Uma manifestação ou protesto é, como o nome o diz, algo que ocorre quando a ordem normal dos acontecimentos não é obedecida. Houve uma injustiça, um arroubo, uma desmesura, e então uma manifestação ocorre. Um protesto nunca é uma manifestação da ordem, mas uma reação a um rompimento do que deveria ser, em tese, ordenado. Tome-se os exemplos de Gandhi, Luther King e tantos outros, e suas manifestações que sempre testemunharam reações a alguma injustiça.
Isso significa que não existe “manifestação a favor”. Imaginemos, por exemplo, Luther King manifestando-se sobre os direitos civis dos negros e tendo que calar a boca porque um punhado de brancos também se manifestou “pacificamente” a favor do sistema vigente e então é a voz dos brancos, e não a dos negros, que devesse valer. “Rosa Parks sequer deveria subir num ônibus!” – imaginem a bandeira.
É simplesmente non sense, absurdo, erro lógico.
Mas é exatamente o que está acontecendo hoje no Brasil. Pessoas inventaram o “protesto pacífico”, que é o protesto a favor “disso que está aí” e contra qualquer manifestação em contrário, contra qualquer acusação de que houve injustiça. E o protesto a favor permite que sejam cometidas as maiores barbáries.
A primeira função do protesto a favor é criar um dispositivo, inerente ao próprio povo, que inibe qualquer possibilidade do mesmo povo protestar contra. Se uma parcela da população protesta contra uma desmedida e outra parcela – mais numerosa – protesta a favor, tudo se passa como se a primeira parcela devesse permanecer calada. Pois ora bolas, a demonstração geral é a de que tudo vai bem. Tudo funciona como a pura e simples anulação de uma tensão: diante de uma carga, põe-se outra carga contrária de valor igual e tudo se reduz a zero.
A segunda função do protesto a favor é fazer com que qualquer reivindicação, sobre qualquer tipo de barbárie, possa ser aceita. Pois ninguém fica descontente por coisas boas. Conforme dito acima, um protesto, por definição, envolve algo que foi desrespeitado, rompido, algum perigo que foi solto, alguma injustiça cometida. Mas se, em cima desse protesto contra, cria-se um protesto a favor, isso não significa apenas neutralizar ou calar o protesto contra, e sim fazer com que a injustiça, diante da qual nasceu o primeiro protesto, seja garantida.
É exatamente isso que se presencia no dia de hoje, no Brasil. Pessoas que perderam uma eleição se arrogaram o direito de protestar. Mas protestam contra o quê? A eleição foi injusta? Há provas de fraude? Alguma ordem constitucional foi rompida?
De forma alguma. Nada foi rompido, e apesar de inúmeras denúncias de compras de votos e assédio eleitoral, surpreendentemente as eleições ocorreram sob legitimidade, sendo reconhecidas pelos mais diversos observadores externos.
É aí que se aciona o dispositivo do “protesto a favor”. Pois há quem diga que esteja protestando “ordeiramente e democraticamente”. Mas protesta pelo quê? Pois nada foi rompido.
Eles protestam para que as eleições, que foram legítimas e democráticas, sejam desrespeitadas, os poderes sejam dissolvidos, os membros do STF sejam presos, o exército tome o país e garanta de assalto mais um governo para a figura que foi derrotada nas urnas.
É certo que o WhatsApp engane e faz com que as pessoas comemorem até coisas que não existem. Mas não faz muito tempo, isso tudo tinha outros nomes.




