar o PT, sob quaisquer motivos que fossem. Houve entre dez e quinze anos de contínua cobertura negativa contra o PT, com esgotos de dinheiro jorrando diariamente nas TV’s. Tudo isso somado à agenda contra o PT, que já era negativa, e ao caráter incontrolável das redes sociais, e deu no que deu.

Talvez esses jornalistas tenham percebido o estrago que fizeram, pois muitos deles passaram a ter uma postura de defesa de Lula e do PT. Eles mesmos acabaram provando do próprio veneno, ao ver os bolsonaristas hostilizando os mesmos que criaram o antipetismo.

A tarefa da imprensa, em 2022, deveria ser a de desfazer as ilusões criadas em torno do PT. Ficássemos apenas com os ditos “fatos” e não estaríamos aqui. Quem sabe, para essa gente que queria tanto prender Lula, ele pudesse até estar preso. Mas até a oportunidade de um julgamento justo eles jogaram fora, deixando uma dúvida ainda pior (no caso, para eles).

De todo modo, a pena para o jornalismo pagar, se não desfizer as ilusões sobre o PT, não demorará para ser executada, caso elejam por aí tais e quais.

Lula, a “esquerda” e a corrupção

O primeiro turno das eleições de 2022 surpreendeu o eleitor brasileiro, mostrando muito mais eleitores de Bolsonaro do que os 1/3 projetados pelas agências de pesquisa. Isso se deve a inúmeros fatores, e o principal deles é provavelmente o do “voto envergonhado” e o fato de que nem de longe as amostragens no Brasil são uniformes.

O perfil do brasileiro não é o mesmo e o voto pode ser inclusive contraditório: um bom exemplo é o sulista que vota em Bolsonaro motivado por preconceito contra nordestinos (acusados de receberem “mamata” dos governos do PT), os quais também possuem parcelas que votaram em Bolsonaro sem partilhar dos mesmos valores.

Mas há um ponto ao redor do qual todos os votos orbitam. Trata-se do estereótipo, inventado, construído ou reforçado a conta-gotas nos últimos 10 ou 15 anos, de que simplesmente a corrupção se resume à esquerda e, mais ainda, a Lula.

Esse ponto foi tão bem construído que os votantes de Bolsonaro simplesmente ignoram que seu partido, o PL, é um dos mais historicamente corruptos do Brasil. Trata-se do mesmo PL que, nestas eleições, elegeu a maior bancada do congresso.

Eles ignoram que o PL é o mesmo partido do vice-presidente de Lula, José Alencar, ou mesmo que um dos principais nomes que recebiam propina no mensalão, Valdemar Costa Neto, foi preso. Se a prisão de Lula possui controvérsias e ambiguidades – sejam elas morais ou jurídicas -, não há qualquer ambiguidade sobre a prisão de Valdermar Costa Neto. Ele recebeu 8,8 milhões em propina e é conhecido como quem profissionalizou o esquema de propinas do mensalão. Isso é provado consistentemente.

Mas Costa Neto é exatamente quem trouxe Bolsonaro ao PL.

O eleitor também ignora muitas outras coisas. Por exemplo, que se a medida para julgar é a da corrupção, os indícios em torno do clã Bolsonaro são maiores e mais consistentes do que qualquer outro a respeito de Lula.

Supondo que Lula realmente comprou um triplex e teve um sítio patrocinados por propina, o eleitor menospreza as evidências em torno da família Bolsonaro ter comprado 51 imóveis em espécie. Dada a suposição de que ambos seriam corruptos, por que a corrupção de Lula seria pior do que a de Bolsonaro?

Mantenhamos a mesma suposição, a de que Lula seria ou é um corrupto. Ele foi efetivamente preso e o poderia ser novamente. Além disso, ele jamais deixou de realçar a independência da justiça. Isso é radicalmente diferente das inúmeras investidas de Bolsonaro contra as instituições democráticas (inclusive interferindo diretamente nelas) e a campanha de demonização contra a imprensa e o STF. Cabe o experimento para seres racionais: entre o candidato que se submete às leis e o outro que as despreza reiteradamente, qual seria a escolha óbvia?

Mas independente dessas questões, entramos novamente no essencial: parece posto que a corrupção apenas se torna visível se atribuída ao PT, à esquerda e a Lula. Eles é que seriam corruptos, e quando se fala em corrupção, fala-se estritamente deles.

Como decidir, desfazer, afirmar, contrariar esse tema? Parece óbvio que o maior dever de qualquer jornalista brasileiro, em 2022, deveria ser o de colocar esse tema à prova. Sem o que o caminho parece ser o do simples fascismo e a História já nos cansou de ensinar tais coisas.

As Forças Armadas, o voto auditável e a vergonha ao vivo

Fica para os anais da História do Esquecimento o fato de que as forças armadas brasileiras – ou aquela parte delas que vive a bad trip de apoiar Bolsonaro – e o jornalismo sem escrúpulos passaram, nesta semana, vergonha no débito e no crédito. A semana começou com um boato de que as forças armadas teriam acesso aos boletins de votação do TSE em tempo real. Uma reportagem da Folha chegou a dizer que militares tentavam anotar as informações do TSE em seus cadernos.

É quase como se, na era digital, fôssemos remetidos à burocracia do papel e do carimbo. O fato de os militares cogitarem o acesso em tempo integral é simplesmente sem sentido: ou eles precisariam acompanhar a votação uma a uma, no calor do momento, e isso violaria o direito ao voto, ou eles simplesmente não entenderam que a apuração é automática. Pior: a prática de divulgar os boletins de votação já era praticada em edições passadas e amplamente publicizada.

A Jovem Pam tentou emplacar uma discussão sensacionalista sobre o factóide e… passou vergonha ao vivo:

Olhando essas notícias dá até para entender como Pazuelo, oficial de intendência do exército (aquela área que distribui comida e lava as roupas), foi divulgado falsamente como “especialista em logística“.

Invadiram a Ucrânia mesmo?

Há algum tempo (uns 20 anos) ocorreu um episódio que se provou muito digno da História do Esquecimento, narrado por Ron Suskind. Ele citava, a propósito da invasão do Iraque pelos EUA, as falas de um funcionário da Casa Branca criticando jornalistas. O adido dizia algo como: muito bem, façam como quiserem, mas nós é que mudamos o mundo. Não vivemos mais sob um princípio de “comunidade baseada em realidade“. Vocês podem narrar a realidade como quiserem, mas quem a modifica somos nós. Enquanto vocês narram, estaremos sempre um passo à frente, modificando. Somos nós, agora, os verdadeiros atores da História.

Essa fala, tão surpreendente, só consegue paralelo em casos como o de Julian Assange (e outros, como Aaron Swartz): em plena era de uma inovação tecnológica – a internet -, seus maiores heróis (ou indivíduos capazes de modificar o curso dos acontecimentos utilizando o novo instrumento tecnológico) são relegados ao puro e simples esquecimento. Os tempos modernos do Iluminismo se esgotaram, ainda mais do que o século XX já presumia (Pierre Levy já dizia isso, sem querer, em As Tecnologias da Inteligência).

Desde ao menos essa fala do adido, o mundo deixou de ser (mais uma vez) o mesmo. De lá para cá, e num ritmo ainda mais acelerado a partir do Facebook e depois do WhatsApp, os mundos se separaram. Não há mais “comunidade baseada em realidade” porque não haveria, presumivelmente, “realidade” para agrupar algum princípio comunitário (lembremos de Umberto Eco: a internet deu voz ao idiota da aldeia, e quando ele disse isso ninguém deu ouvidos à etimologia da palavra idiota). Já era possível nos anos 2000, em plena era da informação, promover uma guerra baseada em mentiras, com apoio de parte da imprensa. E quando o gato era pego no pulo, era sempre possível neutralizar o flagrante.

O WhatsApp e as eleições ao menos desde 2016 vieram para o mostrar: sem “realidade” para se basear, não há mais “comunidade”. As pessoas começaram a viver em mundos tão distintos que nem uma pandemia e o fato mais duro da morte permitem mais um princípio comunitário. Se você vive como o Átila Iamarino, com práticas de vida baseadas em “evidências científicas” para cuidar-se contra a pandemia, não há mais qualquer comunicação com o tiozão do WhatsApp, que se vacinou apenas porque começou a ver gente morrendo e só espera da vida a próxima piada do pavê (com a eventualidade de algum parente não estar mais ali). Se você é bolsonarista, é impossível sair da polarização antipetista.

É nisso tudo que entra a invasão da Rússia à Ucrânia. Parece até engraçado, mas não faz muito tempo que os bolsonaristas ostentavam símbolos da Ucrânia para expressar preconceitos de ultra-direita e anti-Russia. Figuras como Daniel Silveira (do PSL) e Sarah Winter diziam que era preciso “ucranizar o Brasil“, aludindo com isso a movimentos de ultradireita por lá. Não durou muito e Bolsonaro estava na Rússia barrando as botas de Putin nas vésperas da invasão à Ucrânia, o que rendeu críticas até mesmo dos amados EUA.

Mas de quê tudo isso importa? Pois não importa a realidade. Nem ela importa para dizer, com os ocidentais, que a invasão de Putin é inadmissível e pode ter efeitos avassaladores. Nem ela importa para dizer, com os russos, que não é possível aceitar um quintal da OTAN, com logística para mísseis até nucleares, em plena fronteira com a Russia. Não importa mais a realidade para dizer que a OTAN não cumpriu certas regras e expandiu-se até as bordas da Russia, um pouco como, outrora, os russos ameaçavam instalar mísseis nucleares em Cuba.

A vida tornou-se um pouco como a dos bolsonaristas: num dia você pode justificar símbolos que podem ser usados pela ultradireita no mundo – até contra a Russia – e no outro apoiar os elogios de Bolsonaro a Putin em troca de algum comércio com fertilizantes, sem problemas.

E o que dizer daquelas bombas todas na Ucrânia? Elas são como a COVID: a situação não apertou por aqui ainda. Se apertar, depois nós vemos (e é claro que cada um vê por si).

Render homenagem aos mortos

Uma das cenas mais memoráveis do cinema

Uma das efemérides da semana foi a disponibilização gratuita de Dersu Uzala no Youtube com outros clássicos russos (tais como Vá e Veja). Em tempos pandêmicos – li por aí -, nada melhor do que filmes e mais filmes.

E para quem tem o descaramento de ver esses “filmes parados” (são os jovens que o dizem), o início do filme já traz uma mensagem para 2021. Ali o Capitão Vladimir, cientista russo, visita uma vegetação devastada, mas transformada em vila pelo “progresso”. Ele tenta encontrar onde foi que o amigo Dersu havia sido enterrado.

Se o filme foi disponibilizado para (re)ver em tempos de pandemia, surpreende como sua temática inicial já mexe com a temporalidade. O Capitão quer visitar o lugar onde Dersu repousa. Mas ali, onde até há pouco era uma densa floresta, agora transformou-se numa vila pouco afeita a achar túmulos ou outras coisas do passado (é o que mostra a atitude do personagem encontrado pelo Capitão).

A cena mostra que entre aquilo que o Capitão e Dersu viveram e o presente há uma lacuna, um abismo. Não o dos inevitáveis tempos vencidos, mas o de que os tempos de agora, esses tempos tão modernos, constituem-se fundamentalmente na negação daquilo que passou. Importa dizer que não somos mais “aqueles”, nem essa floresta e nem esses eventuais túmulos porque agora somos outra coisa que só pode ser assim ao negar aquilo (mesmo que não passemos então de uma vila orgulhosamente atolada no barro).

O Capitão, em 1910, estranhava como tanta coisa mudara em tão pouco tempo (“três anos”, disse ao transeunte). Mas ao menos em um ritual havia continuidade: o de render homenagem aos mortos.

Nem o transeunte, nem o Capitão, negariam a importância de visitar os túmulos. O transeunte poderia ignorar a localização de algum túmulo ali, mas não o ritual. Reservar um dia que simbolize ou rememore o falecimento e visitar alguém que passou: não foi sempre uma ocasião essencial? Esse rito sempre deu continuidade a quem eu fui, quem sou e quem poderei ser.

Visitar Dersu dava ao Capitão sentido, palavra que não se refere a nada simplesmente privado, ensimesmado, abstrato. As ações de Dersu e do Capitão não são mera fantasia do passado, mas fazem corpo com o presente. Lição que – é claro – ultrapassava esse pequeno drama de Kurosawa.

E eis que 110 anos depois (da cena representada) somos nós que supostamente vemos o Capitão rever Dersu. E o que temos em mãos?

Eu poderia começar a falar sobre os números da pandemia ou o total desprezo pelo corpo e pela existência que ensejamos ao não usar medidas eficazes, permanecendo como que anestesiados entre máscaras e negacionismos. Mas para manter o exemplo utilizado, salta aos olhos como é que lidamos com os mortos. Só para manter o exemplo da velhice, não foram poucos os alertas de que não mais somos sensíveis a muita coisa. Tratamos os mortos e os velhos de um modo que depõe radicalmente contra nós mesmos (nós, os mortos e velhos de amanhã).

E quanto ao ritual de homenagem? Que o diga a impossibilidade de se despedir dos mortos, as escavadeiras abrindo covas em massa, os presidentes pregando remédios falsos, o trabalho em forma de aplicativo que elimina a possibilidade de qualquer dia não ser de trabalho, as escolas que continuam as aulas após saberem que um professor morreu de COVID e essa incrível anestesia que ronda por aí.

Um exemplo, dentre todos, é notável: no Canadá, uma universidade continuou vinculando aulas online de um professor mesmo depois de morto. Sequer o colega que compartilhava o crédito da disciplina com ele, tampouco os alunos, sabiam do falecimento. Nem é preciso dizer que isso não é uma homenagem, mas um puro e simples uso da imagem do professor para propósitos outros.

François-Marc Gagnon, professor cujas aulas online eram vinculadas após o falecimento

O caso das aulas do professor morto contrasta com outro exemplo recente, o de um jovem que jogava videogame com o pai morto há dez anos. Ao reutilizar um videogame, o jovem descobriu que uma das corridas do pai ainda estava gravada, e que poderia sempre jogar contra ele: misto de lembrança, celebração e saudade.

No que os dois casos diferem? Aí está patente que o desempenho do pai no videogame é algo mais do que um objeto que ficou para trás, pois é uma performance que pode sempre ser revisitada. As ações daquele que conviveu comigo no passado podem ser reatualizadas agora, no presente. Quanto ao caso das aulas do professor morto, é um aluno, ao tentar contato com o professor após as aulas, que mostra o ponto no qual chegamos: aquelas falas tão boas e comprometidas, de repente, foram descobertas como não possuindo vida. Enquanto aluno, não fui posto num contexto de troca com um professor detentor de uma obra, pesquisas, ações, mas diante de um aparelho que cospe informação a ser captada.

Ao ver que o professor estava morto, de repente o aluno percebeu que não havia descoberto – como o fazemos por exemplo nos livros – um pensamento vivo sendo continuado por aqueles que estão vivos, mas sim o uso instrumental de um morto para questões administrativas (financeiras?) que não tem nada a ver com sua vida e pensamento. O professor havia virado mero meio para outros fins, ele não era mais alguém a ser revivido na memória. Na aula post-mortem, passa-se instrução com o vídeo gravado para ouvintes ou clientes do mesmo modo como a informação passa na internet de um aparelho para outro: se o locutor está vivo ou morto, isso é um mero detalhe.

***

Mas como a vida sempre tem suas reviravoltas, é uma informação muito feliz a defesa póstuma de mestrado de Ely Macuxi, na UFAM. Às vésperas de sua defesa, Macuxi foi levado pela COVID.

O exemplo, aqui, é de uma obra que permanece para além de seu autor. Não há uso instrumental de alguém que se foi, mas sim homenagem à memória e ao modo como o Pensamento pode permanecer vivo para além das limitações materiais.

O governo do “não”

A Folha acaba de vincular:

Assim que for aprovada, uma vacina contra Covid-19 não deve ser oferecida para toda a população em 2021, mas apenas para grupos de maior risco de exposição e complicações pela doença, informou o Ministério da Saúde. Um plano preliminar deve ser compartilhado com especialistas e secretários de saúde na terça (1º). A pasta já vinha falando em iniciar pelos casos prioritários, como idosos, doentes crônicos e profissionais de saúde. ‘Não temos vacina para toda a população. Além disso, os estudos não preveem trabalhar com todas as faixas etárias inicialmente’, declarou a coordenadora do Programa Nacional de Imunizações, Francieli Fantinato. O secretário-executivo do Ministério da Saúde, Elcio Franco, comparou a estratégia com a das campanhas de vacinação contra a gripe. A priorização depende do cenário epidemiológico e das indicações dos imunizantes.

O governo Bolsonaro não consegue enunciar uma medida que não envolva um jogo de negação e de “nós contra eles”.

Só em torno da vacina:

  • não pode ser chinesa (falso, pois praticamente todas usam insumos chineses),
  • deve haver “liberdade” para escolher ser vacinado ou não (falso problema e polarização, uma vez que não se trata de ser livre ou não, mas de ser negligente ou não para com uma doença que afeta a liberdade alheia)
  • a OMS não vale e Tedros Adahnon não é médico (duplamente falso: é possível ser doutor em saúde pública e o próprio governo usa ideologia barata para dizer que a medicina, que nega a eficácia da cloroquina, é “ideológica”)
  • saindo a vacina, nem todo mundo pode ser vacinado (igualmente falso, pois depende de vontade política e de política pública e não de orçamento)

São séries e séries de enunciados falsos, baseados em pura e simples polarização. Retire isso? O governo cai como um saco vazio.

Essa porra de reforma

Hoje é um dia histórico, mas é um dia para a História do Esquecimento. O senado acabou de aprovar a “nova” reforma da previdência.

No apartamento ao lado, o pedreiro faz a reforma e baterá seu martelo até o fim do dia. À noite, os vizinhos é que farão o aparelho de ar condicionado bater até de manhã, verdadeira britadeira noturna. Amanhã o ciclo se renova, e a notícia da reforma (no caso, a da previdência) passará como se nada tivesse ocorrido.

Mas a reforma da previdência vai interferir na vida do pedreiro e do vizinho, de uma forma muito mais drástica do que o incômodo de suas britadeiras e martelos. O pedreiro terá que se arranjar para bater muito mais martelo. O vizinho vai ter que se virar para pagar a conta do ar condicionado-britadeira. Pois nada se discutiu sobre essa reforma, exceto o fato – repetido diariamente – de que seria preciso fazer uma reforma.

O Brasil tem vivido coisas inacreditáveis. Ontem, nosso presidente disse que o interesse na Amazônia não se refere “ao índio ou à porra da árvore”, mas à mineração.

Simples assim: índios não valem e essas “porras de árvore” ficam atrapalhando o essencial, isto é, a concessão da Amazônia para as mineradoras americanas.

Mas isso não é o mais grave. O mais grave é um presidente achar que pode dizer isso, menosprezar o capital de seu povo (o índio!) e seus bens mais preciosos, visados no mundo inteiro.

Se um presidente pode adotar esse tipo de linguajar, então é de duas, uma:

  • é porque ele não tem qualquer credibilidade e o povo pode adotar o mesmo princípio contra o presidente: o que significa que Bolsonaro, essa “porra de presidente”, deveria ser deposto.
  • é porque o povo não está nem aí mesmo e esse lugar não merece mais ser vivido, pois se tornou uma porra de país.