
Hoje, numa mesma tacada, o ministro Weintraub execrou Paulo Freire, tentou promover o “método fônico” e, quando perguntado sobre quem é o “melhor educador”, citou Jean Piaget.
Vindo de um ministro da educação, isso é tão tosco, mal intencionado e de baixo calão que não deveria passar despercebido, especialmente pela comunidade acadêmica. Pois na mesma tacada ele simplesmente assinou um atestado de que não tem credibilidade para ser ministro e não tem a mínima idéia do que está dizendo.
Dentro da discussão pedagógica, é óbvio que Paulo Freire e Piaget possuem teorias diversas. Mas caso se erga o olhar um pouquinho, esses dois autores são conhecidos como educadores interacionistas: eles supõem que ninguém aprende com muito sucesso algo que não faça sentido para si próprio, que não faça parte de suas estruturas prévias de aprendizagem ou dos objetos do mundo social que o interpelam. Piaget (dentro de seu estruturalismo) e Freire (dentro de sua abordagem sociocultural) dizem o que deveria já ser óbvio: as crianças, para aprender, precisam interagir com questões que digam respeito à sua realidade, a seu contexto, ao universo de seus objetos de uso. Não se aprende quando não se é sujeito da própria aprendizagem, quando o professor, ou o método, tentam passar coisas que não façam o menor sentido.
Aprendizagens mecânicas, de cartilha, de memorização associativa e repetição, são cientificamente limitadas (há décadas de estudos que foram desbancando as abordagens associacionistas) e historicamente foram mal sucedidas quando aplicadas em diferentes contextos. Não é à toa que toda a pedagogia do século XX tentou mudar os modelos mecânicos e associativos. Estes modelos tradicionais são o da aprendizagem que vai “da parte ao todo”, do simples ao complexo: buscam, a partir da redução a elementos simples de aprendizagem e sua crescente combinação, partir para a composição de aprendizagens mais complexas. O método fônico faz parte dessa tradição.
O que se descobriu em longa série de experimentos, inclusive com animais, é a limitação da perspectiva tradicional. Começa ao menos no início do século XX pela Psicologia da Gestalt que, no mesmo terreno da Psicologia Animal (que é o dos behavioristas e de Ivan Pavlov), demonstrou que a aprendizagem “da parte ao todo” é apenas um dos aspectos da aprendizagem e não se poderia ignorar outros aspectos, os que vão do “todo”, do contexto, do modo como alguém vê o mundo, às “partes”, ao modo como cada nova aprendizagem é assimilada pelas aprendizagens anteriores.
Mas isso não quer dizer nem que Paulo Freire, nem Piaget, nem as abordagens construtivistas, nem os pedagogos contemporâneos (sejam eles de “esquerda” ou “direita”), reneguem questões associativas e a aprendizagem mecânica ou por repetição. Ocorre que são aprendizagens, mas não são “a” aprendizagem, conforme dito acima. Nenhum pedagogo contemporâneo negaria a credibilidade de aprendizagem por fonemas, letras, sílabas ou qualquer unidade básica suposta de aprendizagem. Mas ocorre que nenhum pedagogo contemporâneo também teria a imprudência de ignorar que uma criança aprende a partir do contexto no qual se insere.
Quando Weintraub condena Paulo Freire e elogia Piaget, não tem idéia do que diz. O mesmo quando elege o “método fônico” e Piaget como iguais, colocando-os lado a lado. Conforme suas palavras, ele estaria com isso refutando uma “unanimidade” dos educadores (que não existe, e aqui ele mente), “unanimidade” que seria ligada à esquerda (outra mentira).
Ele também recomenda o método fônico, mas diz que qualquer outra abordagem deve ser “científica”. Isso envolve outro sofisma muito perigoso, pois quer que as pessoas acreditem que a “unanimidade” suposta por ele é uma unanimidade “de esquerda” e, portanto, “não-científica”. Logo, qualquer coisa que soe semelhante ao que o ministro acusa é… não-científica e de esquerda. Está na cara que o ministro nunca pisou num departamento de Educação.
Essas falas são péssimas para a discussão pública. Passa-se posições como se fossem verdadeiras por si só. Pior ainda: se alguém aceita as palavras de Weintraub, tem que aceitar também o que as posições dele subentendem, e elas subentendem “inimigos” de “esquerda” que estariam desvirtuando o debate científico e a educação. Não à toa Paulo Freire aparece aqui como o exemplo de um marco a combater. Marco que, segundo Weintraub, sequer é citado em outros países, o que é outra mentira.
Mas há mais. Quando Weintraub identifica uma discussão científica com uma posição meramente política, ele repete um velho recurso de condenação. Isso já aconteceu na História. Na União Soviética de Stalin, tentava-se fazer exatamente a mesma coisa. Colava-se na ciência do ocidente, não importa o que dissesse, a etiqueta de “burguesa”. Assim a União Soviética embarcou em duas viagens alucinantes durante anos: criou uma “biologia mitchuriana”, marxista, a partir do cientista Trofim Lyssenko (que negava as biologias ocidentais e o darwinismo “burguês”!); e generalizou a Reflexologia de Pavlov como Psicologia oficial do regime.
Quando o governo Bolsonaro e Weintraub juntam discussão científica com o ranço político, não há como não pensar no stalinismo (ou também em certo olavismo de plantão). Só que a História já ensinou o que acontece quando querem penhorar refutação da ciência com perseguição política.