Quando o Israel começou a atacar os palestinos para revidar o Hamas, rapidamente se espalhou entre certos evangélicos brasileiros um tema: vivenciamos o fim do mundo. Muitos desavisados correram para Bíblias sem notas de rodapé e, por coincidência de palavras, cometeram interpretações freestile para declarar que, mais uma vez, vivemos o fim dos tempos.
Essa onda de interpretações é curiosa por algumas razões. Em primeiro lugar a pandemia, que nos trouxe um dos quatro cavaleiros do apocalipse (a Peste), jamais despertou esse tema nos crentes. O que se via era um negacionismo radical e uma postura muito ativa contra os cuidados pessoais, algo que contribuiu para a Peste ceifar 700 mil vidas. As igrejas, inclusive, tiveram papel absolutamente ativo, ou ao menos aquelas que foram contra as medidas de proteção social (e qual foi a favor?).
Em segundo lugar, essa narrativa sobre o fim dos tempos parece uma variação daquele tema brasileiro de que “político não presta mesmo”. Pois, em política brasileira, todo mundo sabe que o único partido que recebe algum tipo de crítica é o PT. Retirando o papel de Lula e do PT (criticáveis também pelos petistas), em muito a percepção das pessoas sobre a política se divide entre escolher o “meu candidato”, de um lado, e de outro simplesmente não dar a mínima e dizer: “nenhum político presta”. Tudo deixa de ser política e emula os discursos do futebol, pois se trata de escolher ou a minha fé cega em alguém, ou o descrédito do adversário. E é por isso mesmo que, frequentemente, quando o “meu candidato” é pego num esquema de corrupção (algo frequente), sempre sobra a segunda opção, um sonoro “mas político não presta mesmo”. Quem diz isso sabe que a receita funciona, pois se nenhum político presta (embora o meu prestasse até agorinha…), eu não preciso me responsabilizar por ter escolhido errado.
No que isso se parece com a narrativa do “fim do mundo”? É que a postura de negação sempre retira daquele que nega qualquer responsabilidade sobre o que diz ou faz. Declarar que a Bíblia já profetizou a matança na Palestina equivale ao preguiçoso “mas político não presta mesmo”: substituímos a busca dos motivos históricos de um evento para simplesmente tocar um foda-se mais sofisticado. Afinal, dizer que vivenciamos o fim dos tempos faz com que eu não precise buscar as razões envolvendo a Palestina; dizer que “nenhum político presta mesmo” me retira da responsabilidade de votar igual brinco sobre o pavê do fim de ano.
Isso tudo testemunha como vivenciamos hoje as narrativas mais freestile possíveis sobre Jesus, a Igreja e a Bíblia. Parece que qualquer coisa pode ser afirmada, desde que se coloque junto algum palavreado bíblico junto.
O assunto é bem próximo da dita “teologia da prosperidade”, e da moda dos “cultos de primícias”. Hoje há cultos nos quais parecemos estar numa espécie de pirâmide financeira. Fala-se toda hora em dinheiro e bens de ostentação e há relatos de doações mirabolantes seguidas de grandes “graças”. Livros como o de Jó ou passagens como aquela sobre a moeda e César (“a César o que é de César”), ou ainda sobre o escorraçamento dos vendilhões do Templo, ou ainda sobre ser mais fácil um camelo passar por uma agulha do que um rico entrar no Reino dos céus parecem simplesmente ignorados, quando não minimizados ou relativizados (séculos de interpretações e duros debates teológicos são dispensados num tapa). Isso tudo é muito interessante porque os primeiros protestantes, para se protegerem, instauraram contra os católicos grandes debates sobre a fé e as obras. Mas o século XXI substituiu sem atalhos as obras pelo puro e simples dinheiro.
Há um Jesus freestile muito “vivo” circulando por aí, e sequer comentamos sobre aqueles cristãos que defendem a pena de morte ou o armamento. Cria-se igrejas inteiras que parecem mais sucursais de empresas de fundo de quintal do que igrejas propriamente ditas. O linguajar ali dentro é empresarial, e é nesse contexto que os “cultos de primícia” caem como mão e luva. E há também um privilégio concedido ao Velho Testamento e a certa visão de uma Israel branca e ocidentalizada, com símbolos estereotipados, para afastar do crente o imaginário da Igreja Católica (enfraquecido, mas ainda poderoso).
Essas manobras todas acompanham doutrinas cuja profundidade é a de uma poça d’água. Mas a questão mais profunda, aqui, é exatamente essa: a proliferação das igrejas monetizadas e freestile não é uma simples questão de erro de doutrina, e sim de homologia dessas novas igrejas para com as redes sociais, a ascensão da ultradireita e o dito “neoliberalismo” dos tempos atuais.
Começamos a viver um mundo no qual os adultos formaram suas cabeças inteiramente sob a linguagem das redes sociais, mas não só: essas novas gerações também se formaram distantes daquele velho primado da Igreja Católica, muitas vezes vista como distante e sem graça. Isso tudo também diz respeito à desestruturação do mundo do trabalho tal como o conhecíamos no século XX e ao advento de um mundo no qual é “cada um por si e Deus por todos”. Um mundo no qual todo mundo se resume a ser empreendedor de si é também aquele no qual cada um deve achar um mundo para chamar de seu.
Comunidade, Ekklesia? É coisa de comunista. O Jesus que partilhava o pão se transforma num Jesus freestile.