Comecei a ler o Olavo de Carvalho nos idos de 1998, como estudante de graduação. Eu havia encontrado, ainda no início dos blogs, um blog que achava meio estranho, cujo editor fazia questão de se mostrar como alguém da nata carioca e fazer as vezes de rapaz erudito. Era uma espécie de aspirante a e puxa-saco de algumas figuras mais famosas, no caso, jornalistas hoje chamados de ultra-direita. Conforme entendi, o berço já lhe garantia algum contato com eles. Para além das firulas textuais, o rapaz não escrevia lê com crê. Mas se referia ao Olavo sempre.
Então entrei no site O Imbecil Coletivo e comecei a me aventurar. Li dois textos que me marcaram. Um deles tratava das figuras do super-homem e do último homem nietzscheanos, como que tentando mostrar que a popularidade de Nietzsche entre os estudantes de graduação era diretamente proporcional ao achismo, desses mesmos estudantes, de que tinham cada um uma espécie de super-homem na barriga (ri muito, anos depois, ao ver professores universitários empregando linguagem nietzscheana para referir a si próprios como seres extra-morais, ou ainda pior, usando linguagem nietzscheana como uma espécie de teoria gerencial sobre como organizar pessoas em universidades).
O outro artigo criticava o anômalo culto a Fritjof Capra, mostrando que o ideário de um oriente mais feminino e acolhedor era mito. Bastava considerar como, na China, algumas tradições constrangem as mulheres a deformarem seus pés para caberem em sandalhas minúsculas, que seriam supostamente mais sedutoras.
Continuei lendo Olavo, enquanto percebia também as críticas que ele recebia. Mas logo – bem rápido, aliás – comecei a achar os textos estranhos, até muito parecidos em qualidade com os do blogueiro-aspirante-a-famoso ao qual me referi acima. Eram argumentações fracas e não passavam do chavão acusatório. Não raramente com sofismas e paralogismos que iam da simples imprecisão ou erro até a contextualização marota de algum dado para ocultar outros dados que desmentem a tese.
De lá para cá, Olavo sumiu algumas vezes. Foi parar em jornalecos de segunda e, conforme vi, até transitou no islamismo. 2018 parece ter sido o ano no qual ele surgiu de não se sabe onde, transformando-se em guru automático da ultradireita.
Meu contato recente foi por meio de um olavista. Ele havia me perguntado sobre se eu conhecia um certo filósofo estudado por Olavo, e eu disse que não. O olavista então me olhou desconfiado, como que perguntando “como você pode estudar filosofia e não conhecer esse filósofo?”. Como bom estudante, assumi a posição de ignorante, confessei realmente não conhecer.
Depois eu entendi o que estava em jogo. Era o fato de que Olavo fazia questão de buscar filósofos outsiders, supostamente não conhecidos ou pouco conhecidos pela academia, para ter onde amarrar seu burro. No caso do filósofo que eu “não conhecia”, não passava de uma figura da tradição escolástica que dizia coisas sobre como ter uma vida espiritual. Mas ora, em filosofia todo mundo se põe na posição de ignorante e todo mundo sabe que mesmo um pesquisador já calejado não conhece todos os nomes da história da filosofia. Todo mundo também sabe que vergonhoso não é não conhecer ou não ter lido alguém, mas fingir que se conhece.
Mas é aí que está: esse ponto tão batido em filosofia serve, para o olavista, como uma espécie de senha que confirma as palavras do mestre. É um “viu só? eles doutrinam as pessoas na academia e filtram o que as pessoas devem saber”. Dizer isso não tem qualquer sentido, mas Olavo soube explorar isso sofisticamente para inculcar nos discípulos a idéia de que, se você não conhece alguém, é porque é simplesmente burro ou foi doutrinado (ou os dois).
A vitória na acusação confirmada já garante, por si só, uma espécie de capital filosófico (mesmo que sofístico) para o “mestre”. Afinal, Olavo tentava aplicar em filosofia não as Refutações Sofísticas do Aristóteles, mas a Dialética Erística do Schopenhauer, texto que ele mesmo traduziu (e traduziu tão mal que levou uma chapuletada irrefutável). No espírito da erística e surfando naquilo que Aristóteles já havia previsto nas Refutações, Olavo dizia-se cristão e defensor da filosofia, embora pregasse a divisão, o ataque e a desqualificação dos adversários (pois, ao que parecia, ele não tinha interlocutores – o que exige crítica – e sim acólitos ou inimigos).
Olavo odiava Kant e acusava os filósofos modernos de serem playboys (sic.) que ousavam dilapidar a escolástica, mas sem sucesso. Era esse o nível de suas palavras. Quanto a Kant, Olavo tentava usar uma espécie de leitura mal feita de Husserl para dizer – usando a velha metáfora dos “óculos que enxergam o Real” – que o conceito de coisa-em-si é simplesmente um absurdo e ponto final. O livro sobre Aristóteles era, na origem, um artigo refutado em avaliação cega de parecerista. A tradução sobre Schopenhauer, conforme dito acima, foi demolida.
Olavo apoiava-se em chavões e atalhos retóricos de um lado, e na internet de outro, para fazer valer seus escritos e falas. Isso explica em parte o fato de que em 2018, ano da apoteose das redes sociais e das Fake News, ele voltasse à baila como grande guru.
O último contato que tive com suas idéias foi há alguns dias, quando conheci um discípulo atento do COF. Dizia ele que uma das virtudes de Olavo era mostrar como a literatura, “negligenciada pelos filósofos”, permitia abrir mundos para além da simples existência vivida. Como se vê, o discípulo simplesmente replica, sem saber, duas mentiras: a primeira, a de que a literatura é via de regra desconhecida pelos filósofos; a segunda, a tese de que a descoberta disso se deve a Olavo.
A pergunta que fica é sobre o quanto a “obra” do dito filósofo perdurará. Afinal, ele não gostava de submeter seus textos para as revisões cegas de seus pares, aspecto básico da academia tão chamada por ele de “comunista”. Só que a revisão e o escrutínio é sempre o que resta depois que alguém morre. A não ser, é claro, que o motivo de ter sido impulsionado à fama não tenha sido exatamente seus escritos.