O isolamento vertical entrou pela porta dos fundos

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Com o retorno às aulas e a pouca vacinação das crianças, estamos vivenciando algo surreal: há uma posição geral, quase espontânea, que legitima a divisão entre pessoas idosas e com comorbidades que devem trabalhar remotamente, de um lado, e pessoas jovens e (supostamente) saudáveis que devem trabalhar presencialmente, de outro.

Essa posição apenas repete, sem nominar, o velho tema do “isolamento vertical” que os bolsonaristas tentaram emplacar no início da pandemia: idosos e com comorbidades devem ficar isolados, pessoas “normais” devem trabalhar para fazer “girar a economia”. 

Essa posição, além de ser equívoca e derivada de um falso conceito (amplamente desmentido pelos epidemiologistas), tem efeitos absolutamente nocivos: cria uma clivagem na sociedade entre os que tem algum risco de morrer e aqueles outros que supostamente (pois não o sabem) podem viver, amar e trabalhar livremente. 

Ora, o primeiro contra-efeito disso é o de que as pessoas que serão agora constrangidas ao isolamento não viverão as mesmas condições dos últimos dois anos: 1) elas não viverão mais numa população de isolados em meio a uma política pública de isolamento e 2) não vivendo mais assim, é certo que, a não ser que vivam de forma absolutamente isolada, acabarão por se infectar. Além disso, 3) as condições de variabilidade do vírus não são igualmente as mesmas e estamos dando vazão para o surgimento de outras variantes. 

É claro que há uma boa dose de probabilidade de que, mesmo sob esses preços, alcancemos em alguma hora a dita “imunidade de rebanho” (outro conceito que foi usado de maneira falsa e nociva pelo bolsonarismo). Também é provável que não tenhamos uma nova variante a quebrar com todo o esforço já realizado. Mas é igualmente certa a advertência dos especialistas: 1) as medidas de afrouxamento não deveriam ser tão rápidas e nem feitas sob politicagem, como em algumas prefeituras, e 2) deveríamos esperar um pouco mais o avanço das vacinas e da terceira dose. 

Com a pandemia avançando, não estamos apenas nos livrando de máscaras e de certos tipos de pessoa (aliás: um a cada 317 brasileiros morreu de COVID). Estamos também forjando novas concepções sobre o que significa trabalhar e ensinar e o que é uma pessoa. 

Deslocamos, ao vivo e a cores, nossa noção do que significa ser um ser humano, inclusive aquele que a nossos olhos é digno de viver e de morrer.

Pesos e medidas da testagem COVID

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A china acabou de decretar Lockdown em cidades com milhões de habitantes para manter sua política de “Covid-zero”, quase no momento em que um ente querido me relata que está com sintomas semelhantes aos da COVID. Sem saber o que fazer, minha primeira reação foi a de acionar uma farmácia para que levasse um auto-teste.

O teste – que custou 60 reais – chega. O resultado é negativo. Recomendo para que o ente querido refaça o teste no dia seguinte, no que ele diz: qual teste? Pois só chegou um.

Logo descubro – e da pior forma – que se o Brasil liberou recentemente a auto-testagem, cada kit contém apenas um teste e custa 60 reais, preço impraticável para um brasileiro.

Vou pessoalmente à farmácia e tudo se comprova. Quem quiser testar precisará pagar aquilo tudo para receber apenas um teste. Em países como a Inglaterra, a testagem é barata e contínua, os funcionários positivados são afastados e cada kit com auto-teste contém em torno de 7 testagens. Afinal, os riscos de falso-negativo são consideráveis e muitas vezes é aconselhável repetir a testagem.

Ainda no mesmo dia recebo o relato de um amigo: o patriarca de sua família fez aniversário e, no clima de otimismo misturado com o velho negacionismo, resolveram reunir a família inteira para comemorar. Chega gente do Brasil inteiro, com muitos abraços e todo mundo sem máscara. Cerimônia perfeita, exceto pela ausência de uns e outros que insistiram em manter os cuidados de distanciamento.

Mas houve outro detalhe: no dia seguinte à festa, um dos familiares foi atrás de um teste e deu positivo. De repente, o Real pareceu bater à porta. O familiar então foi embora praticamente sem se despedir, talvez assombrado por outras histórias características dos dois últimos anos. Quem sabe, essas histórias pareciam tão distantes…

Então você pegou COVID e…

… a primeira dificuldade é saber se você está de fato com COVID. É incrível, absolutamente surreal, mas se você se deparar com o maior acontecimento da humanidade dos últimos anos, o grau de importância desse acontecimento é inversamente proporcional ao grau de informação acessível para um tratamento correto e eficaz (ponto, aqui, para quem fez uma campanha de Fake News atingir mais pessoas que os dados cientificamente corretos).

É claro que todo mundo sabe que, se foi contaminado, deve ir ao médico e fazer teste. Mas a aventura começa para 1) conseguir sair do trabalho (sem o risco de não perder o emprego), 2) buscar transporte (entre ônibus aglomerados, motoristas de Über que querem manter a janela fechada ou o parente que ostenta o nariz para fora da máscara), 3) encontrar um médico (entre agendas cheias e postinhos lotados) e, finalmente, 4) encontrar um lugar com teste disponível (e, mesmo assim, lotado).

É só depois disso que começa o jogo. Qual jogo? O jogo de tratar a COVID. Começa com o fato de que é preciso ir ao médico para ter a receita do teste, para depois… voltar ao médico para saber o que fazer com o resultado do teste. Vencida a etapa de fazer o teste, o novo desafio é coincidir o resultado do teste com a disponibilidade do médico. Vencida mais essa etapa e você fica de cara com o médico, o que se desdobra em ao menos dois caminhos:

  • o médico é negacionista e infalivelmente receitará o Kit-Covid (coisa que, se você é um negacionista escroto, não precisaria de médico)
  • o médico não é negacionista e ufa! – a situação pode ser encaminhada de alguma forma

Mas então é preciso conseguir afastamento do trabalho, sobreviver sem contaminar a família ou os outros e depois ser novamente ejetado nesse mundo que só fala de COVID, mas respira por todos os poros a negação dela.

Que protocolo seguir?

Mas, conforme acima, é incrível o sentimento de desolação e de completa ignorância quando se é diagnosticado. Para que lado seguir? Em quem acreditar? Qual protocolo é o correto?

É possível que até mesmo o médico seja um negacionista, desses que prescreve medicamentos amplamente desmentidos pela comunidade científica. Como saber se os remédios que me foram indicados são remédios de fato, e não apenas placebos indicados por negacionistas?

Pois várias drogas, ainda receitadas, mantêm-se desaconselhadas para o tratamento inicial. Até mídias de tendência bolsonarista, como a CNN, já admitiram isso. Até o Dráuzio Varela tem algo a dizer sobre médicos bolsonaristas que tentam empurrar remédios sem comprovação.

Disso tudo, ao menos a Sociedade Brasileira de Infectologia tem alguma informação nesse mar de incertezas. E a Associação Médica Brasileira tem links importantes, essenciais, para mostrar ao tiozão do whatsapp ou ao médico negacionista.

A mais nova variante

No dia 13 de janeiro, chamávamos a atenção ao fato de que as contaminações passaram de 12 mil para 56 mil. Dizíamos que, diante de mais um novo aumento exponencial da pandemia, as pessoas não pareciam mais conscientes do que no início dela. Ao menos lá atrás, houve um momento no qual até os médicos recebiam brindes vindos das sacadas.

Hoje somamos 220 mil infectados em apenas 24 horas. E o número de mortos já passa de 600.

Os números dão um claro resumo de como nos comportamos agora. O fato é melhor explicado por um ditame popular: “largamos mão”, desistimos. É como se a pandemia, mais do que nunca, não nos dissesse mais respeito. Um pouco porque já nos julgamos incólumes porque vacinados. Outro pouco, porque negligenciamos dados básicos sobre como uma pandemia se alastra em progressão geométrica.

Quando muito, pegar COVID tornou-se um problema restrito a quem pegou. É uma espécie de transtorno semelhante a bater o carro. Mas se numa perspectiva individual enxergamos a coisa como um cuidado privado, em nível coletivo estamos criando uma sociedade de carros batidos e como que deixados na estrada, enquanto outros carros chegam sem aviso para frear.

Não há como não dizer: seguimos em linha reta rumo a uma nova variante, e pagamos para ver se ela será mais contagiosa e/ou mortífera que as outras.

Olavo de Carvalho e o “pensamento”

Comecei a ler o Olavo de Carvalho nos idos de 1998, como estudante de graduação. Eu havia encontrado, ainda no início dos blogs, um blog que achava meio estranho, cujo editor fazia questão de se mostrar como alguém da nata carioca e fazer as vezes de rapaz erudito. Era uma espécie de aspirante a e puxa-saco de algumas figuras mais famosas, no caso, jornalistas hoje chamados de ultra-direita. Conforme entendi, o berço já lhe garantia algum contato com eles. Para além das firulas textuais, o rapaz não escrevia lê com crê. Mas se referia ao Olavo sempre.

Então entrei no site O Imbecil Coletivo e comecei a me aventurar. Li dois textos que me marcaram. Um deles tratava das figuras do super-homem e do último homem nietzscheanos, como que tentando mostrar que a popularidade de Nietzsche entre os estudantes de graduação era diretamente proporcional ao achismo, desses mesmos estudantes, de que tinham cada um uma espécie de super-homem na barriga (ri muito, anos depois, ao ver professores universitários empregando linguagem nietzscheana para referir a si próprios como seres extra-morais, ou ainda pior, usando linguagem nietzscheana como uma espécie de teoria gerencial sobre como organizar pessoas em universidades).

O outro artigo criticava o anômalo culto a Fritjof Capra, mostrando que o ideário de um oriente mais feminino e acolhedor era mito. Bastava considerar como, na China, algumas tradições constrangem as mulheres a deformarem seus pés para caberem em sandalhas minúsculas, que seriam supostamente mais sedutoras.

Continuei lendo Olavo, enquanto percebia também as críticas que ele recebia. Mas logo – bem rápido, aliás – comecei a achar os textos estranhos, até muito parecidos em qualidade com os do blogueiro-aspirante-a-famoso ao qual me referi acima. Eram argumentações fracas e não passavam do chavão acusatório. Não raramente com sofismas e paralogismos que iam da simples imprecisão ou erro até a contextualização marota de algum dado para ocultar outros dados que desmentem a tese.

De lá para cá, Olavo sumiu algumas vezes. Foi parar em jornalecos de segunda e, conforme vi, até transitou no islamismo. 2018 parece ter sido o ano no qual ele surgiu de não se sabe onde, transformando-se em guru automático da ultradireita.

Meu contato recente foi por meio de um olavista. Ele havia me perguntado sobre se eu conhecia um certo filósofo estudado por Olavo, e eu disse que não. O olavista então me olhou desconfiado, como que perguntando “como você pode estudar filosofia e não conhecer esse filósofo?”. Como bom estudante, assumi a posição de ignorante, confessei realmente não conhecer.

Depois eu entendi o que estava em jogo. Era o fato de que Olavo fazia questão de buscar filósofos outsiders, supostamente não conhecidos ou pouco conhecidos pela academia, para ter onde amarrar seu burro. No caso do filósofo que eu “não conhecia”, não passava de uma figura da tradição escolástica que dizia coisas sobre como ter uma vida espiritual. Mas ora, em filosofia todo mundo se põe na posição de ignorante e todo mundo sabe que mesmo um pesquisador já calejado não conhece todos os nomes da história da filosofia. Todo mundo também sabe que vergonhoso não é não conhecer ou não ter lido alguém, mas fingir que se conhece.

Mas é aí que está: esse ponto tão batido em filosofia serve, para o olavista, como uma espécie de senha que confirma as palavras do mestre. É um “viu só? eles doutrinam as pessoas na academia e filtram o que as pessoas devem saber”. Dizer isso não tem qualquer sentido, mas Olavo soube explorar isso sofisticamente para inculcar nos discípulos a idéia de que, se você não conhece alguém, é porque é simplesmente burro ou foi doutrinado (ou os dois).

A vitória na acusação confirmada já garante, por si só, uma espécie de capital filosófico (mesmo que sofístico) para o “mestre”. Afinal, Olavo tentava aplicar em filosofia não as Refutações Sofísticas do Aristóteles, mas a Dialética Erística do Schopenhauer, texto que ele mesmo traduziu (e traduziu tão mal que levou uma chapuletada irrefutável). No espírito da erística e surfando naquilo que Aristóteles já havia previsto nas Refutações, Olavo dizia-se cristão e defensor da filosofia, embora pregasse a divisão, o ataque e a desqualificação dos adversários (pois, ao que parecia, ele não tinha interlocutores – o que exige crítica – e sim acólitos ou inimigos).

Olavo odiava Kant e acusava os filósofos modernos de serem playboys (sic.) que ousavam dilapidar a escolástica, mas sem sucesso. Era esse o nível de suas palavras. Quanto a Kant, Olavo tentava usar uma espécie de leitura mal feita de Husserl para dizer – usando a velha metáfora dos “óculos que enxergam o Real” – que o conceito de coisa-em-si é simplesmente um absurdo e ponto final. O livro sobre Aristóteles era, na origem, um artigo refutado em avaliação cega de parecerista. A tradução sobre Schopenhauer, conforme dito acima, foi demolida.

Olavo apoiava-se em chavões e atalhos retóricos de um lado, e na internet de outro, para fazer valer seus escritos e falas. Isso explica em parte o fato de que em 2018, ano da apoteose das redes sociais e das Fake News, ele voltasse à baila como grande guru.

O último contato que tive com suas idéias foi há alguns dias, quando conheci um discípulo atento do COF. Dizia ele que uma das virtudes de Olavo era mostrar como a literatura, “negligenciada pelos filósofos”, permitia abrir mundos para além da simples existência vivida. Como se vê, o discípulo simplesmente replica, sem saber, duas mentiras: a primeira, a de que a literatura é via de regra desconhecida pelos filósofos; a segunda, a tese de que a descoberta disso se deve a Olavo.

A pergunta que fica é sobre o quanto a “obra” do dito filósofo perdurará. Afinal, ele não gostava de submeter seus textos para as revisões cegas de seus pares, aspecto básico da academia tão chamada por ele de “comunista”. Só que a revisão e o escrutínio é sempre o que resta depois que alguém morre. A não ser, é claro, que o motivo de ter sido impulsionado à fama não tenha sido exatamente seus escritos.

O dia em que a Terra (não) parou

Os veículos anunciam hoje o recorde de casos COVID, somando (por baixo) 3,67 milhões de afetados no mundo.

Esse dado é inverso ao que se dizia no início da pandemia. Lá atrás, dizia-se que o nível tecnológico no qual estamos não nos colocaria em situação semelhante à de outras pandemias. O tom era quase como o de um recesso obrigatório regado a Netflix, no qual a humanidade estava em condições de esperar confortavelmente a onda passar enquanto usufruía de seus bens civilizados.

Enquanto isso, o Papa rezava missa sozinho na praça São Pedro e Andrea Bocelli fazia um show emocionante, enquanto as velhas bolsonaristas aposentadas de classe média imitavam os italianos que aplaudiam seus médicos. O tom era de vinho barato tomado em sacadas e varandas, imitando os europeus sob 30º C.

Parece que foi da noite para o dia, mas de repente – quando a Itália e a Espanha recuaram naqueles cuidados iniciais – o discurso do conforto e da tecnologia foi jogado fora. As velhas bolsonaristas fingiram que não agradeceram antes aos médicos. Elas guardaram seus vinhos na geladeira e o Brasil vivenciou uma onda de negacionismo como nunca se viu.

O ponto seguinte de virada – o da adesão à vacinação – não ocorreu por uma espécie de debate público. O que ocorreu foi que os dados estatísticos, repetidamente colocados pelos jornais, de repente se materializaram na morte de alguém próximo. O brasileiro, movido politicamente a pensamento operatório-concreto, percebeu que deveria se vacinar.

Hoje houve um salto das contaminações, com os veículos notificando que os 12 mil casos de ontem saltaram para 56 mil hoje.

Lá atrás, com o Papa rezando sozinho, dizia-se sobre “o dia em que a Terra parou” e até parecia haver certa consciência sobre a doença e a importância de isolamento, auxílios financeiros e vacinas. Hoje vivenciamos mais uma variante e, pelo visto, jogamos os dados para o aparecimento de outras. Com pipoca, inovações tecnológicas e assistindo Não olhe para cima no Netflix.

O bolsonarista em protesto

Nesta semana viralizou a imagem de um bolsonarista que, para impedir a compra de uma revista que chamava Bolsonaro de “Mercador da Morte” (comparando-o com Hitler num bigode com o escrito “genocida”), acabou por comprar diversas revistas, apenas para jogá-las fora.

As reações de chacota foram automáticas, pois para “impedir” que uma revista circulasse, o bolsonarista tratou logo de comprá-la (portanto, de estimular a tiragem).

À parte a graça, pouco ou nada se comentou sobre algo mais óbvio e fundamental. Pois esse manifestante não fez nada diferente do que já faz de costume igual a outros bolsonaristas: ele protesta – como diz Bolsonaro – dentro das quatro linhas da constituição, ou do que imagina serem essas linhas.

Por definição, um protesto ou manifestação jamais é algo “normal”. Protestos apenas ocorrem contra algum descontentamento ou injustiça (o nome “protesto” já o diz…). Logo, não há qualquer normalidade presumida, nenhuma cartilha de como um manifestante deve se manifestar, nenhum código de boa conduta.

Mas para o bolsonarista (ou para certos bolsonaristas) é diferente, pois ele aprendeu desde 2013 que protestos precisam ser “sem violência”, sem “quebrar vidraças” ou “sem atrapalhar o trânsito”, vestindo a camisa da seleção da CBF e outros quitutes. Ele aprendeu que toda manifestação deve ser “pacífica”, pois todos devem ir com a família pregar em praça pública pelo assassínio de opositores políticos ou pela morte coletiva de pessoas com COVID por omissão do Estado e da sociedade civil. O “protesto” bolsonarista é, com frequência, comportado.

Isso significa dizer que muitos desses aí nunca exerceriam violência. Mas como o diabo mora nos detalhes, aí está: não exerceriam violência com o próprio punho ou, se o fizessem, não exerceriam sem uma margem de segurança que não os comprometesse ou, ainda, não exerceriam violência porque escolhem de antemão alguém para fazer o trabalho sujo. E no caso, o ator delegado para a violência é o Estado. Ele é quem deve calar o discordante, rasgar as revistas ou matar os desafetos. Não é à toa que o twitter consegue tantas vezes emplacar a hashtag “eu autorizo”.

Há número considerável de pessoas pacíficas, perfeitamente eichmannianas, que não teriam sequer coragem de encarar alguém na rua. Mas elas se tornaram dispostas, nos últimos anos, a aceitar a existência e a colocação em ato de alguma máquina de violência para calar jornais ou pessoas, máquina preferencialmente estatal.

Quando alguém compra uma revista para rasgá-la, isso seria um gesto simplesmente ridículo se não tivesse contexto. Mas o contexto é o de que há milhões de pessoas ao redor que, além de verem esse meme, também viralizam outros memes sobre pessoas ou motivos que pregam a morte.

A imprensa e os professores: entre a inevitabilidade do ensino remoto e a inevitabilidade do retorno ao presencial

Há uma semana e após o pronunciamento do ministro da educação, houve uma reviravolta nas campanhas de imprensa sobre a COVID. De uma hora para a outra, a imprensa brasileira começou a falar sobre a inevitabilidade do retorno às salas de aula, sob a pena de um prejuízo irreversível para a educação brasileira.

Que houve prejuízo: isso é fato. Se o prejuízo é irreversível: isso é uma questão, pois em termos de sociedade estamos numa pandemia que oferece perigo a todos e não apenas a alguns (embora alguns tenham menos riscos do que outros). Nisso, seria mais do que razoável dizer que, enquanto as pessoas se protegem numa pandemia, as aulas deveriam ser suspensas até que o retorno seja possível (embora saibamos que não foi o que ocorreu).

Mas há aqui uma terceira questão e ela se refere à própria imprensa.

Em 2020, no momento em que se dizia que as aulas deveriam ser suspensas, os setores de EAD trataram rapidamente de se posicionar. Muitos artigos foram contundentes em dizer que EAD não é ensino remoto. Com isso, os setores de EAD tentavam defender-se de uma crítica evidente: ensino remoto não é EAD porque não é eficiente e não serve como equivalente.

Mas e quanto aos setores de ensino presencial? Não houve maior reação, ou ao menos reação suficiente para influenciar qualquer instância de opinião pública. O ensino “emergencial-remoto” foi distribuído como panacéia, praticamente da mesma forma como o boato do “tratamento precoce” começava a se alastrar como “eficaz” na boca do povo. Pois o ensino remoto e o tratamento precoce não foram implementados por uma agenda exatamente científica (no caso, pedagógica).

Como – diziam – era preciso reagir ao ensino remoto? É preciso parar de resmungar e reclamar, pois as pessoas deveriam adaptar-se aos “novos tempos”. O problema não era tanto o ensino ser remoto, mas apenas muitos alunos não terem internet, ou ainda, restava apenas a necessidade desse ensino ser adaptado. Deveria-se investir em soluções individuais de professores para novos formatos de aula. Especialmente nas faculdades privadas, não se via diferenças entre o normal e o remoto, e circulavam acusações contra as universidades públicas sobre não aderirem ao remoto. Não tardou para promotores e outros moverem ações públicas obrigando as instituições a se adaptarem, enquanto ONGs passaram a ajudar e estados utilizaram plataformas online.

Moral da história? A questão do remoto era vendida como simplesmente de acesso ou “desafio“, e não de metodologia ou perspectiva de aprendizagem. Ao contrário do que fizeram os setores de EAD, não vimos maiores restrições ou críticas quando se passava do presencial ao remoto. As críticas restringiam-se a comentar sobre as carências de acesso, isto é, de quem tinha ou não computador ou internet. Tudo se passava como se, entre o presencial e o remoto, tudo significasse a mesma coisa, apenas a ser adaptada.

Dezoito meses depois do início da pandemia, o cenário de repente mudou, quase que da noite para o dia. O ensino remoto, predominantemente dito como inevitável e necessário (apesar das eventuais críticas), de repente passou a ser divulgado como algo prejudicial. Os setores de educação, anteriormente constrangidos a aceitar o remoto (pois houve até político dizendo que professor não quer trabalhar), agora passaram a ser vistos como resistentes ao retorno ao presencial!

A necessidade agora é divulgada como urgente. O tom – diz O Globo – é: “mesmo com a reabertura de vários setores econômicos, alunos da maior parte dos estados continuam sem aulas presenciais”. Outros estados “sequer definiram” o retorno. O Estadão, por exemplo, critica os gestores por terem priorizado shoppings, bares e igrejas e não as escolas, ou realça que “só 12 estados” não retornaram ao presencial (são apenas 3 em agosto, diz a Folha). É daqueles momentos em que se vê a reportagem ceder ao mandamento, o jornalismo à publicidade: a economia voltou, mas os educadores tornaram-se de repente os próprios agentes, os sujeitos, os responsáveis quase criminosos pelo ensino remoto (e os gestores que demoram o retorno são simples relapsos).

É uma conversão impressionante, da passividade à atividade: primeiro constrangidos a aceitar a inevitabilidade do ensino remoto e os “novos tempos” do “novo normal”, de repente os setores de educação transformaram-se em instâncias resistentes ao retorno ao presencial.

Durante a escrita deste texto, apenas 37,3 milhões de pessoas já haviam sido vacinadas no Brasil (são 17,66%). Os professores receberam majoritariamente apenas a primeira dose. A variante Delta está circulando. E os epidemiologistas alertam: manter o vírus circulando poderá valer o surgimento de uma nova cepa que fure as vacinas, isto é, que nos leve de volta ao início de 2020.

O retorno às aulas presenciais e a imunidade de rebanho

O ministro da educação declarou nesta semana, em pronunciamento oficial, que “a vacinação da comunidade escolar não deve ser condição para a reabertura das escolas”.

Ao dizer isso, Ribeiro agiu como ministro da saúde, e não da educação. Educação diz respeito a políticas públicas de educação, inclusive as que deveriam ser feitas durante a pandemia e em defesa da não-infecção dos brasileiros. Já saúde diz respeito a fazer mandamentos e recomendações sobre saúde. E dizer que a vacinação não deve ser condição para a reabertura das escolas é um enunciado de saúde, não de educação.

Sendo um enunciado de saúde e não de educação, qual é a implicação efetiva e concreta dele? O que Ribeiro fez, quando disse que a vacinação não deve ser critério para o retorno às aulas presenciais?

Ribeiro adotou como sua a mesma política já adotada, mas não admitida, por Bolsonaro: não importa a pandemia, pois o que o Brasil deve obter é a dita “imunidade de rebanho“, isto é, infectar a população até que supostamente o vírus não mais se propague.

Ao fazer isso Ribeiro, e Bolsonaro, cometem certos enganos graves, isto é, crimes:

Em primeiro lugar eles usam um conceito falso, pois jamais, em epidemiologia, pregou-se que uma população humana deveria adquirir “imunidade de rebanho” sob a pena de morte de uma margem dessa população. “Imunidade de rebanho” nesse caso preciso não é um conceito, mas um pseudo-conceito, tal como “tratamento precoce”, “isolamento vertical” e outros que circulam no bolsonarismo.

Em segundo lugar, o uso desse conceito falso serve para propósitos políticos bem pensados. Qualquer outro governo que tenha pregado algo semelhante receberia o nome de genocida. A morte de parte da população (hoje: 545 mil mortos) em nome de uma suposta “imunidade de rebanho” é um crime, sobretudo quando se vê um governo trabalhando ativamente para isso. Dizer que uma categoria inteira, que mobiliza parte considerável da população, deve expor-se à contaminação e a certa margem de mortes sem a necessidade da vacina, não é nada menos do que uma atitude genocida.

Em terceiro lugar, tais atitudes implicam uma consequência ainda mais perigosa: a mutação do vírus. O retorno às aulas presenciais, sem uma população imunizada pela vacina, implica na probabilidade de surgirem novas cepas imunes às vacinas. Isso significaria tornar inútil tudo o que foi feito até aqui. E também agravar a crise, não do Brasil mas do mundo inteiro. E além disso, significa também transformar o Brasil num país-pária e indesejado por qualquer um que se diga humano.

O país do “caguei”

Nesta semana, ao ser demandado pela CPI da COVID a responder sobre seu envolvimento em irregularidades, Bolsonaro respondeu: “Caguei pra CPI!”. Ao lado, o sorriso do ministro Marcos Pontes saiu amarelo, envergonhado, quase tomando consciência do que estava fazendo ali, pois em algum momento ele percebeu que está ao lado de um presidente que diz estar cagando.

A cobertura sobre o evento foi estranha. O Jornal Nacional, por exemplo, resumiu-se a dizer que o presidente empregou uma “palavra chula”. A retórica do JN, com isso, tem sido curiosa: não mostrar nem a imagem e nem as palavras de Bolsonaro, resumindo-se a descreve-las como “chulas”.

Nesta mesma semana, Bolsonaro chamou Barroso, do TSE, de “imbecil” e “idiota”. A fala era ainda mais maluca do que a do “caguei”: parecendo aquele tiozão do boteco que abastece a vida arranjando confusão, cruzou os braços de um jeito estranho para falar de curvas de votação, disse que o mundo inteiro tem 271 átomos e emendou dizendo que por 271 vezes, nas eleições de 2014, as curvas de Dilma e Aécio ultrapassaram uma à outra, o que denotaria fraude.

Bolsonaro cometeu o desfeito lógico (sob seus próprios termos: a cagança) de dizer que tudo ocorria como os resultados de uma moeda jogada ao alto, e não como um processo de votação. Disse:

Depois que as curvas se tocaram, ou momentos antes das curvas se tocarem, era Dilma ganhou, Aécio ganhou, Dilma ganhou, Aécio ganhou. Por 271 vezes. É você jogar uma moeda 271 vezes para cima e dar cara, coroa, cara, coroa, cara, coroa

Diante desses feitos verbais, novamente o resultado foi curioso: nada. O presidente não foi cobrado a se responsabilizar por quaisquer de seus desfeitos (ou – falemos como o presidente do Brasil – “caganças”). Afinal, não está escrito na Lei do Impeachment que o presidente não pode “opor-se diretamente e por fatos ao livre exercício do Poder Judiciário” ou “usar de violência ou ameaça contra algum representante da Nação (…) para coagí-lo no modo de exercer o seu mandato”? Ou o que significaria atentar contra a CPI sob a forma do “caguei” e chamar o presidente do TSE de “imbecil” acusando (sem provas) o próprio sistema eleitoral que o elegeu de fraudulento?

Isso diz muito sobre o Brasil. Pois nesta mesma semana, o advogado da família do presidente enviou uma mensagem à jornalista Juliana Dal Piva com duplo valor retórico: ao mesmo tempo ameaça e sinalização aos fanáticos de WhatsApp. Resultado? Nenhum.

Mas convém explicar: nenhum para o advogado. Nem a OAB fez nada. Mas para Piva e o jornalismo brasileiro, o recado de ameaça é claro, tanto quanto o recado de ódio é claro para as hordas do WhatsApp.

Foi igual no caso da cúpula das Forças Armadas se pronunciarem contra a CPI da COVID. O senador Omar Aziz foi muito claro ao dizer que

os bons das Forças Armadas devem estar muito envergonhados com algumas pessoas que hoje estão na mídia, porque fazia muito tempo, fazia muitos anos que o Brasil não via membros do lado podre das Forças Armadas envolvidos com falcatrua dentro do governo

Mas – incrível manobra lógica – as FA tomaram a fala como uma acusação generalizada. Sabem que não foi. Mas repudiaram “veementemente” a fala do senador, dizendo que a acusação é “grave, infundada e, sobretudo, irresponsável”.

Novamente as orelhas deveriam estar em pé: está claro que a acusação não foi generalizada, o termo “lado podre” é nítido. Mais ainda porque há acusações sérias e é fato que há militares envolvidos. Mas o comandante da Aeronáutica conseguiu emendar um incrível duplipensar: ao mesmo tempo ele pede que as instituições sejam respeitadas e ameaça as instituições e a democracia dizendo: “não enviaremos 50 notas” (de repúdio). Pois o tom é de ameaça!

O recado é mais do que claro, e não adverte nem contra Aziz, nem contra o jornalismo, nem contra o TSE. Numa democracia, quem deveria ser cobrado pelo que diz é o presidente, seu advogado e os chefes das FA. Quanto a estes últimos, no momento em que os militares, que deveriam estar em suas casernas, interferem em assuntos civis e são suspeitos de corrupção civil, eles mais do que sabem que é preciso haver interrogação e transparência na esfera civil, sem o que – aí sim – as instituições é que são atentadas. Pois o Brasil não tem horda ou milícia, e sim forças armadas. Ou não?

A cereja do bolo é o cozinheiro que foi preso porque postou numa rede social uma contrariedade contra o presidente.

Moral da história: um presidente pode chamar quem quiser de imbecil e dizer que está cagando para as regras ou o próprio senado. Um cozinheiro pego reclamando contra o presidente é preso. Um senador que acusa a banda podre dos militares é ameaçado pela cúpula militar, que adverte não alertar duas vezes. Que impressionante economia do que pode ser dito e feito!

Hannah Arendt dizia muitas vezes que é preciso notar quando, numa sociedade, o jornalismo, o poder judiciário e as universidades são atacadas, pois estes representam instituições necessariamente envolvidas com a verdade quando a política nem sempre o é. Nos casos acima, vemos no espaço de uma semana o sistema eleitoral, a harmonia dos poderes e o jornalismo sob claras ameaças. E o tom é o do “caguei” alçado a regra universal. Um país do qual se pode cagar com o que se discorda. Numa tacada, vai-se da democracia ao flatus vocis e à simples flatulência verbal e existencial.

É isso que o Brasil quer? Pois as preocupações parecem bem longe disso tudo. Quem não está enterrando seus mortos de COVID ou tratando de seus sequelados, preocupa-se em falar da Copa América e repetir com as correntes de WhatsApp que está tudo bem. Mas é preciso dizer: nem essas mortes e nem essa ilusão de normalidade se desvinculam do que nossas autoridades tem dito e feito.

Mas a afronta verbal hoje anuncia a afronta física de amanhã.