Assim que for aprovada, uma vacina contra Covid-19 não deve ser oferecida para toda a população em 2021, mas apenas para grupos de maior risco de exposição e complicações pela doença, informou o Ministério da Saúde. Um plano preliminar deve ser compartilhado com especialistas e secretários de saúde na terça (1º). A pasta já vinha falando em iniciar pelos casos prioritários, como idosos, doentes crônicos e profissionais de saúde. ‘Não temos vacina para toda a população. Além disso, os estudos não preveem trabalhar com todas as faixas etárias inicialmente’, declarou a coordenadora do Programa Nacional de Imunizações, Francieli Fantinato. O secretário-executivo do Ministério da Saúde, Elcio Franco, comparou a estratégia com a das campanhas de vacinação contra a gripe. A priorização depende do cenário epidemiológico e das indicações dos imunizantes.
O governo Bolsonaro não consegue enunciar uma medida que não envolva um jogo de negação e de “nós contra eles”.
Só em torno da vacina:
não pode ser chinesa (falso, pois praticamente todas usam insumos chineses),
deve haver “liberdade” para escolher ser vacinado ou não (falso problema e polarização, uma vez que não se trata de ser livre ou não, mas de ser negligente ou não para com uma doença que afeta a liberdade alheia)
a OMS não vale e Tedros Adahnon não é médico (duplamente falso: é possível ser doutor em saúde pública e o próprio governo usa ideologia barata para dizer que a medicina, que nega a eficácia da cloroquina, é “ideológica”)
saindo a vacina, nem todo mundo pode ser vacinado (igualmente falso, pois depende de vontade política e de política pública e não de orçamento)
São séries e séries de enunciados falsos, baseados em pura e simples polarização. Retire isso? O governo cai como um saco vazio.
Vindo de um ministro da educação, isso é tão tosco, mal intencionado e de baixo calão que não deveria passar despercebido, especialmente pela comunidade acadêmica. Pois na mesma tacada ele simplesmente assinou um atestado de que não tem credibilidade para ser ministro e não tem a mínima idéia do que está dizendo.
Dentro da discussão pedagógica, é óbvio que Paulo Freire e Piaget possuem teorias diversas. Mas caso se erga o olhar um pouquinho, esses dois autores são conhecidos como educadores interacionistas: eles supõem que ninguém aprende com muito sucesso algo que não faça sentido para si próprio, que não faça parte de suas estruturas prévias de aprendizagem ou dos objetos do mundo social que o interpelam. Piaget (dentro de seu estruturalismo) e Freire (dentro de sua abordagem sociocultural) dizem o que deveria já ser óbvio: as crianças, para aprender, precisam interagir com questões que digam respeito à sua realidade, a seu contexto, ao universo de seus objetos de uso. Não se aprende quando não se é sujeito da própria aprendizagem, quando o professor, ou o método, tentam passar coisas que não façam o menor sentido.
Aprendizagens mecânicas, de cartilha, de memorização associativa e repetição, são cientificamente limitadas (há décadas de estudos que foram desbancando as abordagens associacionistas) e historicamente foram mal sucedidas quando aplicadas em diferentes contextos. Não é à toa que toda a pedagogia do século XX tentou mudar os modelos mecânicos e associativos. Estes modelos tradicionais são o da aprendizagem que vai “da parte ao todo”, do simples ao complexo: buscam, a partir da redução a elementos simples de aprendizagem e sua crescente combinação, partir para a composição de aprendizagens mais complexas. O método fônico faz parte dessa tradição.
O que se descobriu em longa série de experimentos, inclusive com animais, é a limitação da perspectiva tradicional. Começa ao menos no início do século XX pela Psicologia da Gestalt que, no mesmo terreno da Psicologia Animal (que é o dos behavioristas e de Ivan Pavlov), demonstrou que a aprendizagem “da parte ao todo” é apenas um dos aspectos da aprendizagem e não se poderia ignorar outros aspectos, os que vão do “todo”, do contexto, do modo como alguém vê o mundo, às “partes”, ao modo como cada nova aprendizagem é assimilada pelas aprendizagens anteriores.
Mas isso não quer dizer nem que Paulo Freire, nem Piaget, nem as abordagens construtivistas, nem os pedagogos contemporâneos (sejam eles de “esquerda” ou “direita”), reneguem questões associativas e a aprendizagem mecânica ou por repetição. Ocorre que são aprendizagens, mas não são “a” aprendizagem, conforme dito acima. Nenhum pedagogo contemporâneo negaria a credibilidade de aprendizagem por fonemas, letras, sílabas ou qualquer unidade básica suposta de aprendizagem. Mas ocorre que nenhum pedagogo contemporâneo também teria a imprudência de ignorar que uma criança aprende a partir do contexto no qual se insere.
Quando Weintraub condena Paulo Freire e elogia Piaget, não tem idéia do que diz. O mesmo quando elege o “método fônico” e Piaget como iguais, colocando-os lado a lado. Conforme suas palavras, ele estaria com isso refutando uma “unanimidade” dos educadores (que não existe, e aqui ele mente), “unanimidade” que seria ligada à esquerda (outra mentira).
Ele também recomenda o método fônico, mas diz que qualquer outra abordagem deve ser “científica”. Isso envolve outro sofisma muito perigoso, pois quer que as pessoas acreditem que a “unanimidade” suposta por ele é uma unanimidade “de esquerda” e, portanto, “não-científica”. Logo, qualquer coisa que soe semelhante ao que o ministro acusa é… não-científica e de esquerda. Está na cara que o ministro nunca pisou num departamento de Educação.
Essas falas são péssimas para a discussão pública. Passa-se posições como se fossem verdadeiras por si só. Pior ainda: se alguém aceita as palavras de Weintraub, tem que aceitar também o que as posições dele subentendem, e elas subentendem “inimigos” de “esquerda” que estariam desvirtuando o debate científico e a educação. Não à toa Paulo Freire aparece aqui como o exemplo de um marco a combater. Marco que, segundo Weintraub, sequer é citado em outros países, o que é outramentira.
Mas há mais. Quando Weintraub identifica uma discussão científica com uma posição meramente política, ele repete um velho recurso de condenação. Isso já aconteceu na História. Na União Soviética de Stalin, tentava-se fazer exatamente a mesma coisa. Colava-se na ciência do ocidente, não importa o que dissesse, a etiqueta de “burguesa”. Assim a União Soviética embarcou em duas viagens alucinantes durante anos: criou uma “biologia mitchuriana”, marxista, a partir do cientista Trofim Lyssenko (que negava as biologias ocidentais e o darwinismo “burguês”!); e generalizou a Reflexologia de Pavlov como Psicologia oficial do regime.
Quando o governo Bolsonaro e Weintraub juntam discussão científica com o ranço político, não há como não pensar no stalinismo (ou também em certo olavismo de plantão). Só que a História já ensinou o que acontece quando querem penhorar refutação da ciência com perseguição política.
Seu ranço contra a universidade é indiscutível, embora seja também nítido que ele não tenha visão sobre todos os campos do saber (inclusive da educação) e aparentemente não queira saber, o que se reflete na ação sempre conflituosa, ressentida e de enfrentamento, na falta de transparência das discussões públicas e no “Future-se” ser uma proposta sem qualquer tato acadêmico (pois só fala em mercado, além de faltar transparência).
Sem desenvoltura e produtividade, Weintraub não parece conhecer inclusive os trâmites da produção acadêmica e o próprio sentido de “produção”. Para ele, produção se confunde com “número de citações” e “artigos de revista de impacto”. Isso não garante por si só qualidade (é fácil haver endo-citações e publicações de autoridade sem qualidade, por exemplo) e não faz juz às diversas dinâmicas de produção.
Publicar um artigo numa revista de pesquisas contemporâneas de Genética ou descobrir um novo raciocínio filosófico são tarefas com pesos, medidas, públicos e “impactos” bem diferentes. Não se publica em Psicometria como se resolve um problema de Física Teórica ou de Filosofia. Em áreas diferentes não se produz o mesmo número de artigos, e nem artigos de mesma importância, ou sob prazos de reconhecimento ou importância correspondentes. Artigos muito citados num momento são logo esquecidos; outros, não citados, podem ser retomados anos depois. Não há como dizer que em Psicometria, em Física teórica ou em Filosofia um artigo vale igualmente em todas as áreas como “n=1”.
Áreas diferentes possuem inclusive revistas diferentes, alcance diferente, critérios e rigor diverso. Uma descoberta num campo tem menor valor do que o desenvolvimento de uma idéia em outro. Algumas áreas requerem revisão bibliográfica para começar o desenvolvimento de uma idéia; outras, desenvolvem uma idéia para colocar à prova a produção bibliográfica existente. E há, ainda, inúmeros campos de conhecimento locais e portanto de menor público e alcance. A pesquisa em História do Brasil não tem o mesmo alcance e público do que a resolução de um problema físico resolvido numa PRL. O PhilPapers não tem o mesmo âmbito que o ArXiv. O desenvolvimento de uma startup nada tem a ver com o paciente trabalho junto a uma tribo indígena (trabalho discreto e demorado – quem iria financiar isso?) .
E se a turma de Weintraub vier dizer que coisas “teóricas” e “abstratas” não servem para nada, e coisas “técnicas” é que servem, basta lembrar do caso de Einstein, fora da universidade, trabalhando como secretário e resolvendo problemas “irrelevantes” com pensamentos inóspitos (como os da geometria não-euclidiana).
A história da ciência está repleta de exemplos de problemas que foram resolvidos das formas mais inesperadas. Um dos maiores ensinamentos da história das ciências, inclusive, é o fato de que problemas científicos são muitas vezes resolvidos por questões não científicas. Muito do raciocínio da física clássica foi emprestado da anatomia de Vesalius. Físicos importantes, como Ernst Mach, tinham como interlocutores gente que ficou para trás na História, como Gustav Fechner (dado por muitos como místico). E assim por diante, é impossível reduzir a idéia de universidade a apenas um de seus aspectos – como o da pesquisa aplicada ou o mercado – sem feri-la por inteiro.
É claro que a universidade também tem distorções e desmandos. Mas o modo de vencê-los seria simplesmente garantir que a lei se cumpra. As leis brasileiras são muito boas. O grande problema do Brasil, em tudo, não é a existência das leis, mas o fato de que nunca são aplicadas.
Agora, quem muda as leis por aqui diz menos sobre os problemas que alega enfrentar do que sobre si próprio. Inclusive quando quer destruir a idéia constituída sobre o que é a Universidade.
Depois veio a PEC 241. Havia 12 milhões de desempregados no governo Temer, e se a PEC não passasse, os empregos, a confiança, os investimentos não retornariam. Diziam: é preciso “recuperar a confiança do mercado, gerar emprego e renda”
Depois veio a Reforma Trabalhista. Adivinhem? Com menos direitos, os empregos, a confiança, os investimentos retornariam. Só que… parece que não havia faltado aviso.
Com tanto alarde, os empregos já não deveriam estar cruzado o horizonte, chegando à cidade? Não. Os dados mostram outra coisa.
Em primeiro lugar, não houve maior alarde sobre a relação reforma x emprego. Em segundo, nos informes sobre emprego, o dado que mais salta aos olhos é que, nos postos de trabalho recuperados, os salários são menores e as vagas são de baixa qualidade.
O brasileiro continua embarcando no assunto de que as reformas, por si só, garantirão o emprego.
Muitas das ações de Bolsonaro, muitas mesmo, estão mostrando um governo que não sabe conviver com o contraditório, com a discordância, com a oposição. Vide suas declarações sobre o nordeste, os nordestinos e seus governantes, tais como essa declaração sobre os governadores do nordeste:
Daqueles governadores de paraíba, o pior é o do Maranhão. Tem que ter nada com esse cara.
Duas coisas, nessa declaração, estão mais do que claras: 1) ele usa um termo pejorativo, de desqualificação, para falar dos nordestinos, a velha gíria – especialmente praticada no RJ – de que nordestinos são “paraíbas”, e 2) a fala é agressiva, sob forma de ataque mais do que discordância. “Tem que ter nada com esse cara”.
Seria apenas uma fala pontual, ingênua, coisa de gente inocente ou adolescente? Pois exatamente no mesmo dia e evento, Bolsonaro “metralha” contra o presidente do INPE, cientista de renome internacional e respeitadíssimo:
“Se toda essa devastação de que vocês nos acusam de estar fazendo e ter feito no passado, a Amazônia já teria sido extinta, seria um grande deserto. A questão do Inpe, eu tenho a convicção que os dados são mentirosos. Até mandei ver quem é o cara que está a frente do Inpe para vir se explicar aqui em Brasília, explicar esses dados aí que passaram na imprensa. No nosso sentimento, isso não condiz com a realidade. Até parece que ele está a serviço de alguma ONG, que é muito comum.
Mesmos princípios: a fala é em tom de desqualificação (“ele está a serviço de alguma ONG”) e sob forma de ataque, autoridade, intimidação (“até mandei ver… para ele vir se explicar aqui”).
Exercito invade palestra e filma professor Sidarta Ribeiro em uma reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC
– O Brasil comete a ação surreal, macarrônica, de prender no Brasil navios iranianos que comercializaram conosco , achando que assim anteciparia uma ordem de Washington (somos subordinados!), que nunca virá porque os produtos iranianos não entram em qualquer tratado internacional!
“O Glenn pode ficar tranquilo. Talvez pegue uma cana aqui no Brasil, mas não vai ser lá fora não (…) Não se encaixa na portaria o crime que ele está cometendo, até porque ele é casado com outro homem e tem filhos adotados brasileiros… não presta nem para ser mandado para fora. Malandro, para evitar um problema desse, casa com outro malandro e adota crianças aqui no Brasil”
“um dia, se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, conto pra ele. Ele não vai querer ouvir a verdade. Conto pra ele”
Há quem diga que a democracia brasileira não está em perigo, que os ritos institucionais estão “saudáveis” e nada acontece.
O que já está começando a ficar difícil de dizer é que os casos de perseguição, intimidação e até ataque ou violência são pontuais.
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E não é que Bolsonaro voltou a chamar os nordestinos de “paus-de-arara“?