Há muitos anos eu tinha uma amiga que recebia muitos estrangeiros. Perguntei a ela o que eles achavam mais legal no Brasil, e ela respondeu sem titubear: a natureza. Os gringos ficavam simplesmente embasbacados de ver a exuberância natural do Brasil, e o ponto alto – estávamos em Curitiba – era pegar o trem na ferrovia entre Curitiba e Paranaguá para contemplar a Mata Atlântica.
Lá se vão mais de 20 anos, e volta e meia vou ou ouço falar do Paraná. A última notícia que eu soube (e motivou a escrever esse texto) é a de um homem que subiu o muro para olhar uma confusão e foi baleado na cara. O atirador alegou “legítima defesa”. O assunto é tão absurdo (e fruto da paranóia bolsonarista sob a modalidade paranaense) que me parece interessante comentar um pouquinho sobre o Paraná.
Uma das primeiras coisas estranhas, olhando de 15 anos para cá, é a mudança do sotaque. As ciências humanas dizem que o sinal mais importante de que um povo foi conquistado é a mudança em sua linguagem. No Brasil do século XIX, falávamos uma série de idiomas que, reunidos, ficavam sob a alçada do nheengatú. Falar português por aqui não foi um processo fácil, global e contínuo. Mas voltando ao Paraná, é incrível como o velho sotaque interiorano estilo “poRta abeRta” ou “leitE quentE”, bem carregado, cedeu lugar ao cariocado “leiti quenti”.
Você chega no aeroporto em Curitiba e a mulher do táxi diz, misturando o sotaque antigo com o novo: “você quer transpoRti?” A mudança linguística não é apenas um simples acaso, e não carrega consigo apenas maior mistura do curitibano e do paranaense com os brasileiros de outras regiões, simplesmente porque as outras regiões também se misturam sem alterar seus sotaques. O que parece surpreendente é o fato de que, se mudou a língua, é porque algo da identidade também mudou.
E sobre a identidade do curitibano, há coisas que são difíceis de descrever, especialmente para quem enxerga as coisas de dentro. Mas o paranaense e o curitibano poderiam ser convidados a tentar notar como é que era e é a vegetação de seu lugar, e como é que foi e é a urbanização das cidades, as alternâncias no poder político, como anda o nível de vida, a solidariedade social e a civilidade.
Parece que, para cada tema, houve mudanças importantes no modo de ser do curitibano e do paranaense, mas que eles sequer notam.
Há um certo mecanismo de defesa que é muito interessante, e geralmente se aplica a povos que estão em crise. É aquele no qual, para afirmar quem é, o habitante de um lugar o faz por contraste. Em Curitiba e no Paraná, abundam as comparações com “o Nordeste”. No carnaval, vi mais de uma vez o meme com o mapa do Brasil, no qual se mostra o Brasil inteiro em carnaval, mas no sul estava escrito “aqui se trabalha”. Esse slogan, aliás, é o mesmo do governo do Paraná, aquele que dá continuidade a todos os governos das últimas décadas.
As propagandas desses governos, aliás, se fazem quase sempre por contraste, direto ou velado. Dizer “aqui se trabalha” significa dizer “ali não se trabalha”. É dar uma marca para si próprio distinta dos demais, mesmo que isso seja mentira. Pois o paranaense e o curitibano, infelizmente, não viajam tanto assim, e menos ainda ao nordeste. E quando o fazem, em geral é com aqueles pacotes estereotipados e viciados por resorts e o que o valha.
Enquanto isso, mesmo depois da pandemia, ou em qualquer ENEM que se queira, basta ver como os índices e o nível de vida no Nordeste mudou radicalmente. Mas para o sulista, o paranaense, o curitibano, muitas vezes fica a fantasia do “aqui se trabalha”.
E sobre o “aqui se trabalha”, seria interessante também dar uma olhada no “aqui”. As ruas escancaram mendigos que discordam de muita coisa, e o mesmo ocorre no recuo dos serviços urbanos, como os ônibus, e mesmo os ônibus de companias privadas intermunicipais.
E há também as florestas… Há 25 anos a Mata Atlântica era incrível e os gringos iam para o Paraná ficar embasbacados. Será assim hoje? Ou a Serra do Mar virou um filete de mata para inglês ver? E o que dizer de como andam os vizinhos?