Estar absorto num mundo disperso

Quando criei o Catatau em 2006, ele foi extensão de outro blog do blogspot. Eu queria algo alternativo ao Google e encontrei o wordpress e o blogsome.com, um excelente servidor de blogs (infelizmente descontimnuado).

No blogspot, já havia me tornado leitor de alguns blogs preciosos. Um deles é o Absorto, escrito por Eduardo Graça, muito ligado à arte, filosofia e literatura.

Com as redes sociais os blogs se esvaziaram. O Catatau, então, tornou-se um zumbi virtual. Mas que surpresa saber que, em mais de 20 anos, o Absorto continua postando regularmente suas impressões sobre o mundo.

O que o Eduardo Graça faz é uma arte bastante singular: escrever no século XXI sem simplesmente cair na injunção ao engajamento e às confissões pessoais atrás de seguidores. Ele enfrenta, então, o desafio de encontrar a si, ao mundo e às outras pessoas mesmo apesar do que se tornou a internet (e do que ela tem nos tornado).

“Segue a gente aí”

Lá estava tomando um café na rua, quando de repente vem de assalto uma mulher e um homem, os dois com um smartphone filmando tudo e sem margem para reação.

Ela diz que está sorteando algo para quem a seguir nas redes. Um papelzinho plastificado mostra alguns ícones. E a câmera ali, apontada para você como se congelasse a iniciativa (e sem permissão de filmagem). Entre o espanto e o embaraço, minha resposta sai:

– Não, obrigado.

Ela sai comentando com o rapaz: “Viu, não dá”. Sem deixar de filmar, o rapaz começa a incentivá-la. E mais adiante lá estavam, corajosos e conseguindo três seguidores (dá para imaginar o enredo do post ao fim do dia: a dificuldade inicial – o incentivo corajoso – a luta pela conquista – a vitória final, com 38 novos seguidores).

Entro então numa loja. O anfitrião dá um panfleto e diz “segue a gente nas redes sociais”. Só podia ser pegadinha. E duas quadras acima, café na mão, um daqueles garotos, projeto de influencer de ultra-direita, buscava mais seguidores. Ele parecia viver nos anos 1970, pois perguntava às pessoas se o melhor regime é o capitalismo ou o comunismo. Só que estava em 2024 e com um smartphone na mão.

Há algo estranho no ar. As pessoas parecem viver para serem seguidas. E onde? Naquelas redes sociais que lucram com qualquer engajamento e não importando o tema.

Ao fim do dia, resultado na França: a ultradireita lidera com 33% dos votos.

Catatau no Fediverso

Este weblog morto-vivo entrou para o fediverso (Mastodon e outros). Seu endereço é

catatau.wordpress.com@catatau.wordpress.com

E o Paraná?

Há muitos anos eu tinha uma amiga que recebia muitos estrangeiros. Perguntei a ela o que eles achavam mais legal no Brasil, e ela respondeu sem titubear: a natureza. Os gringos ficavam simplesmente embasbacados de ver a exuberância natural do Brasil, e o ponto alto – estávamos em Curitiba – era pegar o trem na ferrovia entre Curitiba e Paranaguá para contemplar a Mata Atlântica.

Lá se vão mais de 20 anos, e volta e meia vou ou ouço falar do Paraná. A última notícia que eu soube (e motivou a escrever esse texto) é a de um homem que subiu o muro para olhar uma confusão e foi baleado na cara. O atirador alegou “legítima defesa”. O assunto é tão absurdo (e fruto da paranóia bolsonarista sob a modalidade paranaense) que me parece interessante comentar um pouquinho sobre o Paraná.

Uma das primeiras coisas estranhas, olhando de 15 anos para cá, é a mudança do sotaque. As ciências humanas dizem que o sinal mais importante de que um povo foi conquistado é a mudança em sua linguagem. No Brasil do século XIX, falávamos uma série de idiomas que, reunidos, ficavam sob a alçada do nheengatú. Falar português por aqui não foi um processo fácil, global e contínuo. Mas voltando ao Paraná, é incrível como o velho sotaque interiorano estilo “poRta abeRta” ou “leitE quentE”, bem carregado, cedeu lugar ao cariocado “leiti quenti”.

Você chega no aeroporto em Curitiba e a mulher do táxi diz, misturando o sotaque antigo com o novo: “você quer transpoRti?” A mudança linguística não é apenas um simples acaso, e não carrega consigo apenas maior mistura do curitibano e do paranaense com os brasileiros de outras regiões, simplesmente porque as outras regiões também se misturam sem alterar seus sotaques. O que parece surpreendente é o fato de que, se mudou a língua, é porque algo da identidade também mudou.

E sobre a identidade do curitibano, há coisas que são difíceis de descrever, especialmente para quem enxerga as coisas de dentro. Mas o paranaense e o curitibano poderiam ser convidados a tentar notar como é que era e é a vegetação de seu lugar, e como é que foi e é a urbanização das cidades, as alternâncias no poder político, como anda o nível de vida, a solidariedade social e a civilidade.

Parece que, para cada tema, houve mudanças importantes no modo de ser do curitibano e do paranaense, mas que eles sequer notam.

Há um certo mecanismo de defesa que é muito interessante, e geralmente se aplica a povos que estão em crise. É aquele no qual, para afirmar quem é, o habitante de um lugar o faz por contraste. Em Curitiba e no Paraná, abundam as comparações com “o Nordeste”. No carnaval, vi mais de uma vez o meme com o mapa do Brasil, no qual se mostra o Brasil inteiro em carnaval, mas no sul estava escrito “aqui se trabalha”. Esse slogan, aliás, é o mesmo do governo do Paraná, aquele que dá continuidade a todos os governos das últimas décadas.

As propagandas desses governos, aliás, se fazem quase sempre por contraste, direto ou velado. Dizer “aqui se trabalha” significa dizer “ali não se trabalha”. É dar uma marca para si próprio distinta dos demais, mesmo que isso seja mentira. Pois o paranaense e o curitibano, infelizmente, não viajam tanto assim, e menos ainda ao nordeste. E quando o fazem, em geral é com aqueles pacotes estereotipados e viciados por resorts e o que o valha.

Enquanto isso, mesmo depois da pandemia, ou em qualquer ENEM que se queira, basta ver como os índices e o nível de vida no Nordeste mudou radicalmente. Mas para o sulista, o paranaense, o curitibano, muitas vezes fica a fantasia do “aqui se trabalha”.

E sobre o “aqui se trabalha”, seria interessante também dar uma olhada no “aqui”. As ruas escancaram mendigos que discordam de muita coisa, e o mesmo ocorre no recuo dos serviços urbanos, como os ônibus, e mesmo os ônibus de companias privadas intermunicipais.

E há também as florestas… Há 25 anos a Mata Atlântica era incrível e os gringos iam para o Paraná ficar embasbacados. Será assim hoje? Ou a Serra do Mar virou um filete de mata para inglês ver? E o que dizer de como andam os vizinhos?

O silêncio

Comecei a tentar escrever um texto sobre como o direito ao silêncio seria importante aos brasileiros: o silêncio, ao invés de reforma e makita no sábado de manhã e funk de madrugada, tocando o fd-se para os vizinhos.

Mas respeitar o silêncio é tão fora de cogitação para o brasileiro que… ficarei em silêncio.

Medicina de protocolos

Todas as minhas idas a médicos, nos últimos anos, fornecem uma visão apocalíptica sobre a medicina, pois praticamente sempre os médicos tem feito observações erradas (cujo erro só descobrimos depois) e receitado remédios inócuos.

Há alguns dias tive COVID e o médico, apresentando-se como neurologista, me receitou: Azitromicina, um Xarope e Dipirona. O diálogo sobre a azitromicina foi simplesmente surreal:

– Esse remédio aqui, azitromicina, é um anti-inflamatório?
– Não, ele é antibiótico.
– Mas COVID… não é vírus?
– É um vírus, mas azitromicina é antibiótico
– E…
– E apesar de azitromicina ser antibiótico, há experimentos que demonstram que ele diminui a população dos vírus COVID. Além disso, receitei a você um xarope, que é antiviral.

Não consegui saber que tipo de reação adotar, pois o médico estava praticamente rindo da minha cara. E pior: rindo sério. Pois xarope não é antiviral, e sim expectorante. E azitromicina não diminui a população do coronavírus em situações clínicas nem aqui, nem na China.

O médico estava simplesmente repetindo a lorota bolsonarista que fala daqueles experimentos nos quais, em situação laboratorial, uma solução hiperconcentrada de cloroquina, ou de azitromicina, levou à diminuição do coronavírus. Pois bem: nos mesmos experimentos, doses menores de leite levavam ao mesmo… Mas nenhum médico passou a receitar leite para COVID, pois sequer isso faria sentido.

Medicina de protocolo

Por que isso ocorre? A resposta mais clara é o tipo de medicina e de educação médica que se tem adotado nos últimos anos a partir das faculdades particulares, com seus programas pré-formatados, ensino online e experiência clínica “presencial” reduzida.

Ao invés de aprender medicina – a tradição médica de clínica e de experimento, que leva o conhecimento de anatomia, fisiologia e patologia à clínica seguindo tradições como a de Claude Bernard e outros -, um estudante de medicina cada vez mais aprende protocolos semelhantes aos que oferecem os seguros de saúde. Não se tem mais o cultivo de um conhecimento profundo do corpo, e sim de protocolos nos quais para certo acometimento, recomenda-se certo encaminhamento.

É assim que um médico pode receitar azitromicina para COVID sem isso fazer qualquer sentido.

É assim por meio disso, também, que temos cada vez mais a seguinte experiência:

Vamos a um médico que sequer dá uma resposta à nossa doença. Quando muito, ele fornece uma espécie de ensaio de tentativa e erro: receita um remédio e pede para ver se vai funcionar, com a condição de que, não funcionando, voltemos alguns dias depois. Ou ainda: o médico não dá uma resposta e nem encaminhamento, receitando, soltamente, algum remédio.

Saímos desse médico com a impressão de que nós é que deveríamos ter sido formados em medicina para sermos capazes de escolher um médico que diagnostique e encaminhe nossa questão.

Limpeza étnica e biopolítica

Estava aqui lendo o vol. I da História da Sexualidade (A Vontade de Saber) e parece difícil não entender o que ocorre hoje em Israel, sob a limpeza étnica da Palestina, como uma espécie de consequência natural das políticas disciplinares e biopolíticas descritas por Foucault.

Ele demonstra muito bem como as práticas de segregação populacional se coadunam com a identificação de certo corpo “social” – naquele caso (de Foucault), ligado ao europeu do século XIX e ao avanço e universalização das sociedades ditas “burguesas”.

Pois bem: o sionismo e a idéia de criar um estado de Israel independente, governado por judeus e preferencialmente (não exatamente necessariamente, mas preferencialmente, o que explica tanto) preenchido por judeus, cabem muito bem no esquema de Foucault (Cf. por ex. as últimas páginas de “O dispositivo da sexualidade”, p. 164-seg, da edição de 1976).

A pergunta que fica é na linha de Ilan Pappé: na impossibilidade de pensar um estado compartilhado as dores perdurarão até quando?

Napoleão, de Ridley Scott

Assisti Napoleão e é surpreendente saber que o filme é de Ridley Scott, de tão ruim. O filme é um retrato de nossa época: muito bem produzido, extremamente mal amarrado.

Por vezes perguntei se aquilo era um repeteco de Joaquin Phoenix fazendo Coringa. Por outras, a impressão é a do vazio nos saltos de narrativa, nos cortes não explicados, nas batalhas sem sentido, no enredo sem contexto. Nem na biografia, nem no contexto histórico ou político, em nada o filme mostra conexões, mesmo saltando anos na narrativa.

É um filme horrível em 2:40h.

Mas talvez a explicação para isso esteja no fato de que a versão do diretor, que sairá pela Apple TV, tem 4 horas de duração. É esperar e ver.

Regra esquecida

Sempre imaginamos o futuro sob as condições do presente. Mas no futuro estaremos mais velhos e todas as condições terão mudado.

Milei e a Internacional Fascista

Milei é uma espécie de Menem 2.0 turbinado com Tiririca (à la Zelenski) e a mitomania bolsonarista. Ao que tudo indica, ele emprestou toda a linguagem da ultradireita, atualizou e os argentinos caíram na lorota.

E a lorota não é nada mais, nada menos, daquilo que Hannah Arendt chamava de “Internacional Fascista” e Giuliano Da Empoli chamou mais recentemente de “Internacional Nacionalista“: os mesmos discursos, as mesmas táticas, sem qualquer vinculação com o real, mas extremamente adequadas (em nosso caso) às redes sociais. Os bits que carregam mentira também carregam emoções, e aqui está onde o fascismo vingou e vinga.

Que Milei tenha sido eleito é importante ater-se ao que ele diz e faz, pois isso também será importado para outros lugares, inclusive para o Brasil. Há quem diga que o idiotismo político aqui de plantão poderá, inclusive, pesar a mão contra os opositores (algo que não deixamos acontecer no bolsonarismo).

Num vídeo recente, Milei chama os “esquerdistas” de “merda” e a jornalista fica indignada com o tom e a agressividade. Ele então emenda: é preciso chamá-los assim porque não se pode dar espaço algum à esquerda, logo agora que a ultradireita estaria “vencendo” (inclusive na estética, dizia…). Dar alguma voz à esquerda (isto é, a qualquer opositor) significa dar lugar para que ela aniquile a nós, o adversário, a ultradireita. Então seria preciso, mais do que nunca, esmagar os “esquerdistas” antes que eles nos esmaguem.

A semelhança com os discursos nazi-fascistas de outrora é imensa. E o mesmo com o modo de “acusar no outro o que eu mesmo faço”, o que Leticia Cesarino chama muito bem de mímese inversa.

São tristes dias para a Argentina e dias preocupantes para a América Latina e o mundo. Muito embora o Real esteja aí e se faz valer (como fez valer no início dos anos 2000 na Argentina).